sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Asas de Cristal- VI- Recuperação

 Olá 

Fica o capitulo da semana.

Espero que gostem.

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VI

Recuperação

Tive alta passado uns dias. Quando entrámos em casa, já não parecia tão desconhecido. Era como se nunca tivesse saído dali. Subi as escadas com alguma dificuldade mas sempre apoiada em Margaret e Charles. Deitei-me na cama ainda bastante debilitada. Margaret aconchegou-me e saiu pouco depois.

Na semiobscuridade, enquanto observava as silhuetas dos móveis, uma angústia invadiu-me o corpo e o espírito. Só queria desaparecer. Como ele fizera. Talvez para se afastar de mim ou apenas porque precisava de um tempo sozinho. Nunca teria a resposta. Ao mesmo tempo, estava triste com o que acontecera. O único elo de ligação entre nós fora quebrado.

Virei-me para a parede branca e vazia como a minha mente naquele momento. Era como se começasse de novo. Fechei os olhos e tentei dormir, mas as imagens de alguns momentos passados com ele continuavam a ser um incómodo. Estava quase a ultrapassa-los e a entrar no sono, quando um toque estridente soou perto de mim. Com alguma dificuldade, olhei para a mesa-de-cabeceira. O meu telemóvel estava a vibrar. «Quem será a esta hora?» Pensei quase de imediato. Apoiei-me na borda da cama para conseguir chegar ao outro lado. Acendi a luz da mesa-de-cabeceira e peguei no telemóvel. Quando li o nome que aparecia no ecrã, arregalei os olhos. Pressionei o botão de atender.

«Está? És tu, Harley?» Perguntou uma voz familiar do outro lado.

Respondi num tom arrastado e sonolento:

-Sim, sou eu. Quem fala?-

A voz respondeu:

«Não me reconheces? Sou eu, a Ivy! Liguei para saber como estás. Soube o que aconteceu. As notícias correm depressa por aqui.»

Só depois de dizer o nome é que me apercebi que não estava a sonhar. A minha amiga e algumas vezes companheira de crime, Poison Ivy, estava a ligar-me. Há muito tempo que não falava com ela. A última vez tinha sido provavelmente antes da noite com o Joker, não me lembrava bem.

Voltei a responder com o mesmo tom de voz:

-Ivy…Que bom ouvir-te! Estou melhor, obrigada. Vim para casa da Margaret, a directora da prisão onde o conheci. Descobri que estava grávida mas acabei por perder o bebé.-

Do outro lado, não obtive resposta. Devia estar a processar o que acabara de ouvir.

-Ivy…- Disse hesitante -Estás aí?-

De repente, pareceu despertar dos seus pensamentos e respondeu:

«Sim, estou! Desculpa, estava distraída!»

Revirei os olhos. A conversa continuou:

-Como é que estás? E como é que soubeste de tudo?-

Hesitou antes de responder. Respirou fundo e disse:

«Na prisão sabe-se tudo. Começa com boatos e depois vem a confirmação.» Acrescentou: «Pensei que estivesse a sofrer por causa do rapto, mas pelo que ouço a situação é bem mais séria»

Fiquei confusa. Claro que estava a sofrer por causa da minha perda! O desaparecimento dele já pouco me importava mas aquela informação apanhara-me de surpresa. Perguntei:

-Rapto? Qual rapto? Ele simplesmente desapareceu quando acordei! Só deixou um bilhete com um símbolo esquisito a dizer que voltava mas até agora nada.-

Ivy respondeu:

«Pelos vistos, não te contaram bem a história ou então drogaram-te bem porque o Joker foi raptado nessa noite.»

Não consegui responder. Sentia um misto de choque e alívio. Alívio por saber que não me tinha deixado por sua vontade e choque por saber como tinha acontecido. Respirei fundo e perguntei, desta vez com um tom mais claro:

-Como…é que isso aconteceu? E porquê? Quem te contou, quero saber tudo, não me escondas nada!-

Senti o seu respirar do outro lado antes de responder:

«Não sei muita coisa, mas pelo que ouvi, parece que havia um grupo chamado Asas de Cristal que andava há algum tempo atrás dele. E aquela noite foi a oportunidade que esperavam.» Fez uma pausa e continuou: «Depois, foi só pôr o plano em prática. Drogaram-vos e levaram-no.»

