Olá
Bem sei que isto tem andado quieto. Mas é porque ainda não decidi que história hei-de publicar. Se uma fanficition ou algo meu.
No entretanto, podem sempre ler ou reler o que já foi publicado.
Bjs e até breve,
Joana
Olá
Bem sei que isto tem andado quieto. Mas é porque ainda não decidi que história hei-de publicar. Se uma fanficition ou algo meu.
No entretanto, podem sempre ler ou reler o que já foi publicado.
Bjs e até breve,
Joana
Artur
Boas-Noites
Sonha-se desde que o mundo é mundo. Desde que
existem pessoas. Desde que existe imaginação.
Os sonhos são aqueles momentos em que estamos só
connosco e onde tudo é possível. É por isso que é preciso que haja alguém que
tome conta deles. Que os distribua pelas pessoas certas depois de uma análise
diária e aprofundada das suas mentes, dos seus desejos mais profundos.
Há muito tempo, havia um caçador de sonhos e de
desejos que os recolhia em pó por todo o mundo e reunia-os num só local. Uma
pequena casa nas nuvens feita de pó de estrelas e de gotas de chuva.
Lá dentro, um laboratório com frascos e utensílios
para misturar os sonhos. Todos na dose certa, os sonhos e os pesadelos, senão é
uma desgraça! Se um pesadelo é misturado a mais, as pessoas ficam confusas e
podem acordar maldispostas e rabugentas.
Estas são as condições essenciais para se ser um
Guardião dos Sonhos. Assim era a vida de João Pestana. Um homem baixo, vestido
com as cores da noite de luar, cabelo da cor do céu de Verão e olhos da cor do
mar. Todos os dias, vestia-se de sol e ia analisar as vontades e desejos mais
profundos das pessoas. Os chamados sonhos acordados. Depois, era só anotar no
seu caderno de notas e procurar o pó da estrela certa. Não era fácil, mas o
Grande Livro dos Sonhos dava-lhe todas as indicações que precisava. Durante
todos aqueles anos, recolhera os desejos das pessoas e escrevia-os naquele
livro. Mesmo passados quase 1000 anos ainda escrevia nele. Havia sempre
qualquer coisa que era preciso acrescentar, novos desejos, novos sonhos, novas
estrelas. Só as mais brilhantes deixavam os melhores sonhos. As das sombras
traziam os pesadelos.
A receita era simples: meia dose de estrelas
brilhantes e uma pequena dose de estrelas sombrias. Tudo dentro do mesmo frasco
que era cuidadosamente colocado dentro do saco do João Pestana para ser
finalmente espelhado por cima de todas as casas do mundo para que todos
tivessem bons sonhos.
Até aquela altura, João Pestana sempre trabalhara
sozinho, mas era chegado o momento de ter alguém que o ajudasse. A idade também
chegava às criaturas dos sonhos. Assim, foi falar com a Fada Morgana, a
directora da Escola dos Sonhos para que o aconselhasse sobre quem poderia ser a
melhor pessoa para o ajudar.
Morgana era alta de cabelo louro e olhos azuis.
Vestia um vestido de estrelas e sapatos de cristal. João Pestana foi
encontra-la no seu gabinete na Escola dos Sonhos. Era uma sala ampla, com uma
janela para a rua e uma secretária. Ele sentou-se na cadeira em frente á dela e
contou-lhe o seu problema. Depois de pensar durante um bocado, Morgana disse:
-Precisas de um assistente, não haja dúvida e eu sei
quem poderão ser os candidatos. Segue-me.-
Foi atrás dela até uma sala onde estavam vários
rapazes sentados vestidos com o uniforme da escola. Um fato cinzento com uma
estrela ao peito.
-Estes são os melhores alunos da escola dos sonhos.-
Informou Morgana. – Escolhe aquele que achares mais qualificado.-
João Pestana franziu o sobrolho:
- E como faço isso? Não posso chegar aqui e
simplesmente escolher como se fossem objectos.-
Morgana concordou. Pensaram durante um bocado e João
Pestana exclamou:
- Já sei! Vou fazer um teste! Aquele que fizer o
sonho mais feliz fica com o lugar.-
Ela concordou. Assim fizeram. Reuniram todos os
candidatos numa outra sala da escola com balcões e todo o equipamento
necessário para fazer bons sonhos.
-Têm uma hora para fazer os sonhos. Aquele que fizer
o mais feliz é o meu assistente.- Declarou João Pestana.
A prova começou.
Os alunos reuniram os ingredientes que João Pestana
lhes dera. Todos queriam impressionar e fazer o sonho que lhes desse o lugar de
assistente.
No entanto, todos os alunos estavam concentrados em
seguir a receita á risca e nem se lembraram do mais importante. Quando a prova
terminou, João Pestana e Morgana recolheram os frascos com os sonhos preparados
pelos candidatos. Destaparam-nos e espalharam-nos para os testar. O pó saía dos
frascos e formava uma nuvem de estrelas que ficava a pairar sobre as cabeças
deles antes de desaparecer. Durante esse tempo, era possível ver o que cada um
tinha feito.
Brinquedos, carros, roupas, festas, coisas materiais
compunham os sonhos perfeitos. Todos com os mesmos sorrisos que costumava ver
durante o dia. Falsos e sem vida.
Foi então que João Pestana reparou num rapaz de
estatura média, cabelo preto e olhos da mesma cor. Vestido com o uniforme da
escola dos sonhos, que espreitava pela porta, muito curioso com o que se estava
a passar. Olhou para Morgana e perguntou:
- Quem é aquele rapaz? Parece curioso e
aventureiro.-
Morgana respondeu com um ar indiferente:
- É o Artur. Não é dos nossos melhores alunos, mas
sempre teve um espírito rebelde.-
João Pestana sorriu. Ele gostava de espíritos
rebeldes. Tinham sonhos mais felizes. Aproximou-se dele e perguntou sorrindo:
-Não queres fazer a prova também?-
Artur encolheu-se. Hesitou antes de responder:
- Gostava muito, mas a Directora acha que ainda não
estou preparado.-
João Pestana fez uma expressão surpresa. Depois,
disse:
- Bom, agora sou eu que te estou a pedir que faças a
prova. Aceitas?-
Artur sorriu e respondeu:
- Aceito.-
João Pestana conduziu-o até á sala da prova. Os
outros olharam-no com um ar surpreendido e curioso. Perante o olhar incrédulo
de Morgana, João Pestana anunciou:
- Vamos ter um novo candidato. O Artur.- Olhou para
ele e acrescentou: - Podes começar.-
O rapaz dirigiu-se ao balcão e leu com atenção a
lista dos ingredientes. Depois, pegou nos frascos, abriu-os e deitou o conteúdo
para um almofariz onde moeu até obter um pó dourado fino. De seguida,
juntou-lhe uma pitada de pó de pesadelo e meteu-o num outro frasco que entregou
a João Pestana.
Este recolheu-o cuidadosamente e espalhou-o por cima
da sua cabeça. A nuvem de pó formou-se e nela apareceu um jardim com flores de
várias cores a algumas árvores. Debaixo das árvores, grupos de crianças
brincavam enquanto outras corriam por entre as flores. A luz do sol enchia tudo
de cor. Os seus sorrisos eram tão genuínos que João Pestana se comoveu. Até
Morgana disfarçou uma lágrima ao canto do olho. Depois, desfez-se e voltou para
o frasco. João Pestana não precisou de ver mais sonhos. A sua decisão estava
tomada.
- É com muita alegria que anuncio o meu assistente.
O Artur.-
Todos ficaram surpresos, até Morgana, embora já
tivesse uma ideia do que ia acontecer. Acrescentou:
- Quando se faz um sonho, o mais importante não é o
seu conteúdo mas aquilo que nos faz sentir. Os sonhos são momentos em que
podemos ser o que quisermos. E o Artur mostrou exactamente o que procurava.-
Partiram nesse dia para casa de João Pestana.
No caminho, perguntou-lhe:
- Posso saber o teu nome todo? Se vais ser meu
assistente, deves ter um nome que fique na memória.-
Artur respondeu:
- O meu nome completo é Artur Boas-Noites.-
João Pestana sorriu.
- É um óptimo nome.-
Chegaram a casa de João Pestana mesmo a tempo da
hora de dormir. A oportunidade para Artur Boas-Noites mostrar o que valia,
agora numa situação real. Conduziu-o até ao seu laboratório. Artur ficou
maravilhado. Já tinha ouvido falar daquele sítio na escola, mas nunca pensou
que fosse tão impressionante. Não era muito grande, mas ainda assim acolhedor.
Tinha um balcão de madeira e uma grande colecção de frascos com pós de estrela
diferente. Também tinha páginas com notas espalhadas um pouco por todo o lado
e, no meio, num suporte de madeira, o Grande Livro dos Sonhos. Artur dirigiu-se
a ele, mas foi impedido por João Pestana.
- Primeiro, segues as notas dos papéis, depois logo
pesquisas no livro. Não queiras fazer tudo logo no primeiro dia.-
Artur assentiu com a cabeça. Foi para a frente do
balcão e leu as notas que estavam nos papéis ali perto. Depois, pegou nos pós
de estrelas e misturou-os cuidadosamente. Por fim, João Pestana colocou-os no
seu saco e saiu para os distribuir.
…
Durante o tempo que se seguiu, Artur Boas-Noites
ajudou João Pestana com as preparações dos sonhos. Mas, por mais que gostasse
do que fazia, sentia que lhe faltava qualquer coisa. Ver os pós de estrelas a
misturarem-se e coloca-los dentro dos frascos era uma coisa, mas sair para os
espalhar pelo mundo ou recolher informações durante o dia, era outra. Cada vez
que o seu Mestre saía, ele ficava a imaginar como seria andar a recolher a
analisar a informação sobre os desejos e as vontades das pessoas. O seu Mestre
costumava contar-lhe que essa tarefa não era fácil, uma vez que cada pessoa tem
desejos diferentes e que estes variam consonante estão mais contentes ou mais
tristes. É preciso estar atento a todos estes pormenores e saber analisá-los
muito bem antes de tomar notas.
-Com a informação que tenho, acho que consigo,
Mestre. Deixe-me ir uma vez que seja, por favor! Assim, posso aprender mais e,
quem sabe, fazer sonhos mais felizes.- Pedia, de vez em quando, Artur.
Porém, a resposta de João Pestana era sempre a
mesma:
- Ainda é muito cedo para isso. Quando chegar a
altura, logo virás comigo.-
Mas a altura certa não chegava e Artur começava a
achar que nunca chegaria. Até que, um dia, João Pestana veio falar com ele.
-Artur, estive a pensar e acho que está na altura de
vires comigo.-
Artur ficou contente. Perguntou, entusiasmado:
- A sério, Mestre? Posso mesmo ir?-
João Pestana sorriu e respondeu:
- Sim, podes. Prepara o teu saco. Partimos esta
noite.-
Artur Boas-Noites foi logo arrumar o seu saco, feliz
e entusiasmado por ir, finalmente, conhecer o mundo e o lugar onde eram
depositados os sonhos que fazia.
João Pestana deslocava-se numa nuvem de pó de
estrela. Era tão fina que parecia que voava. Artur Boas-Noites apoiou-se numa
das pontas da nuvem que partiu imediatamente. Atravessou o céu estrelado a uma
grande velocidade. Depois, percorreu as montanhas e os campos até chegar á
cidade. As luzes dos prédios faziam lembrar as estrelas mas mais brilhantes.
Artur estava fascinado com tudo. Era a primeira vez que via o mundo, por isso
achava tudo maravilhoso.
-Concentra-te no trabalho. Primeiro, espalhas os
sonhos, depois podemos dar uma volta para apreciares a paisagem.- Disse-lhe
João Pestana.
Artur assentiu e a viagem continuou. Passado pouco
tempo, pousaram em cima de um telhado. A noite estava calma e silenciosa como
as noites devem ser. De vez em quando, soprava uma brisa que os aconchegava.
Desceram da nuvem e foram directamente ás janelas da casa. Era um prédio com
vários andares pelo que começaram por cima e foram descendo.
João Pestana mostrou-lhe como se fazia. Primeiro,
encolheram, graças a um pó mágico, até ficarem do tamanho de um pirilampo.
Depois, era só espalhar os sonhos por cima das cabeças das pessoas adormecidas.
Artur acompanhou todo o processo e foi tomando notas para não se esquecer de
nada.
Depois de espalharem os sonhos por toda a cidade,
passaram às seguintes. João Pestana tinha uma lisa de todas as cidades e
localidades com pessoas do mundo e um itinerário que era preciso seguir. Artur
também tomou nota disso, mesmo sabendo que depois João Pestana lhe desse uma
cópia de tudo.
