Olá
Aqui fica o capitulo da semana.
Espero que gostem.
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VII
A
Busca
Depois
de me afastar da casa de Margaret, encontrei o carro de Ivy. Era um
descapotável vermelho e verde. Muito característico dela, já que era obcecada
por plantas. Essa obsessão levara-a, tal como eu, a cometer muitas loucuras,
mas agora parecia estar mais calma. Sorri-lhe quando me aproximei. Ela sorriu
de volta. Pousei o saco no banco de trás e sentei-me no banco ao seu lado.
Assim que me sentei, amarrei o cabelo em dois totós, que me eram tão
característicos. Mais tarde, acrescentaria a maquilhagem. Arrancámos pouco
depois.
…
Abriu os olhos
devagar. Olhou em volta mas não reconheceu o sítio. Parecia um armazém. Era
amplo, pouco iluminado e misturava os cheiros de mofo, metal e outros
indecifráveis. Tentou mexer-se mas não conseguiu, estava paralisado. Só então
se deu conta que estava sentado e amarrado nos pulsos e tornozelos com algo
mais forte que uma corda. Fez um esforço de memória para se lembrar como viera
ali parar mas apenas conseguia que flaches meio distorcidos passassem pela sua
mente. A última coisa que se lembrava era de ter estado numa festa com a Harley
e depois foram para um hotel. A partir daí, a escuridão total.
-Vejo que já
acordaste, Arthur.- Uma voz feminina trouxe-o de volta dos seus pensamentos.
Em contraluz não
conseguiu distinguir-lhe as feições mas á medida que se aproximava ia ficando
mais nítidas. Era morena, de olhos negros e cabelo preto curto. Estava vestida
de preto e branco e tinha um olhar de ódio tão profundo que o assustou. Olhando
mais de perto, viu que tinha uma cicatriz saliente na cara que lhe atravessava
o olho e ia quase até ao queixo. Olhou-a com mais atenção. Tinha a sensação que
já a vira nalgum lado, mas não se lembrava onde. Não era de esquecer rostos,
muito menos de mulheres. Terá sido uma das suas vítimas? Ou talvez conquista?
Nunca tivera uma relação firme com a Harley por isso era bem possível. Mas
depois apercebeu-se que ela não o tratou por Joker mas por Arthur. Poucas
pessoas o tratavam por esse nome. Tinha-o abandonado há muito tempo. Como era
possível que ela soubesse?
…
Estávamos
na estrada há várias semanas. Sentia-me mais leve que nunca. Aquela passagem
pela casa de Margret deixara marcas, mas também me revigorara as energias.
Nunca pensei que uma família me fizesse tão bem. Nunca tivera uma. Estive
sempre sozinha, sempre na sombra. Fui sempre deixada para trás. Pelo meus pais,
pelos meus supostos amigos e agora pelo Joker.
Tirei Psicologia para tentar perceber como funciona a mente de pessoas como as
que me abandonaram mas tudo o que consegui foi mais dor e sofrimento. Pelo
menos até conhecer a Margaret mas também a Ivy. Pamela Lillian Isley é o seu
nome, mas ela prefere Poison Ivy.
Também teve um passado irregular como o meu. Acabou por tirar botânica e era
brilhante se não tivesse desenvolvido uma enzima que fez com que as plantas
crescessem demais e ter usado isso para benefício próprio. Foi expulsa da
comunidade científica e transformou-se numa criminosa.
Conheci-a
num assalto a um laboratório que fiz com o Joker.
Ele queria um produto para desenvolver um novo gás hilariante e eu, como boa
cúmplice que era, invadi o laboratório por ele. Ela já lá estava. Andava á
procura de outro produto, acabámos por nos ajudar mutuamente e a partir daí,
sempre que era possível, trabalhávamos em conjunto.
-Uma
moeda pelos teus pensamentos.- A voz doce de Ivy trouxe-me de volta. Tínhamos
parado e estávamos num motel á beira da estrada onde decidimos passar a noite.
Aquela viagem fortalecera a nossa amizade que estava, aos poucos, a tornar-se
nalgo mais intenso. Estava deitada na cama com um ar pensativo. Já era a Harley
outra vez. Ela aproximou-se e falou-me quase ao ouvido. Olhei-a com ternura. Os
seus olhos castanhos eram intensos e o seu cabelo ruivo espalhava-se pela cama
como um manto de relva num prado.
-Estava
a pensar em tudo o que aconteceu.- Respondi. Ela sorriu. -Só podia.- Disse.
Levantou o tronco da cama mas eu puxei-a para mim. Era a primeira vez que
ficávamos tão próximas, foi também a primeira vez que beijei uma mulher. E
curiosamente não foi assim tão mau. Já estávamos a pensar que fosse acontecer
mais ou mais tarde. Nunca tinha experimentado nada com mulheres. Sempre me
considerei heterossexual até a conhecer. Acho que a partir dessa altura, passei
a questionar a minha sexualidade. Sentia-me atraída por homens e por mulheres.
Era Bissexual. Mas depois apercebi-me que o que sentia pelo Joker não era amor, era dependência. Com
a Ivy era diferente, sentia-me mais eu própria, como se finalmente estivesse
completa.
Fiz
amor como nunca tinha feito. Acho que aprendi finalmente o significado da
expressão. A adrenalina que percorria o meu corpo era diferente de quando
estava com o Joker. Com a Ivy tudo
era mais intenso, mais verdadeiro. Os beijos, as caricias, era tudo mais real.
Os nossos corpos complementavam-se. Depois, ficámos abraçadas. As roupas
espalhadas pelo quarto evidenciavam que tudo aquilo era real. Estava feliz,
verdadeiramente feliz. Em muito tempo, nunca me tinha sentido assim, tranquila
mas ao mesmo tempo com algum receio. Encostei a cabeça no ombro dela. Passou-me
o braço por cima. Sorri. Ela sorriu de volta.
-A
que está ligada?- Aquela pergunta saiu-me quase por instinto, sem que eu
querer. Ela fez uma expressão surpresa, como se preguntasse: «De onde veio isso
agora?» Acrescentei: - A organização ‘Asas de Cristal’? Está ligada a quê?- Ivy
percebera a que me referia. Apenas ficara surpresa e confusa com aquela
pergunta. Pensou um pouco e respondeu:
-Segundo
o que consegui apurar, eles estavam ligados ao tráfego de armas, por vezes
droga e outros negócios obscuros. Mas porquê a pergunta? Estás assim tão preocupada?-
Respondi
num tom neutro:
-Não,
apenas curiosidade.-
Ivy
olhou-me com um ar desconfiado, como se duvidasse do que acabara de acontecer.
O beijo que lhe dei dissipou todas as dúvidas. Depois, levantou-se e foi para a
casa de banho. Segui-a com um ar sedutor. Continuámos debaixo da água quente e
confortável do duche.
-Agora,
sou eu que estou curiosa.- Começou Ivy, passando a toalha pelo cabelo. Já
estávamos vestidas e revigoradas. Ela estava sentada na beira da cama. Fiz uma
expressão de surpresa. Perguntei:
-Com
o quê, exactamente?-
Ela
sorriu e respondeu:
-Contigo.
Alguma vez o amaste?-
Fiquei
confusa com a pergunta. Nunca tinha pensado nisso. Ao longo daqueles anos,
achei que havia algo mas não sabia o que lhe chamar. Respondi com um ar pensativo:
-Havia
um fascínio, uma adição, se quiseres. Ele precisava de mim e eu precisava dele.
Mas amor, acho que não.-
Ivy
pareceu convencida. Pousou a toalha, levantou-se, abraçou-me e beijou-me.
Depois, segredou-me: «No fundo, já sabia. Só queria ter a certeza.»
…
A rapariga
aproximou-se com um ar ameaçador. Tinha uma pequena faca numa das mãos
enluvadas. Sentou-se ao colo dele e acrescentou:
-Não te lembras,
pois não?- Passou a lâmina muito perto da cara dele. -Pois, eu compreendo. Deve
ser da droga. Não devia ter posto tanto.-
Ele estava cada
vez mais confuso. Ela levantou-se e continuou a falar:
-Mas não te
preocupes. Eu vou avivar-te a memória.-
…
Ao
fim da tarde, fomos jantar a uma taberna próxima do motel. Comemos sandes e
sumos como duas adolescentes em fuga. Voltámos para o quarto e lembrei-me de
algo enquanto me preparava para dormir.
-Quando
me ligaste, disseste que tinhas visto a notícia do desaparecimento do Joker, não foi?-
Ivy
assentiu. Continuei:
-Não
viste mais nada? Sobre o local onde ele desapareceu, por exemplo?-
Teve
de fazer um esforço de memória, até que se lembrou e foi buscar o telemóvel.
Mostrou-me uma notícia com quase dois meses sobre o desaparecimento. Tinha uma
fotografia. Nela, podia ver um salão de festas luxuoso com algumas silhuetas a
dançar. Ao ver aquela imagem, alguns flaches passaram pela minha mente. Senti
uma tontura e tive de me sentar na cama. Ivy sentou-se também.
-Então?-
Perguntou. -Alguma coisa?-
Respondi:
-Acho
que me lembro onde foi a festa a que fui com o Joker.-
E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Bjs
Joana
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