segunda-feira, 14 de março de 2022

Asas de Cristal- IX- Revelação

 Olá 

Aqui o capitulo desta semana. 

Excecionalmente á Segunda. 

Espero que gostem. 

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IX

Revelação

-Harleen…- Uma voz ecoava ao longe. -Harley…- Parecia mais perto, cada vez mais perto. Aos poucos, comecei a voltar a mim. Abri os olhos devagar. Ivy estava ao meu lado com um ar preocupado, aflito mesmo. Nunca a tinha visto assim. Das poucas pessoas que se preocupavam verdadeiramente comigo, ela e Margaret deviam as únicas. Olhei em volta. Ainda estava no quarto do motel. Tenti levantar-me mas senti a cabeça pesada e Ivy impediu-me.

-Estás bem?-Perguntou. -Precisas de alguma coisa? Eu posso ligar á Margaret ou podemos ir ao hospital!- A sua expressão era mesmo de aflição genuína. Fiquei comovida com aquela atitude. Tranquilizei-a:

-Está tudo bem, foi só um mal-estar, nada de mais. Devem ser as sequelas do aborto e este calor também não ajuda.- Tentei aligeirar a situação, mas ela continuava preocupada. Dei-lhe a mão. Estava a tremer. Olhei-a com ternura, como se dissesse: «Está mesmo tudo bem, já passou.» Ela pareceu acalmar-se. Perguntou hesitante:

-Podes explicar-me o que aconteceu? Se não te lembras não faz mal. De repente, vejo-te perto do computador e depois desmaias, tens de perceber que não é muito normal.-

Não lhe consegui responder. Estava confusa e precisava de um tempo para me recuperar. Ela afastou-se, compreensiva. Deixei-me ficar deitada um pouco mais. Ainda sentia a cabeça pesada e precisava de descansar.

Fechei os olhos e tentei dormir. Flaches de memória apareciam na minha mente. Alguns daquela noite, outros anteriores e não me deixavam dormir. Abri os olhos e levantei-me, farta de tudo aquilo. Fui á casa de banho passar o rosto por água. Ao sair, procurei Ivy com os olhos. Encontrei-a na varanda do quarto a fumar erva com um olhar distante. Quando ficava assim, era porque estava preocupada. Aproximei-me timidamente. Sentei-me na sua frente numa das cadeiras de latão. Era desconfortável mas dava para estar durante pouco tempo. O ar quente da tarde conseguia ser pior. Ela olhou-me com um ar indiferente enquanto repelia golfadas de fumo pela boca e pelo nariz. O cheiro da erva queimada impregnava o ar. Senti-me desconfortável. Normalmente, costumava gostar daquele cheiro e também pedia uma passa, mas por causa de tudo o que acontecera, deixara de gostar dessas coisas. Era como se recomeçasse. O silêncio que se instalara era constrangedor, quase ofensivo. Tinha de dizer alguma coisa ou iria enlouquecer. Respirei fundo e quebrei-o:

-Não te precisas de ficar preocupada, eu estou bem. Mas obrigada por tudo a sério!-

Sorri, ainda que meio forçado. Ela apagou o cigarro naquele instante e abraçou-me com os olhos ligeiramente húmidos, numa mistura de ressaca por causa da droga e de comoção. Também me vieram as lágrimas aos olhos. Depois, agarrou-me pelos braços e disse:

-Nunca mais me faças uma destas, ouviste! Se te acontecesse alguma coisa, nem sei o que faria!-

Num impulso, beijei-a. Depois, voltámos a abraçarmo-nos. Entre risos e lágrimas, fomos para o quarto. Fizemos amor até nos faltar o fôlego.

Não lhe podia perguntar. Ia parecer idiota e completamente descabido. Além disso, não estava era da sua natureza. Tinha de esperar que ela contasse alguma coisa ou, pelo menos, desse uma pista. Toda aquela conversa começava a irritá-lo. E para tornar tudo mais estranho, sentia que devia explicações á Harley, como se ela fosse a sua namorada ou alguém com quem ele se importasse. Nunca se importou verdadeiramente, ela era apenas uma ferramenta, um troféu, que gostava de exibir aos outros criminosos e, ás vezes, até ao Batman. «Que idiota! Como se aquela doida merecesse a tua consideração!» Pensou. No entanto, aquilo perseguia-o, tinha de deixar aqueles pensamentos ou iria tornar-se nalgo que não queria: uma pessoa amargurada e sentimental. Ela afastou-se, parecia que ia sair do armazém. Sem olhar para trás, apenas disse com sarcasmo:

