quarta-feira, 15 de junho de 2022

O Diamante

 Olá

Hoje, resolvi trazer um 'update' de um texto antigo. Espero que gostem. 

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O Diamante

O Diamante era uns dos cafés mais elegantes da cidade de Paris. O orgulho dos seus proprietários, o casal Brouchart. Situado numa das avenidas mais movimentadas da cidade, virado para os Campos Elísios, um recanto agradável e sossegado para se passar um bocado a ler ou simplesmente a apreciar a vista com um café e um cigarro.

Fundado antes da guerra, pelos avós do Sr Brouchart, que viviam no sul de França mas com a crise, resolveram tentar a sorte na capital.

O espaço, de tamanho médio, tinha um balcão corrido de madeira com bancos altos, bem como um sem número de cadeiras espalhadas pela sala como pequenas ilhas num oceano de espelhos e luzes.

Sempre foi frequentado por todo o tipo de gente: artistas, políticos, militares de alta patente e outras pessoas importantes.

Chamava-se Diamante por causa da forma curiosa como os espelhos se dispunham na sala mas também por ter sido um achado no meio da parafernália de prédios naquela avenida. «Este vai ser o nosso diamante» dissera o Sr Bouchart na altura da compra. A mulher achou tanta piada ao nome que ficou até aos dias de hoje. 

A sua especialidade, para além dos cafés aromáticos, chás com sabores orientais e outras bebidas espirituosas, era o bolo de frutos vermelhos da Sra Brouchart. «Uma verdadeira maravilha!» diziam sempre as gentes que lá passavam a provar.

Uma receita antiga, do tempo dos seus avós que foi passando de geração em geração. E, como todas as receitas de família, também tinha um segredo que a Sra Brouchart dizia ser o amor e dedicação que punha no prato, mas todos sabiam que havia algo mais. Talvez as quantidades, tinham de ter uma certa medida para ficarem mesmo ao seu gosto. Ninguém o sabia dizer.

Todas as manhãs, antes da abertura, a Sra Brouchart ia para a cozinha preparar uma fornada para o dia. Era um momento sagrado. Ninguém podia entrar na cozinha, nem sequer o marido ou corria o risco de desconcentrar a cozinheira. «A cozinha é como uma oficina, se não estiver tudo organizado, as coisas não saem como desejado» dizia sempre antes de se retirar. Todo o esforço compensava. O agradável aroma doce que vinha da cozinha depois de cada fornada era irresistível e um chamariz para os clientes que vinham de todo o lado só para o provar.

Foi assim até rebentar a guerra. O casal teve de se refugiar nos EUA depois da invasão alemã. Estiveram em casa de uns familiares do Sr Brouchart que tinham um rancho.

Quando o conflito finalmente acabou e regressaram a casa apesar da insistência para ficarem. Já toda a gente se tinha rendido às receitas da Sra Bouchart e não queriam que se fosse embora. Mas tinha de ser.

A França ainda era o seu país. Despediram-se em lágrimas no porto de New Jersey. Chegaram a Paris passado um mês no mar. Já estavam enjoados de tanta água e foi uma alegria quando pisaram terra firme.

Apanharam um táxi até ao café. No caminho, viram uma cidade que tentava reeguer-se. Ainda com cicatrizes mas a reerguer-se. Foi um alívio ver que os estragos não eram muitos. Uma montra partida, umas quantas mesas e cadeiras reviradas, mas nada que o seguro não cobrisse. As memórias, essas, continuavam lá. Depois de uns pequenos arranjos, o café Diamante pôde voltar ao seu antigo esplendor e a Sra Brouchart aos seus maravilhosos e secretos bolos.  

Até ao dia em que conheceram Marie, uma menina órfã de guerra.

Naquela altura, era apenas uma criança mas já tinha qualquer coisa de especial. Nunca pensaram em ter filhos porque o trabalho no café os ocupava muito tempo e gostavam de pensar na comida como os seus filhos.

Marie era ruiva, caso raro em França. Olhos verdes de gata esperta. Vestido lilás com flores amarelas, uma estravagância mas que trazia alegria por onde passava. Apareceu á porta do café como um cão abandonado. Tinha perdido a família na guerra e mal falava com o trauma. A Sra Bouchart convidou-a a entrar e a provar uma fatia de bolo.

A pequena entrou timidamente. Sentou-se ao balcão. Olhou em volta. Espelhos, quadros e prateleiras com bebidas que ainda não podia experimentar, mas que achou graça ás cores e aos feitios das garrafas. Pequenas, grandes, estreitas e largas.

Quando veio o bolo, ficou a olhar para ele como se não quisesse acreditar que aquilo que vira da montra do lado de fora estava mesmo à sua frente. Provou e deliciou-se. A Sra Bouchart sorriu como sempre fazia, mas talvez desta vez com mais ternura, com a ternura de uma mãe. Adoptaram-na quase n mesmo dia.

Agora, era Marie Bouchart. Como estava feliz! Ia á escola durante o dia e aprendia a arte da confeitaria á tarde que por vezes se transformava em noite tal era o entusiasmo! Queria aprender sobre tudo! Os ingredientes, a massa, a confecção final. Virou uma ajudante da mãe em pouco tempo. A mãe passou-lhe o segredo de todos os bolos, até do de frutas, a grande especialidade do café.

Não tardou muito para que a filha começasse a fazer os seus próprios bolos a partir das receitas da mãe e a fazer sucesso entre os clientes. Em breve, o café deixou de ter espaço para as suas criações e para os seus clientes, por isso, quando fez 20 anos, os pais ofereceram-lhe o seu próprio café que ela carinhosamente chamou de Bouchart em homenagem á família que a acolhera e ao Diamante que a vira nascer como pasteleira.

A três quarteirões do dos pais, passou a ser o mais movimentado da cidade. Uma segunda geração do Diamante que se haveria de estender por muitas mais.    

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Bjs

Joana 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Excluídos - A Cápsula do Tempo

 Olá

Hoje, resolvi voltar áquela secção dos «Excluídos» e trazer-vos mais um. Desta vez, um conto. 

Espero que gostem. 

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A Cápsula do Tempo

Era mais um dia nas férias de Verão. Estava uma linda manhã de sol. Isabel acordou com os raios de luz a espreitarem por entre as cortinas da janela do quarto. Abriu os olhos devagar, ainda pouco habituada à luz intensa. Sentou-se na cama e espreguiçou-se.

Levantou-se e abriu a janela. A luz inundou o quarto de cor. Depois, foi para a casa de banho arranjar-se. Vestiu o seu vestido preferido, branco com flores cor-de-rosa e penteou o cabelo castanho. Por fim, calçou as sandálias.

Passado pouco tempo, ouviu a voz da mãe a chamá-la da cozinha que ficava no andar de baixo:

- Isabel, o pequeno-almoço está pronto! Anda comer!-

 Desceu as escadas alegremente para a cozinha onde se sentou ao pé da mãe para tomar o pequeno-almoço que mais gostava. Leite e cereais.

- Bom dia, Isabel.- Cumprimentou a mulher de olhos castanhos, como os seus, cabelo preto, vestida com uns calções azuis e uma t-shirt vermelha, sorrindo.

-Bom dia, mãe! – Respondeu a menina enquanto começava a comer.

Depois de acabarem de comer e de arrumarem a cozinha, a mãe disse:

- Preciso que me ajudes a arrumar umas coisas no sótão, por favor. Há muita coisa que se está a acumular e que já não precisamos.-

Isabel respondeu:

- Está bem, mãe.-

Seguiu-a até ao andar de cima da casa. Mesmo ao pé do quarto da mãe, havia outro lanço de escadas de madeira. Eram mais estreitas e davam para uma porta no tecto. Isabel já tinha reparado naquela porta mas nunca se atrevera a subi-la. O sótão parecia ser muito assustador. A mãe tranquilizou-a:

- Não precisas de ter medo, querida. Eu estou aqui contigo.-

Isabel corou de atrapalhação. Subiu as escadas atrás da mãe, que abriu a porta quando chegaram lá a cima. A mãe entrou primeiro para verificar que era seguro e para a deixar mais tranquila, e depois foi a vez da filha. O sótão não era muito grande, mas como estava cheio de coisas parecia ainda mais pequeno. Tinha o tecto inclinado e uma janela redonda por onde entrava alguma luz.

 Depois de entrarem, a mãe começou a dar as instruções:

- Muito bem, podes começar por ver o que há naquela pilha de caixas ali ao fundo ao pé da janela e eu vejo estas aqui mais ao pé da porta. Tudo o que achares que é para deitar fora, pões num monte que depois juntamos com as minhas e levamos lá para baixo.- 

Isabel assentiu e foi para o sítio que a mãe lhe indicou. Começou a mexer no meio das caixas cheias de pó que levantavam uma pequena neblina fazendo-a espirrar um pouco. Com cuidado para não partir nada. Distraiu-se a olhar pela janela quando viu um papagaio de papel ao longe e uma delas caiu no chão com um ruido seco, que levantou algum pó e a assustou. Baixou-se para a apanhar depois de desviar o pó com as mãos, mas estava entreaberta e algo caiu lá de dentro. Pousou a caixa ao pé das outras e foi apanhar o que caíra. Era uma folha de papel dobrada como os mapas dos tesouros piratas. Sempre gostara dessas coisas. Curiosa, resolveu abrir para ver o que era. Ficou surpresa com o que encontrara. Era uma espécie de mapa que representava o parque onde costumava brincar com menos árvores, mas com a grande ao centro perto da escola. De uns locais para os outros, tinha uma linha tracejada vermelha que ia dar a um local assinalado com um X.

Voltou a dobrar o mapa, aproximou-se da mãe que já quase arrumara as caixas, e perguntou:

- Mãe, que mapa é este? Posso ficar com ele?-

A mãe olhou para a folha e sorriu.

- Esse mapa foi desenhado pelo teu pai quando tinha mais ou menos a tua idade. Era uma brincadeira que costumávamos fazer. Escondíamos coisas no parque e depois íamos procurar como se fossem tesouros.- Acrescentou: -Era muito divertido, podes ficar com ele se quiseres.-

Isabel ficou entusiasmada.

- A sério? Obrigada!- Agradeceu Isabel. Acrescentou: -Mas como é que brinco a isto se não tenho nada escondido no parque?-

A mãe pensou um pouco antes de responder:

- Ora vejamos A maior parte dos objectos já lá não estão, mas acho que existe um que ias gostar de descobrir. Foi lá deixado pelo teu pai e por mim há muito tempo.-

Isabel sorriu. Depois, perguntou:

- Posso mostrar isto aos meus amigos? Acho que eles iam gostar.-

A mãe respondeu:

 - Claro que podes! Quantos mais forem a procurar mais divertido se torna!-

Isabel desceu as escadas entusiasmada depois de agradecer á mãe, mas com cuidado para não cair pois os degraus eram estreitos. Quando estava a chegar á sala, bateram á porta. Pousou o mapa na mesa da entrada e foi abrir.

Do outro lado, estava uma rapariga loura de olhos azuis vestida com um vestido lilás e umas sandálias castanhas. Era Leonor a sua melhor amiga.

- Bom dia, Isabel! – Cumprimentou ela.

-Bom dia.- Respondeu Isabel.

 Leonor acrescentou:

-Estava aqui perto e resolvi passar para te perguntar se queres vir ao parque.- Olhou para dentro de casa e viu as caixas.- O que estás a fazer? Espero não estar a atrapalhar.-

Isabel respondeu:

-Não atrapalhas nada! Claro que quero ao parque! Mas entra, quero mostrar-te uma coisa.-

Leonor agradeceu e entrou, depois de Isabel fechar a porta. Ao ver o mapa, ficou curiosa e perguntou:

- O que é aquilo?-

Isabel pegou nele e levou-o até à amiga que arregalou os olhos quando lhe mostrou.

- Parece ser um mapa com várias pistas para seguir, muito divertido. Onde o encontraste?-

A amiga respondeu:

- Foi no sótão. Estava a ajudar a minha mãe a juntar umas coisas para deitar fora e isto caiu. Era do meu pai quando era pequeno.-

Leonor olhou para o mapa. Perguntou novamente:

-E por onde começamos?-

Isabel explicou-lhe que havia um objecto perdido no parque para ser encontrado e só tinham de seguir os desenhos.

- Podíamos ir chamar os outros!- Sugeriu Leonor. – Assim, é mais divertido!-

Isabel concordou. Depois de avisar a mãe, saíram de casa e foram procurar os amigos para começarem a brincadeira.

O primeiro que encontraram foi, Duarte, um menino de cabelo ruivo e olhos verdes que vestia una calções castanhos e uma t-shirt azul. Tinha umas sandálias castanhas. Estava a sair de casa e foi logo ter com elas quando as viu.

-Olá, o que estão a fazer?- Perguntou curioso.

