sexta-feira, 25 de março de 2022

Asas de Cristal- X- Ás/Sam

 Olá

Aqui fica o capitulo da semana.

Espero que gostem. 

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

X

Às/Sam

Ivy abraçou-me. Depois, beijou-me como nunca tinha beijado. Olhou-me com os olhos cheios de lágrimas, como se pedisse desculpas por não ter apoiado mais. Ela não tinha culpa e sabia-o mas mesmo assim, o seu olhar pedia desculpas. Abracei-a. Vestimo-nos e fomos para a varanda apanhar ar e fumar. Naquele momento, nada me dava mais prazer, apesar de ter prometido a mim mesma que não voltaria às drogas. Começava a anoitecer, o ar tornara-se mais fresco e o charro mais aprazível. O silêncio sabia bem, pontualmente interrompido pelo expelir do fumo pela boca.

-Só há uma coisa que não percebo.- Disse, de repente, Ivy.-O que é que essa história tem a ver com aquela noite?-

Fiquei surpreendida com a pergunta. Habitualmente, Ivy costumava ser mais perspicaz e decifrar a mensagens nas entrelinhas. Acabei o charro, fui ao quarto e trouxe o portátil para a varanda. Pousei-o no colo dela e abriu-o no email que Margaret me enviara. Ela lê-o e arregalou os olhos. Estava esclarecida. Mesmo assim perguntou:

-Como é que a Margaret sabe de tudo? Contaste-lhe?-

Respondi depois de me sentar:

-Ela já era directora da prisão na altura e viu os registos, mas a parte pessoal, sim, eu contei-lhe quando entrei no estágio.-

Ivy sorriu.

Sam saiu do armazém em passo apressado. Reviu o plano mentalmente até aquele momento. A encenação da festa, a droga para dormir, o rapto e, agora, a revelação- Sorriu satisfeita. Tudo lhe estava a correr de feição, só a gravidez é que saiu do plano original, mas até acabou por ser útil, Harleen ficara ainda mais perturbada. Andou alguns passos em direcção a um carro preto descapotável. Entrou nele e pousou as mãos no volante. Quase deu á chave, mas algo a fez recuar. Largou o volante e saiu do carro. Encostou-se á porta. Não queria chorar, mas não foi fácil. Caiu num pranto sem fim.

-Então, estás arrependida?- Perguntou uma voz masculina muito perto dela. Olhou para cima. Um homem de cabelo castanho vestido de preto estava parado á sua frente. Tinha alguns cortes nas mãos, pelo que ela deduziu que estivera numa missão. Levantou-se e respondeu secamente:

-Não me chateies, Jerome.- 

Afastou-se do carro e voltou a andar na direcção do armazém. Jerome continuou ao pé do carro a remexer lá dentro á procura de qualquer coisa. Encontrou e resolveu ir ao encontro de Sam. Foram juntos para o armazém.

Sorri. A sua perspicácia estava apurada. Respondi:

-Provavelmente, deve ter visto nalgum lado. Pode ter vasculhado os ficheiros da prisão, sei lá, ou então, foi pela Internet. Consegue-se tudo hoje em dia.-

Pareceu esclarecida. Nesse momento, começou a soprar uma brisa um pouco mais fria e tivemos de voltar para o quarto. Á noite, o deserto podia ser muito frio. Vestimos um casaco para jantar. Depois, demos um pequeno passeio para apanhar ar e digerir melhor a comida e a informação. Em pouco tempo, tínhamos descoberto quem era a raptora e o motivo. Só faltava saber onde ele estava. Não que me interessasse particularmente, mas já que estávamos envolvidas íamos até ao fim.

De vez em quando, ainda sentia que o devia salvar para tentar reatar a nossa relação, mas depois pensava: «Que relação? Nunca houve nenhuma!» Nessa altura, Ivy relembrava-me que a única relação que existia era a nossa e isso tranquilizava-me. Abraçava-me a ela, na cama, feliz. Adormecíamos sempre assim. Acordávamos ainda melhor com a certeza que o nosso amor estava mais forte e que, graças a isso, podíamos enfrentar qualquer coisa.

