segunda-feira, 29 de junho de 2020

Excluídos- O Boneco de Barro

Olá 
Aqui fica mais um texto daqueles excluídos. Desta vez, resolvi trazer-vos um conto que imaginei na infância mas só agora é resolvi passar para o papel. 
Espero que gostem.
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O Boneco de Barro

Era uma vez um boneco. Uma escultura em barro feita a partir de um bloco de massa castanha cuidadosamente moldada na roda de um oleiro já idoso mas ainda com muita habilidade. Os salpicos de terra húmida tingiam-lhe o avental de cabedal preto e parte da roupa por baixo de castanho. Algum endurecia, outro escorria para as calças pretas e terminava na ponta dos sapatos. Já o fazia há tanto tempo que perdera a conta aos anos. Herdara a habilidade do pai, que a ganhara do avô e assim por diante. Era um trabalho duro e penoso, especialmente porque a idade já não lhe permita muita coisa, mas tinha orgulho nele.

Cada vez que uma escultura ficava pronta, metia-a numa caixa de madeira para secar um pouco. Depois, ia ao forno até endurecer completamente. Retirava-a com todo o cuidado, deixava-a arrefecer um pouco antes de lhe voltar a pegar para dar os últimos retoques. As marcas da roupa, os olhos, o nariz e a boca. Sempre com expressões diferentes, uns a sorrir, outros tristes, outros espantados. Por fim, juntava-a aos outros prontos para serem vendidos.

Anexa à oficina, o homem de cabelo grisalho e olhos claros, tinha uma pequena loja onde vendia as suas obras. Com grandes estantes pintadas de branco que contrastavam com os bonecos todos da mesma cor perfilados em cima delas com a etiqueta do preço presa a uma perna. Pareciam prisioneiros que, após serem vendidos, eram libertados mas por pouco tempo, já que terminavam sempre dentro de um armário numa qualquer sala de estar.

De entre todos os bonecos na loja, havia um que era diferente. Não gostava de ter sempre a mesma cor. Tinha uma expressão séria, neutra. Olhava para o infinito como se quisesse alcançar alguma coisa. Era o último de uma fila. A mais escondida que ninguém via. Tinha sido lá posto por causa da sua expressão. «Expressões mais alegres vendem-se melhor» dizia o oleiro. O boneco não era nem muito alto nem muito baixo, o boneco. Representava um rapaz. Um camponês. De calças, camisa, sapatos, chapéu, cara, cabelo e até os olhos eram castanhos. Sentia-se triste por ser só de uma cor. Porque é que tenho de ter só uma cor? Pensava para os seus botões castanhos. Gostava de ter mais cores. Cada vez que olhava para a montra das outras lojas pelos espaços deixados entre os outros bonecos, e via todas aquelas cores, imaginava como seria se o seu chapéu fosse verde ou azul. As suas calças vermelhas, a sua camisa branca ou os olhos pretos ou amarelos. Queria ser colorido.

Podia ser que, assim, chamasse mais a atenção e fosse posto à frente dos outros na prateleira. A sua expressão ficaria mais alegre e já podia ser vendido.

No entanto, os outros bonecos diziam-lhe que era melhor ser castanho. «Assim, toda a gente sabe quem somos» Diziam uns. «Mostra a nossa origem» Acrescentavam outros. Havia ainda quem o encorajasse a mostrar outra cara. «Se quiseres, eu ensino-te a ter uma expressão mais alegre» Dizia um dos da sua fila. Mas acabavam sempre por deitá-lo a baixo e deixa-lo ainda mais triste. «Se continuas assim, nunca serás vendido nem farás parte da decoração de alguém». Acrescentavam. Já estava a ficar farto dos seus comentários.  

Sempre que se via sozinho, punha-se a pensar em formas de sair dali. Sentia que, como estava, não queria estar. Foi depois de muito pensar que resolveu sair da loja para passear um bocado.

