II
Consternação
e Revolta
-O
quê?!- Estava mais confusa que nunca. -Como é que é possível que tenha estado a
dormir este tempo todo?- Voltei a sentar-me na cama. A gravidez deixara-me
exausta muito rapidamente. Olhei para Margaret que continuava sentada na
cadeira. A sua expressão era serena mas ligeiramente preocupada. Quase lhe
supliquei que me contasse tudo o que acontecera durante aquelas duas semanas.
Ela
aproximou-se e sentou-se a meu lado na cama. Pediu-me que lhe desse o papel do
bilhete e foi o que fiz. Depois de o examinar, voltou a olhar para mim. Á sua
frente, tinha uma mulher loira, com as pontas coloridas, de olhos baços por
causa dos enjoos. Usava umas calças de ganga largas e uma t-shirt branca com uma estrela azul. Muito diferente da reputada
aluna de psiquiatria que conhecera na prisão há muito tempo. Nessa altura,
ainda era ingénua e mal sabia no que se ia meter. Dar-lhe o caso do Joker e ajudá-la com ele fora o pior
erro da sua vida. Transformara uma jovem promissora na psiquiatria numa
criminosa e agora na mulher e futura mãe desesperada.
Deu-me
o papel e apontou para o símbolo no fundo da folha:
-Estas
iniciais são de uma organização chamada Asas de Cristal.- Começou. –São um
grupo de bandidos que traficam todo o tipo de coisas desde armas a obras de
arte e, ás vezes, mas muito raramente, pessoas.-
Voltei
a bombardeá-la com perguntas:
-Como
é que sabes isso? E o que podem eles querer do Joker?-
Margaret
explicou:
-
Pouco depois de me reformar, pesquisei sobre eles para a Polícia e descobri que
tinham uma espécie de esconderijo algures numa zona deserta.- Fez uma pausa e
acrescentou: -É provável que o Joker
tenha algum tipo de dívida e por isso tenha ido ter com eles ou então foi
raptado.-
De
repente, alguns flaches passaram pela minha mente. Risos, luzes, sons e muita
bebida. Caí na cama atordoada. Margaret ajeitou-me as almofadas e ajudou-me a
recordar.
-Deves
descansar dada a tua condição.- Disse com uma voz mais meiga. Sorriu.
Retribui-lhe.
Pus
a mão no ventre. Ainda estava liso, mas, em breve, começaria a crescer. Tinha
de pensar no meu filho primeiro e depois numa maneira de salvar o seu pai. As
lágrimas começaram a correr-me pela cara. Estava mais sensível por causa da
gravidez ou então estava a descarregar todo o stress acumulado. Olhei para Margaret com os olhos ainda húmidos.
Era um olhar suplicante, como se quisesse que ela me dissesse que dentro de
pouco tempo ele chegaria e tudo ficaria bem. Margaret não precisou de pergunter
para saber o que eu queria.
-Conta-me
outra vez onde fomos.- Pedi.
Pacientemente,
lá me contou que tínhamos saído do hotel com o bilhete, atravessado a baixa da
cidade em direcção à zona considerada marginal. «Nem o Batman teria coragem de lá ir» Acrescentou com um riso irónico.
Depois de atravessarmos essa zona, no carro de Margaret, chegámos ao sítio onde
era o hospital-prisão onde o conhecera. «Disseste-me que de vez em quando, ele
gostava de ir lá para recordar como tudo acontecera. Mais uma mania dele,
suponho!» Exclamou Margaret. As salas ainda estavam como as deixara. Até os
cheiros eram os mesmos. «Foi aí que tiveste o primeiro enjoo» Recordou. Depois,
passámos pelos tanques de ácido onde nos atirámos num acto de loucura. «Sempre
pensei que tivesse ficado estéril depois daquilo» Recordei a certa altura.
Voltei a olhar para o ventre. «Mas, pelos vistos, surtiu o efeito contrário»
Sorri ligeiramente. A ideia de ser mãe amansava-me o espirito.
Do
hospital-prisão, fomos para a prisão propriamente dita. «Quiseste visitar a tua
antiga sela.» Recordou Margaret. «Achaste que ele estaria lá.» Aquele lugar
tornara-se na minha segunda casa. Ás vezes, pedia à polícia para me levar lá,
mesmo sem ter cometido nenhum crime. Gostava de ficar sozinha a pensar na vida.