Jerome tinha o passo mais apressado, Sam mal o conseguia acompanhar. Chegou primeiro á porta do armazém. Teve de esperar por ela pois não tinha a chave. Sam apareceu pouco depois e abriu o cadeado. Entraram no armazém. Jerome mal viu o prisioneiro. Era como se fosse invisível. Avançou para outro lado menos iluminado. Sam foi ao encontro de Arthur. Aproximou-se. Tinha um ar assustado, como se de repente se tivesse transformado noutra pessoa. Os olhos ainda estavam húmidos das lagrimas que quase derramara lá fora. Segredou ao ouvido de Arthur num fio de voz: «Estás com sorte, não consegui ir ter com elas. Mas elas virão até ti.» Arthur estava cada vez mais confuso. Que espécie de ligação teria ela com a Harley e com ele? Não tinha a boca tapada mas as palavras não lhe saíam. Era como se esperasse o momento certo para o fazer. Ela afastou-se. Provavelmente foi ver o que o homem que entrara com ela estaria a fazer.

O vento batia-me na cara á medida que o carro avançava. Nunca me sentira tão leve. Nem quando saíra do orfanato. Estava uma noite fria, quase Inverno. Lembro-me que nessa altura não sabia o que esperar. Ia para a Faculdade, é certo, mas o futuro ainda era desconhecido. Parecia que tinha saído de um mundo paralelo e estava a voltar á realidade. Apertei o casaco, segurei a mala e avancei. Sam estava ao meu lado. Deu-me a mão para não me sentir sozinha. Avançamos as duas até a vida nos separar.

Ivy olhou-me com uma expressão feliz. Sorri-lhe. Acelerou e continuámos o nosso caminho.

 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana 

 


segunda-feira, 14 de março de 2022

Asas de Cristal- IX- Revelação

 Olá 

Aqui o capitulo desta semana. 

Excecionalmente á Segunda. 

Espero que gostem. 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

IX

Revelação

-Harleen…- Uma voz ecoava ao longe. -Harley…- Parecia mais perto, cada vez mais perto. Aos poucos, comecei a voltar a mim. Abri os olhos devagar. Ivy estava ao meu lado com um ar preocupado, aflito mesmo. Nunca a tinha visto assim. Das poucas pessoas que se preocupavam verdadeiramente comigo, ela e Margaret deviam as únicas. Olhei em volta. Ainda estava no quarto do motel. Tenti levantar-me mas senti a cabeça pesada e Ivy impediu-me.

-Estás bem?-Perguntou. -Precisas de alguma coisa? Eu posso ligar á Margaret ou podemos ir ao hospital!- A sua expressão era mesmo de aflição genuína. Fiquei comovida com aquela atitude. Tranquilizei-a:

-Está tudo bem, foi só um mal-estar, nada de mais. Devem ser as sequelas do aborto e este calor também não ajuda.- Tentei aligeirar a situação, mas ela continuava preocupada. Dei-lhe a mão. Estava a tremer. Olhei-a com ternura, como se dissesse: «Está mesmo tudo bem, já passou.» Ela pareceu acalmar-se. Perguntou hesitante:

-Podes explicar-me o que aconteceu? Se não te lembras não faz mal. De repente, vejo-te perto do computador e depois desmaias, tens de perceber que não é muito normal.-

Não lhe consegui responder. Estava confusa e precisava de um tempo para me recuperar. Ela afastou-se, compreensiva. Deixei-me ficar deitada um pouco mais. Ainda sentia a cabeça pesada e precisava de descansar.

Fechei os olhos e tentei dormir. Flaches de memória apareciam na minha mente. Alguns daquela noite, outros anteriores e não me deixavam dormir. Abri os olhos e levantei-me, farta de tudo aquilo. Fui á casa de banho passar o rosto por água. Ao sair, procurei Ivy com os olhos. Encontrei-a na varanda do quarto a fumar erva com um olhar distante. Quando ficava assim, era porque estava preocupada. Aproximei-me timidamente. Sentei-me na sua frente numa das cadeiras de latão. Era desconfortável mas dava para estar durante pouco tempo. O ar quente da tarde conseguia ser pior. Ela olhou-me com um ar indiferente enquanto repelia golfadas de fumo pela boca e pelo nariz. O cheiro da erva queimada impregnava o ar. Senti-me desconfortável. Normalmente, costumava gostar daquele cheiro e também pedia uma passa, mas por causa de tudo o que acontecera, deixara de gostar dessas coisas. Era como se recomeçasse. O silêncio que se instalara era constrangedor, quase ofensivo. Tinha de dizer alguma coisa ou iria enlouquecer. Respirei fundo e quebrei-o:

-Não te precisas de ficar preocupada, eu estou bem. Mas obrigada por tudo a sério!-

Sorri, ainda que meio forçado. Ela apagou o cigarro naquele instante e abraçou-me com os olhos ligeiramente húmidos, numa mistura de ressaca por causa da droga e de comoção. Também me vieram as lágrimas aos olhos. Depois, agarrou-me pelos braços e disse:

-Nunca mais me faças uma destas, ouviste! Se te acontecesse alguma coisa, nem sei o que faria!-

Num impulso, beijei-a. Depois, voltámos a abraçarmo-nos. Entre risos e lágrimas, fomos para o quarto. Fizemos amor até nos faltar o fôlego.

Não lhe podia perguntar. Ia parecer idiota e completamente descabido. Além disso, não estava era da sua natureza. Tinha de esperar que ela contasse alguma coisa ou, pelo menos, desse uma pista. Toda aquela conversa começava a irritá-lo. E para tornar tudo mais estranho, sentia que devia explicações á Harley, como se ela fosse a sua namorada ou alguém com quem ele se importasse. Nunca se importou verdadeiramente, ela era apenas uma ferramenta, um troféu, que gostava de exibir aos outros criminosos e, ás vezes, até ao Batman. «Que idiota! Como se aquela doida merecesse a tua consideração!» Pensou. No entanto, aquilo perseguia-o, tinha de deixar aqueles pensamentos ou iria tornar-se nalgo que não queria: uma pessoa amargurada e sentimental. Ela afastou-se, parecia que ia sair do armazém. Sem olhar para trás, apenas disse com sarcasmo:

-Vou tratar de uns assuntos. Não saias daí.-

-Agora, já me podes responder ou ainda estás hesitante?- Perguntou Ivy, olhando-me com ternura. Encostei a cabeça ao seu peito, tão quento como o meu. Os nossos corpos ainda estavam unidos como um só. Sorri-lhe antes de responder. Ainda estava hesitante, mas já me sentia preparada. Apesar disso, queria escolher bem as palavras, não eram lembranças fáceis. Faziam parte de uma altura da minha vida que preferia esquecer. Uma altura em que pensava que sabia tudo sobre o Joker ou sobre mim, mas estava enganada. Respirei fundo, sentei-me na cama. Ela acompanhou-me:

-Tudo o que te vou contar só pode ficar entre nós, ninguém pode saber, percebeste? Se contas a mais alguém nunca mais te falo, é sério!- Ivy olhou-me no fundo dos meus olhos. Aquela promessa seria cumprida. Continuei:

-Quando fui para o orfanato, conheci uma rapariga chamada Samantha Watson. Tal como eu, ela também era alvo de insultos e humilhações por parte dos outros miúdos e até das freiras.- Respirei um pouco e retomei: -Nessa altura, defendíamo-nos uma á outra e éramos grandes amigas. Foi o que me salvou.- Acrescentei: -Isso e os estudos. Éramos as melhores alunas da escola do orfanato e por isso conseguimos ir para uma boa faculdade estudar aquilo que sempre quisemos: Psicologia. Queríamos entender a mente daqueles que nos maltrataram e, assim, talvez perceber melhor o mundo.- Fiz uma pausa. Tentava conter as lágrimas. Ivy segurou-me nas mãos para me dar força. Senti-me melhor e prossegui:

-Tudo corria bem até ela se ter começado a dar com gente perigosa. Um grupo chamado Asas de Cristal do qual o Joker fazia parte. Na altura, eram um grupo pequeno que praticava pequenos roubos de jóias, dinheiro e às vezes carros. Sempre tentei demovê-la a deixa-los. Aquilo não era vida para ela! Estávamos a acabar a formação, íamos escolher um estágio, tínhamos um futuro risonho á nossa frente!- Voltei a respirar fundo. Retomei o discurso:

