Megafone
-Para que serve um megafone?- Perguntou a rapariga
de mini-saia, t-shirt com um coração,
sandálias, rosto comprido e olhar brincalhão. Uma adulta em ponto médio. Tinha
16 anos me ainda estava na escola. Chamava-se Sandra.
-Serve para levantar a voz, para nos fazermos ouvir
mais alto.- Respondeu Mónica a amiga vestida mais ou menos da mesma maneira. Só
os penteados eram diferentes: uma com cabelo preto, olhos da mesma cor,
apanhado num carrapito. A outra de cabelo louro e olhos azuis, apanhado numa
trança virada para a frente.
Sandra fez um ar indiferente perante a resposta da
amiga. Ripostou:
- Então, se serve para levantar a voz, para nos
fazer ouvir porque é que ainda há vozes que não são ouvidas?-
Mónica estava surpreendida:
- O que queres dizer?-
Sandra respondeu num tom sério, muito diferente do
que normalmente usava para falar com os seus colegas e amigos na escola:
- Quero dizer que o mundo está um caos. A humanidade
está obcecada com a perfeição, mesmo sabendo que não existe. – Fez uma pausa,
respirou fundo e continuou:
- Desde a beleza ao ambiente, andamos todos
desesperados, o que leva a que tomemos decisões pouco pensadas e que nos
deixemos levar por ideias que não são as mais ‘ideais’, passo a redundância.-
Acrescentou: - Extremos que se cruzam e com os quais temos de lidar todos os
dias.-
Mónica interrompeu-a apenas para dizer:
- Concordo, mas como se pode fazer com que essas
vozes sejam ouvidas? Não estás a pensar que ir para a rua gritar com um
megafone vai ajudar, pois não?-
Sandra olhou para a amiga e retomou o discurso:
- Claro que não! É preciso muito mais! Para que
essas vozes mudas sejam ouvidas é preciso mais que discursos bonitos em
encontros de políticos que só porque têm poder acham que podem mandar em tudo,
até no que se pensa. É preciso mais que imagens em que a câmara está tão em
cima da cara das pessoas que quase lhes vemos os restos de comida nos dentes ou
os pêlos do nariz.-
Mónica deu uma risada. O discurso da amiga era entusiasmante.
Sandra continuou:
- O que o mundo precisa é de espontaneidade.
Naturalidade. Rebeldia. Hoje em dia temos de ousar ser diferente para fazer
realmente a diferença e não porque nos ‘obrigam’ a ser diferentes.-
Acrescentou: - Olha, como o anime.-
Mónica ficou surpreendida novamente:
- O que é que tem o anime tem a ver com mudar o mundo?-
Sandra respondeu:
- Ajuda a pensar nos caos que referi. Mostra o mundo
tal como ele é: cheio de defeitos e complicações e embora pareça uma maneira
simples, fica sempre aquela ‘semente’ plantada nas nossas mentes e espíritos.
Traz á tona temas ‘sensíveis’ mas importantes. Mostra-nos aquilo que muitas
vezes queremos esquecer ou esconder: os nossos limites e as nossas fraquezas
mas também nos ensina a ultrapassá-los ou, pelo menos, a viver com eles.-
Mónica sorriu:
- Muito bem dito!-
Sandra também sorriu.
Depois, encaminharam-se para a aula pois a campainha
já tinha tocado.
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana
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