sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 2- Capitulo 1

 Olá 

Hoje começa a segunda parte da história.

Espero que gostem. 

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Parte 2-Antes

Melodias Intermitentes

Voxy e Kari/Clara e Gonçalo

I

Voxy era uma rapariga com a seriedade do pai, mas com a descontração e alegria da mãe. Tal como ela, também gostava de se divertir e estar rodeada de gente. Tinha o cabelo curto, branco e olhos leitosos acinzentados, condição rara que a fazia parecer quase uma vampira e uma boneca.

«Parece que a vossa filha tem uma variação rara da doença» explicou o médico pouco depois do seu nascimento. As restrições eram, no entanto, muito mais abertas que as de Carolina. Podia sair quando queria desde que levasse um chapéu e óculos de sol uma vez que os olhos eram sensíveis á luz intensa. Tal como a mãe, sempre que viajava, tomava comprimidos para evitar constrangimentos nos recitais, que começou a dar desde muito cedo. Primeiro, acompanhada pela mãe, depois sozinha.

O palco e a música nunca foram estranhos para ela. Aos 3 anos, já acompanhava a mãe nas tournées mundiais. Ficava nos bastidores com a irmã e Bertha e no final a mãe levava-a para o palco e, com ela ao colo, sentava-a ao piano e tacavam juntas. Ao início, notas difusas, mas com o tempo, foi aprendendo a tocar melodias cada vez mais complexas. Tinham uma ligação profunda, talvez por terem a mesma doença. Quem as visse pensaria que seriam irmãs de tão parecidas. Voxy gostava de guardar para si como um segredo, não queria ser tratada de forma diferente.

Ouvia muitas vezes a história do seu nascimento e a razão de haver tão poucas fotografias suas em bebé em casa. Foi um parto conturbado com muito sofrimento para a mãe. Esteve internada um mês e todos os dias Carolina ia vê-la. Na primeira vez que a viu, um corpo pequeno e frágil, não conseguiu conter as lágrimas. Quando lhe pegou na mão, ainda que enluvada, sentiu os dedos pequenos a entrelaçarem-se no seu, percebeu que tinha de a proteger.

Mais tarde, quando viu que gostava de música, inscreveu-a num dos mais prestigiados conservatórios de música do mundo onde veio a revelar-se, tal como ela fora no passado, uma aluna brilhante. Mas com a sua ajuda ficou ainda melhor. Aos poucos, ia-lhe dando espaço para brilhar. Agora, já era a mãe que ficava nos bastidores a aplaudi-la.

  Os rumores de que em breve se ia ausentar dos palcos ganhavam cada vez mais peso e um dia anunciou a sua retirada definitiva para dar lugar á filha.

Voxy vestia cores garridas, mas para os recitais e concertos gostava de vestir cores mais escuras. Dava-lhe uma sensação de segurança e mistério. Já a irmã, Kari, era mais discreta. Gostava mais de ouvir do que de aparecer. Desde o início que sabia que era adotada. Apesar de ser muito pequena quando saiu do orfanato, as suas memórias eram bem vívidas de quando os conheceu e foi para casa. Talvez por isso, sentia-se excluída e em certas ocasiões como nas apresentações públicas. Mas Voxy fazia questão de lhe lembrar que ela também era da família e não tirava uma fotografia fosse onde fosse se ela não aparecesse.

Em várias ocasiões, lhe perguntava a opinião sobre uma música a seguir a um ensaio.  

Tinham acabado de mudar para Lime depois de uma temporada no estrangeiro. Viviam num apartamento de luxo nos arredores com dois pisos, um terraço e uma piscina que poucas vezes era usada, mas quando era a festa estava garantida. Sobretudo se fosse Voxy a anfitriã.

Acabavam sempre na piscina e depois iam ouvi-la á sala do piano. Às vezes, ainda com os fatos de banho molhados e os cabelos a pingar para as teclas.

Clara e Gonçalo viviam com os pais num bairro calmo de Lime. Era uma vivenda com dois andares e um quintal. Quiseram ter um cão, mas o pai era alérgico ao pelo, por isso desistiram da ideia.

No piso térreo, estava a sala e a cozinha que comunicavam entre si por uma porta e no andar de cima, os quartos e uma casa de banho.

A rapariga tinha o cabelo castanho-escuro e olhos da mesma cor e o rapaz cabelo castanho-claro e olhos da mesma cor.

