Olá
Esta semana, acaba a segunda parte da história com este segundo capítulo.
Espero que gostem.
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II
O choque fez com que os dois carros fossem arrastados
alguns metros indo embater na berma da estrada do outro lado. O carro de Voxy
ficou parcialmente esmagado e o camião também. Carolina e Heitor tiveram morte
imediata bem como o motorista e o condutor do camião. Kari conseguiu
arrastar-se para fora com o corpo inerte de Voxy. Lágrimas e sangue corriam-lhe
pela cara e pelo corpo, o seu e o da irmã. A sua expressão era de choque e
desorientação. Sentou-se junto á irmã e esperou pela ambulância que alguém,
entretanto, chamara.
Não tardou muito que uma pequena multidão se juntasse.
Um acidente daquela dimensão não era discreto. Daí a pouco, chegou a
ambulância, a polícia e alguma imprensa. Os corpos foram recolhidos e as
raparigas levadas para o hospital. Kari levava a pregadeira que caíra do
vestido de Voxy.
…
A emissão de rádio foi interrompida para uma notícia
de última hora:
«(…) o carro onde seguia a pianista Carolina Heart e a família sofreu um
grave acidente esta tarde. A pianista e o marido, um conhecido empresário do
ramo financeiro, morreram no local e as filhas estão neste momento a caminho do
hospital. Não sabemos qual o seu estado, mas aparentemente a mais velha está
inconsciente. A todo o momento, teremos mais informações sobre este caso.»
O homem desligou o rádio e tentou desesperadamente
ligar para a mulher. A mensagem que recebera ao mesmo tempo da notícia
deixara-o alerta. Estefânia dissera que estava muito trânsito e que iam tentar
ir por um atalho, mas antes de desligar, um barulho forte ecoou. Sempre que
tentava ligar ouvia uma voz feminina gravada que o informava que «o número
que marcou não está disponível. Por favor, deixe a sua mensagem ou tente mais
tarde». Estava farto de deixar mensagens às quais não obtinha resposta, por
isso resolveu ir direto para o hospital.
…
A ambulância parou á porta das urgências. Os
paramédicos levaram a maca de Voxy diretamente para p bloco operatório assim
que o médico a viu. Kari seguiu-os até onde pôde com lágrimas nos olhos.
Avançou pelo hospital apressada e desorientada. Quase chocou com uma mulher
agarrada ao filho. Olhou-a de relance como que a pedir desculpa e continuou.
Nesse momento, a maca de Clara avançava na mesma
direção da de Voxy. Estefânia sentiu um aperto no peito. Kari continuou pelos
corredores sem ouvir nada nem ninguém. Todos os seus movimentos eram mecânicos.
Apenas se deixava ir. Fora socorrida no local. Tinha vários pensos e ligaduras,
as roupas ainda estavam manchadas de sangue, mas a rosa continuava bem firme na
sua mão. Não ia largá-la até estar com a irmã.
Sentou-se num banco vazio do corredor o mais próximo
possível da sala de operações.
…
O carro de Carlos parou á porta do hospital pouco
depois. Saiu meio atarantado e com uma expressão preocupada. Recebera
finalmente uma chamada da mulher a dizer que tiveram um acidente e estavam no
hospital. Entrou no edifício de forma desesperada e atabalhoada. A gabardina
que vestia quase ficou presa na porta giratória. Dirigiu-se logo á receção e perguntou
pela família. «Ao fundo do corredor, primeira porta á direita». Indicou uma
mulher de expressão neutra do outro lado do balcão.
A última vez que ali estivera foi quando os filhos
nasceram. Nessa altura, estava tão feliz! Agora, a preocupação e até algum medo
tomavam conta dele.
Em passo apressado, foi para o sítio que lhe
indicaram. Quando chegou, respirou fundo para recuperar o fôlego. Bateu ao de
leve na porta. A voz de Estefânia soou do outro lado. Entrou e em vez de
encontrar com um bebé nos braços e a sorrir, encontrou-a com o filho cheia de
ligaduras e ainda em estado de choque. Assim que o viu, abraçaram-se a chorar.
…
Kari entrou no quarto de Voxy quando uma enfermeira,
depois de alguma insistência, autorizou a visita. Olhou para a irmã ligada a
uma máquina e com ligaduras nas mãos. Depois para a rosa que trazia na mão.
Pousou-a na mesa de cabeceira, aproximou-se e segurou-lhe no emaranhado de
ligaduras. Apesar delas, a mão estava fria como uma estátua, mas o calor da sua
iam confortá-la. As lágrimas começaram a correr-lhe novamente pela cara.