Concluída a tarefa, voltaram para casa para preparar
mais sonhos e a recolha de informações no dia seguinte. Só podiam dormir quando
todos também estivessem senão os sonhos não seriam felizes.
Na manhã seguinte, Artur voltou a acompanhar João
Pestana, desta vez com a sua roupa de dia, para recolher informações sobre os
desejos que os ajudavam a fazer os sonhos. Não era uma tarefa tão fácil quanto
parecia. Era preciso estar atento a tudo o que acontecia durante o dia para
depois se seleccionar os momentos mais marcantes.
- Estás a ver?- Perguntou João Pestana certa vez
quando foram recolher informação. – Aquele gosta de comer bolos e o outro de
ouvir música, já aquele ali prefere tirar fotografias.-
Artur tomava nota de tudo o que o seu Mestre lhe dizia
e depois quando chegasse a casa, a preparação dos sonhos era mais fácil.
E assim se foram passando os dias, até que houve um
que mudou tudo.
…
Nesse dia, estava calor. Era Verão. Os sonhos estão
mais brilhantes. É aquela altura do ano em que andamos mais sonolentos e por
isso sonha-se mais, o que significa mais trabalho para João Pestana e Artur
Boas-Noites.
-Detesto esta altura!- Queixava-se o Mestre. –
Quando acho que vem aí uma folga é quando há mais trabalho!- Isto nunca pára!-
Artur gostava de fazer os sonhos do Verão. Davam
para perspectivar o resto do ano mas também para fazer balanços sobre o que
correra menos bem. Havia sempre um desejo por cumprir. Mas era para isso que
eles existiam, para os depositar na mente para mais tarde se concretizarem, o
que acontecia na maior parte das vezes.
Saíram como sempre para espalharem os sonhos. Na
volta, Artur dera pela falta do seu caderno de notas e voltou atrás para o ir
buscar. João Pestana sempre lhe dissera para não olhar para trás depois de cumprida
a tarefa, mas ele não conseguiu evitar.
Da janela de uma casa, vislumbrou um vulto de uma
rapariga. Era loura de olhos azuis e vestia um vestido simples florido. Não
conseguia dormir, então viera á janela tomar um pouco de ar fresco da noite.
Ao vê-la, Artur sentiu um aperto no peito e quase
perdeu o equilíbrio a voar. Queria comtempla-la durante toda a noite, mas João
Pestana logo o chamou e ele foi-se embora dali tão depressa como apareceu. No
entanto, o aperto no peito não desapareceu. Cada vez que pensava na rapariga
dos olhos azuis, parecia que o mundo ia desabar.
A partir daquele dia, Artur nunca mais foi o mesmo.
Distraía-se com facilidade a preparar os sonhos e as notas eram tiradas á
pressa. Sempre que saíam, queria ficar mais um pouco para procurar uma certa
casa onde morasse uma certa rapariga. João Pestana fez logo o diagnóstico
daquela estranha doença que o afligia: amor. Artur estava irremediavelmente
apaixonado por aquela rapariga.
Um dia, sem que ele notasse, foi falar com Morgana.
Esta riu-se quando lhe contou.
-É perfeitamente natural que isso aconteça. Ele está
na idade!- Disse-lhe.
João Pestana estava surpreendido. Nunca pensou que
Morgana ficasse contente por saber que o seu aprendiz estivesse apaixonado por
uma rapariga humana.
Acrescentou num tom mais sério:
- Mas sendo humana, temos um grande problema.-
João Pestana concordou. Toda a gente sabia que uma
criatura dos sonhos não se podia apaixonar nem ficar amigo de um humano, seria
o fim do segredo dos sonhos.
-Preciso de arranjar uma solução. Por isso vim pedir
ajuda.- Disse João Pestana. O seu olhar era suplicante.
Morgana comoveu-se com a sua preocupação. O tempo de
convivência com Artur fizera com que ele o visse como um filho.
-Deixa-me ver o que posso fazer.- Disse ela. – Deve
haver alguma coisa. Vem cá daqui a alguns dias. Nessa altura, dir-te-ei o que
fazer.-
João Pestana agradeceu.
Voltou para casa ainda apreensivo, mas não podia
dizer nada a Artur para não o preocupar. Por isso, entrou com o seu sorriso
habitual no laboratório.
Durante os dias que se seguiram, Morgana e João
Pestana procuraram uma solução para Artur. Não queriam que ele deixasse de ser
uma criatura dos sonhos mas também não podiam impedir o seu amor. Era uma
situação complicada.
Entretanto, Artur aproveitava para sabe mais sobre a
sua amada. Sempre que podia, ia visitá-la a casa transformado em pirilampo ou
aparecia-lhe em sonhos. Era nessa altura que estavam junto. Conversavam,
passeavam e namoravam. Eram felizes.
João Pestana tinha cada vez mais pena de o deixar
ir, mas não o podia impedir. O sentimento que Artur tinha pela rapariga, que
mais tarde soube que se chamava Ana, era verdadeiro e crescia de dia para dia.
As suas noites eram passadas com ela e os seus dias a pensar nela.
Até que um dia, Morgana apareceu na casa de João
Pestana com uma solução. Uma poção para Artur beber e se transformar em humano,
mas também apagaria todas as suas memórias e nunca mais poderia regressar. Se
ela a bebesse, transformava-se numa criatura dos sonhos e passaria a viver com
ele para sempre. João Pestana ganharia dois assistentes e já não se sentira tão
sozinho.
A decisão não era fácil. Um deles teria de abdicar
de tudo para poder ser feliz. Deu-lhes um tempo para pensar. «Três dias no máximo, depois têm de me dizer
o que decidiram.» Dissera Morgana.
Artur e Ana pensaram muito durante os três dias
dados por Morgana. Nenhum dos dois queria deixar o seu mundo para trás, mas o
seu amor falou mais alto.
Então, passados três dias, Artur comunicou a sua
decisão a Morgana e foram ao encontro de Ana, que também tomara a sua. Ao
chegarem á sua janela, ela estava á espera deles.
- Decidi que vou viver contigo no mundo dos sonhos.-
Disse Ana a chorar. – Não me importo de apagar as minhas memórias humanas se
for para ficar contigo.-
Artur não queria acreditar. Estava muito feliz por
poder finalmente estar com a sua amada para sempre.
Então, Ana bebeu a poção. Uma luz rodeou-a e ela
transformou-se num pirilampo. Voaram de volta a casa.
Passado pouco tempo, Artur Boas-Noites e Ana
Madrugada, o seu novo nome, casaram e viveram felizes para sempre.