Leonor respondeu:

- Olá, a Isabel encontrou um mapa do tesouro e pensámos que seria divertido procurarmos o tesouro todos juntos. Queres juntar-te a nós?-    

Ele nem pensou duas vezes.

- Claro que quero! Isso parece divertido!-

E lá foram os três a caminho do parque. No caminho, Isabel explicou como funcionava o mapa a Duarte que ficou ainda mais entusiasmado com o tesouro no parque. 

Quando chegaram ao parque, encontraram Simão a ler um livro. Tinha o cabelo preto, olhos da mesma cor, usava uns calções azuis, uma t-shirt roxa e óculos redondos.

- Olá! – Cumprimentou quando os viu e depois de pousar o livro. Reparou no papel que Isabel trazia e ficou curioso:

– O que é isso que trazes aí, Isabel?-

Ela pousou o mapa em cima de uma mesa de merendas e abriu-o para que todos pudessem ver.

- É um mapa do tesouro! Encontrei-o esta manhã quando estava a ajudar a minha mãe a arrumar o sótão e achei que seria divertido procura-lo juntos!-

Simão sorriu.

-Também acho.-

Isabel olhou para o desenho do parque. Havia um tracejado até um relógio. Como eram três traços, presumiram que fossem três passos até á escola, já que era o único edifício que tinha um relógio. Foram para o pé da escola com o mapa em riste para se orientarem.

-Bom, os primeiros passos já demos. O que se segue?- Perguntou Duarte.

Isabel voltou a olhar para o desenho. Desta vez, a linha dividia-se em quatro e seguia até um conjunto de árvores que já não existiam por causa das obras no parque pelo que continuaram a seguir a linha do mapa. O caminho seguinte, dividido em cinco, levava-os até á árvore velha ao centro. Lá era o local do X onde estava o tesouro.

Aproximaram-se da árvore. A princípio, não viram nada, mas depois Isabel reparou num buraco no tronco.

-Vejam, acho que encontrei qualquer coisa!- Exclamou.

  Os outros foram logo ver o que era. Espreitaram para dentro do buraco e viram que tinha algo lá dentro. Isabel estendeu a mão e tirou um caixa de metal um pouco enferrujada. Tinha um desenho de uma bailarina na tampa.

Levaram a caixa para a mesa do parque. Isabel abriu-a com cuidado. Lá dentro, estavam vários objectos. Fotografias, pedaços de tecido, cadernos e desenhos.

-O que é isto?- Perguntou Leonor um pouco desiludida. Todos estavam admirados. De repente, Simão lembrou-se:

-Acho que sei o que isso é!- Todos olharam para ele que ficou atrapalhado. Acrescentou: -É uma cápsula do tempo.- Explicou.- Uma caixa onde se guardam coisas que gostamos para que outras pessoas possam encontrar e aprender como as pessoas viviam numa determinada época.-

Todos sorriram e concordaram que Isabel devia levar a caixa para casa pois o mapa era dela. Já estava a ficar tarde. O tempo passa mais depressa enquanto se estavam a divertir. Despediram-se e prometeram voltar a ver-se no dia seguinte.

Isabel chegou a casa e foi arrumar o mapa no quarto. Pousou a caixa na mesa da sala para mais tarde. Depois foi para a cozinha jantar com a mãe. Logo a seguir, foram para a sala e Isabel mostrou á mãe a caixa que encontrara no parque. A mãe sorriu ao lembrar-se.

-Estes das fotografias éramos eu e o teu pai quando éramos pequenos.-

Isabel perguntou:

-Achas que pudemos fazer uma cápsula do tempo como esta, mãe?-

A mãe respondeu:

-Claro que podes. Quando voltares á escola, fala nisso á tua professora, ela ajuda-vos.-

Ficaram mais um pouco a ver a caixa até serem horas de dormir.

Já na cama, a mãe aconchegou a filha e deu-lhe um beijo de boas noites. Antes de sair para também ir dormir, disse:

-Sabes, o teu pai deixou-me um grande tesouro e eu não podia estar mais feliz.-

Sorriram as duas.

-Boa noite, Isabel. Dorme bem.- Disse a mãe.

-Boa noite, mãe.-

Adormeceu pouco depois, feliz ao lembrar-se do dia maravilhoso que tivera com os amigos. Esses eram os seus verdadeiros tesouros.

Fim

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Vemo-nos por aí.

Bjs 

Joana