Olá
Aqui fica o capitulo da semana. Espero que gostem.
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V
Perda
Os
dias que se seguiram foram os mais difíceis e dolorosos. Tinha de ficar deitada
sem me mexer enquanto Margaret e Lucy tomavam conta de mim. Apesar de todo o
repouso, as dores eram intensas e não me deixavam pensar com clareza. A escolha
parecia óbvia: não podia perder o meu filho, devia estar à frente de tudo, mas
também não podia permitir que o pai não o conhecesse. Muitas vezes discutia o
assunto com Margaret. Ela compreendia mas não podia compactuar com aquela
loucura.
-Já
fizeste que chegue por aquele homem.- Disse-me uma vez depois de mais uma
discussão acesa. -Agora, tens de pensar em ti e no teu filho. Se ele quiser
aparecer é bem-vindo. Eu já disse ao Charles e á Lucy que ele pode vir cá
morar.-
A
minha voz era de tristeza e raiva ao mesmo tempo.
-Eu
já disse e volto a repetir as vezes que forem precisas.- Nesse momento, soei
como a Harley Quinn, tive de me
controlar pois Margaret já estava assustada. Respirei fundo e acrescentei num
tom mais sereno:
-Eu
preciso mesmo de o encontrar, percebes? Tenho de ser eu a dar-lhe a notícia e
se o tiver no meio da estrada que seja.-
Margaret
voltou a insistir:
-De
certeza que não queres falar com a polícia ou com o Batman? No estado em que estás, não tens nada a perder e eles não
te podem prender.-
Senti-me
quase ofendida com aquelas palavras. Ainda no dia anterior tinha discutido
aquela possibilidade e eu recusara. Começava a ficar seriamente farta daquela
conversa. A voz quase me fugiu para a Harley
outra vez:
-Não…-
Respirei fundo outra vez. -Já que não quero pedir ajuda a ninguém de fora,
muito menos ao Batman. Ele odeia-me,
ainda é capaz de achar que estou a fingir só para lhe pedir ajuda.-
Margaret
agarrou-me nas mãos. As dela estavam quentes em contraste com o gelo das
minhas. O seu calor acalmou-me. Olhou-me nos olhos com a doçura de uma criança
e acrescentou:
-Muito
bem, se é isso que queres, façamos como dizes. Tu é que sabes.- Sorriu.
Retribui-lhe. Abraçou-me. Aquele abraço acalmou-me ainda mais. Senti-me em paz.
Naquele momento, até algumas lágrimas me caíram pela cara. Largámo-nos e voltei
a deitar-me. Ela aconchegou-me e deu-me um beijo na testa. Depois, saiu do quarto
fechando a porta.
Quando
me vi sozinha, encolhi-me na cama. Agarrei-me á barriga e recomecei a chorar.
Soluços contidos e gemidos pouco profundos para não me ouvirem. Não queria que
me consolassem. Estava feliz e furiosa ao mesmo tempo. Feliz por ter encontrado
um lar e furiosa por não ter sido há mais tempo. Só uma família podia saber
como me sentia naquele momento. Deprimida, desmontada, impotente. O sentimento
de culpa ficava mais forte por não ter sido capaz de pedir ajuda quando mais
precisei dela. A minha obsessão fez-me esquecer tudo o resto. Durante anos, só
tivera aquele homem que me fazia tão mal. Mas era o pai do meu filho e não
podia negar essa ligação eterna. Quanto mais pensava nisso, mais a Harley Quinn forçava a sua saída. A
minha mente tinha este dilema. A criminosa tresloucada de personalidade
instável ou a rapariga assustada, grávida e indefesa.
O
imenso turbilhão de emoções fez-me viajar novamente á minha infância. Nessa
altura, era só Harleen, a Harley
ainda estava adormecida dentro do meu ser. Mas com o passar do tempo, ela
foi-se desenvolvendo e acabou por despertar naquele estágio na prisão.
Nunca
tivemos uma relação que pudesse considerar normal. Os abusos, as manipulações,
as humilhações, a obsessão, a quase dependência. Ele era a minha droga, o que
me mantinha viva. A cada novo crime, a minha loucura aumentava, ao ponto de não
conseguir sentir mais nada para além de adrenalina. Quantas vezes, o álcool e
as drogas fizeram parte das nossas vidas, cada um mais potente que o outro.
Dores exageradas para nos deixar ainda mais em êxtase. Não me lembro de quantas
vezes acordava em sítios inusitados com metade da roupa rasgada por ter sido
possuída por vários homens como um animal para reprodução. Qualquer um deles me
podia ter engravidado, mas foi com ele que realmente senti prazer, que me
entreguei de corpo e alma, naquele quarto de hotel depois de mais uma noite de
absoluta loucura e excessos. Flaches dessa noite passaram pela minha mente.
Alguns confusos, outros mais nítidos. Nuns, estava no hotel, noutros já na rua.
Silhuetas difusas passavam por mim. Alguns olhavam-me com desprezo e repulsa,
outros com pena e curiosidade. Aquele turbilhão de emoções deixou-me zonza.
Levantei-me e fui á casa de banho. As emoções juntamente com a pouca comida
saíram disparadas e foram engolidas pelo autoclismo. Depois, voltei a cambalear
para o quarto. Ainda sentia o cheiro por isso mudei de pijama. Uma pontada
forte na barriga fez-me sentar na cama. Comecei a ficar zonza outra vez. A
seguir, ficou tudo negro.
…
Acordei,
passado pouco tempo. Estava numa cama de hospital ligada a uma máquina com
Margaret e Lucy na cabeceira. Charles estava sentado a um canto. Apesar do seu
ar indiferente, consegui perceber que também estava preocupado. Olhei para elas
á procura de respostas para o que acontecera mas a expressão nas suas caras
dizia: «Descansa, depois contamos-te tudo.» A médica entrou no quarto, pegou na
minha ficha e olhou-me com um ar indiferente.
Depois
de verificar os registos e avaliar o meu estado, retirou-se fazendo sinal a
Margaret para que a acompanhasse. Lucy ficou no quarto bom como Charles que
continuou na mesma posição. Lucy agarrou-me na mão e sorriu. Retribui-lhe ainda
que com alguma dificuldade. Passado um bocado, entrou Margaret. Vinha com
lágrimas nos olhos por isso deduzi que fosse algo com o bebé. Olhou-me como se
dissesse: «Vai correr tudo bem, não te preocupes. Nós estamos aqui.» Aquele
olhar bastou para eu perceber o que se passava. As lágrimas começaram a correr
pela minha cara. Estendi a mão e ela deu-me a sua. Charles também se
aproximara. Tinha acabado de perder o único elo que ainda tinha com aquele
homem. A única loucura que valera a pena. A única oportunidade de ser mãe.
O
meu mundo acabava de ruir para sempre.
E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Bjs
Joana
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