Fim
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana
A
Carta
Entrei no bar. O ar quente aconchegou-me. Estava uma
noite fria e só me apetecia relaxar.
Fui para uma mesa ao canto, daquelas que atraem
amigos o desconhecidos que começam por desabafar as suas mágoas meio bêbados e
depois ou adormecem ou saem aos ziguezagues. Naquela noite, esperava uma amiga.
Tínhamos uma espécie de tradição: todos os dias dos namorados íamos aquele bar.
Enquanto os casais se deleitavam com filmes românticos e escapadinhas, nós
reuníamo-nos para celebrar a nossa solteirice. Depois de várias relações
falhadas estava na altura de nos concentrar em nós mesmas. Mulheres independentes
que não precisam de homens para serem felizes e realizadas.
A mesa que escolhera ficava encostada a uma parede
acolchoada e gasta. Era ladeada por bancos também acolchoados. Sentei-me e
tirei o casaco castanho, deixando-o à mostra o vestido preto de manga comprida.
Ajeitei o cabelo ruivo com madeixas louras e aconcheguei as pernas por baixo da
mesa, forradas com collants bordô e
sapatos de veludo altos e da mesma cor que o vestido.
O empregado apareceu no momento em que acendi o
cigarro e fiquei a ver o fumo pairar à minha volta. Tinha tentado várias
maneiras de largar aquele vício, mas parecia que me controlava. A cada golfada
de químicos do cigarro e explosão do fumo, parecia que a tensão desaparecia
subitamente do meu corpo, restando apenas uma carcaça desprovida de emoções. «Aquilo fazia-me mal.» Pensei. «Tinha mesmo de deixar, mas neste momento
serve de consolo».
Pedi uma margarita
de Martini com sumo de morango. Uma
bebida simples mas sofisticada. O ideal para mim. Enquanto esperava, fui
olhando em redor. Gostava de olhar para a decoração dos bares. Para os
candeeiros altos e mesas de madeira com rebordos de metal, para os quadros com
fotografias de pessoal famoso e pinturas abstractas, para o balcão corrido onde
o barman preparava as bebidas e servia
os clientes que se iam sentando. Para a colecção de garrafas semivazias por
trás dele. Whisky velho, gin tónico, Vodka e outro sem número de bebidas que
eram despejadas em copos de vidro e depois entornadas pelas gargantas secas e
frias dos clientes.
Dei mais uma golfada no cigarro. Recostei-me no
banco. Nesse momento, a minha bebida foi pousada à minha frente por um
empregado de avental e vestido de preto. Agradeci-lhe. Dei um pequeno gole que
deixou a marca do meu batom vermelho no bordo. Limpei-o com um ar indiferente.
O meu olhar deu mais voltas pelo bar e voltou à mesa onde estava. O cinzeiro, o
suporte dos guardanapos e o meu copo. Também havia marcas na mesa de cinza,
comida e algo indecifrável.
Foi, então, que reparei em algo que nunca tinha reparado
mas que poderia ter estado ali há muito tempo, mas não deixava de ser invulgar.
Preso entre o tampo da mesa e parede, estava um envelope. Apaguei o cigarro no
cinzeiro imediatamente. Não queria estragar aquele pedaço de papel.
Cuidadosamente, desentalei-o. Era um envelope de carta e tinha um nome escrito
com uma letra meio retorcida mas que dava para decifrar: «Robert».
Com a curiosidade a queimar a ponta dos meus dedos e
cérebro, abri o envelope com o mesmo cuidado que o tirara do sítio onde estava.
Lá dentro, uma folha dobrada em 4. Tirei-a e desdobrei-a. Era uma carta, mas
não uma qualquer, era uma carta de amor. Tinha corações feitos á mão mas o
texto estava escrito à máquina. Comecei a lê-la:
14
De Maio de 1957
Querido
Robert,
Espero
que esteja tudo bem contigo.
Comigo,
continua tudo na mesma. A Judy continua internada e a quinta dos meus pais
continua a dar lucro. Não sabia que a agricultura também dava para pagar
tratamentos e medicamentos.
Mas
não foi para falar sobre mim nem da minha irmã que te escrevi. Foi para falar
de nós. Se bem te lembras, da última vez que falámos disseste-me para te
esquecer, que a nossa relação não ia ter futuro porque éramos de mundos
diferentes. Eu do campo e tu da cidade. Uma latifundiária e um jornalista «que
combinação ridícula!» disseste na altura. Já lá vão dois anos. Dois anos que
partiste sem olhar para trás e sem dar uma notícia. Não precisava que falasses
de ti. Uma carta a perguntar pela saúde da minha irmã Judy chegava!
Este
tempo tem sido muito duro para mim. Não há um dia que não me lembre de ti. Dos
nossos passeios pelo campo, do teu riso, dos teus beijos e carícias. O meu
coração ainda bate da mesma forma quando penso naquela tarde de Verão em que te
vi pela primeira vez. Tinhas acabado de chegar para umas férias mas tudo o que
encontraste foi uma aventura. Ainda tenho a flor que deste. Aquela branca,
lembras-te? Foste apanhá-la no meio da seara dourada. Disseste que era a última
da Primavera. Depois, pegaste-me ao colo e levaste-me até ao celeiro onde nos
entregamos de corpo e alma ao desejo.
Desde
que partiste que nunca houve outro homem na minha vida. Nem sequer o velho Sam
que o meu pai me queria impor. Aquilo não era um casamento era um negócio.
Espero
que um dia nos possamos voltar a ver. Talvez aí me expliques porque foste
embora.
Se
receberes esta carta, responde. Se não, atira-a para um lado qualquer ou
queima-a, tanto faz Só não queimes aquilo que vivemos porque essas memórias
serão eternas.
Para
sempre tua,
Sandie.
- Então, o que estás a ler?- Uma voz fez-me voltar à
realidade. Era a Betty. Já tinha chegado e sentara-se à minha frente.
Baixei a folha e olhei-a nos olhos. Eram verdes como
sempre. A cara redonda. Mas os elementos encaixavam todos em harmonia. Os
olhos, a boca e o nariz. Trazia um vestido de noite simples preto de manga
comprida com bordados. Por baixo, devia ter os collants cinzentos e as botas castanhas. A maquilhagem era pouca já
que os seus olhos eram suficientes para realçar o rosto.
Pedira o seu habitual cocktail de frutos vermelhos com gin e uns aperitivos de queijo que
mordiscava quando me interrompeu.