Pensei imediatamente no bilhete n quarto de hotel e não hesitei em perguntar. Ela respondeu:

«Deve ter aproveitado que ele ainda estava meio consciente para o obrigarem a escrever esse bilhete»

Comecei a ficar cansada e tive de desligar, mas antes despedimo-nos e combinámos um encontro para falarmos melhor, no dia seguinte quando ela saísse da prisão. A pena tinha sido reduzida por bom comportamento. Depois de pousar o telemóvel e de me deitar, estava ainda a digerir toda aquela informação. Agora tudo fazia sentido. A mensagem estranha, o facto de não me lembrar de nada daquela noite. Precisava de descobrir o que se passara e para isso tinha de voltar a ser a Harley Quinn. Adormeci pouco depois.

Na manhã seguinte, acordei com energia renovada. Era como se nunca tivesse estado mal, como se todas as minhas mazelas nunca tivessem existido. Levantei-me e arranjei-me para sair. Resolvi vestir a Harley mais discreta, não queria chocar a família de Margaret. Quando chegasse ao local do encontro logo me transformaria por completo. Por agora, só uns calções curtos, um top vermelho de alças e uns ténis gastos. Sem maquilhagem nem cabelo pintado. Desci as escadas já com o saco que trouxera na mão. Pousei-o perto da porta e fui para a cozinha onde Margaret e a família já estavam a tomar o pequeno-almoço. Quando me viram, sorriram. Servi-me de café e de pão. Comemos em silêncio. Não esperava que me fizessem perguntas. Provavelmente já sabiam as respostas. Acabei de comer e saí da cozinha em direcção á porta. Peguei n saco. Ninguém tentou deter-me. Ouviram, com certeza a conversa de ontem á noite. Abri a porta e saí da casa. O ar fresco da manhã limpou-me os pulmões. Olhei para a rua deserta, ainda coberta por alguma neblina matinal e depois para o telemóvel onde estava a mensagem com o local do encontro com a Ivy.

De repente, senti uma presença atrás de mim. Virei-me e vi Margaret. Estava especada na ombreira da porta com um ar que parecia indiferente, mas eu sabia que estava preocupada. Como se me dissesse: «Tens a certeza? Ainda podes voltar atrás». Encarei-a com um sorriso sarcástico e de desafio ao mesmo tempo. Acenei-lhe e continuei o meu caminho deixando para trás a casa que me acolhera.

Ser a Harleen tinha sido bom, mas estava na hora de voltar a ser a Harley.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana

Bjs

Joana 

  


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Asas de Cristal- V- Perda

 Olá 

Aqui fica o capitulo da semana. Espero que gostem.

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V

Perda

Os dias que se seguiram foram os mais difíceis e dolorosos. Tinha de ficar deitada sem me mexer enquanto Margaret e Lucy tomavam conta de mim. Apesar de todo o repouso, as dores eram intensas e não me deixavam pensar com clareza. A escolha parecia óbvia: não podia perder o meu filho, devia estar à frente de tudo, mas também não podia permitir que o pai não o conhecesse. Muitas vezes discutia o assunto com Margaret. Ela compreendia mas não podia compactuar com aquela loucura.

-Já fizeste que chegue por aquele homem.- Disse-me uma vez depois de mais uma discussão acesa. -Agora, tens de pensar em ti e no teu filho. Se ele quiser aparecer é bem-vindo. Eu já disse ao Charles e á Lucy que ele pode vir cá morar.-

A minha voz era de tristeza e raiva ao mesmo tempo.

