Olá
Esta semana, trago-vos o segundo capitulo da terceira parte da história.
Espero que gostem.
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II
Trancou-se no quarto quando chegou a casa. Encostou-se
à porta e encarou a divisão. O único sítio onde se sentia verdadeiramente
segura, aconchegada. Ali, podia esquecer tudo. Todas as luzes da sua vida
tinham ficado do lado de fora da porta. A música, a família, os sonhos.
Estava só, completamente só. Aquele quarto refletia o
seu coração, a sua alma.
Uma dor agonizante que sentia no peito e que teimava
em não querer sair. Parecia que tinha uma tampa na garganta. Deu um grito
rouco, quase inaudível. Avançou pelo quarto a cambalear, embriagada pela dor.
Estava descalça, com os pés nus no chão, depois de ter deixado os sapatos e as
meias perto da porta. Aquilo incomodava-a, queria sentir a terra nem que fosse
através das tábuas de madeira do chão do quarto. Chegou perto da cama e caiu de
joelhos. Começou a chorar quando achava que não tinha mais lágrimas. A dor
consumia-a cada vez mais. Levantou-se e andou mais um pouco até um móvel que
atirou para longe com uma força que nem sabia que tinha. Ouviu um estilhaçar de
vidros, mas não ligou. Continuou a andar, mas parou de repente. As lágrimas
toldavam-lhe a visão, mas conseguia distinguir uma barreira vinda dela. Era a
roupa. Desembaraçou-se dela facilmente, como se fosse apenas mais um incómodo.
Pedaços de tecido caíam na semiobscuridade, pintado de fios de luar. Com meio
vestido rasgado, e sem sentir o frio que estava pelo vidro rachado da janela,
avançou mais um pouco. De repente, virou-se para o espelho, aquele que sempre a
vira com uma cara alegre e despreocupada, cheia de sorrisos e luz, mas que nos
últimos dias só refletia angústia e escuridão.
Olhou para o seu próprio reflexo e assustou-se.
Cabelos compridos, envolvendo-lhe a cara, parte da roupa arrancada e uma pele
tão pálida que quase parecia um espectro vivo. Aquela figura frágil e
distorcida repudiou-a de tal forma que esmurrou o espelho até as suas mãos
choraram lágrimas de sangue que misturara com os estilhaços de vidro. Ao
espelho, seguiram-se outros móveis e pequenos bibelôs. Desembaraçou-se do resto
da roupa, ficando completamente nua numa dança grotesca e delirante.
No meio do processo, bateu com a mão na mesa de
cabeceira, pois perdera a noção da distância. De lá, caiu a rosa branca. Devia
ter sido Kari a pô-la ali numa tentativa desesperada de a fazer voltar à
realidade. Olhou para ela. Apanhou-a. As lágrimas caíam em cima das pétalas
molhando-as. A visão turva das lágrimas não lhe permitiu ver, mas também havia
manchas de sangue na flor.
Um flache passou-lhe pela mente ao lembrar-se do dia
em que a comprara com a mãe. O vestido para o recital era muito escuro e quis
dar-lhe um toque de cor. Foi procurar pela loja e encontrou aquele pregador.
Pegou-lhe e mostrou-o à mãe. Esboçou um sorriso tão cheio de vida! Estava tão
feliz!
Logo a seguir,
tudo se desmoronou. Custava-lhe a respirar. Apertou a rosa com força como se
isso a ajudasse. Doía-lhe a mão, mas não se importava. Sentiu algo quente. Era
sangue. Cortou-se no fecho estragado. Largou-a juntando-se ao resto da roupa e
dos objetos partidos. Olhou-os e arregalou os olhos ainda húmidos e inchados.
Passou por cima deles e deitou-se de costas. Aquela sensação subia por ela como
uma onde de prazer, mas também dor e delírio. O cabelo espalhou-se entre os
vidros e o sangue. Esfregou-se neles e sentou-se. O cabelo era um incómodo.
Tinha de se desfazer dele. Pegou num bocado maior de vidro e cortou-o como
pôde. Voltou a deitar-se, num estado quase de transe em que a dor física não
afetava.
Sentiu-se a cair num vazio sem fundo, cada vez mais
escuro, até que uma voz que lhe soou familiar a chama Voxy quer saber de
quem é, mas a escuridão aperta-a e não deixa. Sente uma mão e depois um braço a
levantá-la. A voz murmura-lhe ao ouvido: Voxy. Uma silhueta familiar
desfocada surge-lhe à frente. É Kari, ou pelo menos, parece. A escuridão
domina-a novamente.
…
Apesar dos esforços de Carlos e Maria Hortense,
Estefânia parecia cada vez mais distante e fechada sobre si própria. Nos
últimos dias, já nem saía do quarto para comer.
Dispensara o terapeuta porque também não estava a
ajudar. Passava o tempo em frente ao computador. Usava-o sobretudo para
pesquisar. Às vezes, trabalho, outras só para se distrair. Numa dessas
pesquisas, encontrou uma notícia recente sobre uma rapariga chamada Voxy Heart
Smith que sofrera um acidente muito semelhante ao seu e que lhe tirara os pais.
Ficara no mesmo hospital. Saíra há pouco tempo sobre grande aparato da
imprensa. É uma jovem pianista cuja maior influência era a mãe, Carolina Heart.
