Olá
Hoje começa a terceira parte da história.
Espero que gostem.
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Parte
3- Depois
Melodias do Desespero
Suíça/Praia
I
Estefânia culpava-se todos os dias. Pela estrada, por
não ter carregado no travão a tempo, por não se ter apercebido do camião e até
pelo clima. Há uma semana que estavam na casa da mãe dela. A praia e o ar do
mar vão fazer-te bem. O mesmo clichê que a mãe usara para a convencer.
Todos a tentavam consolar, fazê-la sentir-se menos culpada, ou não culpada de
todo. Os acidentes acontecem, não podemos controlar. Outro clichê muito
batido.
O que sabiam eles sobre o que estava a sentir? Sobre o
vazio e a dor de perder um filho? Sobre estar envolvida nessa perda?
Praticamente perdera a filha nos seus braços. Não sabiam nada! Não podiam
imaginar! Depois das dores do parto para a pôr no mundo, esta era pior, bem
pior! E só aumentava cada vez que olhava para as fotografias da filha no
telemóvel, cheias de sorrisos e caretas. Sorria com lágrimas nos olhos quando
se lembrava de quando as tirou. Todas elas tinham a promessa de uma próxima
vez. Quando cá voltares, tiramos mais e vão ficar melhor! Mas a promessa
já não podia ser cumprida.
Nessa altura, Carlos tirara-lhe o ecrã das mãos e
choraram nos braços um do outro.
O sol, a areia fina a toca-lhe delicadamente nos pés
sempre que saía para a praia. O mar salgado e cheio de espuma de cada vez que
vinha uma onda acariciar-lhe a pele na beira. A brisa que soprava ao seu ouvido
e que lhe trazia o cheiro do mar. Sentia-se leve quando dava estes passeios
durante o dia. Enquanto havia luz, era capaz de sorrir, de comer e até de falar
sobre assuntos banais. Mas á noite, a angústia apoderava-se dela. Estava
constantemente a lembrar-se do acidente. Carlos tentava acalmá-la de todas as
vezes e lembrava-a que tinham um filho que precisava deles, mas parecia que só
via Clara. Estava obcecada.
Acordava quase todas as noites encharcada em suor e
com os olhos inchados do choro. As olheiras eram visíveis no dia seguinte. Por
mais voltas que desse não conseguia voltar a adormecer. Todos estavam
preocupados com o seu estado. Chamaram um médico que lhe diagnosticou o que já
se sabia, mas que ainda tinham esperança que fosse passageiro. Depressão. A
mais grave de todas as crises nervosas. Aquela que corrói não só o paciente,
mas todos á sua volta.
Sugeriu um internamento numa clínica não muito longe,
poderiam visitá-la quando quisessem, mas ela negou-se terminantemente. Só
queria ser deixada em paz com a sua dor. Suportava-a melhor junto dos que
amava. O terapeuta passou a vir duas vezes por semana, mas por mais que
conversassem, ela parecia estar cada vez mais distante. Comia cada vez menos e
repetiam-se as situações de tentativa de terminar com a própria vida, mesmo
depois das consultas.
Várias vezes Carlos foi a correr à praia porque a
mulher entrava pelo mar adentro até deixar de se ver. Trazia-a para casa
embrulhada num cobertor em hipotermia, pois fazia-o sobretudo no Inverno quando
a água do mar estava gelada. Depois, passava dias na cama sem se mexer, a olhar
o vazio.
...
Voxy deixara crescer o cabelo enquanto estava no
hospital. Nunca gostara de o ter comprido, dava-lhe um ar desleixado. Mas
ficava-lhe bem. Emanava uma mistura de maturidade com infantilidade. Muitas
vezes, Kari penteava-a e apanhava-o numa trança.
Nos tratamentos, mostrava-se sorridente e recetiva. A
recuperação foi lenta. Precisou de muitas sessões de fisioterapia para as mãos
e pernas. Quando tirou as ligaduras foi como se lhe tivessem tirado um peso de
cima. Ainda não as conseguia mexer bem e doíam-lhe algumas partes, mas com o
tempo ia melhorar.
Porém, algo preocupava os médicos e a família. O
estado emocional de Voxy. O choque fora grande. Por fora, parecia sorridente e
bem-disposta, mas por dentro, a dor consumi-a cada vez mais. Estava perto da
rutura.
Na véspera de ter alta, o médico chamou Kari e Bertha
à parte e advertiu-as para uma eventual crise que Voxy poderia ter quando
voltasse para casa, por isso recomendou uma clínica na Suíça que podia tratar
de casos com o dela. Elas agradeceram e guardaram o cartão que o médico lhes
estendera.
Voxy saiu do hospital no dia seguinte sob grande
aparato da imprensa. Caminharam silenciosamente até ao carro, apenas com
flaches incomodativos das máquinas e das perguntas indiscretas. Baixou a cabeça
para que não lhe apanhassem as feições. Não queria ser manchete nos tabloides
sensacionalistas. Não queria ver a sua cara. Bertha e Kari trataram de a
proteger uma barreira de braços e mãos em frente às lentes. O carro seguiu sem
que lhes tivessem arrancado uma única palavra. Só lhes restava a especulação,
mas com essa podiam elas bem. Bastava-lhes interpor um processo sobre a
publicação e o seu autor e o assunto ficava arrumado. Uma avultada quantia
devia ser o suficiente para nunca mais as incomodarem.
Passado pouco tempo, realizou-se o funeral dos pais.
Cerca de uma semana depois de ter saído do hospital. Voxy estava de preto dos
pés à cabeça. Uma sombra triste e cabisbaixa. As lágrimas tinham secado há
muito tempo. O seu ar apático e perdido acompanhou-a durante toda a cerimónia.
Mal conseguia tirar os olhos do chão. Era como se esperasse que a qualquer
momento, se abrisse um buraco que a engolisse e a tirasse daquele suplício. Das
poucas vezes que olhou para cima, conseguiu distinguir algumas silhuetas. Umas
nunca tinha visto, provavelmente pessoas ligadas às empresas do pai, outras
tinha uma vaga ideia, como agentes e promotores de espetáculos que fizera com a
mãe.
A avó da parte da mãe também estava presente. Devia
ser das poucas pessoas de família tirando elas. Não lhe dirigiu nem um olhar.
Tinha esgotado a sua quota de olhares para a superfície, voltou ao chão. Kari
tratou de a cumprimentar em nome das duas.
Chovia. As pingas grossas acariciavam- lhe a face e
faziam a vez das lágrimas. Deitou uma flor para cima das urnas enquanto desciam
para a cova funda. Sentia-se a ir com eles. Os seus sonhos, as suas alegrias
estavam fechadas naquela cova.
Tal como as coisas no quarto que mandara trancar na
semana anterior. Ninguém, além de Bertha para limpar e arejar de vez em quando,
podia lá entrar. A última porta ao fundo do corredor, aquela que estava sempre
aberta de onde viera sempre luz, era uma zona proibida.
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