Uma noite, depois de a loja fechar, o boneco de barro pôs o seu plano em prática. De tanto observar a loja e os seus recantos, já os memorizara e sabia de cor todos os segredos. Levantou-se da caixa de madeira, que era para onde iam durante a noite alguns bonecos para endurecerem mais um pouco mas também para não ocuparem tanto espaço nas prateleiras visto que, à noite, não era preciso estarem expostos, com cuidado para não acordar os outros, saltou da bancada de pedra e foi até à porta, mas a maçaneta estava muito alta e, por mais que ele saltasse, não conseguia lá chegar. Então, subiu para cima de um banco ali perto com um almofada com as molas meio soltas e saltou o mais que pôde até este lhe dar balanço suficiente para chegar à maçaneta de metal e abrir a porta. Ficou surpreendido por não ter acordado ninguém com o barulho. Ainda houve alguns que se mexeram, mas não deram por ele sair.  

Assim que se viu lá fora, o ar frio da noite soprou-lhe ao de leve pelas rachaduras finas do corpo e arrepiou-o. Não estava habituado a andar na rua. Começou a caminhar pela rua que lhe pareceu gigante, comparada com a que via da janela da loja. Não era fácil ser um boneco tão pequeno. A rua era estreita e escura o que fazia com que parecesse ainda mais assustadora. De vez em quando, ouvia alguns barulhos e parava meio assustado. Encostava-se à parede de um prédio à espera que passasse, mas, na maior parte das vezes, eram apenas carros que passavam ao longe ou gatos que miavam e que saltavam por cima dos telhados das casas.

Não sabia quanto tempo tinha andado, mas não devia ter sido muito pois a rua parecia-lhe sempre a mesma. Caminhou mais um pouco, passando por outras lojas onde os bonecos e olhavam com surpresa e curiosidade. Foi andando até que parou junto a uma loja de antiguidades. Subiu pelo rodapé do chão até à janela da montra por onde espreitou. Lá dentro, apesar da semi-escuridão, conseguia ver os pratos com flores, os bules de chá com paisagens campestres, as caixas de madeira pintadas e até espelhos cheios de recortes na moldura. Também viu um conjunto de palhaços de porcelana coloridos. A sua expressão era tão animada que ele sorriu também.

Foi então que viu algo que o deixou maravilhado. No meio dos palhaços e das loiças, estava uma boneca. Era de porcelana branca e representava uma dama antiga. Tinha um vestido às flores cor-de-rosa que dançavam com o movimento da saia, e um chapéu com abas grandes a condizer. Usava o cabelo preto apanhado numa trança e tinha os olhos de um azul que fazia lembrar o céu. Estava numa prateleira junto a outras peças, mas ela sobressaía. Parecia um anjo.

O boneco arregalou os olhos com tanta beleza. Nunca tinha visto nada parecido. Sentiu-se a flutuar. Queria alcança-la, mas o vidro da montra impedia-o. Ela apercebeu-se da sua presença pois ele não parava de bater no vidro como se quisesse entrar. Sorriu. Aproximou-se mais da montra até a sua cara se esborrachar no vidro. Queria comtempla-la melhor. A boneca saiu da prateleira e, quase como um anjo que desliza pelo ar, aproximou-se do vidro e olhou-o de perto. Ele sentiu-se a corar, embora fosse tudo castanho e não desse para ver a cor das bochechas. Encostou uma mão ao sítio onde ela encostara a sua. Ficaram a olhar-se durante algum tempo. Por momentos, pareceu que o vidro desaparecera assim que com a rua, as lojas, o mundo. Restavam apenas eles, envolvidos pelo seu amor. Os seus lábios tocaram-se num beijo enternecido.

Mas, de repente, o sonho desfez-se. Ouviu um barulho. Sem se aperceberem, o sol já tinha nascido. Tinham ficado toda a noite a olhar-se. O boneco tinha de se despachar a voltar para a loja antes que o oleiro ou os outros dessem pela sua falta. Apressou-se a descer da montra e a ir embora, mas no seu olhar estava a promessa de se voltarem a ver.

