Olá
Aqui fica o capitulo da semana.
Espero que gostem.
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X
Às/Sam
Ivy
abraçou-me. Depois, beijou-me como nunca tinha beijado. Olhou-me com os olhos
cheios de lágrimas, como se pedisse desculpas por não ter apoiado mais. Ela não
tinha culpa e sabia-o mas mesmo assim, o seu olhar pedia desculpas. Abracei-a.
Vestimo-nos e fomos para a varanda apanhar ar e fumar. Naquele momento, nada me
dava mais prazer, apesar de ter prometido a mim mesma que não voltaria às
drogas. Começava a anoitecer, o ar tornara-se mais fresco e o charro mais
aprazível. O silêncio sabia bem, pontualmente interrompido pelo expelir do fumo
pela boca.
-Só
há uma coisa que não percebo.- Disse, de repente, Ivy.-O que é que essa
história tem a ver com aquela noite?-
Fiquei
surpreendida com a pergunta. Habitualmente, Ivy costumava ser mais perspicaz e
decifrar a mensagens nas entrelinhas. Acabei o charro, fui ao quarto e trouxe o
portátil para a varanda. Pousei-o no colo dela e abriu-o no email que Margaret me enviara. Ela lê-o
e arregalou os olhos. Estava esclarecida. Mesmo assim perguntou:
-Como
é que a Margaret sabe de tudo? Contaste-lhe?-
Respondi
depois de me sentar:
-Ela
já era directora da prisão na altura e viu os registos, mas a parte pessoal,
sim, eu contei-lhe quando entrei no estágio.-
Ivy
sorriu.
…
Sam saiu do
armazém em passo apressado. Reviu o plano mentalmente até aquele momento. A
encenação da festa, a droga para dormir, o rapto e, agora, a revelação- Sorriu
satisfeita. Tudo lhe estava a correr de feição, só a gravidez é que saiu do
plano original, mas até acabou por ser útil, Harleen ficara ainda mais
perturbada. Andou alguns passos em direcção a um carro preto descapotável.
Entrou nele e pousou as mãos no volante. Quase deu á chave, mas algo a fez
recuar. Largou o volante e saiu do carro. Encostou-se á porta. Não queria
chorar, mas não foi fácil. Caiu num pranto sem fim.
-Então, estás
arrependida?- Perguntou uma voz masculina muito perto dela. Olhou para cima. Um
homem de cabelo castanho vestido de preto estava parado á sua frente. Tinha
alguns cortes nas mãos, pelo que ela deduziu que estivera numa missão.
Levantou-se e respondeu secamente:
-Não me
chateies, Jerome.-
Afastou-se do
carro e voltou a andar na direcção do armazém. Jerome continuou ao pé do carro
a remexer lá dentro á procura de qualquer coisa. Encontrou e resolveu ir ao
encontro de Sam. Foram juntos para o armazém.
…
Sorri.
A sua perspicácia estava apurada. Respondi:
-Provavelmente,
deve ter visto nalgum lado. Pode ter vasculhado os ficheiros da prisão, sei lá,
ou então, foi pela Internet. Consegue-se tudo hoje em dia.-
Pareceu
esclarecida. Nesse momento, começou a soprar uma brisa um pouco mais fria e
tivemos de voltar para o quarto. Á noite, o deserto podia ser muito frio.
Vestimos um casaco para jantar. Depois, demos um pequeno passeio para apanhar
ar e digerir melhor a comida e a informação. Em pouco tempo, tínhamos
descoberto quem era a raptora e o motivo. Só faltava saber onde ele estava. Não
que me interessasse particularmente, mas já que estávamos envolvidas íamos até
ao fim.
De
vez em quando, ainda sentia que o devia salvar para tentar reatar a nossa
relação, mas depois pensava: «Que relação? Nunca houve nenhuma!» Nessa altura,
Ivy relembrava-me que a única relação que existia era a nossa e isso
tranquilizava-me. Abraçava-me a ela, na cama, feliz. Adormecíamos sempre assim.
Acordávamos ainda melhor com a certeza que o nosso amor estava mais forte e
que, graças a isso, podíamos enfrentar qualquer coisa.
…
Jerome tinha o
passo mais apressado, Sam mal o conseguia acompanhar. Chegou primeiro á porta
do armazém. Teve de esperar por ela pois não tinha a chave. Sam apareceu pouco
depois e abriu o cadeado. Entraram no armazém. Jerome mal viu o prisioneiro.
Era como se fosse invisível. Avançou para outro lado menos iluminado. Sam foi
ao encontro de Arthur. Aproximou-se. Tinha um ar assustado, como se de repente
se tivesse transformado noutra pessoa. Os olhos ainda estavam húmidos das
lagrimas que quase derramara lá fora. Segredou ao ouvido de Arthur num fio de
voz: «Estás com sorte, não consegui ir ter com elas. Mas elas virão até ti.»
Arthur estava cada vez mais confuso. Que espécie de ligação teria ela com a
Harley e com ele? Não tinha a boca tapada mas as palavras não lhe saíam. Era
como se esperasse o momento certo para o fazer. Ela afastou-se. Provavelmente
foi ver o que o homem que entrara com ela estaria a fazer.
…
O
vento batia-me na cara á medida que o carro avançava. Nunca me sentira tão
leve. Nem quando saíra do orfanato. Estava uma noite fria, quase Inverno.
Lembro-me que nessa altura não sabia o que esperar. Ia para a Faculdade, é
certo, mas o futuro ainda era desconhecido. Parecia que tinha saído de um mundo
paralelo e estava a voltar á realidade. Apertei o casaco, segurei a mala e
avancei. Sam estava ao meu lado. Deu-me a mão para não me sentir sozinha.
Avançamos as duas até a vida nos separar.
Ivy
olhou-me com uma expressão feliz. Sorri-lhe. Acelerou e continuámos o nosso
caminho.