Olá
Bem sei que já não vinha aqui há um tempo. Enquanto uma história maior não vem, fiquem com mais um texto da série dos «excluidos». Espero que gostem.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
A
História da Noite
Há
muito tempo, quando o mundo ainda não era mundo e a Mãe Natureza o guardava,
havia uma grande floresta cheia de árvores e de animais de todos os tamanhos e
feitios. Desde coelhos a insectos, todos viviam felizes a recolher o que a
natureza dá para sobreviverem.
Entre
eles, havia uma formiga chamada Gisela que vivia com as outras formigas num
grande formigueiro perto de uma grande árvore. Todas elas trabalhavam
arduamente para manter o formigueiro sempre em funcionamento e abastecido com
comida. Gisela tinha uma amiga, uma joaninha chamada Lúcia que vivia num campo
de trevos também não muito longe dali.
Todas
as formigas e restantes animais trabalhavam ao sabor do tempo. Se fazia chuva
ou vento, ficavam no formigueiro ou na toca e se estava sol saíam. Naquela
altura, só havia dia, a Mãe Natureza ainda não inventara uma zona intermédia.
Como era sempre de dia, os animais descansavam quando achavam que era altura
para isso. Sempre que a dispensa estava cheia ou quando acabavam de comer.
Nessa altura, deitavam-se ao sol durante uma hora e depois voltavam ao
trabalho. Nem mais nem menos. Assim era o suficiente.
Mas
a formiga Gisela não estava satisfeita. Uma hora não era suficiente para ela!
Queria mais! Assim não tinha tempo para brincar com a amiga. Sempre que falava
do assunto no formigueiro, as outras formigas respondiam-lhe sempre da mesma
maneira: «Uma hora é mais que suficiente! Volta mas é ao trabalho!»
E
assim foi durante muito tempo. Até que Gisela fartou-se daquela conversa.
Precisava de falar com alguém que a entendesse e saiu do formigueiro.
Aproveitou a hora do descanso e foi ter com a amiga ao campo de trevos. Lúcia
estava sempre ao sol em cima de um trevo verde e largo. Gostava de se estender
e assim ficava durante a sua hora, depois voltava a ajudar as abelhas a tirar o
pólen das flores que era cada vez mais raro e ninguém sabia porquê.
Gisela
aproximou-se do trevo onde estava Lúcia e chamou pela amiga. Esta olhou para
baixo e viu a formiga a acenar-lhe. Sorriu e desceu para a cumprimentar.
-Gisela!-
Exclamou Lúcia. -Como estás?- Gisela respondeu ainda que hesitante:
-
Está tudo bem só vim fazer-te uma visita, tenho ainda algum tempo antes de
voltar para o formigueiro.-
Lúcia
sorriu.
-Fizeste
bem. Também estou na minha pausa.- Depois acrescentou:- Não queres vir apanhar
sol comigo? Assim falamos mais tempo.-
Gisela
estava hesitante. Respondeu timidamente:
-
Bom…Eu gostava de falar contigo sobre uma coisa que ando a pensar há algum
tempo e queria que fosse aqui em baixo se não te importasses.-
Lúcia
ficou surpreendida mas aceitou. Desceu do trevo e sentaram-se á sombra. O
silêncio era constrangedor. Eram amigas há muito tempo e uma podia sempre
contar com a outra, mas aquela situação era mais séria. Lúcia perguntou,
quebrando o silêncio:
-
Então…O que querias dizer-me?-
Gisela
engoliu em seco e respondeu:
-
Bom…É que…Tenho andado a pensar nisto há algum tempo como te disse, já tentei
falar com as outras formigas mas elas não me ligam por isso vim falar contigo.-
Lúcia
estava confusa e disse:
-
Porque é que não vais directa ao assunto? Sabes que podes contar-me tudo o que
te aflige.-
Gisela
sorriu. Sabia que a amiga era a única que a compreendia. Respondeu:
-
Bom…o que tenho andado a pensar é: e se a nossa hora de descanso fosse mais
longa?- Acrescentou:- Se houvesse uma altura para descansar e outra para
trabalhar, ou seja, se nós fizéssemos um intervalo maior talvez nos cansássemos
menos, percebes?-
Lúcia
pareceu confusa, mas depois sorriu.
-Que
coincidência! Tenho estado a pensar exactamente a mesma coisa!-
Gisela
ficou surpresa. Afinal não era a única a pensar assim! Lúcia explicou:
-
O pólen das flores anda mais raro ultimamente e isso não acontecia. Mesmo com a
chuva e o vento, continua a não haver que chegue para as abelhas. Talvez seja
porque elas já o tiraram todo, mas por outro lado, na colmeia anda a
acumular-se e elas não conseguem fazer mel. Parecem cada vez mais exaustas.-
Gisela
pensou um pouco e depois disse:
-
Tenho uma ideia! E se fôssemos falar com a Mãe Natureza? Talvez tenha uma
solução!-
Lúcia
concordou. De repente, passou a hora do descanso e ambas voltaram aos seus
afazeres.
Passado
algum tempo, Gisela e Lúcia foram falar com a Mãe Natureza. Ela vivia no alto
da maior árvore da floresta onde podia ver tudo. Gisela montou-se em cima de
Lúcia e foram a voar até lá chegar. Pousaram em cima da folha mais larga e mais
verde da árvore. Lá no alto, o vento soprava com mais força, mas elas
seguraram-se uma á outra e assim não caíram. Chamaram pela Mãe Natureza que
logo apareceu na sua frente. Era uma Deusa enorme, vestida com todos os
elementos da natureza. O seu cabelo dividia-se em rios, montanhas e lagos mas
também em grandes oceanos e árvores. Olhou-as e sorriu:
-
Sejam muito bem-vindas á minha casa!- Disse com uma voz imponente mas doce. –
Digam-me o que posso fazer por vocês?-
Elas
aproximaram-se intimidadas pela figura imponente. Foi a formiga Gisela que
contou a situação á Mãe Natureza que ficou admirada com a coragem e
determinação dela. Depois de ouvir a sua história, disse:
-
É uma boa questão, essa. Realmente nunca tinha pensado em prolongar a vossa
hora de descanso. E as abelhas têm razão em estarem cansadas! Uma hora é muito
pouco!- Acrescentou: - Passarão a ser duas!- Declarou feliz. – Agora vão e
espalhem a notícia.-
Gisela
e Lúcia voltaram para a floresta muito desapontadas. Duas horas de descanso
continuavam a não ser suficiente, mas era assim que estava estabelecido e não
podiam fazer nada.
A
partir de certa altura, a luz começou a ser insuportável e os animais passaram
a descansar á sombra das árvores onde estava mais fresco. Muitos acabaram por
descansar mais que o tempo, mas também lhes renovava as forças e faziam o seu
trabalho melhor. A Mãe Natureza ao ver aquilo, passou a permitir que
descansassem á sombra, assim não apanhavam tanto sol e não secavam tanto. Até a
ela o sol já começava a incomodar.
E
assim passaram as estações. No Verão e na Primavera, descansavam duas horas e
no Outono e Inverno descansavam só uma. Do alto da sua árvore, a Mãe Natureza
observava tudo e, a cada estação que passava, tudo lhe parecia igual, mas não
estava. Os animais estavam exaustos e a floresta quase não tinha vida. Aquilo
deixava-a muito triste. Tinha de fazer alguma coisa.
Mas
o cansaço também se apoderara dela e, num Inverno, deitou-se para descansar um
pouco. Para não apanhar frio, cobriu-se com a sua manta e adormeceu, mas
virava-se muito durante o sono e a manta foi-lhe escorregando do corpo e acabou
por cobrir a floresta deixando-a na mais absoluta escuridão.
Os
animais ficaram assustados quando se viram sem luz. Começaram a correr de um
lado para o outro á procura de algo que pudessem usar para fazer luz. Foi assim
que apareceram os pirilampos. Estavam com tanto medo que fizeram uma luz
acender nos seus corpos e assim lidaram bem com a escuridão. Todos olhavam para
Gisela e Lúcia e as culpavam pelo que acontecera. «A culpa é vossa!» Diziam uns
«Se não tivessem essas ideias malucas, a Mãe Natureza não se tinha zangado e
agora não estávamos nesta situação!» Acrescentavam outros.
Gisela e Lúcia não sabiam o que fazer. Nunca
pensaram que a sua ideia pudesse trazer tantos problemas. Até que tiveram outra
ideia. Reuniram todos os animais e disseram-lhes que iam falar outra vez com a
Mãe Natureza para arranjarem uma solução. Todos concordaram e lá foram elas a
voar até à árvore da Mãe Natureza. Quando lá chegaram, depararam-se com a ela a
dormir profundamente e com a manta a cair para a floresta. Estava explicado.
Tudo não passara de um acidente. Ainda no ar, tentaram puxar a manta, mas era
muito pesada. De repente, a Mãe Natureza acorda e fica surpreendida de as ver
ali. Elas contam-lhe que, por ter adormecido, a manta caiu para cima da
floresta que ficou às escuras deixando todos assustados. Atrapalhada, a Mãe
Natureza apressou-se a tirar a manta de cima da floresta o que deixou todos
mais animados. Mas depois, olhou para as suas caras exaustas e ficou
apreensiva. Gisela e Lúcia pousaram na folha em frente e ela sentou-se a seu
lado. Não sabia o que fazer para ajudar. Por um lado, a floresta precisava de
vida mas por outro os animais estavam demasiado cansados, até o sol parecia ter
perdido as forças. É nesse momento que Gisela olha para a manta e tem uma
ideia:
-
E se o nosso descanso fosse no escuro em vez de ser só na sombra?-
Lúcia
e a Mãe Natureza estavam confusas. Gisela explicou:
-
Podia haver uma parte do dia sem luz, só para descansar e assim a floresta já
podia ter mais vida.-
Lúcia
continuava confusa mas a Mãe Natureza não.
-Acho
que já sei o que queres dizer. – Sorriu quando percebeu a confusão de Lúcia.
Explicou:
-
Todos precisamos de descansar. Até o sol. Por isso, vou criar uma altura para
isso.- Acrescentou: - Vou chamar-lhe noite.- Olhou para a manta e disse:
-
E para vocês não terem medo, vou fazer uns buraquinhos pequeninos que serão as
estrelas e para substituir o sol, virá outro, neste caso outra, igualmente
brilhante mas suave para poderem descansar. Vai chamar-se Lua.-
E
assim nasceu a noite. A partir daquele momento, o dia passou a durar até o sol
se cansar. Nessa altura, ele começava a baixar até a luz desaparecer no
horizonte. Também nascera o fim de tarde. Os animais já sabiam que quando vinha
a lua era hora de voltarem para casa e descansar. No dia seguinte, voltaram ao
trabalho e a floresta nunca mais deixou de ser animada.
Fim
Bjs
Joana