Começou a andar no sentido que achava que era o certo para chegar à loja do oleiro, mas, tal como na noite anterior, a rua, agora com mais movimento, parecia-lhe ainda maior e mais assustadora. Não sabia por onde ir. Estava perdido e assustado. Só lhe restava encostar-se a uma parede e esperar que o oleiro desse pela sua falta e o viesse buscar. Mas, na loja do oleiro, há muito que o boneco fora substituído por outro. Não sabia se tinha andado muito ou se alguma vez voltaria a ver a boneca de porcelana.

Passaram-se horas, dias que se transformaram em semanas e talvez meses ou anos, não sabia, e ninguém apareceu para o recolher. Parece que ninguém deu pela minha falta. Pensou. Uma lágrima começou a correr-lhe pela cara, depois outra até que toda a rua ficou cheia das suas lágrimas. Só então se apercebeu de que começara a chover. Os bonecos não têm sentimentos. São as pessoas que lhes põem. Costumava dizer muitas vezes o oleiro, de cada vez que arrumava as prateleiras ou que aparecia um cliente. Seria mesmo assim? Então, porque é que sentia aquele aperto no peito? Porque é que, quando viu a boneca de porcelana se sentiu a flutuar que o resto do mundo não existia? Afinal, os bonecos também sentem!

De repente, uma voz trouxe-o de voltar à realidade. Era de homem, mas não era do oleiro. Esta era mais jovial. Não conseguia ver bem por causa da chuva, e porque a sua cara estava meio enlameada por ter estado tanto tempo no chão húmido, mas pareceu-lhe ver a silhueta de um homem alto, vestido com um fato elegante e meio careca, sendo o pouco cabelo á volta da cabeça castanho-claro. Já o tinha visto ao pé da loja de antiguidades nas muitas vezes que conseguira espreitar pela prateleira ou quando estava na caixa de madeira. Devia ser o dono. Estava com outros homens que deviam ser os seus empregados. Aproximou-se da parede onde estava o boneco. Ia-lhe dando com o sapato se este não tivesse roçado ao de leve na parede. Apercebendo-se disso, o homem baixou-se para ver o que lhe bateu no pé. Quando viu o boneco, apanhou-o para ver melhor. Olhou-o a toda a volta. Ainda estava em bom estado, apesar de ter algumas rachaduras e estar meio derretido por causa da chuva. Precisava só de uns pequenos retoques e estava pronto para ser exibido na loja.

Virou-se para um dos empregados e disse, mostrando-lhe o boneco:

-Este ficava muito bem ao pé de uma boneca de porcelana que temo lá na loja. O seu par partiu-se em mil bocados há uns tempos e foi impossível de arranjar. Só precisa de um pouco de cor e de uns arranjos simples e fica como novo. Vou levá-lo.- Acrescentou, olhando para a loja em frente: - É impressionante o que se deita fora hoje em dia. Já ninguém tem respeito pelos bonecos.- Estavam perto da loja do oleiro.

O empregado olhou para o boneco e disse:

- Mas é feito de barro. Não acha estranho estar a juntar um de cada material?-

O homem de fato olhou para o rapaz de avental e respondeu:

- E isso importa?- O rapaz fez um trejeito. Acrescentou: - Além disso, eu pago-te para venderes não para dares a tua opinião.-

O rapaz encolheu-se.

Enfiou o boneco no bolso e foi para a loja. Quando lá chegou, foi para a sua oficina de restauro. Pousou-o numa bancada corrida de madeira e sentou-se, depois de despir o casaco elegante e pôr o avental de trabalho, a arranja-lo. Primeiro, limpou-o e poliu-o com a ajuda de uma lixa muito fina para não o danificar muito. Tinha de estar no mais perfeito estado para poder ser exposto e, eventualmente, vendido. Depois, reparou as rachas e voltou a moldar-lhe a parte da cara que estava derretida pela chuva, acrescentando mais barro, o que fez sobressair ainda mais as feições do boneco.

