sexta-feira, 30 de julho de 2021

Excluídos- A História da Noite

 Olá 

Bem sei que já não vinha aqui há um tempo. Enquanto uma história maior não vem, fiquem com mais um texto da série dos «excluidos». Espero que gostem. 

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A História da Noite

Há muito tempo, quando o mundo ainda não era mundo e a Mãe Natureza o guardava, havia uma grande floresta cheia de árvores e de animais de todos os tamanhos e feitios. Desde coelhos a insectos, todos viviam felizes a recolher o que a natureza dá para sobreviverem.

Entre eles, havia uma formiga chamada Gisela que vivia com as outras formigas num grande formigueiro perto de uma grande árvore. Todas elas trabalhavam arduamente para manter o formigueiro sempre em funcionamento e abastecido com comida. Gisela tinha uma amiga, uma joaninha chamada Lúcia que vivia num campo de trevos também não muito longe dali.

Todas as formigas e restantes animais trabalhavam ao sabor do tempo. Se fazia chuva ou vento, ficavam no formigueiro ou na toca e se estava sol saíam. Naquela altura, só havia dia, a Mãe Natureza ainda não inventara uma zona intermédia. Como era sempre de dia, os animais descansavam quando achavam que era altura para isso. Sempre que a dispensa estava cheia ou quando acabavam de comer. Nessa altura, deitavam-se ao sol durante uma hora e depois voltavam ao trabalho. Nem mais nem menos. Assim era o suficiente.

Mas a formiga Gisela não estava satisfeita. Uma hora não era suficiente para ela! Queria mais! Assim não tinha tempo para brincar com a amiga. Sempre que falava do assunto no formigueiro, as outras formigas respondiam-lhe sempre da mesma maneira: «Uma hora é mais que suficiente! Volta mas é ao trabalho!»

E assim foi durante muito tempo. Até que Gisela fartou-se daquela conversa. Precisava de falar com alguém que a entendesse e saiu do formigueiro. Aproveitou a hora do descanso e foi ter com a amiga ao campo de trevos. Lúcia estava sempre ao sol em cima de um trevo verde e largo. Gostava de se estender e assim ficava durante a sua hora, depois voltava a ajudar as abelhas a tirar o pólen das flores que era cada vez mais raro e ninguém sabia porquê.

Gisela aproximou-se do trevo onde estava Lúcia e chamou pela amiga. Esta olhou para baixo e viu a formiga a acenar-lhe. Sorriu e desceu para a cumprimentar.

-Gisela!- Exclamou Lúcia. -Como estás?- Gisela respondeu ainda que hesitante:

- Está tudo bem só vim fazer-te uma visita, tenho ainda algum tempo antes de voltar para o formigueiro.-

Lúcia sorriu.

-Fizeste bem. Também estou na minha pausa.- Depois acrescentou:- Não queres vir apanhar sol comigo? Assim falamos mais tempo.-

Gisela estava hesitante. Respondeu timidamente:

- Bom…Eu gostava de falar contigo sobre uma coisa que ando a pensar há algum tempo e queria que fosse aqui em baixo se não te importasses.-

Lúcia ficou surpreendida mas aceitou. Desceu do trevo e sentaram-se á sombra. O silêncio era constrangedor. Eram amigas há muito tempo e uma podia sempre contar com a outra, mas aquela situação era mais séria. Lúcia perguntou, quebrando o silêncio:

- Então…O que querias dizer-me?-

Gisela engoliu em seco e respondeu:

- Bom…É que…Tenho andado a pensar nisto há algum tempo como te disse, já tentei falar com as outras formigas mas elas não me ligam por isso vim falar contigo.-

Lúcia estava confusa e disse:

- Porque é que não vais directa ao assunto? Sabes que podes contar-me tudo o que te aflige.-

Gisela sorriu. Sabia que a amiga era a única que a compreendia. Respondeu:

- Bom…o que tenho andado a pensar é: e se a nossa hora de descanso fosse mais longa?- Acrescentou:- Se houvesse uma altura para descansar e outra para trabalhar, ou seja, se nós fizéssemos um intervalo maior talvez nos cansássemos menos, percebes?-

Lúcia pareceu confusa, mas depois sorriu.

-Que coincidência! Tenho estado a pensar exactamente a mesma coisa!-

Gisela ficou surpresa. Afinal não era a única a pensar assim! Lúcia explicou:

- O pólen das flores anda mais raro ultimamente e isso não acontecia. Mesmo com a chuva e o vento, continua a não haver que chegue para as abelhas. Talvez seja porque elas já o tiraram todo, mas por outro lado, na colmeia anda a acumular-se e elas não conseguem fazer mel. Parecem cada vez mais exaustas.-

Gisela pensou um pouco e depois disse:

- Tenho uma ideia! E se fôssemos falar com a Mãe Natureza? Talvez tenha uma solução!-

Lúcia concordou. De repente, passou a hora do descanso e ambas voltaram aos seus afazeres.