-Mas ela estava cada vez mais obcecada com aquilo, sobretudo com o Joker. Já fazia planos de casar e ter filhos com ele! E como os iria ensinar a ser como o pai! A sua loucura levou-a a faltar às aulas e a afastar-se de mim. As poucas vezes que a via tinha um olhar vazio, sem vida, estava quase sempre sob o efeito de drogas ou álcool, mas o pior não era isso! Estava cada vez mais parecida com ele!- Fiz uma pausa. As lágrimas de culpa e de raiva corriam-me pela cara. Ivy abraçou-me, como se dissesse: «Não precisas de contar mais nada» mas eu olhei-a determinada e prossegui, tinha de lhe contar tudo:

-Uma noite, estava a voltar para o dormitório, quando recebi uma chamada dela a dizer que ia participar num assalto a um armazém de armas e que, provavelmente nunca mais nos iriamos ver. Nessa altura, abandonara o seu nome e assumira a identidade de Às. Desliguei o telefone e fui a correr para o dormitório, estava assustada pelas duas. Peguei no telemóvel e liguei para o Batman. Na altura, não sabia que era o Bruce Wayne. Tinha sido apanhada numa confusão e salva por ele em tempos, e ele dera-me um cartão com o contacto caso fosse precisar. Acabei por perdê-lo com o tempo mas ainda tenho o número no meu telemóvel esquecido. Liguei-lhe e dei-lhe as informações sobre o assalto no armazém, sem mencionar o nome da minha amiga.- Fiz outra pausa. Continuei:

-Mais tarde, soube que tinha sido apanhada pelo Batman e ido para o hospital-prisão. O que ela passou lá foi horrível. A Margaret contou-me que os sintomas dela eram parecidos com os do Joker mas mais descontrolados. No inicio, não aceitava os tratamentos, andava sempre instável e não compareceu á maior parte das audiências em tribunal. Queria saber quem a tinha denunciado. Não contara a ninguém acerca do assalto, excepto a mim.- Respirei fundo e prossegui:

-Quando saiu da prisão, foi á minha procura mas eu já tinha saído da faculdade e estava a ingressar num estágio, exactamente na mesma prisão onde ela estivera. Soube pelas notícias que tinha havido um acidente durante uma perseguição policial a um grupo de assaltantes ao Banco De Gothan. Ela estava lá bem como o Joker. O carro onde seguiam despistou-se e foi contra um camião que transportava gasolina. Houve uma grande explosão. Ele conseguiu fugir mas ela foi dada como morta.- Voltei a respirar fundo e finalizei o discurso:

-O Joker foi preso e lavado para o hospital-prisão onde eu estava a fazer o estágio e o resto já sabes.-

Olhei para ela com lágrimas nos olhos. Ivy estava chocada com o que ouvira. Agora, tudo lhe fazia sentido. Era uma história de vingança.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana  

    

    


sexta-feira, 11 de março de 2022

Asas de Cristal- VIII- Memória

 Olá 

Aqui fica o capitulo da semana.

Espero que gostem. 

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

VIII

Memória

-Tens a certeza?- Perguntou Ivy ansiosa.

Respirei fundo e respondi:

-As memórias ainda são muito difusas e confusas, mas reconheci esse salão vagamente.-

Ivy pousou o telemóvel na mesa-de-cabeceira e abraçou-me. Estava tão ou mais nervosa que eu. Abraçamo-nos uma á outra.

Depois, disse:

-Conta-me tudo o que te conseguires lembrar. Não precisas de ter pressa.-

Ajoelhei-me na cama. Com todas as emoções, acabámos por nos sentar. Olhei no fundo dos seus olhos e comecei o meu relato.