Quando achou que já estava arranjado, foi buscar as tintas e os pincéis para o pintar. Um boneco tão bonito não podia ser exibido assim, precisava de cor.

Terminado o trabalho, o boneco não parecia o mesmo. A pele castanha ganhou uma nova cor. Meio rosada, até as suas bochechas finalmente mostravam a sua cor. Para além da pele, o chapéu ficou preto, os sapatos escureceram o castanho, as calças ficaram pretas, a camisa branca e os olhos escuros com um toque de amarelo. Com as novas cores, até a sua expressão parecia mais alegre.

O homem sorriu orgulhoso do seu trabalho. Deixou que o boneco secasse durante um bocado e depois levou-o para a loja. Colocou-o na prateleira ao pé da boneca de porcelana. Assim que o viu com as suas novas cores, a boneca sorriu. Ele corou mostrando, mais uma vez, o rubro das suas bochechas.

Como estava na primeira fila, e tinha muitas cores, como nunca tinha estado, chamava muito a atenção. Finalmente, o boneco estava a ter o reconhecimento que merecia. Ao olhar para os bonecos, o dono da loja sentiu algo de especial. Era como, de repente, lhe estivesse a agradecer. Esse sentimento fez com que o homem desse ordens específicas aos empregados para que se alguém quisesse levar aqueles bonecos, tinha de levar o par ou não havia negócio. Mas todos os clientes queriam comprar apenas um dos bonecos. «O par é demasiado caro.» Diziam uns. «Não podemos levar um e depois vimos cá buscar o outro?» Perguntavam outros. Assim, para todos, quer o dono da loja quer os empregados respondiam sempre da mesma maneira: «Lamento, mas ou leva o par ou não leva nenhum, são as regras para estes bonecos.»

 Assim foram passando os dias. E em todos eles o afecto que o dono da loja tinha pelo par de bonecos ia crescendo. Sempre que olhava para eles lembrava-se da sua juventude. Do tempo em que conhecera a sua mulher e de como esse amor lhe fazia falta. Algumas vezes, era apanhado com uma lágrima no canto do olho por algum empregado que ia a passar para repor o stock e ele logo se recompunha, assegurando que estava tudo bem cada vez que lhe perguntavam.

Um dia, entrou na loja um jovem casal. Eram recém-casados e estavam à procura de algo que ficasse bem no móvel da sala de estar da casa que acabaram de comprar. Queriam algo que lhes lembrasse do amor, mas que fosse, ao mesmo tempo, diferente de tudo o que já viram.

 Andaram pela loja, mas nada lhes prendeu a atenção. Até que, quando estavam a sair, desanimados por não terem encontrado o que procuravam uma vez que aquela era a última loja de bairro que viam e porque a mulher tinha decidido que, caso não encontrassem nada que valesse a pena iam a um armazém maior, o empregado foi buscar ao armazém, uma vez que o dono da loja tinha tanta afeição pelos bonecos que os levara para a cave da loja para que ninguém os pudesse comprar sem cumprir as condições impostas, o par de bonecos que estavam numa das prateleiras. Chamou-os. O casal voltou atrás para os admirar melhor. Olharam um para o outro e sorriram. Tinham encontrado precisamente aquilo que andavam à procura. O empregado meteu os bonecos dentro de uma caixa de madeira e embrulhou-os. O casal despediu-se satisfeito.  