Lembrou-se daquele cenário apocalíptico do acidente
onde o cheiro a queimado e a sangue se misturavam e do qual foi a única
testemunha consciente. Tinha sido tudo tão rápido que mal se lembra dos
pormenores. Apenas conseguira contar á polícia o que se passara depois do
capotamento do carro. Partiu o vidro com os pés e num esforço sobre-humano,
arrastou-se com o corpo pesado e inerte da irmã para um local o mais longe
possível, para um bocadinho de paz no meio daquela guerra entre pedaços de
carros e asfalto. Gritou, chorou, implorou por ajuda até que um dos condutores
que passava, devidamente identificado pela polícia como prestador de auxílio no
acidente, parou o carro e atendeu o seu pedido.
Flaches tenebrosos do acidente passaram pela sua mente
que a fez ter uma tontura e cair sobre Voxy. Levantou a cabeça, ainda com os
olhos húmidos das lágrimas que não secavam, ainda a segurar-lhe na mão. «Tens
de viver!» Pensou, apertando-lhe a mão. «Não me deixes sozinha».
…
Não há muito mais que se possa fazer. – explicou o
médico. – A vossa filha sofreu um traumatismo craniano grave e o mais provável
é que nunca acorde. Ou se acordar, pode ficar com sequelas para o resto da
vida. –
O casal estava no gabinete do médico que os
acompanhara. Estefânia chorava, Carlos tentava consolá-la, mas também estava
desesperado. Todos ali sabiam que só havia uma solução, mas não era fácil,
ambos tinham noção que a dor e o vazio ficariam para sempre nas suas vidas, mas
era o mais indicado a fazer uma vez que se a deixassem viver só iam prolongar o
sofrimento. A decisão mais dolorosa estava tomada.
…
Kari dormitava numa cadeira perto da cama de Voxy
quando o médico entrou no quarto. Despertou meio desorientada e olhou-o. Quase
suplicava por uma resposta que a confortasse, que a tirasse daquela angústia.
Ela sabia da doença da irmã e que isso podia ser uma agravante do seu estado.
Secou os olhos inchados e seguiu o médico até ao gabinete.
- Então, Doutor como é que ela está? – perguntou com
voz rouca, mas direta.
O médico fez um ar sério.
- Está estável, mas ainda vai levar algum tempo até
acordar. As mazelas físicas foram muitas, mas acredito que a recuperação será
favorável. –
Kari olhou para o homem de cabelo grisalho e olhos
claros sentado à sua frente. Aquela era a versão floreada e otimista que todos
os médicos tinham de dar para confortar os familiares. Mas ela queria a versão
realista. Aquela que não escondia nada e que ia direta ao ponto. Só porque era
uma adolescente não significava que não podia saber o que realmente se passava.
Era a irmã, a única parente viva naquele momento que podia fazer alguma coisa,
tinha esse direito.
O médico clareou a voz antes de falar:
- Por causa do embate e da doença, alguns nervos foram
afetados. – Kari pressionou-o com o olhar. Não gostava de rodeios nem meias
palavras. Foi direto ao ponto:
- Bom, resumindo os nervos das mãos de Voxy estão
paralisados e vão demorar algum tempo até que voltem a ter autonomia. Quanto ao
resto, não precisa de se preocupar. –
Kari recomeçou a chorar. Levantou-se sem olhar para o
médico e voltou para o quarto. As mãos eram tudo para a irmã, eram a sua
ferramenta de trabalho, sem elas como poderia tocar piano? O choque era
demasiado grande. Precisava de consolo, mas não tinha os pais. Sentia falta do
abraço do pai e das palavras de coragem da mãe.
Nesse momento, apareceu Bertha. Já tinha falado com o
médico. Soubera do acidente pelas notícias e veio assim que lhe foi possível.
Abraçaram-se.
…
O suporte de vida foi desligado. Clara foi dada como
morta nessa noite de Outono. A família chorou a sua perda. Os colegas e
professores apresentaram as condolências.
…
Escuridão. A mais profunda e absoluta. Naquele
negrume, já não sabia distinguir nada. Nem caras, nem vozes, nem lugares. Ouvia
murmúrios difusos que lhe pareciam muito distantes, inalcançáveis. Voxy
era o nome que lhe puseram, quando nasceu, ou pelo menos pensava que era. Não
se lembrava. Imagens distorcidas iam e vinham, mas a sua luz era tão fraca que
mal chegava a ver. A escuridão engolia-a por completo. Sentia um peso no peito
e nas mãos. Quando as tentava mexer era como se estivessem amarradas, presas por
correntes pesadas. Desistiu ao fim de algumas tentativas. Viu a cara da mãe
meio desfocada, mas era ela. Ao lado, a do pai. Sorriam-lhe depois afastavam-se
como se se despedissem. Sentiu lágrimas a correrem-lhe pela cara. Não vão! Tentou
gritar, mas a voz não lhe saía. Voxy murmurou uma voz distante, mas
familiar cada vez mais próxima.