Passado algum tempo, Gisela e Lúcia foram falar com a Mãe Natureza. Ela vivia no alto da maior árvore da floresta onde podia ver tudo. Gisela montou-se em cima de Lúcia e foram a voar até lá chegar. Pousaram em cima da folha mais larga e mais verde da árvore. Lá no alto, o vento soprava com mais força, mas elas seguraram-se uma á outra e assim não caíram. Chamaram pela Mãe Natureza que logo apareceu na sua frente. Era uma Deusa enorme, vestida com todos os elementos da natureza. O seu cabelo dividia-se em rios, montanhas e lagos mas também em grandes oceanos e árvores. Olhou-as e sorriu:

- Sejam muito bem-vindas á minha casa!- Disse com uma voz imponente mas doce. – Digam-me o que posso fazer por vocês?-

Elas aproximaram-se intimidadas pela figura imponente. Foi a formiga Gisela que contou a situação á Mãe Natureza que ficou admirada com a coragem e determinação dela. Depois de ouvir a sua história, disse:

- É uma boa questão, essa. Realmente nunca tinha pensado em prolongar a vossa hora de descanso. E as abelhas têm razão em estarem cansadas! Uma hora é muito pouco!- Acrescentou: - Passarão a ser duas!- Declarou feliz. – Agora vão e espalhem a notícia.-

Gisela e Lúcia voltaram para a floresta muito desapontadas. Duas horas de descanso continuavam a não ser suficiente, mas era assim que estava estabelecido e não podiam fazer nada. 

A partir de certa altura, a luz começou a ser insuportável e os animais passaram a descansar á sombra das árvores onde estava mais fresco. Muitos acabaram por descansar mais que o tempo, mas também lhes renovava as forças e faziam o seu trabalho melhor. A Mãe Natureza ao ver aquilo, passou a permitir que descansassem á sombra, assim não apanhavam tanto sol e não secavam tanto. Até a ela o sol já começava a incomodar.

E assim passaram as estações. No Verão e na Primavera, descansavam duas horas e no Outono e Inverno descansavam só uma. Do alto da sua árvore, a Mãe Natureza observava tudo e, a cada estação que passava, tudo lhe parecia igual, mas não estava. Os animais estavam exaustos e a floresta quase não tinha vida. Aquilo deixava-a muito triste. Tinha de fazer alguma coisa.

Mas o cansaço também se apoderara dela e, num Inverno, deitou-se para descansar um pouco. Para não apanhar frio, cobriu-se com a sua manta e adormeceu, mas virava-se muito durante o sono e a manta foi-lhe escorregando do corpo e acabou por cobrir a floresta deixando-a na mais absoluta escuridão.

Os animais ficaram assustados quando se viram sem luz. Começaram a correr de um lado para o outro á procura de algo que pudessem usar para fazer luz. Foi assim que apareceram os pirilampos. Estavam com tanto medo que fizeram uma luz acender nos seus corpos e assim lidaram bem com a escuridão. Todos olhavam para Gisela e Lúcia e as culpavam pelo que acontecera. «A culpa é vossa!» Diziam uns «Se não tivessem essas ideias malucas, a Mãe Natureza não se tinha zangado e agora não estávamos nesta situação!» Acrescentavam outros.

 Gisela e Lúcia não sabiam o que fazer. Nunca pensaram que a sua ideia pudesse trazer tantos problemas. Até que tiveram outra ideia. Reuniram todos os animais e disseram-lhes que iam falar outra vez com a Mãe Natureza para arranjarem uma solução. Todos concordaram e lá foram elas a voar até à árvore da Mãe Natureza. Quando lá chegaram, depararam-se com a ela a dormir profundamente e com a manta a cair para a floresta. Estava explicado. Tudo não passara de um acidente. Ainda no ar, tentaram puxar a manta, mas era muito pesada. De repente, a Mãe Natureza acorda e fica surpreendida de as ver ali. Elas contam-lhe que, por ter adormecido, a manta caiu para cima da floresta que ficou às escuras deixando todos assustados. Atrapalhada, a Mãe Natureza apressou-se a tirar a manta de cima da floresta o que deixou todos mais animados. Mas depois, olhou para as suas caras exaustas e ficou apreensiva. Gisela e Lúcia pousaram na folha em frente e ela sentou-se a seu lado. Não sabia o que fazer para ajudar. Por um lado, a floresta precisava de vida mas por outro os animais estavam demasiado cansados, até o sol parecia ter perdido as forças. É nesse momento que Gisela olha para a manta e tem uma ideia:

- E se o nosso descanso fosse no escuro em vez de ser só na sombra?-

Lúcia e a Mãe Natureza estavam confusas. Gisela explicou:

- Podia haver uma parte do dia sem luz, só para descansar e assim a floresta já podia ter mais vida.-

Lúcia continuava confusa mas a Mãe Natureza não.

-Acho que já sei o que queres dizer. – Sorriu quando percebeu a confusão de Lúcia. Explicou:

- Todos precisamos de descansar. Até o sol. Por isso, vou criar uma altura para isso.- Acrescentou: - Vou chamar-lhe noite.- Olhou para a manta e disse:

- E para vocês não terem medo, vou fazer uns buraquinhos pequeninos que serão as estrelas e para substituir o sol, virá outro, neste caso outra, igualmente brilhante mas suave para poderem descansar. Vai chamar-se Lua.-

E assim nasceu a noite. A partir daquele momento, o dia passou a durar até o sol se cansar. Nessa altura, ele começava a baixar até a luz desaparecer no horizonte. Também nascera o fim de tarde. Os animais já sabiam que quando vinha a lua era hora de voltarem para casa e descansar. No dia seguinte, voltaram ao trabalho e a floresta nunca mais deixou de ser animada.

 

Fim

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Bjs 

Joana