Apesar dos seus 16 anos, Clara era bastante madura. Tinha excelentes notas e era uma das alunas mais novas a concorrer a uma universidade estrangeira. Sempre gostara de aprender, especialmente sobre o passado. A sua disciplina favorita era História.  O irmão tinha 14 anos e também era um bom aluno. Os seus interesses eram mais virados para as Ciências e Matemática.

Quem os conhecia, dizia que Clara era parecida com a mãe e Gonçalo com o pai. Estefânia gostava de se gabar que tinha dois filhos bonitos e inteligentes. Era dona de um escritório de advogados que herdara do pai e fizera sócia a sua melhor amiga e madrinha de Clara, Carla. Considerava-se uma advogada competente embora às vezes fosse demasiado emocional, algo que também herdara do pai. Apesar de este lhe dizer que as emoções deviam ficar fora da sala de audiências, muitas vezes eram trazidas para dentro, sobretudo quando os casos envolviam famílias.

Carlos era arquiteto e viajava muito. O escritório onde trabalhava ficava na cidade, mas era frequente deslocar-se para se encontrar com clientes e para ver obras. Tentava, ao máximo, estar mais perto da família mas quando não era possível eles compreendiam.   

Heitor gostava de ser um dos primeiros a chegar á empresa onde era Presidente. Herdara-a do pai que falecera pouco depois de ter adotado Kari. A mãe foi viver para o estrangeiro com a fortuna que conseguira da herança e nunca mais deu notícias. Soube, mais tarde, por uns conhecidos, que tinha recomeçado a vida com alguém mais novo. A sua relação com ela nunca fora muito próxima. Só tinha ido ao seu casamento por conveniência e nunca quisera saber das netas ou dos seus problemas. Chegara a ter inveja da mulher que durante bastante tempo foi próxima da mãe, mas depois de Kari chegar, as relações foram cortadas sem que chegasse a perceber o motivo.   

O edifício da empresa era alto e ficava no centro da cidade. O seu gabinete ficava no último andar. Pousou a pasta na secretária, sentou-se ao computador e começou a organizar as tarefas do dia. Não eram as suas funções diretas, mas gostava de o fazer. A secretária tinha mais com que se preocupar.

Foi uma das coisas que aprendera com o pai. A não sobrecarregar os outros com tarefas que ele mesmo podia fazer. Era um homem austero, mas conseguia ser amável quando queria sobretudo quando a mulher estava tão coberta de comprimidos para a ansiedade que nem conseguia pegar na filha ao colo e as amas estavam demasiado cansadas. A sua capa de autoritarismo só era posta quando lhe convinha. No resto do tempo, era apenas um pai como qualquer outro.

O som do telemóvel trouxe-o dos seus pensamentos. Atendeu. Era Corolina a lembrá-lo do recital da filha mais tarde.

Respondeu:

-Não te preocupes, eu nunca me esqueço de compromissos importantes. Diz-lhe que não esteja nervosa. Vai correr tudo bem. -

Ela riu-se do outro lado. Despediram-se antes de desligar. Gostava sempre de receber chamadas da mulher no início do dia. Sentia-se um homem afortunado. Foi o único casamento na família por amor. O dos pais era uma fachada por causa dos negócios e o seu nascimento apenas o processo natural. Mas a família dele era diferente, havia genuína preocupação entre eles.

 

Voxy e Kari frequentavam o mesmo colégio privado, mas como tinha tido aulas no estrangeiro, não precisavam de ir todos os dias, apenas às disciplinas que estavam atrasadas como História e Matemática. Nunca foram boas com números e factos. Sobretudo Voxy que se destacava no artístico e criativo como línguas e literatura e, claro, na música.  

No resto do tempo, passeavam e praticavam música em casa, sempre sob o olhar atento de Carolina e Bertha, a governanta e ama das raparigas. Fora contratada pouco depois da adoção de Kari. Era uma mulher bondosa, quase uma segunda mãe, apesar de Carolina ser muito presente. Acompanhava-as muitas vezes nas tournées e tomava conta delas quando os pais não podiam.  

O dia estava solarengo, apesar de algumas nuvens espreitarem no horizonte. As ruas estavam calmas por ser ainda muito cedo. Clara acordou, como sempre, com o despertador a marcar as 7.30. Já o irmão acordou com os gritos da mãe na cozinha:

-Gonçalo! - Acorda, olha que chegas atrasado! - Todas as manhãs era assim.

Quem descia sempre primeiro era Clara já penteada e vestida com o uniforme da escola. Camisa verde, uma saia com padrão xadrez, sapatos pretos e meias brancas até ao joelho. O cabelo era solto. Entrou na cozinha, cumprimentou a mãe e sentou-se para tomar o pequeno-almoço. Torradas com doce e uma chávena de leite morno. Gonçalo desceu depois também com o uniforme vestido. Igual ao da irmã, mas com calças. Cumprimentou a mãe e a irmã e sentou-se para comer. Uma taça de cereais.

Naquela manhã, Carlos saíra mais cedo quando o resto da família dormia. Tinha ido a outra cidade ver uma obra de um centro comercial.

Depois de comerem, foram lavar os dentes e prepararam-se para sair. Puseram agasalhos pois apesar do sol, estava frio já que estavam quase no Inverno. Despediram-se da mãe e saíram para apanhar o autocarro da escola. A mãe ainda ficou a arrumara a cozinha e a acabar de se arranjar. Tinha uma reunião com um cliente importante.

Decidira ir buscar os filhos à escola assim passava tempo com eles e evitava as queixas que nunca estavam juntos durante a semana sem ser em casa. Geralmente, o trabalho roubava-lhe muito tempo, mas naquele dia ia ser diferente.

Olhou pela janela da cozinha. Ainda os conseguiu ver, a entrarem para o autocarro e acenou-lhes. Acenaram de volta. Sorriu, mas logo a seguir sentiu um arrepio que se tornou mais forte ao olhar para Clara. Como um pressentimento. Não ligou.  «Deve ser do frio» Pensou. «Este tempo tem andado esquisito, tenho de levar mais um casaco». Acabou de arrumar a cozinha, arranjou-se e saiu.

Naquela manhã, Voxy tinha ido com a mãe e a irmã a uma galeria de arte ver alguns quadros de uma artista principiante. Conseguiram comprar um bom lote. Iam entregar a casa ainda nessa tarde depois do recital. Depois, foram às lojas de roupa na avenida mais cara da cidade. Kari precisava de renovar o guarda-roupa e nada melhor queuma manhã nas lojas. Voxy aproveitou para comprar um vestido para o recital. Como era cor escura, escolheu um pregador com uma rosa branca para dar um toque de cor.

Voltaram para casa cheias de sacos que foram desempacotar aos quartos. Depois, Voxy foi para a sala do piano a fim de ultimar os ensaios para o recital dessa tarde. Detestava os recitais da escola. Eram enfadonhos e não serviam senão como uma desculpa para a verem. Para depois ouvir os pais dos colegas dizer: «Vês? Aquilo é que é uma artista! Devias seguir-lhe o exemplo!» e outras coisas do género. Até o local foi escolhido a dedo. O teatro da cidade. Um dos poucos sítios que leva mais público que apenas pais e alunos. Quando marcavam estes recitais, a escola ia ver em peso e se fosse preciso chamavam-se mais uns conhecidos para encher a sala. «Da próxima vez vendem bilhetes ao público» Pensou quando a professora anunciou o recital. Isso irritava-a profundamente. Não gostava de ser vista como a filha de Carolina Heart, a grande pianista. Queria ser apenas a Voxy.

Rapidamente afastou estes pensamentos quando se sentou ao piano e começou a tocar. Era o seu refúgio. Lá, sentia-se longe de tudo e todos os que a aborreciam. Numa realidade paralela, distante, onde só existiam ela e o piano.

Passado pouco tempo, já tinha a mãe e a irmã sentadas a ouvi-la. Nesse momento, arrastara-as para a sua realidade e por lá ficavam.

A música de Voxy era mais calma que e a de Carolina. A mãe era mais alegre, Voxy mais contida, misteriosa até. Ainda assim, não deixava de gostar de a ouvir, apesar de ter sempre um olhar crítico. Era ela que a treinava e o seu grau de exigência era elevado.   

Quando terminou, ambas bateram palmas. Carolina olhou para o relógio de parede da sala e arregalou os olhos:

-Já estamos atrasadas, temos e ir! -

Sem se aperceberem, as compras e os passeios tinham-se prolongado toda a manhã. Arranjaram-se e apressaram-se a sair de casa. Quando chegaram ao teatro, a professora de Voxy esperava-as nos bastidores com um ar de reprimenda que soube disfarçar. A sua estrela maior, a atração principal não se podia atrasar ou o espetáculo não se realizava. «Não deixava de ser uma boa hipótese» Pensou Voxy indo diretamente para o camarim dar os últimos retoques na roupa e maquilhagem.

Heitor já estava no camarote por cima do palco. Acenou quando viu a mulher e a filha chegar. Assim que se sentaram, o recital começou. Um a um, os alunos foram demonstrando os seus dotes artísticos e musicais até que chegou o momento mais aguardado. A sala, que até então tinha alguns murmúrios de fundo, emudeceu. Voxy surgiu no palco com um belo vestido azul-escuro, de saia curta, sapatos de verniz pretos e a pregadeira da rosa branca ao peito. Todos aplaudiram. Sentou-se em frente ao grande piano de cauda e começou a tocar. A música ressoava pela sala embalando os espectadores. A emoção que sentiam era sempre a mesma, mas era isso que os cativava.

 

Quando terminou, todos voltaram a aplaudir de pé a magnifica atuação de Voxy que agradeceu com uma vénia. A família foi depois felicitá-la aos bastidores. A professora não parava de a elogiar:

-Foste fantástica, ainda melhor que das outras vezes.- 

 Voxy sorriu.

-Tive boas professoras. -

Nesse momento, a família aproximou-se e ela foi abraçá-los. Carolina deu-lhe os parabéns e um beijo na cara. «Estou orgulhosa de ti».

O dia na escola e no escritório foi como os outros. Aulas e alguns clientes maçadores que insistiam na sua inocência mesmo quando todas as provas indicavam o contrário. A reunião com o cliente importante fora produtiva. Conseguiram que o caso não fosse a tribunal.

Na escola, também houve tempo para conversas com os amigos no recreio e jogos de futebol.

Clara e Gonçalo quase não se viam durante o dia, andavam em turmas e anos diferentes. Clara era 2 anos mais velha. De vez em quando, encontravam-se nos intervalos ou às refeições, mas cada um com o seu grupo. Apesar de todos saberem que eram irmãos, nunca se misturavam. Uma vez por outra encontravam-se fora da escola para irem ao café mas muito raramente.

No escritório, Estefânia comia com Carla. Todos os casos complicados passavam por elas e na maioria das vezes eram ganhos. Faziam um bom trabalho de equipa porque se complementavam. Foi assim que a convencera a aceitar a sociedade da firma. Apesar de no início não ter sido fácil por causa da pouca experiência em gestão, com o tempo foram-se adaptando.

Quando a campainha tocou, os dois irmãos saíram da escola e foram ao encontro da mãe que os esperava no carro à porta, que os surpreendeu, mas também alegrou. Despediram-se dos colegas e entraram. A mãe arrancou logo a seguir. Àquela hora, o trânsito era pouco, mas já se faziam notar as filas do início da hora de ponta.

….

Á saída do teatro, o carro esperava por eles. Entraram pela porta aberta. Arrancaram pouco depois. O trânsito era intenso, mas o motorista conhecia um atalho. Acelerou um pouco até entrar numa estrada alternativa sem reparar que outro carro tomara o mesmo caminho, passando muito perto, e com o susto, descontrolou-se um pouco mas retomou logo o caminho. Mais adiante, voltaram a encontrar muito trânsito. Heitor pediu ao motorista para procurar outro atalho, já era tarde e todos precisavam de descansar. O motorista obedeceu e foram ter a uma estrada pouco movimentada, mas onde a visibilidade era má por causa do sol. De repente, ouviram um barulho e depois a silhueta de um camião na direção deles. Vieram dar a uma estrada em contramão. O motorista tentou virar, mas não foi a tempo. Um flache de luz atravessou-se no seu caminho. Foi a última coisa que Voxy viu antes de ficar inconsciente.  

 

-O trânsito está caótico, hoje! - Queixou-se Estefânia. Cada vez mais carros começavam a chegar ao local onde se encontravam, obrigando-os a abrandar.

-Vamos por outro caminho senão nunca mais chegamos a casa. - Decidiu Estefânia, saindo da fila onde estavam e avançando por outro lado. De repente, apareceu outro carro a alta velocidade. Clara, que ia sentada no banco do pendura, resolveu ligar o rádio, sempre se distraiam enquanto não chegavam a casa. Quando levantou a cabeça, olhou pelo espelho retrovisor e viu outro carro a aproximar-se. Tentou avisar a mãe, mas já não foi a tempo.

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

Bjs 

Joana

 

 

 

 

 

 


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