sexta-feira, 4 de março de 2022

Asas de Cristal- VII- A Busca

 Olá 

Aqui fica o capitulo da semana.

Espero que gostem.

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VII

A Busca

Depois de me afastar da casa de Margaret, encontrei o carro de Ivy. Era um descapotável vermelho e verde. Muito característico dela, já que era obcecada por plantas. Essa obsessão levara-a, tal como eu, a cometer muitas loucuras, mas agora parecia estar mais calma. Sorri-lhe quando me aproximei. Ela sorriu de volta. Pousei o saco no banco de trás e sentei-me no banco ao seu lado. Assim que me sentei, amarrei o cabelo em dois totós, que me eram tão característicos. Mais tarde, acrescentaria a maquilhagem. Arrancámos pouco depois.

Abriu os olhos devagar. Olhou em volta mas não reconheceu o sítio. Parecia um armazém. Era amplo, pouco iluminado e misturava os cheiros de mofo, metal e outros indecifráveis. Tentou mexer-se mas não conseguiu, estava paralisado. Só então se deu conta que estava sentado e amarrado nos pulsos e tornozelos com algo mais forte que uma corda. Fez um esforço de memória para se lembrar como viera ali parar mas apenas conseguia que flaches meio distorcidos passassem pela sua mente. A última coisa que se lembrava era de ter estado numa festa com a Harley e depois foram para um hotel. A partir daí, a escuridão total.

-Vejo que já acordaste, Arthur.- Uma voz feminina trouxe-o de volta dos seus pensamentos.

Em contraluz não conseguiu distinguir-lhe as feições mas á medida que se aproximava ia ficando mais nítidas. Era morena, de olhos negros e cabelo preto curto. Estava vestida de preto e branco e tinha um olhar de ódio tão profundo que o assustou. Olhando mais de perto, viu que tinha uma cicatriz saliente na cara que lhe atravessava o olho e ia quase até ao queixo. Olhou-a com mais atenção. Tinha a sensação que já a vira nalgum lado, mas não se lembrava onde. Não era de esquecer rostos, muito menos de mulheres. Terá sido uma das suas vítimas? Ou talvez conquista? Nunca tivera uma relação firme com a Harley por isso era bem possível. Mas depois apercebeu-se que ela não o tratou por Joker mas por Arthur. Poucas pessoas o tratavam por esse nome. Tinha-o abandonado há muito tempo. Como era possível que ela soubesse?

Estávamos na estrada há várias semanas. Sentia-me mais leve que nunca. Aquela passagem pela casa de Margret deixara marcas, mas também me revigorara as energias. Nunca pensei que uma família me fizesse tão bem. Nunca tivera uma. Estive sempre sozinha, sempre na sombra. Fui sempre deixada para trás. Pelo meus pais, pelos meus supostos amigos e agora pelo Joker. Tirei Psicologia para tentar perceber como funciona a mente de pessoas como as que me abandonaram mas tudo o que consegui foi mais dor e sofrimento. Pelo menos até conhecer a Margaret mas também a Ivy. Pamela Lillian Isley é o seu nome, mas ela prefere Poison Ivy. Também teve um passado irregular como o meu. Acabou por tirar botânica e era brilhante se não tivesse desenvolvido uma enzima que fez com que as plantas crescessem demais e ter usado isso para benefício próprio. Foi expulsa da comunidade científica e transformou-se numa criminosa.

Conheci-a num assalto a um laboratório que fiz com o Joker. Ele queria um produto para desenvolver um novo gás hilariante e eu, como boa cúmplice que era, invadi o laboratório por ele. Ela já lá estava. Andava á procura de outro produto, acabámos por nos ajudar mutuamente e a partir daí, sempre que era possível, trabalhávamos em conjunto.

-Uma moeda pelos teus pensamentos.- A voz doce de Ivy trouxe-me de volta. Tínhamos parado e estávamos num motel á beira da estrada onde decidimos passar a noite. Aquela viagem fortalecera a nossa amizade que estava, aos poucos, a tornar-se nalgo mais intenso. Estava deitada na cama com um ar pensativo. Já era a Harley outra vez. Ela aproximou-se e falou-me quase ao ouvido. Olhei-a com ternura. Os seus olhos castanhos eram intensos e o seu cabelo ruivo espalhava-se pela cama como um manto de relva num prado.

