O
Boneco de Barro
Era uma vez um boneco. Uma escultura em barro feita
a partir de um bloco de massa castanha cuidadosamente moldada na roda de um
oleiro já idoso mas ainda com muita habilidade. Os salpicos de terra húmida
tingiam-lhe o avental de cabedal preto e parte da roupa por baixo de castanho.
Algum endurecia, outro escorria para as calças pretas e terminava na ponta dos
sapatos. Já o fazia há tanto tempo que perdera a conta aos anos. Herdara a
habilidade do pai, que a ganhara do avô e assim por diante. Era um trabalho
duro e penoso, especialmente porque a idade já não lhe permita muita coisa, mas
tinha orgulho nele.
Cada vez que uma escultura ficava pronta, metia-a
numa caixa de madeira para secar um pouco. Depois, ia ao forno até endurecer
completamente. Retirava-a com todo o cuidado, deixava-a arrefecer um pouco
antes de lhe voltar a pegar para dar os últimos retoques. As marcas da roupa,
os olhos, o nariz e a boca. Sempre com expressões diferentes, uns a sorrir,
outros tristes, outros espantados. Por fim, juntava-a aos outros prontos para
serem vendidos.
Anexa à oficina, o homem de cabelo grisalho e olhos
claros, tinha uma pequena loja onde vendia as suas obras. Com grandes estantes
pintadas de branco que contrastavam com os bonecos todos da mesma cor
perfilados em cima delas com a etiqueta do preço presa a uma perna. Pareciam
prisioneiros que, após serem vendidos, eram libertados mas por pouco tempo, já
que terminavam sempre dentro de um armário numa qualquer sala de estar.
De entre todos os bonecos na loja, havia um que era
diferente. Não gostava de ter sempre a mesma cor. Tinha uma expressão séria,
neutra. Olhava para o infinito como se quisesse alcançar alguma coisa. Era o
último de uma fila. A mais escondida que ninguém via. Tinha sido lá posto por
causa da sua expressão. «Expressões mais alegres vendem-se melhor» dizia o
oleiro. O boneco não era nem muito alto nem muito baixo, o boneco. Representava
um rapaz. Um camponês. De calças, camisa, sapatos, chapéu, cara, cabelo e até
os olhos eram castanhos. Sentia-se triste por ser só de uma cor. Porque é que tenho de ter só uma cor? Pensava
para os seus botões castanhos. Gostava de
ter mais cores. Cada vez que olhava para a montra das outras lojas pelos
espaços deixados entre os outros bonecos, e via todas aquelas cores, imaginava
como seria se o seu chapéu fosse verde ou azul. As suas calças vermelhas, a sua
camisa branca ou os olhos pretos ou amarelos. Queria ser colorido.
Podia ser que, assim, chamasse mais a atenção e
fosse posto à frente dos outros na prateleira. A sua expressão ficaria mais
alegre e já podia ser vendido.
No entanto, os outros bonecos diziam-lhe que era
melhor ser castanho. «Assim, toda a gente sabe quem somos» Diziam uns. «Mostra
a nossa origem» Acrescentavam outros. Havia ainda quem o encorajasse a mostrar
outra cara. «Se quiseres, eu ensino-te a ter uma expressão mais alegre» Dizia
um dos da sua fila. Mas acabavam sempre por deitá-lo a baixo e deixa-lo ainda
mais triste. «Se continuas assim, nunca serás vendido nem farás parte da
decoração de alguém». Acrescentavam. Já estava a ficar farto dos seus
comentários.
Sempre que se via sozinho, punha-se a pensar em
formas de sair dali. Sentia que, como estava, não queria estar. Foi depois de
muito pensar que resolveu sair da loja para passear um bocado.
Uma noite, depois de a loja fechar, o boneco de
barro pôs o seu plano em prática. De tanto observar a loja e os seus recantos,
já os memorizara e sabia de cor todos os segredos. Levantou-se da caixa de
madeira, que era para onde iam durante a noite alguns bonecos para endurecerem
mais um pouco mas também para não ocuparem tanto espaço nas prateleiras visto
que, à noite, não era preciso estarem expostos, com cuidado para não acordar os
outros, saltou da bancada de pedra e foi até à porta, mas a maçaneta estava
muito alta e, por mais que ele saltasse, não conseguia lá chegar. Então, subiu
para cima de um banco ali perto com um almofada com as molas meio soltas e
saltou o mais que pôde até este lhe dar balanço suficiente para chegar à
maçaneta de metal e abrir a porta. Ficou surpreendido por não ter acordado
ninguém com o barulho. Ainda houve alguns que se mexeram, mas não deram por ele
sair.