No fim do dia, o dono da loja foi fechar as contas. Ao passar pelas prateleiras para ver se tinham vendido muito, deu pela falta do par de bonecos. Virou-se para o empregado e perguntou:

- Olha lá, onde está o par de bonecos? Porque não estão no armazém?-

O empregado ficou um pouco nervoso e hesitou antes de falar, mas lá acabou por responder:

- Sabe…É que esteve aqui um casal jovem que andava à procura de algo para decorar a casa e como não viram nada, iam-se embora, mas eu lembrei-me dos bonecos e mostrei-os. Eles gostaram tanto que quiseram levar os dois. – Acrescentou: -Nem se importaram de pagar mais.-

O dono da loja sorriu.

-Fizeste bem.- Disse. -Aqueles dois já mereciam um lugar para serem felizes.-

O empregado ficou mais aliviado por não ter levado um raspanete. Acabaram de fechar as contas e foram para casa.

 

Nessa noite, em casa do casal, no móvel da sala de estar, que tinha uma vitrina, o boneco de barro e a boneca de porcelana estavam mais felizes que nunca. Finalmente tinham encontrado um lugar onde podiam desfrutar ao máximo do seu amor e eram o cento das atenções ao mesmo tempo. Sempre que recebiam visitas, o jovem casal fazia questão de os mostrar com orgulho.   

E assim continuaram por muitos e muitos anos.

Fim

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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs 
Joana 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Excluídos- A Vizinha do 3º Esquerdo

Olá 
Durante as próximas vezes que aqui vier, irei publicar textos excluídos. De jornais, concursos e outros. Aqueles que mandei para algum lado mas que não foram escolhidos por este ou aquele motivo. 
Agora, podem lê-los aqui. 
O da semana passada, foi apenas o primeiro. 
Aqui fica o segundo.
Espero que gostem. 
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A vizinha do 3º Esquerdo

«A vizinha do 3º esquerdo está apaixonada». Comentavam as moradoras mais antigas das janelas para quem quisesse ouvir. «Ai sim? Por quem?» Perguntavam as outras do outro lado. «Pelo novo inquilino do 1º Direito».

A rapariga de que se falava chamava-se Guida era solteira, magrita, com o cabelo castanho-claro e olhos da mesma cor. Usava quase sempre roupa colorida excepto quando vinha do escritório onde trabalhava como contabilista, mas toda a gente dizia que tinha nascido para a costura, tal era a forma como as roupas ficavam depois de lhe passarem pelas mãos, não havia arranjo que ela não soubesse fazer.

Já tinha ganho o prémio para a melhor roupa do bairro num concurso que decorreu há uns meses organizado pela associação de moradores.

Já o rapaz chamava-se Fernando, também era solteiro e bem-parecido. Tinha o cabelo preto e os olhos da mesma cor. Vestia-se sempre de forma simples. Devia ser por trabalhar numa loja de retalhos. Recentemente, mudara-se para o prédio da Rua das Hortenses por ser barato, mas também para estar mais perto do seu novo emprego: um café.

Abrira-o ali perto. Há muito tempo que o retalho não era para ele. Sempre sonhara em ter o seu próprio negócio e a oportunidade apareceu mais depressa do que esperava, quando o Sr Alfredo lhe propôs ficar com o estabelecimento onde antes tinha a mercearia. «Aquilo está uma miséria, precisa de obras urgentes.» Dissera-lhe. «Ainda bem que és tu que ficas com ele, podes dar-lhe uma nova vida e, quem sabe, trazer novas pessoas aqui para o bairro.»

E assim aconteceu. Mal abriu o café, começaram a chover clientes, sobretudo estrangeiros que parava para admirar a decoração e provar os petiscos.

Foi no dia da abertura que conheceu Guida. Entrou pela porta como um anjo. Trazia um vestido florido e sandálias. «O sol que estava lá fora veio cá para dentro» Pensou assim que a viu.

Ela também não lhe ficou indiferente. A partir daquele dia, passaram a encontrar-se depois da hora do fecho do café. Mas, depois, cada um seguia para a sua casa. Ela no 3º esquerdo e ele no 1º direito.

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem.