-Então?- Perguntei como só naquele momento tivesse
notado a sua presença. – Chegate há muito tempo?-
Betty entrelaçou uma madeixa do seu cabelo louro
curto entre os dedos da mão direita enquanto tirava um aperitivo com a mão
esquerda. Olhou-me com um ar divertido mas sarcástico ao mesmo tempo. Aquela
pergunta estava respondida. Fis um trejeito. Ela comentou:
- Ainda não me respondeste.-
Olhei para o pedaço de papel e respondi-lhe com um
sorriso irónico:
- Algo interessante que encontrei entalado na mesa.-
Betty riu-se, depois soltou uma gargalhada sonora.
Fiz-lhe sinal para que se acalmasse. Ainda estávamos num local público e a
bebida ainda não era muita. Calou-se, depois exclamou:
- Vá lá, Jo! Esperas mesmo que eu acredite que
encontraste algo interessante num bar como este? Olha à tua volta, a coisa mais
interessante que vais encontrar aqui são folhetos de publicidade enganosa ou o
menu dos aperitivos.-
Suspirei. Tinha de escolher as palavras certas. A
Betty era a minha melhor amiga desde os tempos da escola. Partilhávamos tudo:
receios, ansiedades, e, por vezes, até os namorados, por isso ela estava mais
que habituada às minhas loucuras. Pousei a folha em cima da mesa depois de
desviar os copos e o pacote de aperitivos. Olhei-a mais uma vez e disse:
- Eu sei que é difícil de acreditar, mas encontrei
mesmo algo interessante.- Apontei para a folha e ela olhou.- Isto é uma carta
de amor de há mais de 60 anos que foi aqui deixada por alguém chamado Sandie
para outra pessoa chamada Robert. Também achei estranho ao início mas depois de
ler fiquei com vontade de saber mais sobre os seus intervenientes.-
Betty voltou a rir-se. Desta vez com menos ironia.
Perguntou:
- E como tencionas encontra-los? Isso já foi há
tanto tempo que já devem ter morrido.-
Respondi:
- Sim, mas podemos imaginar.- Voltei a tirar um
cigarro. Betty repreendeu-me:
- Vá lá! Prometeste que ias deixar de fumar! Dá cá
isso!- Acrescentou: - Devíamos ter ido a outro lado, os bares são sempre
propícios para isto.- Dei-lhe o maço ainda que com alguma relutância. Ela
amachucou-o e guardou-o na mala para mais tarde deitar fora. Depois daquele
breve ritual, perguntou:
- Então, o que achas?-
Betty olhou para a folha com um ar neutro. Ler nunca
fora o seu forte. Muito menos numa Sexta à noite em que podia estar a
divertir-se com a melhor amiga e esquecer os problemas. Depois olhou para mim.
Respondeu secamente:
- Não acho nada de especial.- Começou. – Quer dizer,
é uma carta de amor e depois?-
Fiz um trejeito. Aquela conversa não ia levar a lado
nenhum. Já estava encerrada mesmo antes de ter começado. Sempre fora assim,
desde os tempos da escola, quando o assunto não lhe interessava, não valia a
pena insistir. Curiosamente, não fora assim com os estudos. Conseguimos tirar
gestão empresarial e agora éramos empresárias bem-sucedidas. Acabei por
desistir da carta. Dobrei-a e metia-a novamente no envelope.
Voltou para o mesmo sítio. Depois de pagarmos e de
acabarmos a nossa pequena refeição, saímos do bar em alegre cavaqueira até à
próxima etapa da noite: a dança.
Nunca mais mencionámos a carta encontrada entre a
mesa e a parede de um bar.
Fim
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana
Megafone
-Para que serve um megafone?- Perguntou a rapariga
de mini-saia, t-shirt com um coração,
sandálias, rosto comprido e olhar brincalhão. Uma adulta em ponto médio. Tinha
16 anos me ainda estava na escola. Chamava-se Sandra.
-Serve para levantar a voz, para nos fazermos ouvir
mais alto.- Respondeu Mónica a amiga vestida mais ou menos da mesma maneira. Só
os penteados eram diferentes: uma com cabelo preto, olhos da mesma cor,
apanhado num carrapito. A outra de cabelo louro e olhos azuis, apanhado numa
trança virada para a frente.
Sandra fez um ar indiferente perante a resposta da
amiga. Ripostou:
- Então, se serve para levantar a voz, para nos
fazer ouvir porque é que ainda há vozes que não são ouvidas?-
Mónica estava surpreendida:
- O que queres dizer?-
Sandra respondeu num tom sério, muito diferente do
que normalmente usava para falar com os seus colegas e amigos na escola:
- Quero dizer que o mundo está um caos. A humanidade
está obcecada com a perfeição, mesmo sabendo que não existe. – Fez uma pausa,
respirou fundo e continuou:
- Desde a beleza ao ambiente, andamos todos
desesperados, o que leva a que tomemos decisões pouco pensadas e que nos
deixemos levar por ideias que não são as mais ‘ideais’, passo a redundância.-
Acrescentou: - Extremos que se cruzam e com os quais temos de lidar todos os
dias.-
Mónica interrompeu-a apenas para dizer:
- Concordo, mas como se pode fazer com que essas
vozes sejam ouvidas? Não estás a pensar que ir para a rua gritar com um
megafone vai ajudar, pois não?-
Sandra olhou para a amiga e retomou o discurso:
- Claro que não! É preciso muito mais! Para que
essas vozes mudas sejam ouvidas é preciso mais que discursos bonitos em
encontros de políticos que só porque têm poder acham que podem mandar em tudo,
até no que se pensa. É preciso mais que imagens em que a câmara está tão em
cima da cara das pessoas que quase lhes vemos os restos de comida nos dentes ou
os pêlos do nariz.-
Mónica deu uma risada. O discurso da amiga era entusiasmante.
Sandra continuou:
- O que o mundo precisa é de espontaneidade.
Naturalidade. Rebeldia. Hoje em dia temos de ousar ser diferente para fazer
realmente a diferença e não porque nos ‘obrigam’ a ser diferentes.-
Acrescentou: - Olha, como o anime.-
Mónica ficou surpreendida novamente:
- O que é que tem o anime tem a ver com mudar o mundo?-
Sandra respondeu:
- Ajuda a pensar nos caos que referi. Mostra o mundo
tal como ele é: cheio de defeitos e complicações e embora pareça uma maneira
simples, fica sempre aquela ‘semente’ plantada nas nossas mentes e espíritos.
