sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Asas de Cristal- I- O Desaparecimento

 Olá 

Aqui está o 1º capitulo! 

Espero que gostem. 

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I

O Desaparecimento

Fazer amor com o maior criminoso de Gothan é algo improvável mas quando esse criminoso é a pessoa que amamos transforma-se num prazer. As carícias, os beijos, as palavras segredadas ao ouvido faziam o meu corpo tremer por inteiro.

Estávamos na nossa suite habitual num luxuoso hotel, talvez o mais caro de Gothan. Para nós, o crime compensara e muito. Depois de uma festa alucinante, nada melhor que terminá-la na cama. Os nossos corpos eram perfeitos um para o outro.

-Amo-te, sabias?- segredei-lhe ao ouvido. Ele sorriu. Desta vez genuinamente. Há muito tempo que não o fazia.

Desde o nosso primeiro encontro naquela prisão psiquiátrica que ele mexera comigo. Fizera despertar o meu lado mais selvagem, mais louco. Um lado que eu não sabia que tinha. Ou talvez só estivesse adormecido, á espera do momento certo para sair. A partir daí, começou a minha aventura no mundo da loucura, da paixão, do crime e do poder. Perdera a conta às vezes que fora presa. Sempre numa cela de alta segurança como um animal do Zoo. «Perigo para a sociedade», «Risco de fuga» eram sempre os argumentos usados pelo juiz no final de cada julgamento. Quando não tinham argumentos, inventavam. Mas depois, acabava sempre em liberdade. Ia para um programa de reabilitação, que terminava sempre de mesma maneira. Voltava para a prisão.

Até que um dia decidimos fazer uma pausa no crime. Dar uma folga às autoridades. Moderar o nosso estilo de vida, já de si bastante excêntrico. Ele sempre vestido com roupas coloridas, cabelo pintado de verde e um ar misterioso. Eu também vestia coisas coloridas, mas sempre com um toque provocante e sensual. Comecei com um fato vermelho e preto com um chapéu de guizos e uma máscara preta. Depois passei para uns calções curtos, um top sem mangas, botas altas e totós rosa e azul. A maquilhagem também se tornara mais chamativa. Tudo para o impressionar. Não éramos casados mas era como se fôssemos. Apesar disso, outros homens podiam aproximar-se e ver, não podiam tocar. Esse privilégio era só dele.

Agora, naquela suite de hotel, parecíamos um casal como outro qualquer. Apenas a celebrar a vida e o amor. Levantei-me e fui á casa de banho. Sempre com um sorriso maroto. Gostava de o provocar. Ele segui-me e envolvemo-nos de novo. Desta vez, na banheira entre a espuma e os sais de banho. O calor da água confundia-se com o calor dos nossos corpos tal era o desejo de nos tocarmos, de nos amarmos.  

Quando a energia se gastou, já mais arrefecidos e vestidos, voltámos para a cama. Antes de adormecermos, olhámos um para o outro. O olhar dele era profundo, mas apaixonado. Finalmente encontrara a mulher perfeita para partilhar as suas loucuras. Beijei-o mais uma vez antes de fechar os olhos e adormecer abraçada ao seu peito quente.

Na manhã seguinte, ainda parecia estar a sonhar. Era como se não existisse mais nada para além de nós. Sentia-me a flutuar, sempre que me via a cair, ele amparava-me e sorria. O brilho no seu olhar dizia tudo. O amor era belo e o mundo também. Levantei-me e fui á casa de banho. Não tardou muito para que ele se juntasse a mim como fizera na noite anterior. Abraçou-me e sussurrou o meu nome baixinho como se me quisesse acordar. «Harley». «Pára!» disse, sorrindo. Mas ele continuava «Harley». De repente, tudo começou a andar á roda. A casa de banho transformou-se numa discoteca com luzes e cores brilhantes. Aquilo continuou até voltar a ouvir o sussurro «Harley» chamava a voz, como se me quisesse trazer de volta á realidade.

Acordei muito sobressaltada. Olhei em volta. Ainda estava na suite do hotel. As cortinas estavam fechadas, mas havia um fio de luz a espreitar entre elas. Saí da cama devagar e abri-as. A vista da cidade ainda era a mesma mas com mais luz. Depois olhei para a cama. Os lençóis ainda estavam mexidos. Sorri. Aproximei-me para o acordar mas ele já lá não estava. Deduzi que estivesse na casa de banho. Fui até lá mas estava vazia.

Confusa, sentei-me na borda da cama. Só então me apercebi de um papel dobrado na mesa-de-cabeceira. Era um bilhete. Peguei nele, abriu-o e li-o. Dizia apenas «Volto já». No canto da folha tinha o símbolo de umas asas e as iniciais AC. «Deve ser do hotel» Pensei pousando o papel na mesa.

Arranjei-me minimamente e desci para tomar o pequeno-almoço. A noite passada abrira-me o apetite. Sentei-me perto da janela do restaurante do hotel com um tabuleiro de comida. Só no hotel conseguia comer assim. Normalmente, comia muito pouco.