-Estava a pensar em tudo o que aconteceu.- Respondi. Ela sorriu. -Só podia.- Disse. Levantou o tronco da cama mas eu puxei-a para mim. Era a primeira vez que ficávamos tão próximas, foi também a primeira vez que beijei uma mulher. E curiosamente não foi assim tão mau. Já estávamos a pensar que fosse acontecer mais ou mais tarde. Nunca tinha experimentado nada com mulheres. Sempre me considerei heterossexual até a conhecer. Acho que a partir dessa altura, passei a questionar a minha sexualidade. Sentia-me atraída por homens e por mulheres. Era Bissexual. Mas depois apercebi-me que o que sentia pelo Joker não era amor, era dependência. Com a Ivy era diferente, sentia-me mais eu própria, como se finalmente estivesse completa.

Fiz amor como nunca tinha feito. Acho que aprendi finalmente o significado da expressão. A adrenalina que percorria o meu corpo era diferente de quando estava com o Joker. Com a Ivy tudo era mais intenso, mais verdadeiro. Os beijos, as caricias, era tudo mais real. Os nossos corpos complementavam-se. Depois, ficámos abraçadas. As roupas espalhadas pelo quarto evidenciavam que tudo aquilo era real. Estava feliz, verdadeiramente feliz. Em muito tempo, nunca me tinha sentido assim, tranquila mas ao mesmo tempo com algum receio. Encostei a cabeça no ombro dela. Passou-me o braço por cima. Sorri. Ela sorriu de volta.

-A que está ligada?- Aquela pergunta saiu-me quase por instinto, sem que eu querer. Ela fez uma expressão surpresa, como se preguntasse: «De onde veio isso agora?» Acrescentei: - A organização ‘Asas de Cristal’? Está ligada a quê?- Ivy percebera a que me referia. Apenas ficara surpresa e confusa com aquela pergunta. Pensou um pouco e respondeu:

-Segundo o que consegui apurar, eles estavam ligados ao tráfego de armas, por vezes droga e outros negócios obscuros. Mas porquê a pergunta? Estás assim tão preocupada?-

Respondi num tom neutro:

-Não, apenas curiosidade.-

Ivy olhou-me com um ar desconfiado, como se duvidasse do que acabara de acontecer. O beijo que lhe dei dissipou todas as dúvidas. Depois, levantou-se e foi para a casa de banho. Segui-a com um ar sedutor. Continuámos debaixo da água quente e confortável do duche.

-Agora, sou eu que estou curiosa.- Começou Ivy, passando a toalha pelo cabelo. Já estávamos vestidas e revigoradas. Ela estava sentada na beira da cama. Fiz uma expressão de surpresa. Perguntei:

-Com o quê, exactamente?-

Ela sorriu e respondeu:

-Contigo. Alguma vez o amaste?-

Fiquei confusa com a pergunta. Nunca tinha pensado nisso. Ao longo daqueles anos, achei que havia algo mas não sabia o que lhe chamar. Respondi com um ar pensativo:

-Havia um fascínio, uma adição, se quiseres. Ele precisava de mim e eu precisava dele. Mas amor, acho que não.-

Ivy pareceu convencida. Pousou a toalha, levantou-se, abraçou-me e beijou-me. Depois, segredou-me: «No fundo, já sabia. Só queria ter a certeza.»

A rapariga aproximou-se com um ar ameaçador. Tinha uma pequena faca numa das mãos enluvadas. Sentou-se ao colo dele e acrescentou:

-Não te lembras, pois não?- Passou a lâmina muito perto da cara dele. -Pois, eu compreendo. Deve ser da droga. Não devia ter posto tanto.-

Ele estava cada vez mais confuso. Ela levantou-se e continuou a falar:

-Mas não te preocupes. Eu vou avivar-te a memória.-

Ao fim da tarde, fomos jantar a uma taberna próxima do motel. Comemos sandes e sumos como duas adolescentes em fuga. Voltámos para o quarto e lembrei-me de algo enquanto me preparava para dormir.

-Quando me ligaste, disseste que tinhas visto a notícia do desaparecimento do Joker, não foi?-

Ivy assentiu. Continuei:

-Não viste mais nada? Sobre o local onde ele desapareceu, por exemplo?-

Teve de fazer um esforço de memória, até que se lembrou e foi buscar o telemóvel. Mostrou-me uma notícia com quase dois meses sobre o desaparecimento. Tinha uma fotografia. Nela, podia ver um salão de festas luxuoso com algumas silhuetas a dançar. Ao ver aquela imagem, alguns flaches passaram pela minha mente. Senti uma tontura e tive de me sentar na cama. Ivy sentou-se também.

-Então?- Perguntou. -Alguma coisa?-

Respondi:

-Acho que me lembro onde foi a festa a que fui com o Joker.-

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

Bjs

Joana 

    

 


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