-Há uns tempos, eu e o Joker fizemos uns negócios com uns tipos de uma organização ligada ao tráfico de armas.- Fiz uma pausa para me tentar lembrar de mais detalhes. Retomei o discurso:

-Depois de celebrarmos esse negócio, fomos convidados para uma festa num salão alugado por eles. Acho que foi naquele que apareceu na foto, não tenho bem a certeza. Só me lembro de irmos, de bebermos tomarmos outras coisas e depois apaguei.-

Ivy ficou intrigada:

-A festa pode ter sido uma armadilha para vos atrair.- Começou.- Não te lembras de quem lá estava?-

Puxei pela memória dessa noite. Silhuetas passaram pela minha mente, mas não lhes conseguia ver a cara. Era como se tivesse uma lente que não as focasse. Acenei negativamente com a cabeça. Ela voltou a abraçar-me.

-Não faz mal.- Acabou por dizer. -Aos poucos, vais-te lembrar e juntar novas peças para resolver este enigma.- Acrescentou depois de me largar: -Agora, vamos dormir que ainda temos um longo caminho pela frente.- Seguimos o seu conselho e deitámo-nos.

Pousou o joelho no meio das suas pernas. O seu olhar era tresloucado, quase possuído. Já não tinha a faca, guardara-a num bolso. Continuou o discurso:

-Eu já fui tua parceira, sabias?- Acrescentou, mudando de posição: -Éramos inseparáveis até aquele maldito acidente!- Apontou para a cicatriz. -Depois, ela apareceu e tudo mudou! Era só ela, sempre ela e ninguém mais que ela!- Coçou um pouco a cabeça, a fingir que se fazia um exercício de memória. -Como é que se chamava? Harleen? Não! Era Harley!- Esbugalhou os olhos. -Essa cabra roubou-me tudo! Mas agora vai ver!-

Ele estava cada vez mais confuso com tudo aquilo. As suas memórias estavam ainda difusas, pelo que levaria algum tempo até a reconhecer, se é que a conhecia. A rapariga voltou a aproximar-se. Desta vez, tocou-lhe ao de leve na cara. Soltou uma risadinha parecida com a dele. «Quem será esta rapariga?» Pensou ele. «E o que quererá de mim?»

Na manhã seguinte, partimos logo cedo. Ainda o sol mal tinha nascido e já sentíamos o vento a bater na cara. O descapotável percorria a estrada a uma velocidade moderada, não queríamos dar nas vistas. O tempo em que andávamos a alta velocidade a causar confusão tinha ficado para trás. De certa forma, era como se tivesse uma segunda adolescência, uma segunda oportunidade para nos reencontrarmos, especialmente para mim, já que a minha primeira adolescência não existira. Desde as humilhações, agressões e constantes lembranças de que tinha sido abandonada e que devia estar agradecida por ter um tecto sobre a cabeça e que terem me acolhido naquele lugar foi «uma sorte» dizia aquela mulher irritante. Deve ter sido nessa altura que a Harley adormecida começou a despertar. Quando finalmente saí dali para a universidade, ela acalmou um pouco, voltando na prisão-hospital. Todas aquelas lembranças dolorosas se misturaram com aquela noite. Ainda confusas, mas cada vez mais nítidas. Tudo isto deixou-me zonza e obrigou Ivy a parar o carro na beira da estrada. Saímos para desentorpecer as pernas. Apesar de já estar recuperada, os danos psicológicos ainda eram fortes. E com as memórias lentamente a voltar, o meu corpo ressentia-se.

Sentámo-nos na beira da estrada. Ivy deu-me um pouco de água. Estava calor, por isso parámos á sombra. O deserto ficava a menos de um quilómetro, não admirava que estivesse zonza. Sempre fora sensível á luz. Na infância, quase nunca a vira. Estava sempre fechada no quarto a ver os outros a brincar no pátio do orfanato. Não estava autorizada a ir ter com eles, «tens uma mente muito instável, ainda assustas toda a gente.» Diziam, «é melhor ficares aqui, para o bem deles.» Sentia-me sempre tão só quando isso acontecia. Mesmo depois de estar cheio, era invisível, ninguém perguntava se estava bem ou se queria ir ter com eles da próxima vez. Todos me temiam. Parecia que tinha uma doença contagiosa. Nessa altura, eu era um monstro. Depois de o conhecer, continuei a sê-lo mas não me importava. Era como se já tivesse autorização para o fazer. Todos me continuavam a evitar, mas tinha-o a ele para me proteger. Pelo menos era o que pensava. Eu sabia que não era assim. Sempre fora tratada como um objecto, um troféu que ele exibia por aí. Na altura, sentia-me a maior do mundo podia finalmente mostrar aquilo que valia, mas tudo não passou de uma ilusão, um sonho.

