Artur
Boas-Noites
Sonha-se desde que o mundo é mundo. Desde que
existem pessoas. Desde que existe imaginação.
Os sonhos são aqueles momentos em que estamos só
connosco e onde tudo é possível. É por isso que é preciso que haja alguém que
tome conta deles. Que os distribua pelas pessoas certas depois de uma análise
diária e aprofundada das suas mentes, dos seus desejos mais profundos.
Há muito tempo, havia um caçador de sonhos e de
desejos que os recolhia em pó por todo o mundo e reunia-os num só local. Uma
pequena casa nas nuvens feita de pó de estrelas e de gotas de chuva.
Lá dentro, um laboratório com frascos e utensílios
para misturar os sonhos. Todos na dose certa, os sonhos e os pesadelos, senão é
uma desgraça! Se um pesadelo é misturado a mais, as pessoas ficam confusas e
podem acordar maldispostas e rabugentas.
Estas são as condições essenciais para se ser um
Guardião dos Sonhos. Assim era a vida de João Pestana. Um homem baixo, vestido
com as cores da noite de luar, cabelo da cor do céu de Verão e olhos da cor do
mar. Todos os dias, vestia-se de sol e ia analisar as vontades e desejos mais
profundos das pessoas. Os chamados sonhos acordados. Depois, era só anotar no
seu caderno de notas e procurar o pó da estrela certa. Não era fácil, mas o
Grande Livro dos Sonhos dava-lhe todas as indicações que precisava. Durante
todos aqueles anos, recolhera os desejos das pessoas e escrevia-os naquele
livro. Mesmo passados quase 1000 anos ainda escrevia nele. Havia sempre
qualquer coisa que era preciso acrescentar, novos desejos, novos sonhos, novas
estrelas. Só as mais brilhantes deixavam os melhores sonhos. As das sombras
traziam os pesadelos.
A receita era simples: meia dose de estrelas
brilhantes e uma pequena dose de estrelas sombrias. Tudo dentro do mesmo frasco
que era cuidadosamente colocado dentro do saco do João Pestana para ser
finalmente espelhado por cima de todas as casas do mundo para que todos
tivessem bons sonhos.
Até aquela altura, João Pestana sempre trabalhara
sozinho, mas era chegado o momento de ter alguém que o ajudasse. A idade também
chegava às criaturas dos sonhos. Assim, foi falar com a Fada Morgana, a
directora da Escola dos Sonhos para que o aconselhasse sobre quem poderia ser a
melhor pessoa para o ajudar.
Morgana era alta de cabelo louro e olhos azuis.
Vestia um vestido de estrelas e sapatos de cristal. João Pestana foi
encontra-la no seu gabinete na Escola dos Sonhos. Era uma sala ampla, com uma
janela para a rua e uma secretária. Ele sentou-se na cadeira em frente á dela e
contou-lhe o seu problema. Depois de pensar durante um bocado, Morgana disse:
-Precisas de um assistente, não haja dúvida e eu sei
quem poderão ser os candidatos. Segue-me.-
Foi atrás dela até uma sala onde estavam vários
rapazes sentados vestidos com o uniforme da escola. Um fato cinzento com uma
estrela ao peito.
-Estes são os melhores alunos da escola dos sonhos.-
Informou Morgana. – Escolhe aquele que achares mais qualificado.-
João Pestana franziu o sobrolho:
- E como faço isso? Não posso chegar aqui e
simplesmente escolher como se fossem objectos.-
Morgana concordou. Pensaram durante um bocado e João
Pestana exclamou:
- Já sei! Vou fazer um teste! Aquele que fizer o
sonho mais feliz fica com o lugar.-
Ela concordou. Assim fizeram. Reuniram todos os
candidatos numa outra sala da escola com balcões e todo o equipamento
necessário para fazer bons sonhos.
-Têm uma hora para fazer os sonhos. Aquele que fizer
o mais feliz é o meu assistente.- Declarou João Pestana.
A prova começou.
Os alunos reuniram os ingredientes que João Pestana
lhes dera. Todos queriam impressionar e fazer o sonho que lhes desse o lugar de
assistente.
No entanto, todos os alunos estavam concentrados em
seguir a receita á risca e nem se lembraram do mais importante. Quando a prova
terminou, João Pestana e Morgana recolheram os frascos com os sonhos preparados
pelos candidatos. Destaparam-nos e espalharam-nos para os testar. O pó saía dos
frascos e formava uma nuvem de estrelas que ficava a pairar sobre as cabeças
deles antes de desaparecer. Durante esse tempo, era possível ver o que cada um
tinha feito.
Brinquedos, carros, roupas, festas, coisas materiais
compunham os sonhos perfeitos. Todos com os mesmos sorrisos que costumava ver
durante o dia. Falsos e sem vida.