Traz á tona temas ‘sensíveis’ mas importantes. Mostra-nos aquilo que muitas
vezes queremos esquecer ou esconder: os nossos limites e as nossas fraquezas
mas também nos ensina a ultrapassá-los ou, pelo menos, a viver com eles.-
Mónica sorriu:
- Muito bem dito!-
Sandra também sorriu.
Depois, encaminharam-se para a aula pois a campainha
já tinha tocado.
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana
O
Boneco de Barro
Era uma vez um boneco. Uma escultura em barro feita
a partir de um bloco de massa castanha cuidadosamente moldada na roda de um
oleiro já idoso mas ainda com muita habilidade. Os salpicos de terra húmida
tingiam-lhe o avental de cabedal preto e parte da roupa por baixo de castanho.
Algum endurecia, outro escorria para as calças pretas e terminava na ponta dos
sapatos. Já o fazia há tanto tempo que perdera a conta aos anos. Herdara a
habilidade do pai, que a ganhara do avô e assim por diante. Era um trabalho
duro e penoso, especialmente porque a idade já não lhe permita muita coisa, mas
tinha orgulho nele.
Cada vez que uma escultura ficava pronta, metia-a
numa caixa de madeira para secar um pouco. Depois, ia ao forno até endurecer
completamente. Retirava-a com todo o cuidado, deixava-a arrefecer um pouco
antes de lhe voltar a pegar para dar os últimos retoques. As marcas da roupa,
os olhos, o nariz e a boca. Sempre com expressões diferentes, uns a sorrir,
outros tristes, outros espantados. Por fim, juntava-a aos outros prontos para
serem vendidos.
Anexa à oficina, o homem de cabelo grisalho e olhos
claros, tinha uma pequena loja onde vendia as suas obras. Com grandes estantes
pintadas de branco que contrastavam com os bonecos todos da mesma cor
perfilados em cima delas com a etiqueta do preço presa a uma perna. Pareciam
prisioneiros que, após serem vendidos, eram libertados mas por pouco tempo, já
que terminavam sempre dentro de um armário numa qualquer sala de estar.
De entre todos os bonecos na loja, havia um que era
diferente. Não gostava de ter sempre a mesma cor. Tinha uma expressão séria,
neutra. Olhava para o infinito como se quisesse alcançar alguma coisa. Era o
último de uma fila. A mais escondida que ninguém via. Tinha sido lá posto por
causa da sua expressão. «Expressões mais alegres vendem-se melhor» dizia o
oleiro. O boneco não era nem muito alto nem muito baixo, o boneco. Representava
um rapaz. Um camponês. De calças, camisa, sapatos, chapéu, cara, cabelo e até
os olhos eram castanhos. Sentia-se triste por ser só de uma cor. Porque é que tenho de ter só uma cor? Pensava
para os seus botões castanhos. Gostava de
ter mais cores. Cada vez que olhava para a montra das outras lojas pelos
espaços deixados entre os outros bonecos, e via todas aquelas cores, imaginava
como seria se o seu chapéu fosse verde ou azul. As suas calças vermelhas, a sua
camisa branca ou os olhos pretos ou amarelos. Queria ser colorido.
Podia ser que, assim, chamasse mais a atenção e
fosse posto à frente dos outros na prateleira. A sua expressão ficaria mais
alegre e já podia ser vendido.
No entanto, os outros bonecos diziam-lhe que era
melhor ser castanho. «Assim, toda a gente sabe quem somos» Diziam uns. «Mostra
a nossa origem» Acrescentavam outros. Havia ainda quem o encorajasse a mostrar
outra cara. «Se quiseres, eu ensino-te a ter uma expressão mais alegre» Dizia
um dos da sua fila. Mas acabavam sempre por deitá-lo a baixo e deixa-lo ainda
mais triste. «Se continuas assim, nunca serás vendido nem farás parte da
decoração de alguém». Acrescentavam. Já estava a ficar farto dos seus
comentários.
Sempre que se via sozinho, punha-se a pensar em
formas de sair dali. Sentia que, como estava, não queria estar. Foi depois de
muito pensar que resolveu sair da loja para passear um bocado.
Uma noite, depois de a loja fechar, o boneco de
barro pôs o seu plano em prática. De tanto observar a loja e os seus recantos,
já os memorizara e sabia de cor todos os segredos. Levantou-se da caixa de
madeira, que era para onde iam durante a noite alguns bonecos para endurecerem
mais um pouco mas também para não ocuparem tanto espaço nas prateleiras visto
que, à noite, não era preciso estarem expostos, com cuidado para não acordar os
outros, saltou da bancada de pedra e foi até à porta, mas a maçaneta estava
muito alta e, por mais que ele saltasse, não conseguia lá chegar. Então, subiu
para cima de um banco ali perto com um almofada com as molas meio soltas e
saltou o mais que pôde até este lhe dar balanço suficiente para chegar à
maçaneta de metal e abrir a porta. Ficou surpreendido por não ter acordado
ninguém com o barulho. Ainda houve alguns que se mexeram, mas não deram por ele
sair.
Assim que se viu lá fora, o ar frio da noite
soprou-lhe ao de leve pelas rachaduras finas do corpo e arrepiou-o. Não estava
habituado a andar na rua. Começou a caminhar pela rua que lhe pareceu gigante,
comparada com a que via da janela da loja. Não era fácil ser um boneco tão
pequeno. A rua era estreita e escura o que fazia com que parecesse ainda mais
assustadora. De vez em quando, ouvia alguns barulhos e parava meio assustado.
Encostava-se à parede de um prédio à espera que passasse, mas, na maior parte
das vezes, eram apenas carros que passavam ao longe ou gatos que miavam e que
saltavam por cima dos telhados das casas.
Não sabia quanto tempo tinha andado, mas não devia
ter sido muito pois a rua parecia-lhe sempre a mesma. Caminhou mais um pouco,
passando por outras lojas onde os bonecos e olhavam com surpresa e curiosidade.
Foi andando até que parou junto a uma loja de antiguidades. Subiu pelo rodapé
do chão até à janela da montra por onde espreitou. Lá dentro, apesar da
semi-escuridão, conseguia ver os pratos com flores, os bules de chá com
paisagens campestres, as caixas de madeira pintadas e até espelhos cheios de
recortes na moldura. Também viu um conjunto de palhaços de porcelana coloridos.
A sua expressão era tão animada que ele sorriu também.