Por
último, resolvemos que o melhor sítio para o encontrar seria na cave de um bar
de alterne na zoa marginal de Gothan.
Era lá que se costumava encontrar com outros criminosos para pagar e fazer
negócios. «Deve ser o único lugar que me dá arrepios até hoje» Constatei. «Toda
aquela ambiência era demasiado sinistra para mim. E eu já lidei com todo o tipo
de gente.» Até me surpreendi ao dizer aquilo. A nossa relação sempre fora
aberta. Ele podia andar com quem quisesse, desde que no final do dia, viesse
sempre ter comigo. Também me dava esse direito, mas eu nunca quis. Dizia que
ele era o único. Acho que o amor verdadeiro tem destas coisas.
Por
isso, antes de entrarmos no carro, fui perguntar a cada uma das raparigas se
tinham visto. Nenhuma delas me soube responder a não ser uma de sotaque russo,
magra de olhos e cabelo preto, o olhar um pouco baço pelo álcool e outras
substâncias. O cabelo era comprido. Vestia uma espécie de maiou preto justo e botas altas. Disse-me que o vira pouco antes de
se encontrar comigo. «Não me chegou a tocar» Contou. «Apenas perguntou por ti e
foi-se embora». Acrescentou: «Disse-lhe que estavas no hotel e ele
desapareceu».
A
informação dada não serviu de grande ajuda, mas pelo menos veio confirmar que
ele era o pai da criança que não havia mais nenhuma grávida à sua procura. «Na
altura, era só uma desconfiança» Contou Margaret.
Depois
daquela narração, a minha mente estava confusa e zonza. Deu-me um enjoo e fui a
correr para a casa de banho outra vez. Voltei a deitar-me. Passado pouco tempo
adormeci.
Acordei
passado um bocado. Abri os olhos devagar e olhei pela janela. O sol estava
quase a pôr-se. Quanto tempo terei
dormido? Pensei. Estava novamente sozinha no quarto. Virei-me na cama e vi
um papel em cima da mesa-de-cabeceira. Recolhi-o. Era um bilhete de Margaret a
dizer que tinha ido comprar qualquer coisa para comer e não demorava. Pousei o
papel novamente na mesa. Sentei-me na cama com as pernas estendidas para a
frente. Ainda me sentia zonza mas já não estava tão enjoada. Senti um peso na
barriga. Acariciei-a. Sorri ligeiramente. Pela primeira vez na vida tinha algo
que queria proteger e isso dava-me forças para continuar.
De
repente, a porta do quarto abriu-se e Margaret entrou carregada com sacos de
uma loja de conveniência. Pousou-os em cima de uma mesa ali perto. Deles, tirou
pão, fiambre e queijo fatiados, também havia sumos de lata e algumas bolachas.
Cortou um dos pães com uma faca de plástico que também trouxera, recheou-os com
uma fatia de fiambre e outra de queijo. Abriu uma lata de sumo e entregou-mos,
dizendo:
-Come,
tens de te alimentar se quiseres ter forças. Não te esqueças que agora são
dois.-
Recebi
a comida apesar de não ter fome. Naquele momento, só me apetecia dormir e
quando acordasse tudo não tinha passado de um sonho e estávamos juntos outra
vez. Comi sem grande vontade, apenas a pensar no meu filho. Margaret sentou-se
perto de mim também com alguma coisa para comer. Depois de comermos, olhou-me e
disse num tom meio sarcástico mas sério ao mesmo tempo:
-Sabes
que não podemos ficar aqui muito tempo, certo? Como não tens para onde ir, vens
para minha casa.-
Respirei
fundo. Apesar de o quarto e todas as despesas estarem pagas, não adiantava
estar ali se não fosse com ele. Levantei-me e calcei os sapatos que estavam
junto da cama. Senti-me melhor depois de comer. Olhei para ela e disse:
-Obrigada,
mas eu fico bem. Sempre me arranjei sozinha.-
Margaret
fulminou-me com o olhar. Não tive escolha senão aceitar. A partir daquele dia,
ia deixar de ser a Harley Quinn por um tempo e voltar a chamar-me Harleen
Frances Quinzel.
E pronto, Mais uma vez, espero que gosem.
Até para a semana,
Bjs
Joana