Olá
Hoje, resolvi trazer um 'update' de um texto antigo. Espero que gostem.
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O
Diamante
O Diamante era uns dos cafés mais elegantes da
cidade de Paris. O orgulho dos seus proprietários, o casal Brouchart. Situado
numa das avenidas mais movimentadas da cidade, virado para os Campos Elísios,
um recanto agradável e sossegado para se passar um bocado a ler ou simplesmente
a apreciar a vista com um café e um cigarro.
Fundado antes da guerra, pelos avós do Sr Brouchart,
que viviam no sul de França mas com a crise, resolveram tentar a sorte na
capital.
O espaço, de tamanho médio, tinha um balcão corrido
de madeira com bancos altos, bem como um sem número de cadeiras espalhadas pela
sala como pequenas ilhas num oceano de espelhos e luzes.
Sempre foi frequentado por todo o tipo de gente:
artistas, políticos, militares de alta patente e outras pessoas importantes.
Chamava-se Diamante por causa da forma curiosa como
os espelhos se dispunham na sala mas também por ter sido um achado no meio da
parafernália de prédios naquela avenida. «Este
vai ser o nosso diamante» dissera o Sr Bouchart na altura da compra. A
mulher achou tanta piada ao nome que ficou até aos dias de hoje.
A sua especialidade, para além dos cafés aromáticos,
chás com sabores orientais e outras bebidas espirituosas, era o bolo de frutos
vermelhos da Sra Brouchart. «Uma verdadeira
maravilha!» diziam sempre as gentes que lá passavam a provar.
Uma receita antiga, do tempo dos seus avós que foi
passando de geração em geração. E, como todas as receitas de família, também
tinha um segredo que a Sra Brouchart dizia ser o amor e dedicação que punha no
prato, mas todos sabiam que havia algo mais. Talvez as quantidades, tinham de
ter uma certa medida para ficarem mesmo ao seu gosto. Ninguém o sabia dizer.
Todas as manhãs, antes da abertura, a Sra Brouchart
ia para a cozinha preparar uma fornada para o dia. Era um momento sagrado. Ninguém
podia entrar na cozinha, nem sequer o marido ou corria o risco de desconcentrar
a cozinheira. «A cozinha é como uma
oficina, se não estiver tudo organizado, as coisas não saem como desejado»
dizia sempre antes de se retirar. Todo o esforço compensava. O agradável aroma
doce que vinha da cozinha depois de cada fornada era irresistível e um chamariz
para os clientes que vinham de todo o lado só para o provar.
Foi assim até rebentar a guerra. O casal teve de se
refugiar nos EUA depois da invasão alemã. Estiveram em casa de uns familiares
do Sr Brouchart que tinham um rancho.
Quando o conflito finalmente acabou e regressaram a
casa apesar da insistência para ficarem. Já toda a gente se tinha rendido às
receitas da Sra Bouchart e não queriam que se fosse embora. Mas tinha de ser.
A França ainda era o seu país. Despediram-se em
lágrimas no porto de New Jersey. Chegaram a Paris passado um mês no mar. Já
estavam enjoados de tanta água e foi uma alegria quando pisaram terra firme.
Apanharam um táxi até ao café. No caminho, viram uma
cidade que tentava reeguer-se. Ainda com cicatrizes mas a reerguer-se. Foi um
alívio ver que os estragos não eram muitos. Uma montra partida, umas quantas
mesas e cadeiras reviradas, mas nada que o seguro não cobrisse. As memórias,
essas, continuavam lá. Depois de uns pequenos arranjos, o café Diamante pôde voltar ao seu antigo
esplendor e a Sra Brouchart aos seus maravilhosos e secretos bolos.
Até ao dia em que conheceram Marie, uma menina órfã
de guerra.
Naquela altura, era apenas uma criança mas já tinha
qualquer coisa de especial. Nunca pensaram em ter filhos porque o trabalho no
café os ocupava muito tempo e gostavam de pensar na comida como os seus filhos.
Marie era ruiva, caso raro em França. Olhos verdes
de gata esperta. Vestido lilás com flores amarelas, uma estravagância mas que
trazia alegria por onde passava. Apareceu á porta do café como um cão
abandonado. Tinha perdido a família na guerra e mal falava com o trauma. A Sra
Bouchart convidou-a a entrar e a provar uma fatia de bolo.
A pequena entrou timidamente. Sentou-se ao balcão.
Olhou em volta. Espelhos, quadros e prateleiras com bebidas que ainda não podia
experimentar, mas que achou graça ás cores e aos feitios das garrafas.
Pequenas, grandes, estreitas e largas.
Quando veio o bolo, ficou a olhar para ele como se
não quisesse acreditar que aquilo que vira da montra do lado de fora estava
mesmo à sua frente. Provou e deliciou-se. A Sra Bouchart sorriu como sempre
fazia, mas talvez desta vez com mais ternura, com a ternura de uma mãe.
Adoptaram-na quase n mesmo dia.
Agora, era Marie Bouchart. Como estava feliz! Ia á
escola durante o dia e aprendia a arte da confeitaria á tarde que por vezes se
transformava em noite tal era o entusiasmo! Queria aprender sobre tudo! Os
ingredientes, a massa, a confecção final. Virou uma ajudante da mãe em pouco
tempo. A mãe passou-lhe o segredo de todos os bolos, até do de frutas, a grande
especialidade do café.
Não tardou muito para que a filha começasse a fazer
os seus próprios bolos a partir das receitas da mãe e a fazer sucesso entre os
clientes. Em breve, o café deixou de ter espaço para as suas criações e para os
seus clientes, por isso, quando fez 20 anos, os pais ofereceram-lhe o seu
próprio café que ela carinhosamente chamou de Bouchart em homenagem á família que a acolhera e ao Diamante que a vira nascer como
pasteleira.
A três quarteirões do dos pais, passou a ser o mais
movimentado da cidade. Uma segunda geração do Diamante que se haveria de estender por muitas mais.
E pronto. Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana