sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 1- Melodias do Passado

 Olá 

Trago-vos o primeiro capitulo da primeira parte da história. 

Espero que gostem. 

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Carolina e Heitor

I

Carolina Heart era uma mulher alegre, simples. Gostava de rir e de se divertir. Andava quase sempre rodeada de gente. Sempre foi assim desde pequena. Sem querer, acabava por ser o centro das atenções. Talvez por ser filha única ou pelo lado sombrio que acarretava.  

Sofria de uma doença rara que lhe afetava a pele, mas que também outros órgãos. Fora diagnosticada pouco tempo depois de nascer. A pele demasiado pálida fez os médicos desconfiar. Síndrome Albino chamaram-lhe na altura. Uma espécie de albinismo, mas mais agressivo.

Para além das habituais recomendações de apanhar pouco sol, também a alimentação tinha de ser controlada. Nada de coisas com muita gordura ou processados. A principal consequência de apanhar demasiado sol era a vermelhidão na pele e depois as faltas de ar. Sempre que tinha uma crise, era levada para o quarto e de lá não saía até que estivesse estabilizada.

Por isso criava uma espécie de bolha á sua volta e bastantes restrições, que mesmo já estando habituada, não deixava de contrariar. Por causa dessas contrariedades, muitas foram as vezes em que uma estadia no quarto não era suficiente e teve mesmo de ir ao hospital. Sempre que regressava, as restrições aumentavam, por isso passou a estar mais tempo em casa.

 Durante esse tempo, desenvolveu várias aptidões artísticas, sendo a música a que se destacou. Começou a aprender piano aos 3 anos e aos 5 já atuava nas festas de família. Com 8 anos, começou a tocar nos grandes palcos um pouco por todo o mundo levada por um agente e pela mãe.

 

Foi numa dessas viagens que conheceu Heitor, aquele que viria a tornar-se no grande amor da sua vida. Um rapaz franzino, mas com um sorriso cativante.

 

Heitor Smith era um homem com um ar austero, sisudo até. Nunca estava contente ou confortável em sítio nenhum. Isto até o conhecerem e ele ficar mais á vontade. Passada essa barreira, veriam que se tratava de alguém amável e afetuoso e até um pouco tímido.

Como todos os membros de uma família abastada e por ser o filho varão, teve uma infância passada a ser preparado para herdar e dirigir as empresas da família. Estudou nos mais prestigiados colégios e universidades do mundo, sempre rodeado de gente importante e influente. Apesar de gostar dos estudos e das conferências sobre Economia e Gestão, por vezes sentia que aquilo era entediante. Quantas vezes se perdera em devaneios sobre como subir a uma árvore para ter a melhor vista sobre o campo dourado de cereais da quinta dos avós ao fim da tarde ou qual seria a melhor colina para lançar o papagaio de papel. Afinal, ainda era uma criança quando começou a frequentar os mesmos lugares dos adultos. Por mais que se esforçasse, ainda havia coisas que não entendia.

Por isso, de vez em quando, dava uma escapadela e dedicava-se a outra das suas paixões: as artes. A família não se opunha, pois, viam uma oportunidade para conviver com pessoas da sua idade e, quem sabe, encontrar alguém que assegurasse a descendência.

Foi num desses salões que, com 8 anos, conheceu Carolina.

Tinha ido a uma das suas apresentações e ficou fascinado. Já tinha ouvido falar de uma pianista da sua idade, mas pensava que era exagero até a ouvir. Tocava de uma forma tão alegre que levava todos com ela. A partir daí, quis conhecê-la melhor.  

Voltaram a ver-se numa festa passado puco tempo em Paris. Rapidamente, nasceu entre eles, uma amizade profunda apesar de, ao início, ela o estranhar. Por causa da sua aparência séria. Mas com a sua música, conseguiu pô-lo a sorrir.  Com o passar do tempo, essa amizade transformou-se em algo mais. Já não conseguiam estar muito tempo longe um do outro.  As famílias aproveitaram-se da situação para os comprometer como um bom negócio. A rapariga era doente, mas haviam de arranjar uma solução quanto á descendência. Eles não se importavam já que o sentiam era genuíno.  

Apesar do compromisso, tiveram sempre liberdade para conhecer outras pessoas e lugares que frequentavam. Diziam que, já que estavam comprometidos, não havia nada que os impedisse de terem outras relações pois a sua vida já estava decidida.

As formações no estrangeiro levaram o casal a separar-se durante bastante tempo, o que proporcionava grande parte das aventuras amorosas próprias da adolescência. Principalmente da parte de Carolina. Heitor conservou, ainda, que tenha tido as suas conquistas, uma certa fidelidade para com o compromisso.  Apenas no início da idade adulta se deu o reencontro.

Foi novamente numa festa a seguir a um espetáculo e novamente em Paris. Aquela cidade parecia que tinha poder sobre eles, como se os puxasse pelos fios do destino, não fosse conhecida como a cidade do amor e dos apaixonados.

Ele foi ouvi-la num grande teatro. Sentou-se num camarote mui to próximo do palco. Queria ter a certeza que a via por inteiro e não através de um caminho de cabeças ou de um fosso de orquestra.  Assim que entrou no palco, reconheceu-a logo. Trazia um vestido de cetim preto e o cabelo apanhado com uma flor cor-de-rosa. Sempre gostou de dar um toque de cor aos seus visuais. Os mesmos olhos, a mesmas mãos, a mesma figura esbelta e delicada que se lembrava da infância, mas agora mais mulher e segura de si. Começou a tocar e toda a sala se calou. A melodia ecoava como um cântico celestial à medida que as teclas iam sendo pressionadas. Heitor estava encantado. Já não se lembrava de como a música podia embalar o público.

Quando terminou, todos aplaudiram de pé a artista que agradeceu e saiu do palco tão graciosamente como entrara. Dali, seguiu de limusina até ao local da festa. O Palácio do Embaixador de Lime em Paris.

Entrou no salão nobre e serviu-se de uma bebida de um conjunto que um empregado lhe mostrou. Foi para a varanda tomar o ar fresco da noite. Ainda com a cabeça no recital, bebeu um gole e deixou-se ficar perdida nos seus pensamentos. Uma mão no ombro veio trazê-la para a realidade. Primeiro, assustou-se depois olhou para o lado e lá estava o rapaz da primeira fila a sorrir-lhe. Reconhecera-o, apesar dos anos e da distância.

-Não mudaste nada. - Disse-lhe, sorrindo. Ele acrescentou: - E tu continuas bela como sempre. -

Ela lançou-lhe um olhar sedutor. O mesmo olhar que o conquistara há muitos anos. Carolina pousou o copo no parapeito e estendeu-lhe a mão.

-Concedes-me esta dança? - Heitor surpreendeu-se. Normalmente, era o homem que fazia essa pergunta. Assentiu e pegou-lhe na mão. Entraram no salão mesmo no início da valsa.

Ninguém conseguia tirar os olhos do par que dançava no centro do salão. Os movimentos graciosos faziam com que parecesse que estavam a dançar sobre as nuvens. O modo de dançar de Carolina não mudara. Alegre, mas ritmado como se deslizasse. Heitor apenas acompanhava.

A valsa terminou e voltaram para a varanda, cada um com um copo na mão enquanto apreciavam o ar fresco da noite.

-Foi divertido. - Disse Carolina depois de um gole.

-Concordo. Temos de repetir. - Respondeu Heitor.

Ela sorriu. Chegou quase a soltar uma gargalhada.

-Não estava a falar da dança. - Aproximou-se e segredou-lhe: - Queres ir ao meu hotel? -

Ele surpreendeu-se.

-Que foi? - Ripostou ela- Não te agrada?-

Ele hesitou antes de responder:

-Bom…acabámos de nos reencontrar e já queres levar-me para a cama?-

Voltou a responder-lhe ao ouvido: «Esta festa está a ficar aborrecida, preciso de algo mais…entusiasmante» Beijou-o fugazmente. Largaram-se e ele respondeu num misto de surpresa e atrevimento:

-Ok, convenceste-me.-

O hotel onde Carolina estava era o melhor da cidade. Ficava sempre lá quando vinha a Paris. O luxo e a sofisticação pairavam em todos os recantos. Depois de saírem da limusine dela, passaram pela recepção como recém-casados e foram de elevador até à suite mais cara que ficava no último andar.

Entraram abraçados e aos beijos. Estavam felizes, apaixonados. Aquele reencontro fizera despertar sentimentos que estavam adormecidos há muito tempo e que já não se lembravam. Mandaram vir champanhe e, entre copos e roupa tirada, começou o jogo de sedução. Primeiro o olhar, depois o convite que terminou noutro beijo fugaz no sofá comprido da sala. A dança continuou até à cama onde a pouca roupa que existia foi separada entre carícias e beijos. Deixaram-se cair e o amor tomou conta do resto.

-Estás arrependido? - Perguntou Carolina.

Heitor olhou-a com ternura. Beijaram-se novamente. Ele segredou-lhe: «Nunca me arrependo das coisas boas da vida»

Riram-se. Ela encostou a cabeça ao seu peito quente, ainda envolta no sonho. Durante anos, tivera de reprimir os sentimentos para não sofrer ainda mais com a separação mas naquele momento era diferente. Estavam novamente juntos e mal podia acreditar no que acabara de acontecer.

Deixou-se ficar mais um pouco aninhada até que resolveu levantar-se e ir á casa de banho. Faltava pouco para amanhecer e não queria que nada daquilo terminasse. Sorriu.

Entrou na banheira e a água quente acariciou-lhe a pele. Passado pouco tempo, ele apareceu e o amor continuou. Saíram da casa de banho abraçados e em roupão. Carolina abriu as portas da varanda para deixar entrar os primeiros raios de sol e o ar fresco da manhã. Na mesa, já estava alguma fruta, bolos, doces e bebidas para o casal. Cortesia do hotel. Sentaram-se e Carolina tirou um cigarro de chocolate de entre os doces. Mordicou-o enquanto Heitor servia o café. Apoiou o braço no parapeito de ferro forjado e olhou para a panorâmica da cidade até à Torre Eiffel.

-Sabes, um dia tive um sonho. - Começou ela. A pele branca parecia brilhar à luz do sol mas não se afectou pois tomava uns comprimidos que lhe faziam aumentar a melanina e isso protegia-a. Heitor sabia da sua condição há muito tempo quando, numa visita a sua casa, ela teve uma crise depois de ficar muito tempo ao sol. Desde então, sempre tentara protegê-la e ela sentia-se lisonjeada por isso. Mas desde a separação que ela passou a tomar os comprimidos que o médico lhe receitara pouco antes de começar as digressões.

-Sonhei que tínhamos uma filha e que o seu nome era Voxy. Não é de doidos? Quem é que chama uma filha com este nome? -

Heitor surpreendeu-se, mas sorriu.

-Realmente, que sonho mais invulgar! -

Ela aproximou-se. Olhou-o com doçura e beijaram-se. Acabou por dizer:

- Tens razão, foi só um sonho. Não devia levar a sério. -

Sorriram.

Durante a estadia em Paris, Carolina e Heitor passaram quase todo o tempo juntos. Sempre depois de um ensaio ou de um recital e de um encontro de negócio, ele aparecia com um ramo de flores no seu camarim e iam passear complementando sempre com um jantar ou almoço que culminava no hotel de Carolina ou no dele.

Um dia, depois de um jantar, Heitor levou-a a passear e pararam numa joalharia onde comprou dois anéis. Foi na ponte dos namorados que as trocaram. Emocionada, abraçou-o. Combinaram casar depois da próxima tournée dela e quando ele voltasse da sua viagem de negócios.

-Será aqui novamente. - Disse beijando-o apaixonadamente.

Passados alguns meses, reencontraram-se em Paris e, tal como combinaram, casaram. A festa foi inesquecível, cheia de convidados num magnífico salão de um luxuoso hotel. Todos estavam felizes com aquela união e desejaram o melhor para os noivos.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

 

 


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