sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Asas de Cristal- V- Perda

 Olá 

Aqui fica o capitulo da semana. Espero que gostem.

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V

Perda

Os dias que se seguiram foram os mais difíceis e dolorosos. Tinha de ficar deitada sem me mexer enquanto Margaret e Lucy tomavam conta de mim. Apesar de todo o repouso, as dores eram intensas e não me deixavam pensar com clareza. A escolha parecia óbvia: não podia perder o meu filho, devia estar à frente de tudo, mas também não podia permitir que o pai não o conhecesse. Muitas vezes discutia o assunto com Margaret. Ela compreendia mas não podia compactuar com aquela loucura.

-Já fizeste que chegue por aquele homem.- Disse-me uma vez depois de mais uma discussão acesa. -Agora, tens de pensar em ti e no teu filho. Se ele quiser aparecer é bem-vindo. Eu já disse ao Charles e á Lucy que ele pode vir cá morar.-

A minha voz era de tristeza e raiva ao mesmo tempo.

-Eu já disse e volto a repetir as vezes que forem precisas.- Nesse momento, soei como a Harley Quinn, tive de me controlar pois Margaret já estava assustada. Respirei fundo e acrescentei num tom mais sereno:

-Eu preciso mesmo de o encontrar, percebes? Tenho de ser eu a dar-lhe a notícia e se o tiver no meio da estrada que seja.-

Margaret voltou a insistir:

-De certeza que não queres falar com a polícia ou com o Batman? No estado em que estás, não tens nada a perder e eles não te podem prender.-

Senti-me quase ofendida com aquelas palavras. Ainda no dia anterior tinha discutido aquela possibilidade e eu recusara. Começava a ficar seriamente farta daquela conversa. A voz quase me fugiu para a Harley outra vez:

-Não…- Respirei fundo outra vez. -Já que não quero pedir ajuda a ninguém de fora, muito menos ao Batman. Ele odeia-me, ainda é capaz de achar que estou a fingir só para lhe pedir ajuda.-

Margaret agarrou-me nas mãos. As dela estavam quentes em contraste com o gelo das minhas. O seu calor acalmou-me. Olhou-me nos olhos com a doçura de uma criança e acrescentou:

-Muito bem, se é isso que queres, façamos como dizes. Tu é que sabes.- Sorriu. Retribui-lhe. Abraçou-me. Aquele abraço acalmou-me ainda mais. Senti-me em paz. Naquele momento, até algumas lágrimas me caíram pela cara. Largámo-nos e voltei a deitar-me. Ela aconchegou-me e deu-me um beijo na testa. Depois, saiu do quarto fechando a porta.

Quando me vi sozinha, encolhi-me na cama. Agarrei-me á barriga e recomecei a chorar. Soluços contidos e gemidos pouco profundos para não me ouvirem. Não queria que me consolassem. Estava feliz e furiosa ao mesmo tempo. Feliz por ter encontrado um lar e furiosa por não ter sido há mais tempo. Só uma família podia saber como me sentia naquele momento. Deprimida, desmontada, impotente. O sentimento de culpa ficava mais forte por não ter sido capaz de pedir ajuda quando mais precisei dela. A minha obsessão fez-me esquecer tudo o resto. Durante anos, só tivera aquele homem que me fazia tão mal. Mas era o pai do meu filho e não podia negar essa ligação eterna. Quanto mais pensava nisso, mais a Harley Quinn forçava a sua saída. A minha mente tinha este dilema. A criminosa tresloucada de personalidade instável ou a rapariga assustada, grávida e indefesa.

O imenso turbilhão de emoções fez-me viajar novamente á minha infância. Nessa altura, era só Harleen, a Harley ainda estava adormecida dentro do meu ser. Mas com o passar do tempo, ela foi-se desenvolvendo e acabou por despertar naquele estágio na prisão.

Nunca tivemos uma relação que pudesse considerar normal. Os abusos, as manipulações, as humilhações, a obsessão, a quase dependência. Ele era a minha droga, o que me mantinha viva. A cada novo crime, a minha loucura aumentava, ao ponto de não conseguir sentir mais nada para além de adrenalina. Quantas vezes, o álcool e as drogas fizeram parte das nossas vidas, cada um mais potente que o outro. Dores exageradas para nos deixar ainda mais em êxtase. Não me lembro de quantas vezes acordava em sítios inusitados com metade da roupa rasgada por ter sido possuída por vários homens como um animal para reprodução. Qualquer um deles me podia ter engravidado, mas foi com ele que realmente senti prazer, que me entreguei de corpo e alma, naquele quarto de hotel depois de mais uma noite de absoluta loucura e excessos. Flaches dessa noite passaram pela minha mente. Alguns confusos, outros mais nítidos. Nuns, estava no hotel, noutros já na rua. Silhuetas difusas passavam por mim. Alguns olhavam-me com desprezo e repulsa, outros com pena e curiosidade. Aquele turbilhão de emoções deixou-me zonza. Levantei-me e fui á casa de banho. As emoções juntamente com a pouca comida saíram disparadas e foram engolidas pelo autoclismo. Depois, voltei a cambalear para o quarto. Ainda sentia o cheiro por isso mudei de pijama. Uma pontada forte na barriga fez-me sentar na cama. Comecei a ficar zonza outra vez. A seguir, ficou tudo negro.

Acordei, passado pouco tempo. Estava numa cama de hospital ligada a uma máquina com Margaret e Lucy na cabeceira. Charles estava sentado a um canto. Apesar do seu ar indiferente, consegui perceber que também estava preocupado. Olhei para elas á procura de respostas para o que acontecera mas a expressão nas suas caras dizia: «Descansa, depois contamos-te tudo.» A médica entrou no quarto, pegou na minha ficha e olhou-me com um ar indiferente.

Depois de verificar os registos e avaliar o meu estado, retirou-se fazendo sinal a Margaret para que a acompanhasse. Lucy ficou no quarto bom como Charles que continuou na mesma posição. Lucy agarrou-me na mão e sorriu. Retribui-lhe ainda que com alguma dificuldade. Passado um bocado, entrou Margaret. Vinha com lágrimas nos olhos por isso deduzi que fosse algo com o bebé. Olhou-me como se dissesse: «Vai correr tudo bem, não te preocupes. Nós estamos aqui.» Aquele olhar bastou para eu perceber o que se passava. As lágrimas começaram a correr pela minha cara. Estendi a mão e ela deu-me a sua. Charles também se aproximara. Tinha acabado de perder o único elo que ainda tinha com aquele homem. A única loucura que valera a pena. A única oportunidade de ser mãe.

O meu mundo acabava de ruir para sempre.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana 

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