Assim que se viu lá fora, o ar frio da noite
soprou-lhe ao de leve pelas rachaduras finas do corpo e arrepiou-o. Não estava
habituado a andar na rua. Começou a caminhar pela rua que lhe pareceu gigante,
comparada com a que via da janela da loja. Não era fácil ser um boneco tão
pequeno. A rua era estreita e escura o que fazia com que parecesse ainda mais
assustadora. De vez em quando, ouvia alguns barulhos e parava meio assustado.
Encostava-se à parede de um prédio à espera que passasse, mas, na maior parte
das vezes, eram apenas carros que passavam ao longe ou gatos que miavam e que
saltavam por cima dos telhados das casas.
Não sabia quanto tempo tinha andado, mas não devia
ter sido muito pois a rua parecia-lhe sempre a mesma. Caminhou mais um pouco,
passando por outras lojas onde os bonecos e olhavam com surpresa e curiosidade.
Foi andando até que parou junto a uma loja de antiguidades. Subiu pelo rodapé
do chão até à janela da montra por onde espreitou. Lá dentro, apesar da
semi-escuridão, conseguia ver os pratos com flores, os bules de chá com
paisagens campestres, as caixas de madeira pintadas e até espelhos cheios de
recortes na moldura. Também viu um conjunto de palhaços de porcelana coloridos.
A sua expressão era tão animada que ele sorriu também.
Foi então que viu algo que o deixou maravilhado. No
meio dos palhaços e das loiças, estava uma boneca. Era de porcelana branca e
representava uma dama antiga. Tinha um vestido às flores cor-de-rosa que
dançavam com o movimento da saia, e um chapéu com abas grandes a condizer.
Usava o cabelo preto apanhado numa trança e tinha os olhos de um azul que fazia
lembrar o céu. Estava numa prateleira junto a outras peças, mas ela sobressaía.
Parecia um anjo.
O boneco arregalou os olhos com tanta beleza. Nunca
tinha visto nada parecido. Sentiu-se a flutuar. Queria alcança-la, mas o vidro
da montra impedia-o. Ela apercebeu-se da sua presença pois ele não parava de
bater no vidro como se quisesse entrar. Sorriu. Aproximou-se mais da montra até
a sua cara se esborrachar no vidro. Queria comtempla-la melhor. A boneca saiu
da prateleira e, quase como um anjo que desliza pelo ar, aproximou-se do vidro
e olhou-o de perto. Ele sentiu-se a corar, embora fosse tudo castanho e não
desse para ver a cor das bochechas. Encostou uma mão ao sítio onde ela
encostara a sua. Ficaram a olhar-se durante algum tempo. Por momentos, pareceu
que o vidro desaparecera assim que com a rua, as lojas, o mundo. Restavam
apenas eles, envolvidos pelo seu amor. Os seus lábios tocaram-se num beijo
enternecido.
Mas, de repente, o sonho desfez-se. Ouviu um
barulho. Sem se aperceberem, o sol já tinha nascido. Tinham ficado toda a noite
a olhar-se. O boneco tinha de se despachar a voltar para a loja antes que o
oleiro ou os outros dessem pela sua falta. Apressou-se a descer da montra e a
ir embora, mas no seu olhar estava a promessa de se voltarem a ver.
Começou a andar no sentido que achava que era o
certo para chegar à loja do oleiro, mas, tal como na noite anterior, a rua,
agora com mais movimento, parecia-lhe ainda maior e mais assustadora. Não sabia
por onde ir. Estava perdido e assustado. Só lhe restava encostar-se a uma
parede e esperar que o oleiro desse pela sua falta e o viesse buscar. Mas, na
loja do oleiro, há muito que o boneco fora substituído por outro. Não sabia se
tinha andado muito ou se alguma vez voltaria a ver a boneca de porcelana.
Passaram-se horas, dias que se transformaram em
semanas e talvez meses ou anos, não sabia, e ninguém apareceu para o recolher. Parece que ninguém deu pela minha falta.
Pensou. Uma lágrima começou a correr-lhe pela cara, depois outra até que toda a
rua ficou cheia das suas lágrimas. Só então se apercebeu de que começara a
chover. Os bonecos não têm sentimentos.
São as pessoas que lhes põem. Costumava dizer muitas vezes o oleiro, de
cada vez que arrumava as prateleiras ou que aparecia um cliente. Seria mesmo
assim? Então, porque é que sentia aquele aperto no peito? Porque é que, quando
viu a boneca de porcelana se sentiu a flutuar que o resto do mundo não existia?
Afinal, os bonecos também sentem!
De repente, uma voz trouxe-o de voltar à realidade.
Era de homem, mas não era do oleiro. Esta era mais jovial. Não conseguia ver
bem por causa da chuva, e porque a sua cara estava meio enlameada por ter
estado tanto tempo no chão húmido, mas pareceu-lhe ver a silhueta de um homem
alto, vestido com um fato elegante e meio careca, sendo o pouco cabelo á volta
da cabeça castanho-claro. Já o tinha visto ao pé da loja de antiguidades nas
muitas vezes que conseguira espreitar pela prateleira ou quando estava na caixa
de madeira. Devia ser o dono. Estava com outros homens que deviam ser os seus
empregados. Aproximou-se da parede onde estava o boneco. Ia-lhe dando com o
sapato se este não tivesse roçado ao de leve na parede. Apercebendo-se disso, o
homem baixou-se para ver o que lhe bateu no pé. Quando viu o boneco, apanhou-o
para ver melhor. Olhou-o a toda a volta. Ainda estava em bom estado, apesar de
ter algumas rachaduras e estar meio derretido por causa da chuva. Precisava só
de uns pequenos retoques e estava pronto para ser exibido na loja.
Virou-se para um dos empregados e disse, mostrando-lhe
o boneco:
-Este ficava muito bem ao pé de uma boneca de
porcelana que temo lá na loja. O seu par partiu-se em mil bocados há uns tempos
e foi impossível de arranjar. Só precisa de um pouco de cor e de uns arranjos
simples e fica como novo. Vou levá-lo.- Acrescentou, olhando para a loja em
frente: - É impressionante o que se deita fora hoje em dia. Já ninguém tem
respeito pelos bonecos.- Estavam perto da loja do oleiro.
O empregado olhou para o boneco e disse:
- Mas é feito de barro. Não acha estranho estar a
juntar um de cada material?-
O homem de fato olhou para o rapaz de avental e
respondeu:
- E isso importa?- O rapaz fez um trejeito.
Acrescentou: - Além disso, eu pago-te para venderes não para dares a tua
opinião.-
O rapaz encolheu-se.
Enfiou o boneco no bolso e foi para a loja. Quando
lá chegou, foi para a sua oficina de restauro. Pousou-o numa bancada corrida de
madeira e sentou-se, depois de despir o casaco elegante e pôr o avental de
trabalho, a arranja-lo. Primeiro, limpou-o e poliu-o com a ajuda de uma lixa
muito fina para não o danificar muito. Tinha de estar no mais perfeito estado
para poder ser exposto e, eventualmente, vendido. Depois, reparou as rachas e
voltou a moldar-lhe a parte da cara que estava derretida pela chuva,
acrescentando mais barro, o que fez sobressair ainda mais as feições do boneco.
Quando achou que já estava arranjado, foi buscar as
tintas e os pincéis para o pintar. Um boneco tão bonito não podia ser exibido
assim, precisava de cor.
Terminado o trabalho, o boneco não parecia o mesmo.
A pele castanha ganhou uma nova cor. Meio rosada, até as suas bochechas
finalmente mostravam a sua cor. Para além da pele, o chapéu ficou preto, os
sapatos escureceram o castanho, as calças ficaram pretas, a camisa branca e os
olhos escuros com um toque de amarelo. Com as novas cores, até a sua expressão
parecia mais alegre.