Foi então que João Pestana reparou num rapaz de
estatura média, cabelo preto e olhos da mesma cor. Vestido com o uniforme da
escola dos sonhos, que espreitava pela porta, muito curioso com o que se estava
a passar. Olhou para Morgana e perguntou:
- Quem é aquele rapaz? Parece curioso e
aventureiro.-
Morgana respondeu com um ar indiferente:
- É o Artur. Não é dos nossos melhores alunos, mas
sempre teve um espírito rebelde.-
João Pestana sorriu. Ele gostava de espíritos
rebeldes. Tinham sonhos mais felizes. Aproximou-se dele e perguntou sorrindo:
-Não queres fazer a prova também?-
Artur encolheu-se. Hesitou antes de responder:
- Gostava muito, mas a Directora acha que ainda não
estou preparado.-
João Pestana fez uma expressão surpresa. Depois,
disse:
- Bom, agora sou eu que te estou a pedir que faças a
prova. Aceitas?-
Artur sorriu e respondeu:
- Aceito.-
João Pestana conduziu-o até á sala da prova. Os
outros olharam-no com um ar surpreendido e curioso. Perante o olhar incrédulo
de Morgana, João Pestana anunciou:
- Vamos ter um novo candidato. O Artur.- Olhou para
ele e acrescentou: - Podes começar.-
O rapaz dirigiu-se ao balcão e leu com atenção a
lista dos ingredientes. Depois, pegou nos frascos, abriu-os e deitou o conteúdo
para um almofariz onde moeu até obter um pó dourado fino. De seguida,
juntou-lhe uma pitada de pó de pesadelo e meteu-o num outro frasco que entregou
a João Pestana.
Este recolheu-o cuidadosamente e espalhou-o por cima
da sua cabeça. A nuvem de pó formou-se e nela apareceu um jardim com flores de
várias cores a algumas árvores. Debaixo das árvores, grupos de crianças
brincavam enquanto outras corriam por entre as flores. A luz do sol enchia tudo
de cor. Os seus sorrisos eram tão genuínos que João Pestana se comoveu. Até
Morgana disfarçou uma lágrima ao canto do olho. Depois, desfez-se e voltou para
o frasco. João Pestana não precisou de ver mais sonhos. A sua decisão estava
tomada.
- É com muita alegria que anuncio o meu assistente.
O Artur.-
Todos ficaram surpresos, até Morgana, embora já
tivesse uma ideia do que ia acontecer. Acrescentou:
- Quando se faz um sonho, o mais importante não é o
seu conteúdo mas aquilo que nos faz sentir. Os sonhos são momentos em que
podemos ser o que quisermos. E o Artur mostrou exactamente o que procurava.-
Partiram nesse dia para casa de João Pestana.
No caminho, perguntou-lhe:
- Posso saber o teu nome todo? Se vais ser meu
assistente, deves ter um nome que fique na memória.-
Artur respondeu:
- O meu nome completo é Artur Boas-Noites.-
João Pestana sorriu.
- É um óptimo nome.-
Chegaram a casa de João Pestana mesmo a tempo da
hora de dormir. A oportunidade para Artur Boas-Noites mostrar o que valia,
agora numa situação real. Conduziu-o até ao seu laboratório. Artur ficou
maravilhado. Já tinha ouvido falar daquele sítio na escola, mas nunca pensou
que fosse tão impressionante. Não era muito grande, mas ainda assim acolhedor.
Tinha um balcão de madeira e uma grande colecção de frascos com pós de estrela
diferente. Também tinha páginas com notas espalhadas um pouco por todo o lado
e, no meio, num suporte de madeira, o Grande Livro dos Sonhos. Artur dirigiu-se
a ele, mas foi impedido por João Pestana.
- Primeiro, segues as notas dos papéis, depois logo
pesquisas no livro. Não queiras fazer tudo logo no primeiro dia.-
Artur assentiu com a cabeça. Foi para a frente do
balcão e leu as notas que estavam nos papéis ali perto. Depois, pegou nos pós
de estrelas e misturou-os cuidadosamente. Por fim, João Pestana colocou-os no
seu saco e saiu para os distribuir.
…
Durante o tempo que se seguiu, Artur Boas-Noites
ajudou João Pestana com as preparações dos sonhos. Mas, por mais que gostasse
do que fazia, sentia que lhe faltava qualquer coisa. Ver os pós de estrelas a
misturarem-se e coloca-los dentro dos frascos era uma coisa, mas sair para os
espalhar pelo mundo ou recolher informações durante o dia, era outra. Cada vez
que o seu Mestre saía, ele ficava a imaginar como seria andar a recolher a
analisar a informação sobre os desejos e as vontades das pessoas. O seu Mestre
costumava contar-lhe que essa tarefa não era fácil, uma vez que cada pessoa tem
desejos diferentes e que estes variam consonante estão mais contentes ou mais
tristes. É preciso estar atento a todos estes pormenores e saber analisá-los
muito bem antes de tomar notas.
