sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 3- Capitulo 3

 Olá 

Esta semana, acaba a terceira parte da história.

Espero que gostem.

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III

A clínica para onde Voxy foi ficava no sopé de uma montanha. Naquela altura do ano, apenas se via neve nas zonas mais altas, mas o frio era rigoroso. Por isso, quando saiu do hospital e se mudou para a casa autónoma, acendeu a lareira que, através de uma conduta, aquecia a casa toda.

Tinha consultas todos os dias com a Dra Felicia Jones que foi terapeuta da mãe antes de nascer. Mas parecia que não estava a funcionar. Voxy continuava com um olhar distante e neutro e não respondia aos estímulos da Dra. Passava a maior parte do tempo sentada numa cadeira de baloiço no alpendre da casa a comtemplar a vista que misturava neve e pedras. Kari colocara-lhe um xaile que era da mãe para que não apanhasse frio. As mãos demoraram mais tempo a sarar desta vez, pelo que ainda as tinha ligadas.

- Estou preocupada, Bertha. Há quase 2 anos que estamos aqui e ela continua tão distante! –

 

Bertha olhou-a com ternura.

-Sim, também me preocupa. Fisicamente, está a melhorar, mas por dentro continua muito fragilizada. –

Kari apertou as mãos contra o peito para evitar chorar, mas Bertha segurou-as no meio das suas, permitindo que chorasse o que quisesse. «Não sei se aguentará muito mais. O médico recomendou passar aqui uma longa temporada, mas parece que que não está a resultar». Pensava. Kari olhou-a e Bertha confortou-a.

- Vai correr tudo bem, vai ver. Desde que nos tenha a seu lado, a Voxy vai recuperar e voltar melhor que nunca. –

Kari limpou as lágrimas, abraçaram-se e sussurrou:

- Espero que sim. –

 

Os dias seguintes foram desesperantes e pensosos para Voxy. Uma profunda depressão estava a apoderar-se dela e isso refletia-se na sua saúde física. Depois de tirar as ligaduras, as mãos ainda lhe tremiam, mais do que na outra vez. Houve dias em que não conseguia segurar nos talheres para comer.

Desde que fora para ali, nunca mais se aproximara de um piano. Havia um numa das salas da clínica. Ainda foram lá por insistência de Kari. Sentou-se, mas bastou pousar as mãos nas teclas para estas lhe começarem a tremer e sair a chorar desesperadamente. A música e o piano traziam-lhe lembranças demasiado dolorosas.

 

O dia da partida de Estefânia e da família de casa da mãe foi muito emotivo. Ainda ficaram mais uma semana e depois voltaram para a cidade com a promessa de voltarem quando as circunstâncias e o tempo forem outras. Estavam em pleno Inverno e a praia tornara-se cinzenta. Despediram-se e seguiram para casa.

 

 

Voxy continuava angustiada, apesar das sessões de terapia e dos esforços de Kari para a manter ocupada. Tanto uma como outra não estavam a aguentar aquele convívio forçado. Estava constantemente a insistir que tocasse ou que falasse na mãe. Era pior que a terapeuta! De todas as vezes, Voxy fugia para o seu refugio na casa da montanha. Queria ficar sozinha. Era a sua maneira de lidar com a dor.

Um dia, depois de mais uma consulta, a Dra Felicia chamou Kari e Bertha á parte. Tinha um ar sério e preocupado.

- Gostava de vos trazer boas notícias, mas o facto é que não as tenho. A Voxy continua a não querer colaborar na terapia e a depressão tende a agravar-se. – Concluiu:

 

- Por isso, dadas as circunstâncias, não me resta outra alternativa a não ser mandá-la para casa. Quem sabe se num ambiente mais familiar ela possa recuperar mais rapidamente. –

 

Kari e Bertha concordaram. Depois de lhe contarem, Voxy também concordou. Aquele ambiente estava a sufocá-la. Partiram no dia seguinte com os primeiros raios de sol.

 

 

Fim da 3ª Parte

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana. 

 

 

 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 3- Capitulo 2

 Olá 

Esta semana, trago-vos o segundo capitulo da terceira parte da história. 

Espero que gostem.

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II

Trancou-se no quarto quando chegou a casa. Encostou-se à porta e encarou a divisão. O único sítio onde se sentia verdadeiramente segura, aconchegada. Ali, podia esquecer tudo. Todas as luzes da sua vida tinham ficado do lado de fora da porta. A música, a família, os sonhos.

