segunda-feira, 6 de julho de 2020

Excluídos- Megafone

Olá
Mais uma vez, deixo-vos com um texto da colecção dos excluídos.
Desta vez, algo para reflectir, ou não. Fica ao vosso critério.
Espero que gostem.
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Megafone

-Para que serve um megafone?- Perguntou a rapariga de mini-saia, t-shirt com um coração, sandálias, rosto comprido e olhar brincalhão. Uma adulta em ponto médio. Tinha 16 anos me ainda estava na escola. Chamava-se Sandra.

-Serve para levantar a voz, para nos fazermos ouvir mais alto.- Respondeu Mónica a amiga vestida mais ou menos da mesma maneira. Só os penteados eram diferentes: uma com cabelo preto, olhos da mesma cor, apanhado num carrapito. A outra de cabelo louro e olhos azuis, apanhado numa trança virada para a frente.

Sandra fez um ar indiferente perante a resposta da amiga. Ripostou:

- Então, se serve para levantar a voz, para nos fazer ouvir porque é que ainda há vozes que não são ouvidas?-

Mónica estava surpreendida:

- O que queres dizer?-

Sandra respondeu num tom sério, muito diferente do que normalmente usava para falar com os seus colegas e amigos na escola:

- Quero dizer que o mundo está um caos. A humanidade está obcecada com a perfeição, mesmo sabendo que não existe. – Fez uma pausa, respirou fundo e continuou:

- Desde a beleza ao ambiente, andamos todos desesperados, o que leva a que tomemos decisões pouco pensadas e que nos deixemos levar por ideias que não são as mais ‘ideais’, passo a redundância.- Acrescentou: - Extremos que se cruzam e com os quais temos de lidar todos os dias.-

Mónica interrompeu-a apenas para dizer:

- Concordo, mas como se pode fazer com que essas vozes sejam ouvidas? Não estás a pensar que ir para a rua gritar com um megafone vai ajudar, pois não?-

Sandra olhou para a amiga e retomou o discurso:

- Claro que não! É preciso muito mais! Para que essas vozes mudas sejam ouvidas é preciso mais que discursos bonitos em encontros de políticos que só porque têm poder acham que podem mandar em tudo, até no que se pensa. É preciso mais que imagens em que a câmara está tão em cima da cara das pessoas que quase lhes vemos os restos de comida nos dentes ou os pêlos do nariz.-

Mónica deu uma risada. O discurso da amiga era entusiasmante. Sandra continuou:

- O que o mundo precisa é de espontaneidade. Naturalidade. Rebeldia. Hoje em dia temos de ousar ser diferente para fazer realmente a diferença e não porque nos ‘obrigam’ a ser diferentes.- Acrescentou: - Olha, como o anime.-

Mónica ficou surpreendida novamente:

- O que é que tem o anime tem a ver com mudar o mundo?-

Sandra respondeu:

- Ajuda a pensar nos caos que referi. Mostra o mundo tal como ele é: cheio de defeitos e complicações e embora pareça uma maneira simples, fica sempre aquela ‘semente’ plantada nas nossas mentes e espíritos. Traz á tona temas ‘sensíveis’ mas importantes. Mostra-nos aquilo que muitas vezes queremos esquecer ou esconder: os nossos limites e as nossas fraquezas mas também nos ensina a ultrapassá-los ou, pelo menos, a viver com eles.-

Mónica sorriu:

- Muito bem dito!-

Sandra também sorriu.

Depois, encaminharam-se para a aula pois a campainha já tinha tocado.

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   E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem.

Bjs

Joana 


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