Olá
Aqui fica o capítulo da semana.
Espero que gostem.
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XI
Reencontros
Quando regressou
ao armazém, Jerome já tinha saído. Só Arthur ainda continuava no mesmo sítio.
Sem lhe ligar muito, Às tirou um telemóvel do bolso. Era descartável e só tinha
um número. Sorriu desafiadora para Arthur enquanto digitava uma mensagem.
Fizera questão de o fazer á frente dele, queria certificar-se que ele a via, só
para o provocar. Caminhou até ele com o telemóvel na mão. Aproximou-se o
suficiente para lhe sussurrar que em breve a sua querida estaria ali.
Acabara de lhe
confirmar as suspeitas. Aquela rapariga tinha mesmo alguma ligação com ele e
com a Harley. Em breve tudo estaria esclarecido.
…
Nesse
momento, o telemóvel tocou. Peguei-lhe e tinha uma mensagem de um número
desconhecido. Abri-a e eram coordenadas. Mostrei a Ivy. Tínhamos encostado o
carro perto de um posto de abastecimento para desentorpecer as pernas.
-O
que achas que é?- Perguntou, embora já fizesse uma ideia da resposta.
-Parece
ser um armazém.- Respondi, olhando com mais atenção.
Abastecemo-nos
de sandes e bebidas que iam servir por pelo menos mais uma semana. O dinheiro
acumulado ao longo dos anos através dos nossos actos ilícitos valera a pena.
Afinal, o velho ditado de que o crime não compassava não fazia sentido.
Pus
as coordenadas no GPS e arrancámos logo de seguida.
…
Às estava
impaciente. Queria que chegassem naquele momento. Arthur estava mesmo á entrada
do armazém para que o visse assim que entrasse. Não queria que tivesse pena nem
que ficasse chocada, apenas que visse o que tinha feito e que, talvez, a
reconhecesse. Só queria a sua amiga de volta, mas parecia-lhe muito improvável.
Sabia que aquele já não era o seu ponto fraco. Se o tivesse feito há alguns
anos talvez fosse diferente. Naquela altura, eram ambas obcecadas por ele.
Agora, era apenas ela.
…
Estava
ansiosa e expectante ao mesmo tempo. Queria muito voltar a ver a Sam. Tinha
tanta coisa para lhe perguntar! Era um misto de felicidade e insegurança. Ivy
deu-me a mão e sorriu. Estaria sempre ali para tudo.
Parámos
á porta do armazém. Ivy olhou-me como se perguntasse se queria que fosse com ela.
Olhei-a de volta. Desta vez, tinha de ir sozinha. Ela estava ali se precisasse.
Saí do carro com o meu bastão e uma pistola. O meu olhar era determinado mas
nervoso ao mesmo tempo. Avancei com prudência, não sabia o que iria acontecer.
As minhas mãos tremiam. Lembrei-me de quando entrei em casa da Margaret. A
sensação era parecida. O desconhecido, o não saber com o que pode contar.
Abri
a porta do armazém. O que vi deixou-me perplexa e divertida ao mesmo tempo. O Joker estava sentado e amarrado numa cadeira.
As amarras já estavam laças de tanto se tentar libertar. Não sei porque ainda
não o tinha feito. Devia estar á espera de uma explicação, pelo ar de surpresa
com que ficou quando me viu. Fiz um grande esforço para não me rir. Tinha as
suas roupas de Joker e restos de
maquilhagem. Uma figurinha patética como todas as que fizera.
Ignorei-o
e avancei pelo armazém. Levei a mão á arma que escondera por baixo dos calções.
Tirei-a por precaução. Olhei em volta. Apesar de ter pouca luz, conseguia
distinguir silhuetas de equipamentos informáticos. Não deviam ser dela. Havia
mais alguém. Um cúmplice, talvez. Continuei. Os meus passos eram cautelosos mas
determinados. Não queria ter surpresas, mas sabia que se as tivesse, Ivy
estaria ali num segundo.
«Harley» uma voz familiar trouxe-me para
a realidade. Chamei no meio da semiobscuridade:
-Sam?
És tu? Aparece!-
Apontei
a pistola á toa pelo espaço como a polícia sempre que invadia um esconderijo.
De repente, estava a sussurrar como eles faziam. Ao longo de todos aqueles
anos, parecia um filme que vira várias vezes, até as falas sabia de cor. «Vamos
conversar, tem de haver outra maneira.» Todos os clichés habituais mas que continuavam a fazer sentido. Pus o dedo
ao pé do gatilho, não tinha intensão de disparar apenas assustar. Nunca tinha
disparado na vida. Ele nunca fizera questão de me ensinar e eu nunca tivera
curiosidade em aprender. Sempre me dera bem com outro tipo de armas. O tiro não
er para mim. Mas, naquele momento, parecia a única saída. Ouvi um ruido vindo
de muito perto do sítio onde estava. Deduzi que devia estar escondida por ali,
por isso avancei. Se fosse com cuidado e fizesse o mínimo de barulho, podia
apanha-la desprevenida.
-Aparece!-
Gritei de arma em riste. -Eu sei que estás aí!-
Do
meio da escuridão, surgiu um vulto. Aproximou-se hesitante. Arregalei os olhos
quando se iluminou por uma fisga de luz que entrava por entre as tábuas do
tecto. Estava exactamente como naquela altura. O corpo era de mulher, a
cicatriz que marcava a cara denunciava a mudança, mas a expressão ainda era a
mesma daquela menina. Ao vê-la, a pistola caiu com um barulho seco. Depois, caí
de joelhos a chorar. Todos aqueles meses desabaram em cima de mim. Ela
aproximou-se e abraçou-me. Senti-a a chorar também. Por um momento, voltámos a
ser aquelas jovens universitárias cheias de sonhos. Parecia que o tempo não
tinha passado e estávamos de novo no quarto da residência a fazer planos.
Sussurrei-lhe
ao ouvido, passado um bocado, voltando á realidade: «Desculpa por tudo, a
sério. Não queria que isto tivesse acontecido.» Ela libertou-se do abraço e de
olhos húmidos, confortou-me: «Não tens de te desculpar, se há uma culpada aqui
sou eu.» Mas ambas sabíamos que o único culpado era o homem amarrado na entrada
do armazém.
Cabisbaixa,
contou-me tudo pelo que passara. Depois de deixar a universidade, passou a ser
a mascote do Joker. Era sempre a isca
em todos os seus crimes. Nunca eram apanhados pela polícia ou pelo Batman por causa dela. Até ao dia em que
alguém os denunciou e o Batman
apareceu. Desviei o olhar, sentindo-me culpada. Ela pôs-me a mão no ombro. Já
percebera há muito tempo que fora eu a denuncia-los mas não guardava rancor.
Afinal, só queria ajudar.
Era
um assalto a um banco e houve uma perseguição. O carro onde seguiam despistou-se.
O Joker conseguiu sair mas ela ficou
presa e foi deixada para trás. Deu-se uma grande explosão por causa do contacto
da gasolina com o ar e a parte eléctrica. Foi dada como morta e o caso foi
encerrado. Mas não estava. Quando acordou. Estava naquele armazém com um homem
chamado Jerome. Trouxera-a para ali e cuidara dela. Mas tarde, descobrira que
ele fazia parte de uma organização secreta chamada Asas de Cristal que tinha
alguns negócios com o Joker. Armas e
droga essencialmente. Aquele era um dos muitos armazéns onde guardavam a
mercadoria. Foi nessa altura que decidiu vingar-se. Investigou e descobriu que
ele tinha sido mandado para uma cadeia especial de doentes mentais. Ouvira
falar de mim e ficou curioso, por isso mandou que a directora da prisão me
contratasse para um estágio.
A
partir daí, fui eu a contar o que se passara. Entrei para um estágio e saí como
uma louca. Primeiro, o fascínio, a curiosidade, depois a paixão forte e
avassaladora e por fim o vício. Ambos precisávamos um do outro. Era como uma
droga. Sentia-me plena quando íamos para a cama e frustrada quando nos
separávamos. Entrava em quase abstinência. Tudo servia para aliviar aquele
ímpeto. Sempre que estávamos juntos só nos suportávamos sob o efeito de alguma
coisa. Álcool, drogas ou outra coisa qualquer. Eram raros os momentos em que
estávamos sóbrios. Nessas alturas, só havia espaço para a humilhação e
violência. A paixão transformara-se em loucura e o resultado foram as inúmeras
prisões. Em todas elas, eu planeava a minha vingança. Mas de todas as vezes
caía novamente na sua conversa.
Perdi-me
novamente nos meus pensamentos e ela compreendeu-me. Não era fácil recordar
tudo aquilo. Trouxe-me á realidade quando me perguntou se já tinha
ultrapassado. Contei-lhe que encontrara alguém que me fizera acreditar
novamente no amor. Não precisei de lhe fazer a pergunta, percebera logo que
Jerome era alguém importante.
De
repente, ouviu-se um barulho. Levantamo-nos. Sam olhou-me aflita. Sosseguei-a.
-Quando
estava a entrar, espalhei bombas por todo o armazém. Devem ser detonadas daqui
a pouco tempo. Só te peço que saias antes disso.-
Sam
recomeçou a chorar.
-E
tu?- Perguntou entre soluços.
Respondi
novamente com algumas lágrimas nos olhos:
-Não
te preocupes. Vai correr tudo bem.-
Sam
precipitou-se para a saída, mas antes disse:
-Pega
nas malas que estão aí. É todo o dinheiro que o Joker ganhou com as Asas de Cristal. Deve dar para cobrir alguns
estragos.-
Olhei
para o lado e lá estavam. Quatro malas de metal. Sorri. Depois, Sam começou a
correr sem olhar para trás. Foi ao encontro de Jerome que a esperava num carro
ali perto. Arrancaram logo de seguida.
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Bjs
Joana