Foi então que viu algo que o deixou maravilhado. No
meio dos palhaços e das loiças, estava uma boneca. Era de porcelana branca e
representava uma dama antiga. Tinha um vestido às flores cor-de-rosa que
dançavam com o movimento da saia, e um chapéu com abas grandes a condizer.
Usava o cabelo preto apanhado numa trança e tinha os olhos de um azul que fazia
lembrar o céu. Estava numa prateleira junto a outras peças, mas ela sobressaía.
Parecia um anjo.
O boneco arregalou os olhos com tanta beleza. Nunca
tinha visto nada parecido. Sentiu-se a flutuar. Queria alcança-la, mas o vidro
da montra impedia-o. Ela apercebeu-se da sua presença pois ele não parava de
bater no vidro como se quisesse entrar. Sorriu. Aproximou-se mais da montra até
a sua cara se esborrachar no vidro. Queria comtempla-la melhor. A boneca saiu
da prateleira e, quase como um anjo que desliza pelo ar, aproximou-se do vidro
e olhou-o de perto. Ele sentiu-se a corar, embora fosse tudo castanho e não
desse para ver a cor das bochechas. Encostou uma mão ao sítio onde ela
encostara a sua. Ficaram a olhar-se durante algum tempo. Por momentos, pareceu
que o vidro desaparecera assim que com a rua, as lojas, o mundo. Restavam
apenas eles, envolvidos pelo seu amor. Os seus lábios tocaram-se num beijo
enternecido.
Mas, de repente, o sonho desfez-se. Ouviu um
barulho. Sem se aperceberem, o sol já tinha nascido. Tinham ficado toda a noite
a olhar-se. O boneco tinha de se despachar a voltar para a loja antes que o
oleiro ou os outros dessem pela sua falta. Apressou-se a descer da montra e a
ir embora, mas no seu olhar estava a promessa de se voltarem a ver.
Começou a andar no sentido que achava que era o
certo para chegar à loja do oleiro, mas, tal como na noite anterior, a rua,
agora com mais movimento, parecia-lhe ainda maior e mais assustadora. Não sabia
por onde ir. Estava perdido e assustado. Só lhe restava encostar-se a uma
parede e esperar que o oleiro desse pela sua falta e o viesse buscar. Mas, na
loja do oleiro, há muito que o boneco fora substituído por outro. Não sabia se
tinha andado muito ou se alguma vez voltaria a ver a boneca de porcelana.
Passaram-se horas, dias que se transformaram em
semanas e talvez meses ou anos, não sabia, e ninguém apareceu para o recolher. Parece que ninguém deu pela minha falta.
Pensou. Uma lágrima começou a correr-lhe pela cara, depois outra até que toda a
rua ficou cheia das suas lágrimas. Só então se apercebeu de que começara a
chover. Os bonecos não têm sentimentos.
São as pessoas que lhes põem. Costumava dizer muitas vezes o oleiro, de
cada vez que arrumava as prateleiras ou que aparecia um cliente. Seria mesmo
assim? Então, porque é que sentia aquele aperto no peito? Porque é que, quando
viu a boneca de porcelana se sentiu a flutuar que o resto do mundo não existia?
Afinal, os bonecos também sentem!
De repente, uma voz trouxe-o de voltar à realidade.
Era de homem, mas não era do oleiro. Esta era mais jovial. Não conseguia ver
bem por causa da chuva, e porque a sua cara estava meio enlameada por ter
estado tanto tempo no chão húmido, mas pareceu-lhe ver a silhueta de um homem
alto, vestido com um fato elegante e meio careca, sendo o pouco cabelo á volta
da cabeça castanho-claro. Já o tinha visto ao pé da loja de antiguidades nas
muitas vezes que conseguira espreitar pela prateleira ou quando estava na caixa
de madeira. Devia ser o dono. Estava com outros homens que deviam ser os seus
empregados. Aproximou-se da parede onde estava o boneco. Ia-lhe dando com o
sapato se este não tivesse roçado ao de leve na parede. Apercebendo-se disso, o
homem baixou-se para ver o que lhe bateu no pé. Quando viu o boneco, apanhou-o
para ver melhor. Olhou-o a toda a volta. Ainda estava em bom estado, apesar de
ter algumas rachaduras e estar meio derretido por causa da chuva. Precisava só
de uns pequenos retoques e estava pronto para ser exibido na loja.
Virou-se para um dos empregados e disse, mostrando-lhe
o boneco:
-Este ficava muito bem ao pé de uma boneca de
porcelana que temo lá na loja. O seu par partiu-se em mil bocados há uns tempos
e foi impossível de arranjar. Só precisa de um pouco de cor e de uns arranjos
simples e fica como novo. Vou levá-lo.- Acrescentou, olhando para a loja em
frente: - É impressionante o que se deita fora hoje em dia. Já ninguém tem
respeito pelos bonecos.- Estavam perto da loja do oleiro.
O empregado olhou para o boneco e disse:
- Mas é feito de barro. Não acha estranho estar a
juntar um de cada material?-
O homem de fato olhou para o rapaz de avental e
respondeu:
- E isso importa?- O rapaz fez um trejeito.
Acrescentou: - Além disso, eu pago-te para venderes não para dares a tua
opinião.-
O rapaz encolheu-se.
Enfiou o boneco no bolso e foi para a loja. Quando
lá chegou, foi para a sua oficina de restauro. Pousou-o numa bancada corrida de
madeira e sentou-se, depois de despir o casaco elegante e pôr o avental de
trabalho, a arranja-lo. Primeiro, limpou-o e poliu-o com a ajuda de uma lixa
muito fina para não o danificar muito. Tinha de estar no mais perfeito estado
para poder ser exposto e, eventualmente, vendido. Depois, reparou as rachas e
voltou a moldar-lhe a parte da cara que estava derretida pela chuva,
acrescentando mais barro, o que fez sobressair ainda mais as feições do boneco.
Quando achou que já estava arranjado, foi buscar as
tintas e os pincéis para o pintar. Um boneco tão bonito não podia ser exibido
assim, precisava de cor.
Terminado o trabalho, o boneco não parecia o mesmo.
A pele castanha ganhou uma nova cor. Meio rosada, até as suas bochechas
finalmente mostravam a sua cor. Para além da pele, o chapéu ficou preto, os
sapatos escureceram o castanho, as calças ficaram pretas, a camisa branca e os
olhos escuros com um toque de amarelo. Com as novas cores, até a sua expressão
parecia mais alegre.