-Estás melhor?-A voz de Ivy trouxe-me de volta. Olhei-a com um ar perdido, como se ainda estivesse no limbo, mas rapidamente me recompus.

-Sim, muito melhor!- Respondi com uma voz mais animada.

-Óptimo, porque ainda temos muito caminho pela frente antes de anoitecer. Vamos?-

Assenti e, ajudada por ela, voltamos para o carro.

A rapariga continuou a acariciar-lhe a cara como se estivesse num daqueles bares de alterne que costumava frequentar. «Definitivamente não é um das dessas mulheres.» Pensou. «Tem demasiada delicadeza para isso.» Ela olhou-o com um ar atrevido e desafiador ao mesmo tempo. Ele sorriu quase forçado enquanto tentava desatar o nó que sentia na garganta. Engoliu em seco e conseguiu aguentar-se. Não sabia há quanto tempo estava ali, mas já devia ser algum. Ela voltou a afastar-se e ficou a olhar para a faca com um ar maníaco. Por momentos, pareceu-lhe ver a Harley. Ela também fazia a mesma expressão antes de cometer um crime. «Seriam parentes» Perguntou-se. «Se calhar, era uma parente distante que queria vingança por tudo o que lhe fiz.»

Depois, murmurou, olhando para Arthur:

-Vamos esperar que a minha mensagem chegue ao destinatário. A memória dela vai com certeza voltar.-

Um toque de mensagem soou no telemóvel de Margaret. Esta estava a sair do banho quando foi ver. «Só pode ser a Harleen.» Pensou. Quando pegou no telemóvel, não conheceu o número. Achou estranho. Abriu a mensagem. Tinha um link para uma notícia antiga. Clicou nele e ficou chocada com o que viu. Rapidamente, procurou o número de Harleen e ligou-lhe.

O meu telemóvel tocou em cima da cama. Tínhamos parado noutro motel para descansar. Relutante, fui ver quem era. Quando vi o nome no ecrã, achei estranho. Atendi:

-Estou, Margaret? O que queres?- Perguntei quase de uma forma agressiva.

Ela respondeu:

«Acabei de receber algo que é capaz de te interessar. Mandei para o teu email, tens um computador contigo?»

Olhei para o portátil da Ivy e disse-lhe que sim. «Muito bem. Vê o email e depois falamos.» Desligou.

Pousei o telemóvel na mesa-de-cabeceira. Fui até ao portátil. Ivy levava sempre um para o caso de ser preciso. Abriu-o e fui ao meu email A primeira mensagem era de Margaret. Cliquei. Era um link. Abriu-o. Era uma notícia antiga com 15 anos pelo menos, sobre um acidente que acontecera pouco tempo antes do Joker ter ido parar ao hospital-prisão. Vinha acompanhada de uma fotografia dele e de uma das alegadas vítimas. Uma rapariga de cabelo curto. Aquela cara não me era estranha e aquela noticia também não. De repente, tive um flache de memória daquela noite e a cara dela apareceu nitidamente. Senti uma forte tontura. Antes de desmaiar, ainda ouvi a voz de Ivy a perguntar se estava tudo bem. Depois, a escuridão total.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana 

sexta-feira, 4 de março de 2022

Asas de Cristal- VII- A Busca

 Olá 

Aqui fica o capitulo da semana.

Espero que gostem.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

VII

A Busca

Depois de me afastar da casa de Margaret, encontrei o carro de Ivy. Era um descapotável vermelho e verde. Muito característico dela, já que era obcecada por plantas. Essa obsessão levara-a, tal como eu, a cometer muitas loucuras, mas agora parecia estar mais calma. Sorri-lhe quando me aproximei. Ela sorriu de volta. Pousei o saco no banco de trás e sentei-me no banco ao seu lado. Assim que me sentei, amarrei o cabelo em dois totós, que me eram tão característicos. Mais tarde, acrescentaria a maquilhagem. Arrancámos pouco depois.

Abriu os olhos devagar. Olhou em volta mas não reconheceu o sítio. Parecia um armazém. Era amplo, pouco iluminado e misturava os cheiros de mofo, metal e outros indecifráveis. Tentou mexer-se mas não conseguiu, estava paralisado. Só então se deu conta que estava sentado e amarrado nos pulsos e tornozelos com algo mais forte que uma corda. Fez um esforço de memória para se lembrar como viera ali parar mas apenas conseguia que flaches meio distorcidos passassem pela sua mente. A última coisa que se lembrava era de ter estado numa festa com a Harley e depois foram para um hotel. A partir daí, a escuridão total.

-Vejo que já acordaste, Arthur.- Uma voz feminina trouxe-o de volta dos seus pensamentos.

Em contraluz não conseguiu distinguir-lhe as feições mas á medida que se aproximava ia ficando mais nítidas. Era morena, de olhos negros e cabelo preto curto. Estava vestida de preto e branco e tinha um olhar de ódio tão profundo que o assustou. Olhando mais de perto, viu que tinha uma cicatriz saliente na cara que lhe atravessava o olho e ia quase até ao queixo. Olhou-a com mais atenção. Tinha a sensação que já a vira nalgum lado, mas não se lembrava onde. Não era de esquecer rostos, muito menos de mulheres. Terá sido uma das suas vítimas? Ou talvez conquista? Nunca tivera uma relação firme com a Harley por isso era bem possível. Mas depois apercebeu-se que ela não o tratou por Joker mas por Arthur. Poucas pessoas o tratavam por esse nome. Tinha-o abandonado há muito tempo. Como era possível que ela soubesse?

Estávamos na estrada há várias semanas. Sentia-me mais leve que nunca. Aquela passagem pela casa de Margret deixara marcas, mas também me revigorara as energias. Nunca pensei que uma família me fizesse tão bem. Nunca tivera uma. Estive sempre sozinha, sempre na sombra. Fui sempre deixada para trás. Pelo meus pais, pelos meus supostos amigos e agora pelo Joker. Tirei Psicologia para tentar perceber como funciona a mente de pessoas como as que me abandonaram mas tudo o que consegui foi mais dor e sofrimento. Pelo menos até conhecer a Margaret mas também a Ivy. Pamela Lillian Isley é o seu nome, mas ela prefere Poison Ivy. Também teve um passado irregular como o meu. Acabou por tirar botânica e era brilhante se não tivesse desenvolvido uma enzima que fez com que as plantas crescessem demais e ter usado isso para benefício próprio. Foi expulsa da comunidade científica e transformou-se numa criminosa.

Conheci-a num assalto a um laboratório que fiz com o Joker. Ele queria um produto para desenvolver um novo gás hilariante e eu, como boa cúmplice que era, invadi o laboratório por ele. Ela já lá estava. Andava á procura de outro produto, acabámos por nos ajudar mutuamente e a partir daí, sempre que era possível, trabalhávamos em conjunto.

-Uma moeda pelos teus pensamentos.- A voz doce de Ivy trouxe-me de volta. Tínhamos parado e estávamos num motel á beira da estrada onde decidimos passar a noite. Aquela viagem fortalecera a nossa amizade que estava, aos poucos, a tornar-se nalgo mais intenso. Estava deitada na cama com um ar pensativo. Já era a Harley outra vez. Ela aproximou-se e falou-me quase ao ouvido. Olhei-a com ternura. Os seus olhos castanhos eram intensos e o seu cabelo ruivo espalhava-se pela cama como um manto de relva num prado.

-Estava a pensar em tudo o que aconteceu.- Respondi. Ela sorriu. -Só podia.- Disse. Levantou o tronco da cama mas eu puxei-a para mim. Era a primeira vez que ficávamos tão próximas, foi também a primeira vez que beijei uma mulher. E curiosamente não foi assim tão mau. Já estávamos a pensar que fosse acontecer mais ou mais tarde. Nunca tinha experimentado nada com mulheres. Sempre me considerei heterossexual até a conhecer. Acho que a partir dessa altura, passei a questionar a minha sexualidade. Sentia-me atraída por homens e por mulheres. Era Bissexual. Mas depois apercebi-me que o que sentia pelo Joker não era amor, era dependência. Com a Ivy era diferente, sentia-me mais eu própria, como se finalmente estivesse completa.