Estava só, completamente só. Aquele quarto refletia o seu coração, a sua alma.

Uma dor agonizante que sentia no peito e que teimava em não querer sair. Parecia que tinha uma tampa na garganta. Deu um grito rouco, quase inaudível. Avançou pelo quarto a cambalear, embriagada pela dor. Estava descalça, com os pés nus no chão, depois de ter deixado os sapatos e as meias perto da porta. Aquilo incomodava-a, queria sentir a terra nem que fosse através das tábuas de madeira do chão do quarto. Chegou perto da cama e caiu de joelhos. Começou a chorar quando achava que não tinha mais lágrimas. A dor consumia-a cada vez mais. Levantou-se e andou mais um pouco até um móvel que atirou para longe com uma força que nem sabia que tinha. Ouviu um estilhaçar de vidros, mas não ligou. Continuou a andar, mas parou de repente. As lágrimas toldavam-lhe a visão, mas conseguia distinguir uma barreira vinda dela. Era a roupa. Desembaraçou-se dela facilmente, como se fosse apenas mais um incómodo. Pedaços de tecido caíam na semiobscuridade, pintado de fios de luar. Com meio vestido rasgado, e sem sentir o frio que estava pelo vidro rachado da janela, avançou mais um pouco. De repente, virou-se para o espelho, aquele que sempre a vira com uma cara alegre e despreocupada, cheia de sorrisos e luz, mas que nos últimos dias só refletia angústia e escuridão.

Olhou para o seu próprio reflexo e assustou-se. Cabelos compridos, envolvendo-lhe a cara, parte da roupa arrancada e uma pele tão pálida que quase parecia um espectro vivo. Aquela figura frágil e distorcida repudiou-a de tal forma que esmurrou o espelho até as suas mãos choraram lágrimas de sangue que misturara com os estilhaços de vidro. Ao espelho, seguiram-se outros móveis e pequenos bibelôs. Desembaraçou-se do resto da roupa, ficando completamente nua numa dança grotesca e delirante.

No meio do processo, bateu com a mão na mesa de cabeceira, pois perdera a noção da distância. De lá, caiu a rosa branca. Devia ter sido Kari a pô-la ali numa tentativa desesperada de a fazer voltar à realidade. Olhou para ela. Apanhou-a. As lágrimas caíam em cima das pétalas molhando-as. A visão turva das lágrimas não lhe permitiu ver, mas também havia manchas de sangue na flor.

Um flache passou-lhe pela mente ao lembrar-se do dia em que a comprara com a mãe. O vestido para o recital era muito escuro e quis dar-lhe um toque de cor. Foi procurar pela loja e encontrou aquele pregador. Pegou-lhe e mostrou-o à mãe. Esboçou um sorriso tão cheio de vida! Estava tão feliz!

 Logo a seguir, tudo se desmoronou. Custava-lhe a respirar. Apertou a rosa com força como se isso a ajudasse. Doía-lhe a mão, mas não se importava. Sentiu algo quente. Era sangue. Cortou-se no fecho estragado. Largou-a juntando-se ao resto da roupa e dos objetos partidos. Olhou-os e arregalou os olhos ainda húmidos e inchados. Passou por cima deles e deitou-se de costas. Aquela sensação subia por ela como uma onde de prazer, mas também dor e delírio. O cabelo espalhou-se entre os vidros e o sangue. Esfregou-se neles e sentou-se. O cabelo era um incómodo. Tinha de se desfazer dele. Pegou num bocado maior de vidro e cortou-o como pôde. Voltou a deitar-se, num estado quase de transe em que a dor física não afetava.

Sentiu-se a cair num vazio sem fundo, cada vez mais escuro, até que uma voz que lhe soou familiar a chama Voxy quer saber de quem é, mas a escuridão aperta-a e não deixa. Sente uma mão e depois um braço a levantá-la. A voz murmura-lhe ao ouvido: Voxy. Uma silhueta familiar desfocada surge-lhe à frente. É Kari, ou pelo menos, parece. A escuridão domina-a novamente.

Apesar dos esforços de Carlos e Maria Hortense, Estefânia parecia cada vez mais distante e fechada sobre si própria. Nos últimos dias, já nem saía do quarto para comer.