-Eu já disse e volto a repetir as vezes que forem precisas.- Nesse momento, soei como a Harley Quinn, tive de me controlar pois Margaret já estava assustada. Respirei fundo e acrescentei num tom mais sereno:

-Eu preciso mesmo de o encontrar, percebes? Tenho de ser eu a dar-lhe a notícia e se o tiver no meio da estrada que seja.-

Margaret voltou a insistir:

-De certeza que não queres falar com a polícia ou com o Batman? No estado em que estás, não tens nada a perder e eles não te podem prender.-

Senti-me quase ofendida com aquelas palavras. Ainda no dia anterior tinha discutido aquela possibilidade e eu recusara. Começava a ficar seriamente farta daquela conversa. A voz quase me fugiu para a Harley outra vez:

-Não…- Respirei fundo outra vez. -Já que não quero pedir ajuda a ninguém de fora, muito menos ao Batman. Ele odeia-me, ainda é capaz de achar que estou a fingir só para lhe pedir ajuda.-

Margaret agarrou-me nas mãos. As dela estavam quentes em contraste com o gelo das minhas. O seu calor acalmou-me. Olhou-me nos olhos com a doçura de uma criança e acrescentou:

-Muito bem, se é isso que queres, façamos como dizes. Tu é que sabes.- Sorriu. Retribui-lhe. Abraçou-me. Aquele abraço acalmou-me ainda mais. Senti-me em paz. Naquele momento, até algumas lágrimas me caíram pela cara. Largámo-nos e voltei a deitar-me. Ela aconchegou-me e deu-me um beijo na testa. Depois, saiu do quarto fechando a porta.

Quando me vi sozinha, encolhi-me na cama. Agarrei-me á barriga e recomecei a chorar. Soluços contidos e gemidos pouco profundos para não me ouvirem. Não queria que me consolassem. Estava feliz e furiosa ao mesmo tempo. Feliz por ter encontrado um lar e furiosa por não ter sido há mais tempo. Só uma família podia saber como me sentia naquele momento. Deprimida, desmontada, impotente. O sentimento de culpa ficava mais forte por não ter sido capaz de pedir ajuda quando mais precisei dela. A minha obsessão fez-me esquecer tudo o resto. Durante anos, só tivera aquele homem que me fazia tão mal. Mas era o pai do meu filho e não podia negar essa ligação eterna. Quanto mais pensava nisso, mais a Harley Quinn forçava a sua saída. A minha mente tinha este dilema. A criminosa tresloucada de personalidade instável ou a rapariga assustada, grávida e indefesa.

O imenso turbilhão de emoções fez-me viajar novamente á minha infância. Nessa altura, era só Harleen, a Harley ainda estava adormecida dentro do meu ser. Mas com o passar do tempo, ela foi-se desenvolvendo e acabou por despertar naquele estágio na prisão.

Nunca tivemos uma relação que pudesse considerar normal. Os abusos, as manipulações, as humilhações, a obsessão, a quase dependência. Ele era a minha droga, o que me mantinha viva. A cada novo crime, a minha loucura aumentava, ao ponto de não conseguir sentir mais nada para além de adrenalina. Quantas vezes, o álcool e as drogas fizeram parte das nossas vidas, cada um mais potente que o outro. Dores exageradas para nos deixar ainda mais em êxtase. Não me lembro de quantas vezes acordava em sítios inusitados com metade da roupa rasgada por ter sido possuída por vários homens como um animal para reprodução. Qualquer um deles me podia ter engravidado, mas foi com ele que realmente senti prazer, que me entreguei de corpo e alma, naquele quarto de hotel depois de mais uma noite de absoluta loucura e excessos. Flaches dessa noite passaram pela minha mente. Alguns confusos, outros mais nítidos. Nuns, estava no hotel, noutros já na rua. Silhuetas difusas passavam por mim. Alguns olhavam-me com desprezo e repulsa, outros com pena e curiosidade. Aquele turbilhão de emoções deixou-me zonza. Levantei-me e fui á casa de banho. As emoções juntamente com a pouca comida saíram disparadas e foram engolidas pelo autoclismo. Depois, voltei a cambalear para o quarto. Ainda sentia o cheiro por isso mudei de pijama. Uma pontada forte na barriga fez-me sentar na cama. Comecei a ficar zonza outra vez. A seguir, ficou tudo negro.

Acordei, passado pouco tempo. Estava numa cama de hospital ligada a uma máquina com Margaret e Lucy na cabeceira. Charles estava sentado a um canto. Apesar do seu ar indiferente, consegui perceber que também estava preocupado. Olhei para elas á procura de respostas para o que acontecera mas a expressão nas suas caras dizia: «Descansa, depois contamos-te tudo.» A médica entrou no quarto, pegou na minha ficha e olhou-me com um ar indiferente.