Bjs

Joana   


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Excuídos- A Mala do Viajante

Olá
Já lá vai algum tempo desde a última vez que aqui escrevi.
Sabem, os últimos tempos têm sido de bloqueio mas também de abertura de horizontes.
A vida ficou suspensa mas agora já é hora de retomar.
Por isso, hoje proponho uma viagem, mas especificamente a de uma mala.
Deixo-vos com um texto recente, para reflectir e para imaginar.
Espero que gostem.
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A Mala do Viajante
Um personagem de sobretudo apeou-se na estação de comboios. É um homem não muito alto, de cabelo castanho-escuro e chapéu de feltro preto. Não se lhe distingue a cor dos olhos. Nem sequer há pistas sobre o que levará vestido debaixo do sobretudo. Provavelmente, umas calças pretas, sapatos castanhos, camisola azul e camisa branca. Sempre gostara de cores discretas, nada de grandes extravagâncias. A única que lhe era conhecida era a de viajar.
Levava uma mala. Era castanha de couro, daquelas antigas que se encontram em feiras ou lojas de antiguidades. Por fora, estava cheia de carimbos e selos de vários lugares do mundo. Dentro dela, as memórias desses tempos de aventura. Europa, Ásia, América. Todos os continentes lhe trouxeram algo de extraordinário. A subida mais alta, a travessia do deserto mais quente ou do mais vasto oceano.
Naquele momento, ia voltar a casa. Ao Velho Continente, mais precisamente á sua Inglaterra de que tanto gostava. Ao seu velho apartamento nos arredores de Londres, com a sua varanda virada a sul para receber mais luz do sol. Às suas plantas, á saleta, cozinha e ao escritório onde escrevia as suas aventuras. Há muito tempo que publicava as suas histórias num jornal local, mas sempre tivera a ambição de algo maior, se calhar por isso viajava tanto.
O comboio surgiu na plataforma. A porta da carruagem abriu-se e ele entrou. Sentou-se junto da janela para ver a paisagem. Pousou a mala entre as pernas. Era mais confortável do que estar a pô-la na bagageira por cima do banco. Olhou para ela.
Aquela mala cumprira bem a sua missão. Já estivera perdida, quase rota ou queimada. Já fora confundida com uma arma de destruição maciça por espiões, com droga por terroristas ou simplesmente por outra igual mas com o fecho ainda funcional. Aquele já estava frouxo. Tinha-lhe posto duas correias de couro á volta para ver se segurava melhor mas o peso das memórias era tanto que eles cediam sempre que era cheia com mais um objecto ou recordação.
Tinha o escritório cheio de recordações de todos os sítios por onde andara. Já começava a ser pequeno, mas as memórias tinham sempre espaço.
De repente, lembrou-se onde encontrara a mala. No sótão da casa dos avós entre umas caixas e outras coisas. Devia te uns 5 ou 6 anos na altura, mas ficou fascinado com a mala. Ainda estava vazia de selos, mas já tinha tanto para contar. Foi adquirida por um comerciante de malas que a vendera a outro e depois ao dono da loja que a vendeu ao seu avô que, por sua vez, a usou e depois a esqueceu no sótão para depois vir o neto e encontra-la de novo.
Quando lha ofereceram, alguns anos mais tarde, pelo seu 18º aniversário, nem quis acreditar. Começou logo a descobrir o mundo com ela e, por cada sítio, um selo autocolante. A partir daí, a colecção foi ficando maior e hoje em dia, parece um museu.
Depois de tanto viajar, estava pronta para ser devolvida ao sótão e esperar que alguém a veja e queira ir novamente em busca de aventuras.
O comboio parou na estação que já lhe era familiar. As memórias e a paisagem fizeram com que nem desse pelo tempo passar e parecesse que a viagem ficara mais curta, quando na verdade atravessara quase a Europa toda. Pegou na mala e desceu da carruagem, pronto para voltar ao ponto de partida.
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E pronto. 
Mais uma vez, espero que gostem. 
Bjs
Joana