Dispensara o terapeuta porque também não estava a ajudar. Passava o tempo em frente ao computador. Usava-o sobretudo para pesquisar. Às vezes, trabalho, outras só para se distrair. Numa dessas pesquisas, encontrou uma notícia recente sobre uma rapariga chamada Voxy Heart Smith que sofrera um acidente muito semelhante ao seu e que lhe tirara os pais. Ficara no mesmo hospital. Saíra há pouco tempo sobre grande aparato da imprensa. É uma jovem pianista cuja maior influência era a mãe, Carolina Heart. Lembrava-se de ter visto uma fotografia dela entre as muitas na parede do bar que frequentava na juventude.

A reportagem vinha acompanhada por algumas fotografias. Numas, aparecia vestida de gala, vestido simples, mas elegantes e poucas joias, noutras com uma roupa mais casual, mas sempre colorida e com uma expressão alegre. O sorriso parecia genuíno ao contrário da maioria das celebridades. Nos vestidos de gala, tinha sempre uma rosa branca ao peito. O seu olhar parecia tão vivo e misterioso ao mesmo tempo, como se procurasse alguma coisa. Em parte, fez-lhe lembrar Clara. Também era alegre. Iam dar-se bem se se tivessem conhecido. Pobre rapariga. Pensou. Perder a família assim deve ser terrível. Havia, ainda, a referência a uma irmã mais nova na qual se apoiava.

Mais a baixo, descobriu uma secção de vídeos de recitais e resolveu ouvir. A maior parte eram gravações caseiras com baixa qualidade, visto terem sido feitas no auditório da escola. Quando leu o nome, arregalou os olhos. A escola era a mesma da filha. Lembrava-se vagamente de Clara uma vez lhe ter dito que havia duas raparigas que tinham feito um intercâmbio e que iam pouco às aulas porque não precisavam de fazer todas as disciplinas. No dia do acidente, Clara contara-lhe que nessa tarde, ia haver um recital no teatro da cidade que essa colega ia estar presente. No fundo, só iam para vê-la.

A música que se ouvia no vídeo trouxe-a de volta. Era tão suave e misteriosa como um canto celestial, o que a fascinou. Embalou-a e fê-la sentir-se mais leve. Passou a ouvi-la todos os dias.

Voxy abriu os olhos devagar. Olhou em volta, não reconhecendo o sítio onde estava. Era branco e tinha uma luz forte que quase a encandeava. Não estava no seu quarto nem na sua casa.

Reparou em Kari adormecida numa cadeira perto dela. Tentou estender-lhe a mão, mas não conseguiu. As mãos pesavam-lhe novamente. Estavam ligadas outra vez. Tentou chamá-la, mas a voz não saía. Kari acordou sobressaltada e assim que a viu, foi junto dela. Pegou-lhe na mão ligada. Voxy perguntou-lhe onde estava e o que tinha acontecido. Kari respondeu-lhe que estava numa clínica na Suíça, depois do surto que tivera há uma semana. Já estava a dormir há uma semana!

- Conta-me o que aconteceu em casa! Preciso de saber! – Implorou Voxy.

 

Kari não gostava de falar sobre o assunto. Tudo estava ainda muito presente e ainda lhe era doloroso. Respirou fundo e contou-lhe que, pouco depois do jantar, começou a ouvir barulhos estranhos vindos do quarto da irmã. Correu pelas escadas e parou diante da porta. Bateu uma vez e não obteve resposta. Depois de várias insistências, abriu a porta. Ficou em choque com o que viu do outro lado. Nem nos seus piores pesadelos imaginou assistir a algo tão macabro. Voxy estava deitada no chão rodeada de móveis e vidro partido, sem roupa. O cabelo estava cortado grosseiramente e as mãos em sangue. Só depois reparou nas marcas roxas pelo corpo e as roupas rasgadas. Sentiu um ar frio vindo de uma janela partida. Olhou para a irmã parada á porta. Sorriu. Era um sorriso oco, quase maníaco. As lágrimas ainda lhe corriam dos olhos, mas o seu olhar era vazio. Kari correu para ela e abraçou-a também a chorar. Depois, levou-a para a casa de banho onde a lavou e prestou os primeiros socorros. Aparou-lhe o cabelo, vestiu-lhe uma camisa de noite fina a branca e deitou-a na cama.

Desceu as escadas em passo apressado e pediu a Bertha que ligasse para a clínica. Tal como o médico previra, a irmã estava em rutura. Partiram nessa mesma noite no jato particular da família.

A música de Voxy parecia estar a fazer efeito. Estefânia já não passava tanto tempo no quarto. De vez em quando, descia para comer, mas cada vez que aparecia, a sua aparência era arrepiante. Tinha uma expressão vazia, os olhos cavados pelas lágrimas, o rosto tão magro que mal se reconhecia, apenas pela voz sabiam quem era.

No entanto, quando vinha, o seu rosto parecia sorrir. Houve um dia que Carlos foi espreitá-la ao quarto e apanhou-a a sorrir para o computador. Pensando que falava com Carla pelo Zoom, deixou-a estar. Carla sempre fora boa a animá-la.

Os passeios voltaram, acompanhados pela música de Voxy nos auscultadores ligados ao telemóvel. Era como um balsamo para a alma e um alívio para o corpo. Estefânia nunca se sentira tão bem. Até as noites mal dormidas começavam a ser cada vez menos.

Um dia, depois de um passeio, sentou-se à mesa com a família e anunciou:

- Agradeço muito a estadia, mãe, mas creio que chegou a hora de voltar. –

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

 

 


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 3- Capitulo 1

 Olá 

Hoje começa a terceira parte da história.

Espero que gostem. 

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Parte 3- Depois

Melodias do Desespero

Suíça/Praia

I

Estefânia culpava-se todos os dias. Pela estrada, por não ter carregado no travão a tempo, por não se ter apercebido do camião e até pelo clima. Há uma semana que estavam na casa da mãe dela. A praia e o ar do mar vão fazer-te bem. O mesmo clichê que a mãe usara para a convencer. Todos a tentavam consolar, fazê-la sentir-se menos culpada, ou não culpada de todo. Os acidentes acontecem, não podemos controlar. Outro clichê muito batido.

O que sabiam eles sobre o que estava a sentir? Sobre o vazio e a dor de perder um filho? Sobre estar envolvida nessa perda? Praticamente perdera a filha nos seus braços. Não sabiam nada! Não podiam imaginar! Depois das dores do parto para a pôr no mundo, esta era pior, bem pior! E só aumentava cada vez que olhava para as fotografias da filha no telemóvel, cheias de sorrisos e caretas. Sorria com lágrimas nos olhos quando se lembrava de quando as tirou. Todas elas tinham a promessa de uma próxima vez. Quando cá voltares, tiramos mais e vão ficar melhor! Mas a promessa já não podia ser cumprida.

Nessa altura, Carlos tirara-lhe o ecrã das mãos e choraram nos braços um do outro.

 

O sol, a areia fina a toca-lhe delicadamente nos pés sempre que saía para a praia. O mar salgado e cheio de espuma de cada vez que vinha uma onda acariciar-lhe a pele na beira. A brisa que soprava ao seu ouvido e que lhe trazia o cheiro do mar. Sentia-se leve quando dava estes passeios durante o dia. Enquanto havia luz, era capaz de sorrir, de comer e até de falar sobre assuntos banais. Mas á noite, a angústia apoderava-se dela. Estava constantemente a lembrar-se do acidente. Carlos tentava acalmá-la de todas as vezes e lembrava-a que tinham um filho que precisava deles, mas parecia que só via Clara. Estava obcecada.

Acordava quase todas as noites encharcada em suor e com os olhos inchados do choro. As olheiras eram visíveis no dia seguinte. Por mais voltas que desse não conseguia voltar a adormecer. Todos estavam preocupados com o seu estado. Chamaram um médico que lhe diagnosticou o que já se sabia, mas que ainda tinham esperança que fosse passageiro. Depressão. A mais grave de todas as crises nervosas. Aquela que corrói não só o paciente, mas todos á sua volta.

Sugeriu um internamento numa clínica não muito longe, poderiam visitá-la quando quisessem, mas ela negou-se terminantemente. Só queria ser deixada em paz com a sua dor. Suportava-a melhor junto dos que amava. O terapeuta passou a vir duas vezes por semana, mas por mais que conversassem, ela parecia estar cada vez mais distante. Comia cada vez menos e repetiam-se as situações de tentativa de terminar com a própria vida, mesmo depois das consultas.

Várias vezes Carlos foi a correr à praia porque a mulher entrava pelo mar adentro até deixar de se ver. Trazia-a para casa embrulhada num cobertor em hipotermia, pois fazia-o sobretudo no Inverno quando a água do mar estava gelada. Depois, passava dias na cama sem se mexer, a olhar o vazio.

...

Voxy deixara crescer o cabelo enquanto estava no hospital. Nunca gostara de o ter comprido, dava-lhe um ar desleixado. Mas ficava-lhe bem. Emanava uma mistura de maturidade com infantilidade. Muitas vezes, Kari penteava-a e apanhava-o numa trança.

Nos tratamentos, mostrava-se sorridente e recetiva. A recuperação foi lenta. Precisou de muitas sessões de fisioterapia para as mãos e pernas. Quando tirou as ligaduras foi como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Ainda não as conseguia mexer bem e doíam-lhe algumas partes, mas com o tempo ia melhorar.

Porém, algo preocupava os médicos e a família. O estado emocional de Voxy. O choque fora grande. Por fora, parecia sorridente e bem-disposta, mas por dentro, a dor consumi-a cada vez mais. Estava perto da rutura.

Na véspera de ter alta, o médico chamou Kari e Bertha à parte e advertiu-as para uma eventual crise que Voxy poderia ter quando voltasse para casa, por isso recomendou uma clínica na Suíça que podia tratar de casos com o dela. Elas agradeceram e guardaram o cartão que o médico lhes estendera.

Voxy saiu do hospital no dia seguinte sob grande aparato da imprensa. Caminharam silenciosamente até ao carro, apenas com flaches incomodativos das máquinas e das perguntas indiscretas. Baixou a cabeça para que não lhe apanhassem as feições. Não queria ser manchete nos tabloides sensacionalistas. Não queria ver a sua cara. Bertha e Kari trataram de a proteger uma barreira de braços e mãos em frente às lentes. O carro seguiu sem que lhes tivessem arrancado uma única palavra. Só lhes restava a especulação, mas com essa podiam elas bem. Bastava-lhes interpor um processo sobre a publicação e o seu autor e o assunto ficava arrumado. Uma avultada quantia devia ser o suficiente para nunca mais as incomodarem.

 

Passado pouco tempo, realizou-se o funeral dos pais. Cerca de uma semana depois de ter saído do hospital. Voxy estava de preto dos pés à cabeça. Uma sombra triste e cabisbaixa. As lágrimas tinham secado há muito tempo. O seu ar apático e perdido acompanhou-a durante toda a cerimónia. Mal conseguia tirar os olhos do chão. Era como se esperasse que a qualquer momento, se abrisse um buraco que a engolisse e a tirasse daquele suplício. Das poucas vezes que olhou para cima, conseguiu distinguir algumas silhuetas. Umas nunca tinha visto, provavelmente pessoas ligadas às empresas do pai, outras tinha uma vaga ideia, como agentes e promotores de espetáculos que fizera com a mãe.

A avó da parte da mãe também estava presente. Devia ser das poucas pessoas de família tirando elas. Não lhe dirigiu nem um olhar. Tinha esgotado a sua quota de olhares para a superfície, voltou ao chão. Kari tratou de a cumprimentar em nome das duas.

Chovia. As pingas grossas acariciavam- lhe a face e faziam a vez das lágrimas. Deitou uma flor para cima das urnas enquanto desciam para a cova funda. Sentia-se a ir com eles. Os seus sonhos, as suas alegrias estavam fechadas naquela cova.

Tal como as coisas no quarto que mandara trancar na semana anterior. Ninguém, além de Bertha para limpar e arejar de vez em quando, podia lá entrar. A última porta ao fundo do corredor, aquela que estava sempre aberta de onde viera sempre luz, era uma zona proibida.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

 


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 2 - Capitulo 2

 Olá

Esta semana, acaba a segunda parte da história com este segundo capítulo. 

Espero que gostem. 

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II

O choque fez com que os dois carros fossem arrastados alguns metros indo embater na berma da estrada do outro lado. O carro de Voxy ficou parcialmente esmagado e o camião também. Carolina e Heitor tiveram morte imediata bem como o motorista e o condutor do camião. Kari conseguiu arrastar-se para fora com o corpo inerte de Voxy. Lágrimas e sangue corriam-lhe pela cara e pelo corpo, o seu e o da irmã. A sua expressão era de choque e desorientação. Sentou-se junto á irmã e esperou pela ambulância que alguém, entretanto, chamara.