O homem sorriu orgulhoso do seu trabalho. Deixou que
o boneco secasse durante um bocado e depois levou-o para a loja. Colocou-o na
prateleira ao pé da boneca de porcelana. Assim que o viu com as suas novas
cores, a boneca sorriu. Ele corou mostrando, mais uma vez, o rubro das suas
bochechas.
Como estava na primeira fila, e tinha muitas cores,
como nunca tinha estado, chamava muito a atenção. Finalmente, o boneco estava a
ter o reconhecimento que merecia. Ao olhar para os bonecos, o dono da loja
sentiu algo de especial. Era como, de repente, lhe estivesse a agradecer. Esse
sentimento fez com que o homem desse ordens específicas aos empregados para que
se alguém quisesse levar aqueles bonecos, tinha de levar o par ou não havia
negócio. Mas todos os clientes queriam comprar apenas um dos bonecos. «O par é
demasiado caro.» Diziam uns. «Não podemos levar um e depois vimos cá buscar o
outro?» Perguntavam outros. Assim, para todos, quer o dono da loja quer os
empregados respondiam sempre da mesma maneira: «Lamento, mas ou leva o par ou
não leva nenhum, são as regras para estes bonecos.»
Assim foram
passando os dias. E em todos eles o afecto que o dono da loja tinha pelo par de
bonecos ia crescendo. Sempre que olhava para eles lembrava-se da sua juventude.
Do tempo em que conhecera a sua mulher e de como esse amor lhe fazia falta.
Algumas vezes, era apanhado com uma lágrima no canto do olho por algum
empregado que ia a passar para repor o stock
e ele logo se recompunha, assegurando que estava tudo bem cada vez que lhe
perguntavam.
Um dia, entrou na loja um jovem casal. Eram
recém-casados e estavam à procura de algo que ficasse bem no móvel da sala de
estar da casa que acabaram de comprar. Queriam algo que lhes lembrasse do amor,
mas que fosse, ao mesmo tempo, diferente de tudo o que já viram.
Andaram pela
loja, mas nada lhes prendeu a atenção. Até que, quando estavam a sair,
desanimados por não terem encontrado o que procuravam uma vez que aquela era a
última loja de bairro que viam e porque a mulher tinha decidido que, caso não
encontrassem nada que valesse a pena iam a um armazém maior, o empregado foi
buscar ao armazém, uma vez que o dono da loja tinha tanta afeição pelos bonecos
que os levara para a cave da loja para que ninguém os pudesse comprar sem
cumprir as condições impostas, o par de bonecos que estavam numa das
prateleiras. Chamou-os. O casal voltou atrás para os admirar melhor. Olharam um
para o outro e sorriram. Tinham encontrado precisamente aquilo que andavam à
procura. O empregado meteu os bonecos dentro de uma caixa de madeira e
embrulhou-os. O casal despediu-se satisfeito.
No fim do dia, o dono da loja foi fechar as contas.
Ao passar pelas prateleiras para ver se tinham vendido muito, deu pela falta do
par de bonecos. Virou-se para o empregado e perguntou:
- Olha lá, onde está o par de bonecos? Porque não
estão no armazém?-
O empregado ficou um pouco nervoso e hesitou antes
de falar, mas lá acabou por responder:
- Sabe…É que esteve aqui um casal jovem que andava à
procura de algo para decorar a casa e como não viram nada, iam-se embora, mas
eu lembrei-me dos bonecos e mostrei-os. Eles gostaram tanto que quiseram levar
os dois. – Acrescentou: -Nem se importaram de pagar mais.-
O dono da loja sorriu.
-Fizeste bem.- Disse. -Aqueles dois já mereciam um
lugar para serem felizes.-
O empregado ficou mais aliviado por não ter levado
um raspanete. Acabaram de fechar as contas e foram para casa.
…
Nessa noite, em casa do casal, no móvel da sala de
estar, que tinha uma vitrina, o boneco de barro e a boneca de porcelana estavam
mais felizes que nunca. Finalmente tinham encontrado um lugar onde podiam
desfrutar ao máximo do seu amor e eram o cento das atenções ao mesmo tempo.
Sempre que recebiam visitas, o jovem casal fazia questão de os mostrar com
orgulho.
E assim continuaram por muitos e muitos anos.
Fim
A
vizinha do 3º Esquerdo
«A vizinha do
3º esquerdo está apaixonada». Comentavam as moradoras mais antigas das
janelas para quem quisesse ouvir. «Ai
sim? Por quem?» Perguntavam as outras do outro lado. «Pelo novo inquilino do 1º Direito».
A rapariga de que se falava chamava-se Guida era
solteira, magrita, com o cabelo castanho-claro e olhos da mesma cor. Usava
quase sempre roupa colorida excepto quando vinha do escritório onde trabalhava
como contabilista, mas toda a gente dizia que tinha nascido para a costura, tal
era a forma como as roupas ficavam depois de lhe passarem pelas mãos, não havia
arranjo que ela não soubesse fazer.
Já tinha ganho o prémio para a melhor roupa do
bairro num concurso que decorreu há uns meses organizado pela associação de
moradores.
Já o rapaz chamava-se Fernando, também era solteiro
e bem-parecido. Tinha o cabelo preto e os olhos da mesma cor. Vestia-se sempre
de forma simples. Devia ser por trabalhar numa loja de retalhos. Recentemente,
mudara-se para o prédio da Rua das Hortenses por ser barato, mas também para
estar mais perto do seu novo emprego: um café.
Abrira-o ali perto. Há muito tempo que o retalho não
era para ele. Sempre sonhara em ter o seu próprio negócio e a oportunidade
apareceu mais depressa do que esperava, quando o Sr Alfredo lhe propôs ficar
com o estabelecimento onde antes tinha a mercearia. «Aquilo está uma miséria, precisa de obras urgentes.» Dissera-lhe. «Ainda bem que és tu que ficas com ele, podes
dar-lhe uma nova vida e, quem sabe, trazer novas pessoas aqui para o bairro.»
E assim aconteceu. Mal abriu o café, começaram a
chover clientes, sobretudo estrangeiros que parava para admirar a decoração e
provar os petiscos.
Foi no dia da abertura que conheceu Guida. Entrou
pela porta como um anjo. Trazia um vestido florido e sandálias. «O sol que estava lá fora veio cá para dentro»
Pensou assim que a viu.
Ela também não lhe ficou indiferente. A partir
daquele dia, passaram a encontrar-se depois da hora do fecho do café. Mas,
depois, cada um seguia para a sua casa. Ela no 3º esquerdo e ele no 1º direito.
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Bjs
Joana