Já lá vai algum tempo desde a última vez que aqui escrevi.
Sabem, os últimos tempos têm sido de bloqueio mas também de abertura de horizontes.
A vida ficou suspensa mas agora já é hora de retomar.
Por isso, hoje proponho uma viagem, mas especificamente a de uma mala.
Deixo-vos com um texto recente, para reflectir e para imaginar.
Espero que gostem.
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A
Mala do Viajante
Um personagem de sobretudo apeou-se na estação de
comboios. É um homem não muito alto, de cabelo castanho-escuro e chapéu de
feltro preto. Não se lhe distingue a cor dos olhos. Nem sequer há pistas sobre
o que levará vestido debaixo do sobretudo. Provavelmente, umas calças pretas,
sapatos castanhos, camisola azul e camisa branca. Sempre gostara de cores
discretas, nada de grandes extravagâncias. A única que lhe era conhecida era a
de viajar.
Levava uma mala. Era castanha de couro, daquelas
antigas que se encontram em feiras ou lojas de antiguidades. Por fora, estava
cheia de carimbos e selos de vários lugares do mundo. Dentro dela, as memórias
desses tempos de aventura. Europa, Ásia, América. Todos os continentes lhe
trouxeram algo de extraordinário. A subida mais alta, a travessia do deserto
mais quente ou do mais vasto oceano.
Naquele momento, ia voltar a casa. Ao Velho
Continente, mais precisamente á sua Inglaterra de que tanto gostava. Ao seu
velho apartamento nos arredores de Londres, com a sua varanda virada a sul para
receber mais luz do sol. Às suas plantas, á saleta, cozinha e ao escritório
onde escrevia as suas aventuras. Há muito tempo que publicava as suas histórias
num jornal local, mas sempre tivera a ambição de algo maior, se calhar por isso
viajava tanto.
O comboio surgiu na plataforma. A porta da carruagem
abriu-se e ele entrou. Sentou-se junto da janela para ver a paisagem. Pousou a
mala entre as pernas. Era mais confortável do que estar a pô-la na bagageira
por cima do banco. Olhou para ela.
Aquela mala cumprira bem a sua missão. Já estivera
perdida, quase rota ou queimada. Já fora confundida com uma arma de destruição
maciça por espiões, com droga por terroristas ou simplesmente por outra igual
mas com o fecho ainda funcional. Aquele já estava frouxo. Tinha-lhe posto duas
correias de couro á volta para ver se segurava melhor mas o peso das memórias
era tanto que eles cediam sempre que era cheia com mais um objecto ou
recordação.
Tinha o escritório cheio de recordações de todos os
sítios por onde andara. Já começava a ser pequeno, mas as memórias tinham
sempre espaço.
De repente, lembrou-se onde encontrara a mala. No
sótão da casa dos avós entre umas caixas e outras coisas. Devia te uns 5 ou 6
anos na altura, mas ficou fascinado com a mala. Ainda estava vazia de selos,
mas já tinha tanto para contar. Foi adquirida por um comerciante de malas que a
vendera a outro e depois ao dono da loja que a vendeu ao seu avô que, por sua
vez, a usou e depois a esqueceu no sótão para depois vir o neto e encontra-la
de novo.
Quando lha ofereceram, alguns anos mais tarde, pelo
seu 18º aniversário, nem quis acreditar. Começou logo a descobrir o mundo com
ela e, por cada sítio, um selo autocolante. A partir daí, a colecção foi
ficando maior e hoje em dia, parece um museu.
Depois de tanto viajar, estava pronta para ser
devolvida ao sótão e esperar que alguém a veja e queira ir novamente em busca
de aventuras.
O comboio parou na estação que já lhe era familiar.
As memórias e a paisagem fizeram com que nem desse pelo tempo passar e
parecesse que a viagem ficara mais curta, quando na verdade atravessara quase a
Europa toda. Pegou na mala e desceu da carruagem, pronto para voltar ao ponto
de partida.
Bjs
Joana
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