De repente, abriu os olhos. Olhou para em volta.
Estava no hospital, conseguia distinguir as luzes foscas que brilhavam no teto
por cima de si. A cama era confortável embora um pouco rija. Olhou para o lado.
Kari estava ao seu lado com um ar tristonho. Bertha consolava-a. Quis
estender-lhe a mão, mas continuavam pesadas. Tentou chamar, mas os tubos não
deixavam, então mexeu a ponta do pé que chamou a atenção de Kari. Rapidamente,
limpou as lágrimas e aproximou-se. Sorriu-lhe ainda com os olhos brilhantes. Bertha
foi chamar as enfermeiras que a cercaram. Depois de um exame geral, concluíram
que era mais prudente deixar ficar o suporte de vida até que Voxy conseguisse
respirar sozinha. O que não demorou muito. Passado uma semana, o suporte foi
tirado. Voxy começou a respirar sozinha outra vez. Por precaução e pela
fragilidade que ainda aparentava, ficou mais uns dias no hospital. As sequelas
físicas da doença ainda eram pouco visíveis apenas das ligaduras nas mãos e de
ainda não as conseguir mexer.
As marcas psicológicas estavam adormecidas, mas
estavam lá. Kari tivera alta logo no dia do acidente, mas vinha todos os dias
ver a irmã com Bertha e o novo motorista que, entretanto, contrataram.
…
As cerimónias fúnebres de Clara realizaram-se dias
depois. A escola enviara uma coroa de flores, foi decretado um dia de luto pelo
diretor e não houve aulas. Chovia torrencialmente nesse dia. Parecia que até o
céu chorava. Estefânia mal tinha forças para chorar, as lágrimas secaram, mas a
dor era contínua. Permaneceu calada e com um ar indiferente durante todo o
caminho para casa. Maria Hortense viera para dar apoio e também estava
devastada.
-Porque não vêm passar uma temporada a minha casa? –
sugeriu. – Precisas de te afastar disto tudo por uns tempos. Tenho a certeza
que te ia fazer bem. –
Estavam sentados no sofá da sala a beber chá. Tinha
passado uma semana desde o acidente e dois dias desde o funeral, mas parecia
que tinha sido no dia anterior. Desde que enviuvara, Maria Hortense tinha-se
mudado para uma casa perto da praia e já por várias vezes os convidara a
passarem algum tempo por lá, mas nunca se proporcionara. Até aquele infeliz
momento.
A filha estava apática no sofá. De vez em quando,
bebericava o chá num gesto quase mecânico. Parecia uma boneca, uma marioneta
que repetia os mesmos gestos até à exaustão.
-Está bem. – Concordou depois de alguma insistência.
Já não suportava ouvir a mãe. – Vamos contigo, vai fazer-nos bem. –
Maria Hortense sorriu triunfante. Abraçou-a. Estefânia
apenas se deixou envolver sem grande emoção.
…
Kari tentava evitar o assunto sempre que ia ao
hospital. Tanto uma como outra sabiam que tinham de conversar. Voxy não era
nenhuma tonta. Sabia perfeitamente o que acontecera no dia do acidente. Bertha
contara-lhe. Primeiro, a incredulidade, depois a negação e, por fim, o
desespero e a aceitação. As lágrimas não paravam de cair. Tentou mexer as mãos,
mas não conseguiu. Inclinou-se para a frente e Bertha abraçou-a. Sentia-se
impotente e isso irritava-a. Estava muito dependente. Enquanto não recuperasse
as mãos, não era ninguém.
Naquele dia, foi encontrá-la sentada na cama, apática.
Olhava o vazio. Ainda sentia o peso nas mãos. Chamara Bertha algum tempo antes,
para Kari não intervir, pedira-lhe que viesse sozinha. Perguntou-lhe
diretamente e Bertha respondeu de maneira seca quase despida de emoção. A irmã
ficou a saber pouco depois. Voxy não a culpava. Era algo delicado, mas que
precisava de ser partilhado ou iria estar na ignorância até sair do hospital e
perceber a ausência deles. Especialmente dela.
Kari respirou fundo. Pousou a rosa em cima das mãos
ligadas de Voxy. Tentou desviar o assunto mais uma vez:
- O fecho está estragado. Deve ter-se partido no
embate. Acho que não tem concerto, mas pode ser que se consiga transformar
noutra coisa. –
Voxy continuava apática. Não conseguia expressar nada.
Nenhuma emoção lhe vinha à mente a não ser uma dor profunda. Acabou por dizer
secamente e num fio de voz:
- Não quero saber. Faz como quiseres. –
Kari abraçou-a. Choraram as duas.
Fim
da Segunda Parte
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Bjs
Joana
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