-Com a informação que tenho, acho que consigo,
Mestre. Deixe-me ir uma vez que seja, por favor! Assim, posso aprender mais e,
quem sabe, fazer sonhos mais felizes.- Pedia, de vez em quando, Artur.
Porém, a resposta de João Pestana era sempre a
mesma:
- Ainda é muito cedo para isso. Quando chegar a
altura, logo virás comigo.-
Mas a altura certa não chegava e Artur começava a
achar que nunca chegaria. Até que, um dia, João Pestana veio falar com ele.
-Artur, estive a pensar e acho que está na altura de
vires comigo.-
Artur ficou contente. Perguntou, entusiasmado:
- A sério, Mestre? Posso mesmo ir?-
João Pestana sorriu e respondeu:
- Sim, podes. Prepara o teu saco. Partimos esta
noite.-
Artur Boas-Noites foi logo arrumar o seu saco, feliz
e entusiasmado por ir, finalmente, conhecer o mundo e o lugar onde eram
depositados os sonhos que fazia.
João Pestana deslocava-se numa nuvem de pó de
estrela. Era tão fina que parecia que voava. Artur Boas-Noites apoiou-se numa
das pontas da nuvem que partiu imediatamente. Atravessou o céu estrelado a uma
grande velocidade. Depois, percorreu as montanhas e os campos até chegar á
cidade. As luzes dos prédios faziam lembrar as estrelas mas mais brilhantes.
Artur estava fascinado com tudo. Era a primeira vez que via o mundo, por isso
achava tudo maravilhoso.
-Concentra-te no trabalho. Primeiro, espalhas os
sonhos, depois podemos dar uma volta para apreciares a paisagem.- Disse-lhe
João Pestana.
Artur assentiu e a viagem continuou. Passado pouco
tempo, pousaram em cima de um telhado. A noite estava calma e silenciosa como
as noites devem ser. De vez em quando, soprava uma brisa que os aconchegava.
Desceram da nuvem e foram directamente ás janelas da casa. Era um prédio com
vários andares pelo que começaram por cima e foram descendo.
João Pestana mostrou-lhe como se fazia. Primeiro,
encolheram, graças a um pó mágico, até ficarem do tamanho de um pirilampo.
Depois, era só espalhar os sonhos por cima das cabeças das pessoas adormecidas.
Artur acompanhou todo o processo e foi tomando notas para não se esquecer de
nada.
Depois de espalharem os sonhos por toda a cidade,
passaram às seguintes. João Pestana tinha uma lisa de todas as cidades e
localidades com pessoas do mundo e um itinerário que era preciso seguir. Artur
também tomou nota disso, mesmo sabendo que depois João Pestana lhe desse uma
cópia de tudo.
Concluída a tarefa, voltaram para casa para preparar
mais sonhos e a recolha de informações no dia seguinte. Só podiam dormir quando
todos também estivessem senão os sonhos não seriam felizes.
Na manhã seguinte, Artur voltou a acompanhar João
Pestana, desta vez com a sua roupa de dia, para recolher informações sobre os
desejos que os ajudavam a fazer os sonhos. Não era uma tarefa tão fácil quanto
parecia. Era preciso estar atento a tudo o que acontecia durante o dia para
depois se seleccionar os momentos mais marcantes.
- Estás a ver?- Perguntou João Pestana certa vez
quando foram recolher informação. – Aquele gosta de comer bolos e o outro de
ouvir música, já aquele ali prefere tirar fotografias.-
Artur tomava nota de tudo o que o seu Mestre lhe dizia
e depois quando chegasse a casa, a preparação dos sonhos era mais fácil.
E assim se foram passando os dias, até que houve um
que mudou tudo.
…
Nesse dia, estava calor. Era Verão. Os sonhos estão
mais brilhantes. É aquela altura do ano em que andamos mais sonolentos e por
isso sonha-se mais, o que significa mais trabalho para João Pestana e Artur
Boas-Noites.
-Detesto esta altura!- Queixava-se o Mestre. –
Quando acho que vem aí uma folga é quando há mais trabalho!- Isto nunca pára!-
Artur gostava de fazer os sonhos do Verão. Davam
para perspectivar o resto do ano mas também para fazer balanços sobre o que
correra menos bem. Havia sempre um desejo por cumprir. Mas era para isso que
eles existiam, para os depositar na mente para mais tarde se concretizarem, o
que acontecia na maior parte das vezes.
Saíram como sempre para espalharem os sonhos. Na
volta, Artur dera pela falta do seu caderno de notas e voltou atrás para o ir
buscar. João Pestana sempre lhe dissera para não olhar para trás depois de cumprida
a tarefa, mas ele não conseguiu evitar.