-Vou tratar de uns assuntos. Não saias daí.-

-Agora, já me podes responder ou ainda estás hesitante?- Perguntou Ivy, olhando-me com ternura. Encostei a cabeça ao seu peito, tão quento como o meu. Os nossos corpos ainda estavam unidos como um só. Sorri-lhe antes de responder. Ainda estava hesitante, mas já me sentia preparada. Apesar disso, queria escolher bem as palavras, não eram lembranças fáceis. Faziam parte de uma altura da minha vida que preferia esquecer. Uma altura em que pensava que sabia tudo sobre o Joker ou sobre mim, mas estava enganada. Respirei fundo, sentei-me na cama. Ela acompanhou-me:

-Tudo o que te vou contar só pode ficar entre nós, ninguém pode saber, percebeste? Se contas a mais alguém nunca mais te falo, é sério!- Ivy olhou-me no fundo dos meus olhos. Aquela promessa seria cumprida. Continuei:

-Quando fui para o orfanato, conheci uma rapariga chamada Samantha Watson. Tal como eu, ela também era alvo de insultos e humilhações por parte dos outros miúdos e até das freiras.- Respirei um pouco e retomei: -Nessa altura, defendíamo-nos uma á outra e éramos grandes amigas. Foi o que me salvou.- Acrescentei: -Isso e os estudos. Éramos as melhores alunas da escola do orfanato e por isso conseguimos ir para uma boa faculdade estudar aquilo que sempre quisemos: Psicologia. Queríamos entender a mente daqueles que nos maltrataram e, assim, talvez perceber melhor o mundo.- Fiz uma pausa. Tentava conter as lágrimas. Ivy segurou-me nas mãos para me dar força. Senti-me melhor e prossegui:

-Tudo corria bem até ela se ter começado a dar com gente perigosa. Um grupo chamado Asas de Cristal do qual o Joker fazia parte. Na altura, eram um grupo pequeno que praticava pequenos roubos de jóias, dinheiro e às vezes carros. Sempre tentei demovê-la a deixa-los. Aquilo não era vida para ela! Estávamos a acabar a formação, íamos escolher um estágio, tínhamos um futuro risonho á nossa frente!- Voltei a respirar fundo. Retomei o discurso:

-Mas ela estava cada vez mais obcecada com aquilo, sobretudo com o Joker. Já fazia planos de casar e ter filhos com ele! E como os iria ensinar a ser como o pai! A sua loucura levou-a a faltar às aulas e a afastar-se de mim. As poucas vezes que a via tinha um olhar vazio, sem vida, estava quase sempre sob o efeito de drogas ou álcool, mas o pior não era isso! Estava cada vez mais parecida com ele!- Fiz uma pausa. As lágrimas de culpa e de raiva corriam-me pela cara. Ivy abraçou-me, como se dissesse: «Não precisas de contar mais nada» mas eu olhei-a determinada e prossegui, tinha de lhe contar tudo:

-Uma noite, estava a voltar para o dormitório, quando recebi uma chamada dela a dizer que ia participar num assalto a um armazém de armas e que, provavelmente nunca mais nos iriamos ver. Nessa altura, abandonara o seu nome e assumira a identidade de Às. Desliguei o telefone e fui a correr para o dormitório, estava assustada pelas duas. Peguei no telemóvel e liguei para o Batman. Na altura, não sabia que era o Bruce Wayne. Tinha sido apanhada numa confusão e salva por ele em tempos, e ele dera-me um cartão com o contacto caso fosse precisar. Acabei por perdê-lo com o tempo mas ainda tenho o número no meu telemóvel esquecido. Liguei-lhe e dei-lhe as informações sobre o assalto no armazém, sem mencionar o nome da minha amiga.- Fiz outra pausa. Continuei:

-Mais tarde, soube que tinha sido apanhada pelo Batman e ido para o hospital-prisão. O que ela passou lá foi horrível. A Margaret contou-me que os sintomas dela eram parecidos com os do Joker mas mais descontrolados. No inicio, não aceitava os tratamentos, andava sempre instável e não compareceu á maior parte das audiências em tribunal. Queria saber quem a tinha denunciado. Não contara a ninguém acerca do assalto, excepto a mim.- Respirei fundo e prossegui:

-Quando saiu da prisão, foi á minha procura mas eu já tinha saído da faculdade e estava a ingressar num estágio, exactamente na mesma prisão onde ela estivera. Soube pelas notícias que tinha havido um acidente durante uma perseguição policial a um grupo de assaltantes ao Banco De Gothan. Ela estava lá bem como o Joker. O carro onde seguiam despistou-se e foi contra um camião que transportava gasolina. Houve uma grande explosão. Ele conseguiu fugir mas ela foi dada como morta.- Voltei a respirar fundo e finalizei o discurso:

-O Joker foi preso e lavado para o hospital-prisão onde eu estava a fazer o estágio e o resto já sabes.-

Olhei para ela com lágrimas nos olhos. Ivy estava chocada com o que ouvira. Agora, tudo lhe fazia sentido. Era uma história de vingança.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana  

    

    


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