Depois de verificar os registos e avaliar o meu estado, retirou-se fazendo sinal a Margaret para que a acompanhasse. Lucy ficou no quarto bom como Charles que continuou na mesma posição. Lucy agarrou-me na mão e sorriu. Retribui-lhe ainda que com alguma dificuldade. Passado um bocado, entrou Margaret. Vinha com lágrimas nos olhos por isso deduzi que fosse algo com o bebé. Olhou-me como se dissesse: «Vai correr tudo bem, não te preocupes. Nós estamos aqui.» Aquele olhar bastou para eu perceber o que se passava. As lágrimas começaram a correr pela minha cara. Estendi a mão e ela deu-me a sua. Charles também se aproximara. Tinha acabado de perder o único elo que ainda tinha com aquele homem. A única loucura que valera a pena. A única oportunidade de ser mãe.

O meu mundo acabava de ruir para sempre.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Asas de Cristal- IV- Família

 Olá

Fica o capitulo da semana. 

Espero que gostem.

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IV

Família

A expressão na cara de Charles e Lucy era de surpresa e choque ao mesmo tempo. Olharam para Margaret á procura de apoio. Lucy mexeu-se ligeiramente no sofá. Charles forçou um sorriso na minha direcção e depois levantou-se, levando Margaret atrás até á cozinha. Uma vez lá, não consegui ouvir o que conversavam mas certamente devia ser constrangedor para eles terem ido para ali.

-O que é que te deu?- Exclamou Charles.- Trazes para aqui uma criminosa sem a nossa permissão e esperas que a recolhamos de braços abertos?!-

Margaret tentou ripostar, mas Charles adiantou-se:

-Ainda por cima grávida!- Acrescentou, resmungando: -E só pode ser daquele cúmplice dela!-

Ele pegou-lhe nas mãos e olhou-a nos olhos num misto de espanto e alguma consternação.

-Há quanto tempo é que sabes?- Perguntou com voz suave, parecendo mais calmo. Margaret respondeu quase de imediato:

-Soube antes de vir para aqui.- A sua voz soou quase como um sussurro. Acrescentou: -Foi ela que me ligou desesperada. Não pude dizer que não. Não depois de a encontrar naquele quarto de hotel.-

O olhar dele pareceu mais compreensivo. Largou as mãos e voltaram para a sala onde Lucy ficara comigo em silêncio. Margaret anunciou:

-A Harleen vai ficar o tempo que precisar connosco. Agora, vamos descansar que as emoções foram mais que muitas.- Dei-lhe a mão como uma mãe e uma filha. Um olhar neutro foi-me dirigido.

Subimos as escadas para o andar de cima. Atravessámos um corredor e chegámos á porta do quarto de hóspedes. Margaret abriu a porta. O quarto não era grande mas dava para acolher uma pessoa. Tinha uma cama rectangular encostada a uma parede, um armário de roupa, uma janela para o jardim e uma secretária próxima. Sentei-me na cama e pus a mão no ventre. Tinha outra vida que precisava de mim.

-Ficas aqui até decidirmos o que fazer. Por agora, descansa.- Disse Margaret. Saiu e fechou a porta.

Sozinha, na semi-escuridão, o pequeno candeeiro de tecto iluminava pouco. Preparei-me para dormir. Senti uma pontada na barriga que rapidamente desapareceu. «Deve ser normal» pensei. «O meu corpo ainda se está a habituar a esta nova realidade.» Deitei-me e aconcheguei-me a cama era confortável. Recostei a cabeça na almofada. Estava tão cansada que mal conseguia pensar. Adormeci de imediato.

Na manhã seguinte, acordei zonza mas descansada. Dormira como há muito tempo não o fazia. Nos últimos tempos, dormitava, sempre á espera que ele aparecesse. Às vezes, chegava a ficar noites inteiras acordada. Sempre á espera, mas nunca acontecia. Nem um bilhete, uma mensagem, nada. Simplesmente desaparecera. Sentei-me na cama e senti uma pontada na barriga, mais uma. Desta vez um pouco mais forte. Depois, algo húmido e quente entre as pernas. Em pânico, destapei-me e vi uma pequena mancha de sangue no lençol.