Da janela de uma casa, vislumbrou um vulto de uma
rapariga. Era loura de olhos azuis e vestia um vestido simples florido. Não
conseguia dormir, então viera á janela tomar um pouco de ar fresco da noite.
Ao vê-la, Artur sentiu um aperto no peito e quase
perdeu o equilíbrio a voar. Queria comtempla-la durante toda a noite, mas João
Pestana logo o chamou e ele foi-se embora dali tão depressa como apareceu. No
entanto, o aperto no peito não desapareceu. Cada vez que pensava na rapariga
dos olhos azuis, parecia que o mundo ia desabar.
A partir daquele dia, Artur nunca mais foi o mesmo.
Distraía-se com facilidade a preparar os sonhos e as notas eram tiradas á
pressa. Sempre que saíam, queria ficar mais um pouco para procurar uma certa
casa onde morasse uma certa rapariga. João Pestana fez logo o diagnóstico
daquela estranha doença que o afligia: amor. Artur estava irremediavelmente
apaixonado por aquela rapariga.
Um dia, sem que ele notasse, foi falar com Morgana.
Esta riu-se quando lhe contou.
-É perfeitamente natural que isso aconteça. Ele está
na idade!- Disse-lhe.
João Pestana estava surpreendido. Nunca pensou que
Morgana ficasse contente por saber que o seu aprendiz estivesse apaixonado por
uma rapariga humana.
Acrescentou num tom mais sério:
- Mas sendo humana, temos um grande problema.-
João Pestana concordou. Toda a gente sabia que uma
criatura dos sonhos não se podia apaixonar nem ficar amigo de um humano, seria
o fim do segredo dos sonhos.
-Preciso de arranjar uma solução. Por isso vim pedir
ajuda.- Disse João Pestana. O seu olhar era suplicante.
Morgana comoveu-se com a sua preocupação. O tempo de
convivência com Artur fizera com que ele o visse como um filho.
-Deixa-me ver o que posso fazer.- Disse ela. – Deve
haver alguma coisa. Vem cá daqui a alguns dias. Nessa altura, dir-te-ei o que
fazer.-
João Pestana agradeceu.
Voltou para casa ainda apreensivo, mas não podia
dizer nada a Artur para não o preocupar. Por isso, entrou com o seu sorriso
habitual no laboratório.
Durante os dias que se seguiram, Morgana e João
Pestana procuraram uma solução para Artur. Não queriam que ele deixasse de ser
uma criatura dos sonhos mas também não podiam impedir o seu amor. Era uma
situação complicada.
Entretanto, Artur aproveitava para sabe mais sobre a
sua amada. Sempre que podia, ia visitá-la a casa transformado em pirilampo ou
aparecia-lhe em sonhos. Era nessa altura que estavam junto. Conversavam,
passeavam e namoravam. Eram felizes.
João Pestana tinha cada vez mais pena de o deixar
ir, mas não o podia impedir. O sentimento que Artur tinha pela rapariga, que
mais tarde soube que se chamava Ana, era verdadeiro e crescia de dia para dia.
As suas noites eram passadas com ela e os seus dias a pensar nela.
Até que um dia, Morgana apareceu na casa de João
Pestana com uma solução. Uma poção para Artur beber e se transformar em humano,
mas também apagaria todas as suas memórias e nunca mais poderia regressar. Se
ela a bebesse, transformava-se numa criatura dos sonhos e passaria a viver com
ele para sempre. João Pestana ganharia dois assistentes e já não se sentira tão
sozinho.
A decisão não era fácil. Um deles teria de abdicar
de tudo para poder ser feliz. Deu-lhes um tempo para pensar. «Três dias no máximo, depois têm de me dizer
o que decidiram.» Dissera Morgana.
Artur e Ana pensaram muito durante os três dias
dados por Morgana. Nenhum dos dois queria deixar o seu mundo para trás, mas o
seu amor falou mais alto.
Então, passados três dias, Artur comunicou a sua
decisão a Morgana e foram ao encontro de Ana, que também tomara a sua. Ao
chegarem á sua janela, ela estava á espera deles.
- Decidi que vou viver contigo no mundo dos sonhos.-
Disse Ana a chorar. – Não me importo de apagar as minhas memórias humanas se
for para ficar contigo.-
Artur não queria acreditar. Estava muito feliz por
poder finalmente estar com a sua amada para sempre.
Então, Ana bebeu a poção. Uma luz rodeou-a e ela
transformou-se num pirilampo. Voaram de volta a casa.
Passado pouco tempo, Artur Boas-Noites e Ana
Madrugada, o seu novo nome, casaram e viveram felizes para sempre.
Fim
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana