sexta-feira, 1 de abril de 2022

Asas de Cristal- XI- Reencontros

 Olá

Aqui fica o capítulo da semana. 

Espero que gostem.

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XI

Reencontros

Quando regressou ao armazém, Jerome já tinha saído. Só Arthur ainda continuava no mesmo sítio. Sem lhe ligar muito, Às tirou um telemóvel do bolso. Era descartável e só tinha um número. Sorriu desafiadora para Arthur enquanto digitava uma mensagem. Fizera questão de o fazer á frente dele, queria certificar-se que ele a via, só para o provocar. Caminhou até ele com o telemóvel na mão. Aproximou-se o suficiente para lhe sussurrar que em breve a sua querida estaria ali.

Acabara de lhe confirmar as suspeitas. Aquela rapariga tinha mesmo alguma ligação com ele e com a Harley. Em breve tudo estaria esclarecido.

Nesse momento, o telemóvel tocou. Peguei-lhe e tinha uma mensagem de um número desconhecido. Abri-a e eram coordenadas. Mostrei a Ivy. Tínhamos encostado o carro perto de um posto de abastecimento para desentorpecer as pernas.

-O que achas que é?- Perguntou, embora já fizesse uma ideia da resposta.

-Parece ser um armazém.- Respondi, olhando com mais atenção.

Abastecemo-nos de sandes e bebidas que iam servir por pelo menos mais uma semana. O dinheiro acumulado ao longo dos anos através dos nossos actos ilícitos valera a pena. Afinal, o velho ditado de que o crime não compassava não fazia sentido.

Pus as coordenadas no GPS e arrancámos logo de seguida.

Às estava impaciente. Queria que chegassem naquele momento. Arthur estava mesmo á entrada do armazém para que o visse assim que entrasse. Não queria que tivesse pena nem que ficasse chocada, apenas que visse o que tinha feito e que, talvez, a reconhecesse. Só queria a sua amiga de volta, mas parecia-lhe muito improvável. Sabia que aquele já não era o seu ponto fraco. Se o tivesse feito há alguns anos talvez fosse diferente. Naquela altura, eram ambas obcecadas por ele. Agora, era apenas ela.

Estava ansiosa e expectante ao mesmo tempo. Queria muito voltar a ver a Sam. Tinha tanta coisa para lhe perguntar! Era um misto de felicidade e insegurança. Ivy deu-me a mão e sorriu. Estaria sempre ali para tudo.

Parámos á porta do armazém. Ivy olhou-me como se perguntasse se queria que fosse com ela. Olhei-a de volta. Desta vez, tinha de ir sozinha. Ela estava ali se precisasse. Saí do carro com o meu bastão e uma pistola. O meu olhar era determinado mas nervoso ao mesmo tempo. Avancei com prudência, não sabia o que iria acontecer. As minhas mãos tremiam. Lembrei-me de quando entrei em casa da Margaret. A sensação era parecida. O desconhecido, o não saber com o que pode contar.

Abri a porta do armazém. O que vi deixou-me perplexa e divertida ao mesmo tempo. O Joker estava sentado e amarrado numa cadeira. As amarras já estavam laças de tanto se tentar libertar. Não sei porque ainda não o tinha feito. Devia estar á espera de uma explicação, pelo ar de surpresa com que ficou quando me viu. Fiz um grande esforço para não me rir. Tinha as suas roupas de Joker e restos de maquilhagem. Uma figurinha patética como todas as que fizera.

Ignorei-o e avancei pelo armazém. Levei a mão á arma que escondera por baixo dos calções. Tirei-a por precaução. Olhei em volta. Apesar de ter pouca luz, conseguia distinguir silhuetas de equipamentos informáticos. Não deviam ser dela. Havia mais alguém. Um cúmplice, talvez. Continuei. Os meus passos eram cautelosos mas determinados. Não queria ter surpresas, mas sabia que se as tivesse, Ivy estaria ali num segundo.

«Harley» uma voz familiar trouxe-me para a realidade. Chamei no meio da semiobscuridade:

-Sam? És tu? Aparece!-

Apontei a pistola á toa pelo espaço como a polícia sempre que invadia um esconderijo. De repente, estava a sussurrar como eles faziam. Ao longo de todos aqueles anos, parecia um filme que vira várias vezes, até as falas sabia de cor. «Vamos conversar, tem de haver outra maneira.» Todos os clichés habituais mas que continuavam a fazer sentido. Pus o dedo ao pé do gatilho, não tinha intensão de disparar apenas assustar. Nunca tinha disparado na vida. Ele nunca fizera questão de me ensinar e eu nunca tivera curiosidade em aprender. Sempre me dera bem com outro tipo de armas. O tiro não er para mim. Mas, naquele momento, parecia a única saída. Ouvi um ruido vindo de muito perto do sítio onde estava. Deduzi que devia estar escondida por ali, por isso avancei. Se fosse com cuidado e fizesse o mínimo de barulho, podia apanha-la desprevenida.

-Aparece!- Gritei de arma em riste. -Eu sei que estás aí!-

Do meio da escuridão, surgiu um vulto. Aproximou-se hesitante. Arregalei os olhos quando se iluminou por uma fisga de luz que entrava por entre as tábuas do tecto. Estava exactamente como naquela altura. O corpo era de mulher, a cicatriz que marcava a cara denunciava a mudança, mas a expressão ainda era a mesma daquela menina. Ao vê-la, a pistola caiu com um barulho seco. Depois, caí de joelhos a chorar. Todos aqueles meses desabaram em cima de mim. Ela aproximou-se e abraçou-me. Senti-a a chorar também. Por um momento, voltámos a ser aquelas jovens universitárias cheias de sonhos. Parecia que o tempo não tinha passado e estávamos de novo no quarto da residência a fazer planos.

Sussurrei-lhe ao ouvido, passado um bocado, voltando á realidade: «Desculpa por tudo, a sério. Não queria que isto tivesse acontecido.» Ela libertou-se do abraço e de olhos húmidos, confortou-me: «Não tens de te desculpar, se há uma culpada aqui sou eu.» Mas ambas sabíamos que o único culpado era o homem amarrado na entrada do armazém.

Cabisbaixa, contou-me tudo pelo que passara. Depois de deixar a universidade, passou a ser a mascote do Joker. Era sempre a isca em todos os seus crimes. Nunca eram apanhados pela polícia ou pelo Batman por causa dela. Até ao dia em que alguém os denunciou e o Batman apareceu. Desviei o olhar, sentindo-me culpada. Ela pôs-me a mão no ombro. Já percebera há muito tempo que fora eu a denuncia-los mas não guardava rancor. Afinal, só queria ajudar.

Era um assalto a um banco e houve uma perseguição. O carro onde seguiam despistou-se. O Joker conseguiu sair mas ela ficou presa e foi deixada para trás. Deu-se uma grande explosão por causa do contacto da gasolina com o ar e a parte eléctrica. Foi dada como morta e o caso foi encerrado. Mas não estava. Quando acordou. Estava naquele armazém com um homem chamado Jerome. Trouxera-a para ali e cuidara dela. Mas tarde, descobrira que ele fazia parte de uma organização secreta chamada Asas de Cristal que tinha alguns negócios com o Joker. Armas e droga essencialmente. Aquele era um dos muitos armazéns onde guardavam a mercadoria. Foi nessa altura que decidiu vingar-se. Investigou e descobriu que ele tinha sido mandado para uma cadeia especial de doentes mentais. Ouvira falar de mim e ficou curioso, por isso mandou que a directora da prisão me contratasse para um estágio.

A partir daí, fui eu a contar o que se passara. Entrei para um estágio e saí como uma louca. Primeiro, o fascínio, a curiosidade, depois a paixão forte e avassaladora e por fim o vício. Ambos precisávamos um do outro. Era como uma droga. Sentia-me plena quando íamos para a cama e frustrada quando nos separávamos. Entrava em quase abstinência. Tudo servia para aliviar aquele ímpeto. Sempre que estávamos juntos só nos suportávamos sob o efeito de alguma coisa. Álcool, drogas ou outra coisa qualquer. Eram raros os momentos em que estávamos sóbrios. Nessas alturas, só havia espaço para a humilhação e violência. A paixão transformara-se em loucura e o resultado foram as inúmeras prisões. Em todas elas, eu planeava a minha vingança. Mas de todas as vezes caía novamente na sua conversa.

Perdi-me novamente nos meus pensamentos e ela compreendeu-me. Não era fácil recordar tudo aquilo. Trouxe-me á realidade quando me perguntou se já tinha ultrapassado. Contei-lhe que encontrara alguém que me fizera acreditar novamente no amor. Não precisei de lhe fazer a pergunta, percebera logo que Jerome era alguém importante.

De repente, ouviu-se um barulho. Levantamo-nos. Sam olhou-me aflita. Sosseguei-a.

-Quando estava a entrar, espalhei bombas por todo o armazém. Devem ser detonadas daqui a pouco tempo. Só te peço que saias antes disso.-

Sam recomeçou a chorar.

-E tu?- Perguntou entre soluços.

Respondi novamente com algumas lágrimas nos olhos:

-Não te preocupes. Vai correr tudo bem.-

Sam precipitou-se para a saída, mas antes disse:

-Pega nas malas que estão aí. É todo o dinheiro que o Joker ganhou com as Asas de Cristal. Deve dar para cobrir alguns estragos.-

Olhei para o lado e lá estavam. Quatro malas de metal. Sorri. Depois, Sam começou a correr sem olhar para trás. Foi ao encontro de Jerome que a esperava num carro ali perto. Arrancaram logo de seguida.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana    

 


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