Depois do pequeno-almoço, voltei para o quarto na esperança de o encontrar á minha espera, impaciente para começarmos mais uma aventura, mas não estava ninguém. Apenas o serviço de limpeza tinha passado por lá. Sentei-me na cama, confusa. De repente, senti um enjoo e fui a correr para a casa de banho. «A ressaca foi maior do que o esperado» Pensei. «Não devia ter comido tanto». Passei a cara por água depois de puxar o autoclismo. Olhei-me ao espelho. Tinha um ar péssimo. Quando não tinha maquilhagem, podia ver os contornos do meu rosto. Ligeiramente bicudo no queixo, olhos castanhos, cabelo comprido claro, ainda com restos de tinta nas pontas.

Voltei para o quarto e sentei-me novamente na cama. Sentia-me melhor, apesar de ainda estar fraca por causa de ter vomitado. Precisava de comer qualquer coisa, mas tinha receio que voltasse a enjoar por isso decidi não arriscar.

Passado um bocado, baterem á porta. Levantei-me de um salto. Fui abrir, ansiosa que fosse ele. Abri a porta e o meu sorriso desvaneceu. Para minha desilusão, era uma mulher. Lembrava-me de já a ter visto mas nãos sabia onde. Era mais robusta que eu, tinha o cabelo grisalho, apanhado num toutiço, olhos leitosos de uma avó. Usava um vestido simples e sapatos rasos. Entrou no quarto fechando a porta. Sentou-se na cadeira perto da janela. Voltei a sentar-me na cama. De repente, o enjoo voltou e fui novamente a correr para a casa de banho. Entrei no quarto ainda zonza mas melhor.

-Há quanto tempo é que estás enjoada?- Perguntou a mulher quebrando o silêncio.

Respondi com uma voz fraca:

- Desde esta manhã. Deve ser da ressaca de ontem. Não me devia ter empanturrado daquela maneira ao pequeno-almoço.-

Ela sorriu. Tirou do bolso uma caixa com um teste de gravidez da farmácia. Deu-mo e disse:

-Vai á casa de banho e faz o teste. Acho que a ‘ressaca’ tem outro nome.- Acrescentou: -Para o caso de estares esquecida, sou a Margaret.-

Agora já me lembrava de onde a conhecia! Era a directora da prisão onde conhecera o Joker. Mas como é que ela sabia que estava ali? Afastei este pensamento e fui para casa de banho como mandado. Abri a caixa e tirei o aparelho que parecia um termómetro. Depois, li as instruções. Só tinha de urinar para uma das partes e esperar cinco minutos. Se aparecesse um traço estava grávida e não aparecesse nada era da ressaca. Passado cinco minutos, olhei para o aparelho. Numa das partes, estava um traço negro. Fiquei confusa. Esperei que voltasse a ficar branco e repeti o teste. O traço voltou a aparecer. Saí da casa de banho e abracei-me a Margaret que me afagou a cabeça. Chorei durante um bocado no seu colo.

Passado um bocado e já mais calma, levantei a cabeça e fiquei de joelhos no chão do quarto. Limpei os olhos e perguntei:

-Como é que isto aconteceu de um dia para o outro? E porque é que estás aqui? Mais importante, porque é que ele não está aqui? Como é que me encontraste?-

Margaret sorriu antes de responder:

-Eu estou aqui porque tu me pediste para vir ou já te esqueceste que eu te encontrei a deambular pela cidade meia bêbeda e enjoada à procura dele?- Acrescentou:- Também foste tu que me pediste para arranjar o teste de gravidez pois estavas desconfiada.- Rematou:

-Depois, trouxe-te para aqui e fui comprar o teste.-

Fiquei confusa e perguntei:

-Quando é que isso aconteceu? A última coisa que me lembro foi de estar aqui com ele ontem à noite.-

Margaret fez uma expressão de surpresa antes de responder:

-Então, alguém te deve ter posto alguma coisa na bebida ou então sonhaste porque ontem à noite ligaste-me aflita porque tinhas encontrado um bilhete com um símbolo esquisito escrito por ele. Disseste que era habitual ele sair sem avisar durante algum tempo, mas como já tinham passado alguns dias desde que encontraste aquele bilhete, estavas a ficar preocupada, então vim e saímos à sua procura novamente.- Acrescentou:

-No final das buscas, como não o encontramos, entrámos num bar e, apesar dos meus avisos em relação à desconfiança de gravidez, tu bebeste até não aguentares. Tive de te trazer de volta quase arrastada. Adormeceste mal eu te pus na cama.-

Levantei-me e fui à mesa-de-cabeceira. O bilhete estava lá, a folha estava amachucada e com marcas de lágrimas depois de uma melhor observação. Tinha-o mesmo visto antes. Mas como era possível não me lembrar? Estaria assim tão fora de mim? Virei-me para Margaret e, com um ar desesperado, perguntei:

-Há quanto tempo estou aqui? E quando foi a festa a que fui com o Joker?-

Ela respondeu serenamente:

-Foi há mais ou menos duas semanas.-    

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana. 

Bjs 

Joana 


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