Rapidamente, levantei-me e saí do quarto. Desci as escadas, ainda descalça. Fui encontrar Margaret e Lucy na cozinha. Sorriram quando me viram mas logo mudaram a expressão. A minha cara estava branca. As lágrimas corriam-me pela cara. Nem me apercebera que estava a chorar. Margaret olhou para mim e foi a correr chamar Charles que ainda se estava a levantar. Desceram em passo apressado. Foi buscar o carro e seguimos para o hospital. N caminho, encostei-me a Lucy que me acariciou a cabeça. Aquilo acalmou-me.

Quando chegámos ao hospital, apenas Margaret e Lucy me acompanharam. Charles ficou na recepção a tratar das burocracias e depois na sala de espera. Á medida que iam empurrando a cadeira de rodas onde me sentaram assim que entrámos, as luzes e o corredor iam ficando mais turvos. Até as vozes pareciam murmúrios.

Entrámos na sala de ecografias. A enfermeira deitou-me na maca. Passado pouco tempo, apareceu outra mulher vestida de branco. Era a médica. Pediu á enfermeira para preparar o aparelho. Depois, passou um pouco de gel na minha barriga, senti o frio do gel. No ecrã, apareciam imagens imperceptíveis a preto e branco. A médica olhou para mim e sorriu. Retribui-lhe ainda que timidamente. Depois do exame, pediu-nos que fossemos para o seu gabinete. Um espaço mais reservado com uma mesa, um computador e uma estante com meia-dúzia de bibelôs. Sentámo-nos. A médica olhou para mim e depois para Margaret. Sempre com um ar sério. Olhou para as folhas com os meus exames e disse, quebrando o silêncio:

-Harleen, está grávida de três semanas mas é uma gravidez de risco.- Fez uma pausa e continuou:

-Durante o exame, detectei um ligeiro descolamento da placenta o que poderá explicar as dores que tem sentido.- Fez nova pausa. Voltou a olhar para os exames e para mim como se eu tivesse algo muito grave. Acrescentou:

-Esta perda de sangue foi só um aviso. Poderão repetir-se, o que pode ter consequências mais graves. Recomendo, por isso, repouso absoluto e nada de esforços. Vai tomar também estas vitaminas para reforçar o sistema imunitário. A ausência de descanso e o stress também contribuem para esta situação.-

Entregou-me um frasco e as indicações de toma.

Saímos do hospital e fomos directos para casa. Quando chegámos, fui logo para o quarto. Estava perante um dilema muito difícil. Tinha de escolher entre o meu filho e o homem da minha vida.       

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para semana

Bjs

Joana 


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Asas de Cristal- III- Recomeço...?

 Olá 

Fica o capitulo da semana. 

Espero que gostem. 

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III

Recomeço…?

Saímos do hotel com as poucas coisas que tínhamos. Afinal, nunca fora nossa intensão ficar muito tempo. Cá fora, o ar frio da noite obrigou-me a fechar o casaco que vestira antes de sair. Já não me lembrava como as noites de Gothan podiam ser frias. A gravidez fazia-me sentir coisas que nunca sentira e o frio podia ser uma delas.

Margaret tinha o carro estacionado ali perto pelo que não precisámos de andar muito para lá chegar. Era simples e discreto, longe das extravagâncias em que costumava andar. Cinzento com algumas manchas de óleo discretas num dos cantos da porta do condutor. Vidros que se abriam com manivelas e um motor que fazia um ruído semelhante a um tractor quando arrancou. Ao afastar-me daquele hotel e daquela zona da cidade, era como se me estivesse a despedir, ainda que temporariamente, da minha vida de luxo, crime e loucura. Mas também estava a deixar para trás uma vida que não fora criada por mim mas para mim. O Joker criara toda aquela fantasia em que estivera mergulhada durante anos para que não me apercebesse de como a realidade podia ser dura.