Fiz amor como nunca tinha feito. Acho que aprendi finalmente o significado da expressão. A adrenalina que percorria o meu corpo era diferente de quando estava com o Joker. Com a Ivy tudo era mais intenso, mais verdadeiro. Os beijos, as caricias, era tudo mais real. Os nossos corpos complementavam-se. Depois, ficámos abraçadas. As roupas espalhadas pelo quarto evidenciavam que tudo aquilo era real. Estava feliz, verdadeiramente feliz. Em muito tempo, nunca me tinha sentido assim, tranquila mas ao mesmo tempo com algum receio. Encostei a cabeça no ombro dela. Passou-me o braço por cima. Sorri. Ela sorriu de volta.

-A que está ligada?- Aquela pergunta saiu-me quase por instinto, sem que eu querer. Ela fez uma expressão surpresa, como se preguntasse: «De onde veio isso agora?» Acrescentei: - A organização ‘Asas de Cristal’? Está ligada a quê?- Ivy percebera a que me referia. Apenas ficara surpresa e confusa com aquela pergunta. Pensou um pouco e respondeu:

-Segundo o que consegui apurar, eles estavam ligados ao tráfego de armas, por vezes droga e outros negócios obscuros. Mas porquê a pergunta? Estás assim tão preocupada?-

Respondi num tom neutro:

-Não, apenas curiosidade.-

Ivy olhou-me com um ar desconfiado, como se duvidasse do que acabara de acontecer. O beijo que lhe dei dissipou todas as dúvidas. Depois, levantou-se e foi para a casa de banho. Segui-a com um ar sedutor. Continuámos debaixo da água quente e confortável do duche.

-Agora, sou eu que estou curiosa.- Começou Ivy, passando a toalha pelo cabelo. Já estávamos vestidas e revigoradas. Ela estava sentada na beira da cama. Fiz uma expressão de surpresa. Perguntei:

-Com o quê, exactamente?-

Ela sorriu e respondeu:

-Contigo. Alguma vez o amaste?-

Fiquei confusa com a pergunta. Nunca tinha pensado nisso. Ao longo daqueles anos, achei que havia algo mas não sabia o que lhe chamar. Respondi com um ar pensativo:

-Havia um fascínio, uma adição, se quiseres. Ele precisava de mim e eu precisava dele. Mas amor, acho que não.-

Ivy pareceu convencida. Pousou a toalha, levantou-se, abraçou-me e beijou-me. Depois, segredou-me: «No fundo, já sabia. Só queria ter a certeza.»

A rapariga aproximou-se com um ar ameaçador. Tinha uma pequena faca numa das mãos enluvadas. Sentou-se ao colo dele e acrescentou:

-Não te lembras, pois não?- Passou a lâmina muito perto da cara dele. -Pois, eu compreendo. Deve ser da droga. Não devia ter posto tanto.-

Ele estava cada vez mais confuso. Ela levantou-se e continuou a falar:

-Mas não te preocupes. Eu vou avivar-te a memória.-

Ao fim da tarde, fomos jantar a uma taberna próxima do motel. Comemos sandes e sumos como duas adolescentes em fuga. Voltámos para o quarto e lembrei-me de algo enquanto me preparava para dormir.

-Quando me ligaste, disseste que tinhas visto a notícia do desaparecimento do Joker, não foi?-

Ivy assentiu. Continuei:

-Não viste mais nada? Sobre o local onde ele desapareceu, por exemplo?-

Teve de fazer um esforço de memória, até que se lembrou e foi buscar o telemóvel. Mostrou-me uma notícia com quase dois meses sobre o desaparecimento. Tinha uma fotografia. Nela, podia ver um salão de festas luxuoso com algumas silhuetas a dançar. Ao ver aquela imagem, alguns flaches passaram pela minha mente. Senti uma tontura e tive de me sentar na cama. Ivy sentou-se também.

-Então?- Perguntou. -Alguma coisa?-

Respondi:

-Acho que me lembro onde foi a festa a que fui com o Joker.-

 --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

Bjs

Joana