O homem sorriu orgulhoso do seu trabalho. Deixou que
o boneco secasse durante um bocado e depois levou-o para a loja. Colocou-o na
prateleira ao pé da boneca de porcelana. Assim que o viu com as suas novas
cores, a boneca sorriu. Ele corou mostrando, mais uma vez, o rubro das suas
bochechas.
Como estava na primeira fila, e tinha muitas cores,
como nunca tinha estado, chamava muito a atenção. Finalmente, o boneco estava a
ter o reconhecimento que merecia. Ao olhar para os bonecos, o dono da loja
sentiu algo de especial. Era como, de repente, lhe estivesse a agradecer. Esse
sentimento fez com que o homem desse ordens específicas aos empregados para que
se alguém quisesse levar aqueles bonecos, tinha de levar o par ou não havia
negócio. Mas todos os clientes queriam comprar apenas um dos bonecos. «O par é
demasiado caro.» Diziam uns. «Não podemos levar um e depois vimos cá buscar o
outro?» Perguntavam outros. Assim, para todos, quer o dono da loja quer os
empregados respondiam sempre da mesma maneira: «Lamento, mas ou leva o par ou
não leva nenhum, são as regras para estes bonecos.»
Assim foram
passando os dias. E em todos eles o afecto que o dono da loja tinha pelo par de
bonecos ia crescendo. Sempre que olhava para eles lembrava-se da sua juventude.
Do tempo em que conhecera a sua mulher e de como esse amor lhe fazia falta.
Algumas vezes, era apanhado com uma lágrima no canto do olho por algum
empregado que ia a passar para repor o stock
e ele logo se recompunha, assegurando que estava tudo bem cada vez que lhe
perguntavam.
Um dia, entrou na loja um jovem casal. Eram
recém-casados e estavam à procura de algo que ficasse bem no móvel da sala de
estar da casa que acabaram de comprar. Queriam algo que lhes lembrasse do amor,
mas que fosse, ao mesmo tempo, diferente de tudo o que já viram.
Andaram pela
loja, mas nada lhes prendeu a atenção. Até que, quando estavam a sair,
desanimados por não terem encontrado o que procuravam uma vez que aquela era a
última loja de bairro que viam e porque a mulher tinha decidido que, caso não
encontrassem nada que valesse a pena iam a um armazém maior, o empregado foi
buscar ao armazém, uma vez que o dono da loja tinha tanta afeição pelos bonecos
que os levara para a cave da loja para que ninguém os pudesse comprar sem
cumprir as condições impostas, o par de bonecos que estavam numa das
prateleiras. Chamou-os. O casal voltou atrás para os admirar melhor. Olharam um
para o outro e sorriram. Tinham encontrado precisamente aquilo que andavam à
procura. O empregado meteu os bonecos dentro de uma caixa de madeira e
embrulhou-os. O casal despediu-se satisfeito.
No fim do dia, o dono da loja foi fechar as contas.
Ao passar pelas prateleiras para ver se tinham vendido muito, deu pela falta do
par de bonecos. Virou-se para o empregado e perguntou:
- Olha lá, onde está o par de bonecos? Porque não
estão no armazém?-
O empregado ficou um pouco nervoso e hesitou antes
de falar, mas lá acabou por responder:
- Sabe…É que esteve aqui um casal jovem que andava à
procura de algo para decorar a casa e como não viram nada, iam-se embora, mas
eu lembrei-me dos bonecos e mostrei-os. Eles gostaram tanto que quiseram levar
os dois. – Acrescentou: -Nem se importaram de pagar mais.-
O dono da loja sorriu.
-Fizeste bem.- Disse. -Aqueles dois já mereciam um
lugar para serem felizes.-
O empregado ficou mais aliviado por não ter levado
um raspanete. Acabaram de fechar as contas e foram para casa.
…
Nessa noite, em casa do casal, no móvel da sala de
estar, que tinha uma vitrina, o boneco de barro e a boneca de porcelana estavam
mais felizes que nunca. Finalmente tinham encontrado um lugar onde podiam
desfrutar ao máximo do seu amor e eram o cento das atenções ao mesmo tempo.
Sempre que recebiam visitas, o jovem casal fazia questão de os mostrar com
orgulho.
E assim continuaram por muitos e muitos anos.
Fim