Agora, ao voltar a ela, já não me parecia tão assustadora. Chegava até a ser sufocante. «Talvez seja para isto que serve um filho» Pensei enquanto via as luzes passarem rapidamente pela janela do carro. «Para nos fazer encarar a realidade e enfrentar os nossos receios». Aqueles pensamentos transportaram-me ao passado. Um que preferia esquecer. A palavra dura era insuficiente para descrever a minha infância. Passei por tantas provações e desgostos que desejava que a ilusão me atingisse. E atingiu de certa forma. Olhei pela janela. Não reconheci nenhum daqueles lugares. Nem a rua onde algumas crianças brincavam, nem o café com um homem a ler o jornal acompanhado de um café, nem a mercearia onde uma mulher fazia as compras.

De repente, senti-me nervosa. Era a primeira vez que vinha a um sítio acolhedor e não sabia como agir.

Na próxima curva, era o bairro onde morava Margaret. A casa dela era a terceira de uma fila de outras tantas. Cinco se as contei correctamente. Sempre a imaginei a viver numa casa como aquela. Dois pisos, um pequeno jardim com algumas flores e uma caixa de correio perto. A casa típica americana, que vira tantas vezes em filmes.

O carro parou junto à porta. Uma carrinha estava parada na zona de garagem. Deduzi que fosse do marido ou da filha. Lucy era o seu nome. Lembrava-me vagamente de ela ter falado nisso numa das nossas conversas nos intervalos das visitas aos prisioneiros. Margaret saiu do carro. Bateu no vidro do meu lado a chamar a atenção que já tínhamos chegado, trazendo-me de volta à realidade. Abri a porta e saí. Segui-a depois de fechar a porta atrás de mim. Avançámos alguns passos até próximo da casa. O meu coração batia acelerado com tanto nervosismo e expectativa. A última vez que me sentira assim fora no meu primeiro assalto com o Joker, com a diferença que naquela altura tive a opção de voltar atrás, mas agora não podia recuar. Tinha mesmo de enfrentar aquela situação para poder construir o meu futuro. Pus a mão no ventre e acalmei-me um pouco. Dei alguns passos, ainda hesitante. Aproximei-me do caminho directo para a casa. Nem me lembrava que Margaret estava á minha frente e que já tinha avançado para a porta com a chave na mão. Alcancei-a pouco depois. A porta abriu-se com um clique.

Peguei no saco, que entretanto trouxera do carro, e entrámos. A porta fechou-se e ficámos no hall de entrada onde Margaret acendeu a luz para pousar as chaves no cinzeiro em cima de uma mesa perto da porta e despir o casaco. Imitei-a, mas enquanto ela o pendurou num bengaleiro, eu mantive o meu na mão.

Nesse momento, uma voz vinda do andar de cima soou:

-Maggie, és tu?-

Um homem de meia-idade, de cabelo grisalho, olhos claros, vestido com uns calções, uma camisa de manga curta e chinelos, surgiu na entrada depois de descer as escadas. Era o marido de Margaret, Charles. Margaret aproximou-se do marido para o cumprimentar. Depois, ele olhou para mim e depois para a mulher, como se perguntasse «O que é que esta está aqui a fazer?» A mulher olhou-o com um ar reprovador. Passado pouco tempo, ouviu-se outra voz, desta vez vinda da cozinha.

-Mãe, és tu?-

Uma rapariga de estatura média, olhos castanhos e cabelo da mesma cor, vestida com umas calças curtas e uns chinelos de andar por casa. Por cima, usava uma t-shirt larga de alças branca com um coração desenhado. Surgiu. Era Lucy, a filha de Margaret. Olhou para a mãe e depois para mim com uma expressão de surpresa e choque.

Fomos para a sala, passadas as primeiras emoções. Sentámo-nos no sofá. O silêncio era constrangedor. Tentei sorrir ainda que timidamente mas parece que ainda fiz pior. Margaret quebrou o silêncio, antes que a situação se agravasse:

-Esta é a Harleen e trouxe-a porque ela precisa de um sítio para ficar.- Fez uma pausa e acrescentou: -Está grávida e eu ofereci-me para a ajudar.-

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

Bjs

Joana