Não tardou muito que uma pequena multidão se juntasse. Um acidente daquela dimensão não era discreto. Daí a pouco, chegou a ambulância, a polícia e alguma imprensa. Os corpos foram recolhidos e as raparigas levadas para o hospital. Kari levava a pregadeira que caíra do vestido de Voxy.

 

A emissão de rádio foi interrompida para uma notícia de última hora:


«(…) o carro onde seguia a pianista Carolina Heart e a família sofreu um grave acidente esta tarde. A pianista e o marido, um conhecido empresário do ramo financeiro, morreram no local e as filhas estão neste momento a caminho do hospital. Não sabemos qual o seu estado, mas aparentemente a mais velha está inconsciente. A todo o momento, teremos mais informações sobre este caso.»

 

O homem desligou o rádio e tentou desesperadamente ligar para a mulher. A mensagem que recebera ao mesmo tempo da notícia deixara-o alerta. Estefânia dissera que estava muito trânsito e que iam tentar ir por um atalho, mas antes de desligar, um barulho forte ecoou. Sempre que tentava ligar ouvia uma voz feminina gravada que o informava que «o número que marcou não está disponível. Por favor, deixe a sua mensagem ou tente mais tarde». Estava farto de deixar mensagens às quais não obtinha resposta, por isso resolveu ir direto para o hospital.

 

A ambulância parou á porta das urgências. Os paramédicos levaram a maca de Voxy diretamente para p bloco operatório assim que o médico a viu. Kari seguiu-os até onde pôde com lágrimas nos olhos. Avançou pelo hospital apressada e desorientada. Quase chocou com uma mulher agarrada ao filho. Olhou-a de relance como que a pedir desculpa e continuou.

Nesse momento, a maca de Clara avançava na mesma direção da de Voxy. Estefânia sentiu um aperto no peito. Kari continuou pelos corredores sem ouvir nada nem ninguém. Todos os seus movimentos eram mecânicos. Apenas se deixava ir. Fora socorrida no local. Tinha vários pensos e ligaduras, as roupas ainda estavam manchadas de sangue, mas a rosa continuava bem firme na sua mão. Não ia largá-la até estar com a irmã.

Sentou-se num banco vazio do corredor o mais próximo possível da sala de operações.

O carro de Carlos parou á porta do hospital pouco depois. Saiu meio atarantado e com uma expressão preocupada. Recebera finalmente uma chamada da mulher a dizer que tiveram um acidente e estavam no hospital. Entrou no edifício de forma desesperada e atabalhoada. A gabardina que vestia quase ficou presa na porta giratória. Dirigiu-se logo á receção e perguntou pela família. «Ao fundo do corredor, primeira porta á direita». Indicou uma mulher de expressão neutra do outro lado do balcão.

A última vez que ali estivera foi quando os filhos nasceram. Nessa altura, estava tão feliz! Agora, a preocupação e até algum medo tomavam conta dele.

Em passo apressado, foi para o sítio que lhe indicaram. Quando chegou, respirou fundo para recuperar o fôlego. Bateu ao de leve na porta. A voz de Estefânia soou do outro lado. Entrou e em vez de encontrar com um bebé nos braços e a sorrir, encontrou-a com o filho cheia de ligaduras e ainda em estado de choque. Assim que o viu, abraçaram-se a chorar.

Kari entrou no quarto de Voxy quando uma enfermeira, depois de alguma insistência, autorizou a visita. Olhou para a irmã ligada a uma máquina e com ligaduras nas mãos. Depois para a rosa que trazia na mão. Pousou-a na mesa de cabeceira, aproximou-se e segurou-lhe no emaranhado de ligaduras. Apesar delas, a mão estava fria como uma estátua, mas o calor da sua iam confortá-la. As lágrimas começaram a correr-lhe novamente pela cara.

Lembrou-se daquele cenário apocalíptico do acidente onde o cheiro a queimado e a sangue se misturavam e do qual foi a única testemunha consciente. Tinha sido tudo tão rápido que mal se lembra dos pormenores. Apenas conseguira contar á polícia o que se passara depois do capotamento do carro. Partiu o vidro com os pés e num esforço sobre-humano, arrastou-se com o corpo pesado e inerte da irmã para um local o mais longe possível, para um bocadinho de paz no meio daquela guerra entre pedaços de carros e asfalto. Gritou, chorou, implorou por ajuda até que um dos condutores que passava, devidamente identificado pela polícia como prestador de auxílio no acidente, parou o carro e atendeu o seu pedido.

Flaches tenebrosos do acidente passaram pela sua mente que a fez ter uma tontura e cair sobre Voxy. Levantou a cabeça, ainda com os olhos húmidos das lágrimas que não secavam, ainda a segurar-lhe na mão. «Tens de viver!» Pensou, apertando-lhe a mão. «Não me deixes sozinha».

Não há muito mais que se possa fazer. – explicou o médico. – A vossa filha sofreu um traumatismo craniano grave e o mais provável é que nunca acorde. Ou se acordar, pode ficar com sequelas para o resto da vida. –

O casal estava no gabinete do médico que os acompanhara. Estefânia chorava, Carlos tentava consolá-la, mas também estava desesperado. Todos ali sabiam que só havia uma solução, mas não era fácil, ambos tinham noção que a dor e o vazio ficariam para sempre nas suas vidas, mas era o mais indicado a fazer uma vez que se a deixassem viver só iam prolongar o sofrimento. A decisão mais dolorosa estava tomada.

Kari dormitava numa cadeira perto da cama de Voxy quando o médico entrou no quarto. Despertou meio desorientada e olhou-o. Quase suplicava por uma resposta que a confortasse, que a tirasse daquela angústia. Ela sabia da doença da irmã e que isso podia ser uma agravante do seu estado. Secou os olhos inchados e seguiu o médico até ao gabinete.

- Então, Doutor como é que ela está? – perguntou com voz rouca, mas direta.

O médico fez um ar sério.

- Está estável, mas ainda vai levar algum tempo até acordar. As mazelas físicas foram muitas, mas acredito que a recuperação será favorável. –

Kari olhou para o homem de cabelo grisalho e olhos claros sentado à sua frente. Aquela era a versão floreada e otimista que todos os médicos tinham de dar para confortar os familiares. Mas ela queria a versão realista. Aquela que não escondia nada e que ia direta ao ponto. Só porque era uma adolescente não significava que não podia saber o que realmente se passava. Era a irmã, a única parente viva naquele momento que podia fazer alguma coisa, tinha esse direito.

O médico clareou a voz antes de falar:

- Por causa do embate e da doença, alguns nervos foram afetados. – Kari pressionou-o com o olhar. Não gostava de rodeios nem meias palavras. Foi direto ao ponto:

- Bom, resumindo os nervos das mãos de Voxy estão paralisados e vão demorar algum tempo até que voltem a ter autonomia. Quanto ao resto, não precisa de se preocupar. –

Kari recomeçou a chorar. Levantou-se sem olhar para o médico e voltou para o quarto. As mãos eram tudo para a irmã, eram a sua ferramenta de trabalho, sem elas como poderia tocar piano? O choque era demasiado grande. Precisava de consolo, mas não tinha os pais. Sentia falta do abraço do pai e das palavras de coragem da mãe.  

Nesse momento, apareceu Bertha. Já tinha falado com o médico. Soubera do acidente pelas notícias e veio assim que lhe foi possível. Abraçaram-se.

O suporte de vida foi desligado. Clara foi dada como morta nessa noite de Outono. A família chorou a sua perda. Os colegas e professores apresentaram as condolências.

 

Escuridão. A mais profunda e absoluta. Naquele negrume, já não sabia distinguir nada. Nem caras, nem vozes, nem lugares. Ouvia murmúrios difusos que lhe pareciam muito distantes, inalcançáveis. Voxy era o nome que lhe puseram, quando nasceu, ou pelo menos pensava que era. Não se lembrava. Imagens distorcidas iam e vinham, mas a sua luz era tão fraca que mal chegava a ver. A escuridão engolia-a por completo. Sentia um peso no peito e nas mãos. Quando as tentava mexer era como se estivessem amarradas, presas por correntes pesadas. Desistiu ao fim de algumas tentativas. Viu a cara da mãe meio desfocada, mas era ela. Ao lado, a do pai. Sorriam-lhe depois afastavam-se como se se despedissem. Sentiu lágrimas a correrem-lhe pela cara. Não vão! Tentou gritar, mas a voz não lhe saía. Voxy murmurou uma voz distante, mas familiar cada vez mais próxima.