Lembrava-se de ter visto uma fotografia dela entre as muitas na parede do bar
que frequentava na juventude.
A reportagem vinha acompanhada por algumas
fotografias. Numas, aparecia vestida de gala, vestido simples, mas elegantes e
poucas joias, noutras com uma roupa mais casual, mas sempre colorida e com uma
expressão alegre. O sorriso parecia genuíno ao contrário da maioria das
celebridades. Nos vestidos de gala, tinha sempre uma rosa branca ao peito. O
seu olhar parecia tão vivo e misterioso ao mesmo tempo, como se procurasse
alguma coisa. Em parte, fez-lhe lembrar Clara. Também era alegre. Iam dar-se
bem se se tivessem conhecido. Pobre rapariga. Pensou. Perder a
família assim deve ser terrível. Havia, ainda, a referência a uma irmã mais
nova na qual se apoiava.
Mais a baixo, descobriu uma secção de vídeos de
recitais e resolveu ouvir. A maior parte eram gravações caseiras com baixa
qualidade, visto terem sido feitas no auditório da escola. Quando leu o nome,
arregalou os olhos. A escola era a mesma da filha. Lembrava-se vagamente de
Clara uma vez lhe ter dito que havia duas raparigas que tinham feito um
intercâmbio e que iam pouco às aulas porque não precisavam de fazer todas as
disciplinas. No dia do acidente, Clara contara-lhe que nessa tarde, ia haver um
recital no teatro da cidade que essa colega ia estar presente. No fundo, só iam
para vê-la.
A música que se ouvia no vídeo trouxe-a de volta. Era
tão suave e misteriosa como um canto celestial, o que a fascinou. Embalou-a e
fê-la sentir-se mais leve. Passou a ouvi-la todos os dias.
…
Voxy abriu os olhos devagar. Olhou em volta, não
reconhecendo o sítio onde estava. Era branco e tinha uma luz forte que quase a
encandeava. Não estava no seu quarto nem na sua casa.
Reparou em Kari adormecida numa cadeira perto dela. Tentou
estender-lhe a mão, mas não conseguiu. As mãos pesavam-lhe novamente. Estavam
ligadas outra vez. Tentou chamá-la, mas a voz não saía. Kari acordou
sobressaltada e assim que a viu, foi junto dela. Pegou-lhe na mão ligada. Voxy
perguntou-lhe onde estava e o que tinha acontecido. Kari respondeu-lhe que
estava numa clínica na Suíça, depois do surto que tivera há uma semana. Já
estava a dormir há uma semana!
- Conta-me o que aconteceu em casa! Preciso de saber!
– Implorou Voxy.
Kari não gostava de falar sobre o assunto. Tudo estava
ainda muito presente e ainda lhe era doloroso. Respirou fundo e contou-lhe que,
pouco depois do jantar, começou a ouvir barulhos estranhos vindos do quarto da
irmã. Correu pelas escadas e parou diante da porta. Bateu uma vez e não obteve
resposta. Depois de várias insistências, abriu a porta. Ficou em choque com o
que viu do outro lado. Nem nos seus piores pesadelos imaginou assistir a algo
tão macabro. Voxy estava deitada no chão rodeada de móveis e vidro partido, sem
roupa. O cabelo estava cortado grosseiramente e as mãos em sangue. Só depois
reparou nas marcas roxas pelo corpo e as roupas rasgadas. Sentiu um ar frio
vindo de uma janela partida. Olhou para a irmã parada á porta. Sorriu. Era um
sorriso oco, quase maníaco. As lágrimas ainda lhe corriam dos olhos, mas o seu
olhar era vazio. Kari correu para ela e abraçou-a também a chorar. Depois,
levou-a para a casa de banho onde a lavou e prestou os primeiros socorros.
Aparou-lhe o cabelo, vestiu-lhe uma camisa de noite fina a branca e deitou-a na
cama.
Desceu as escadas em passo apressado e pediu a Bertha
que ligasse para a clínica. Tal como o médico previra, a irmã estava em rutura.
Partiram nessa mesma noite no jato particular da família.
…
A música de Voxy parecia estar a fazer efeito.
Estefânia já não passava tanto tempo no quarto. De vez em quando, descia para
comer, mas cada vez que aparecia, a sua aparência era arrepiante. Tinha uma
expressão vazia, os olhos cavados pelas lágrimas, o rosto tão magro que mal se
reconhecia, apenas pela voz sabiam quem era.
No entanto, quando vinha, o seu rosto parecia sorrir.
Houve um dia que Carlos foi espreitá-la ao quarto e apanhou-a a sorrir para o
computador. Pensando que falava com Carla pelo Zoom, deixou-a estar.
Carla sempre fora boa a animá-la.
Os passeios voltaram, acompanhados pela música de Voxy
nos auscultadores ligados ao telemóvel. Era como um balsamo para a alma e um
alívio para o corpo. Estefânia nunca se sentira tão bem. Até as noites mal
dormidas começavam a ser cada vez menos.
Um dia, depois de um passeio, sentou-se à mesa com a
família e anunciou:
- Agradeço muito a estadia, mãe, mas creio que chegou
a hora de voltar. –
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