De repente, abriu os olhos. Olhou para em volta. Estava no hospital, conseguia distinguir as luzes foscas que brilhavam no teto por cima de si. A cama era confortável embora um pouco rija. Olhou para o lado. Kari estava ao seu lado com um ar tristonho. Bertha consolava-a. Quis estender-lhe a mão, mas continuavam pesadas. Tentou chamar, mas os tubos não deixavam, então mexeu a ponta do pé que chamou a atenção de Kari. Rapidamente, limpou as lágrimas e aproximou-se. Sorriu-lhe ainda com os olhos brilhantes. Bertha foi chamar as enfermeiras que a cercaram. Depois de um exame geral, concluíram que era mais prudente deixar ficar o suporte de vida até que Voxy conseguisse respirar sozinha. O que não demorou muito. Passado uma semana, o suporte foi tirado. Voxy começou a respirar sozinha outra vez. Por precaução e pela fragilidade que ainda aparentava, ficou mais uns dias no hospital. As sequelas físicas da doença ainda eram pouco visíveis apenas das ligaduras nas mãos e de ainda não as conseguir mexer.

As marcas psicológicas estavam adormecidas, mas estavam lá. Kari tivera alta logo no dia do acidente, mas vinha todos os dias ver a irmã com Bertha e o novo motorista que, entretanto, contrataram.

As cerimónias fúnebres de Clara realizaram-se dias depois. A escola enviara uma coroa de flores, foi decretado um dia de luto pelo diretor e não houve aulas. Chovia torrencialmente nesse dia. Parecia que até o céu chorava. Estefânia mal tinha forças para chorar, as lágrimas secaram, mas a dor era contínua. Permaneceu calada e com um ar indiferente durante todo o caminho para casa. Maria Hortense viera para dar apoio e também estava devastada.

-Porque não vêm passar uma temporada a minha casa? – sugeriu. – Precisas de te afastar disto tudo por uns tempos. Tenho a certeza que te ia fazer bem. –

Estavam sentados no sofá da sala a beber chá. Tinha passado uma semana desde o acidente e dois dias desde o funeral, mas parecia que tinha sido no dia anterior. Desde que enviuvara, Maria Hortense tinha-se mudado para uma casa perto da praia e já por várias vezes os convidara a passarem algum tempo por lá, mas nunca se proporcionara. Até aquele infeliz momento.

A filha estava apática no sofá. De vez em quando, bebericava o chá num gesto quase mecânico. Parecia uma boneca, uma marioneta que repetia os mesmos gestos até à exaustão.

 

-Está bem. – Concordou depois de alguma insistência. Já não suportava ouvir a mãe. – Vamos contigo, vai fazer-nos bem. –

 

Maria Hortense sorriu triunfante. Abraçou-a. Estefânia apenas se deixou envolver sem grande emoção.

 

Kari tentava evitar o assunto sempre que ia ao hospital. Tanto uma como outra sabiam que tinham de conversar. Voxy não era nenhuma tonta. Sabia perfeitamente o que acontecera no dia do acidente. Bertha contara-lhe. Primeiro, a incredulidade, depois a negação e, por fim, o desespero e a aceitação. As lágrimas não paravam de cair. Tentou mexer as mãos, mas não conseguiu. Inclinou-se para a frente e Bertha abraçou-a. Sentia-se impotente e isso irritava-a. Estava muito dependente. Enquanto não recuperasse as mãos, não era ninguém.

Naquele dia, foi encontrá-la sentada na cama, apática. Olhava o vazio. Ainda sentia o peso nas mãos. Chamara Bertha algum tempo antes, para Kari não intervir, pedira-lhe que viesse sozinha. Perguntou-lhe diretamente e Bertha respondeu de maneira seca quase despida de emoção. A irmã ficou a saber pouco depois. Voxy não a culpava. Era algo delicado, mas que precisava de ser partilhado ou iria estar na ignorância até sair do hospital e perceber a ausência deles. Especialmente dela. 

Kari respirou fundo. Pousou a rosa em cima das mãos ligadas de Voxy. Tentou desviar o assunto mais uma vez:

 

- O fecho está estragado. Deve ter-se partido no embate. Acho que não tem concerto, mas pode ser que se consiga transformar noutra coisa. –

Voxy continuava apática. Não conseguia expressar nada. Nenhuma emoção lhe vinha à mente a não ser uma dor profunda. Acabou por dizer secamente e num fio de voz:

 

- Não quero saber. Faz como quiseres. –

Kari abraçou-a. Choraram as duas.

Fim da Segunda Parte

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Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

Bjs

Joana