Olá
Trago-vos o primeiro capitulo da primeira parte da história.
Espero que gostem.
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Carolina
e Heitor
I
Carolina
Heart era uma mulher alegre, simples. Gostava de rir e de se divertir. Andava
quase sempre rodeada de gente. Sempre foi assim desde pequena. Sem querer,
acabava por ser o centro das atenções. Talvez por ser filha única ou pelo lado
sombrio que acarretava.
Sofria
de uma doença rara que lhe afetava a pele, mas que também outros órgãos. Fora
diagnosticada pouco tempo depois de nascer. A pele demasiado pálida fez os
médicos desconfiar. Síndrome Albino chamaram-lhe na altura. Uma espécie de
albinismo, mas mais agressivo.
Para
além das habituais recomendações de apanhar pouco sol, também a alimentação
tinha de ser controlada. Nada de coisas com muita gordura ou processados. A
principal consequência de apanhar demasiado sol era a vermelhidão na pele e
depois as faltas de ar. Sempre que tinha uma crise, era levada para o quarto e
de lá não saía até que estivesse estabilizada.
Por
isso criava uma espécie de bolha á sua volta e bastantes restrições, que mesmo
já estando habituada, não deixava de contrariar. Por causa dessas
contrariedades, muitas foram as vezes em que uma estadia no quarto não era
suficiente e teve mesmo de ir ao hospital. Sempre que regressava, as restrições
aumentavam, por isso passou a estar mais tempo em casa.
Durante esse tempo, desenvolveu várias
aptidões artísticas, sendo a música a que se destacou. Começou a aprender piano
aos 3 anos e aos 5 já atuava nas festas de família. Com 8 anos, começou a tocar
nos grandes palcos um pouco por todo o mundo levada por um agente e pela mãe.
Foi
numa dessas viagens que conheceu Heitor, aquele que viria a tornar-se no grande
amor da sua vida. Um rapaz franzino, mas com um sorriso cativante.
Heitor
Smith era um homem com um ar austero, sisudo até. Nunca estava contente ou
confortável em sítio nenhum. Isto até o conhecerem e ele ficar mais á vontade.
Passada essa barreira, veriam que se tratava de alguém amável e afetuoso e até
um pouco tímido.
Como
todos os membros de uma família abastada e por ser o filho varão, teve uma
infância passada a ser preparado para herdar e dirigir as empresas da família. Estudou
nos mais prestigiados colégios e universidades do mundo, sempre rodeado de
gente importante e influente. Apesar de gostar dos estudos e das conferências
sobre Economia e Gestão, por vezes sentia que aquilo era entediante. Quantas
vezes se perdera em devaneios sobre como subir a uma árvore para ter a melhor
vista sobre o campo dourado de cereais da quinta dos avós ao fim da tarde ou
qual seria a melhor colina para lançar o papagaio de papel. Afinal, ainda era
uma criança quando começou a frequentar os mesmos lugares dos adultos. Por mais
que se esforçasse, ainda havia coisas que não entendia.
Por
isso, de vez em quando, dava uma escapadela e dedicava-se a outra das suas
paixões: as artes. A família não se opunha, pois, viam uma oportunidade para
conviver com pessoas da sua idade e, quem sabe, encontrar alguém que
assegurasse a descendência.
Foi
num desses salões que, com 8 anos, conheceu Carolina.
Tinha
ido a uma das suas apresentações e ficou fascinado. Já tinha ouvido falar de
uma pianista da sua idade, mas pensava que era exagero até a ouvir. Tocava de
uma forma tão alegre que levava todos com ela. A partir daí, quis conhecê-la
melhor.
Voltaram
a ver-se numa festa passado puco tempo em Paris. Rapidamente, nasceu entre
eles, uma amizade profunda apesar de, ao início, ela o estranhar. Por causa da
sua aparência séria. Mas com a sua música, conseguiu pô-lo a sorrir. Com o passar do tempo, essa amizade
transformou-se em algo mais. Já não conseguiam estar muito tempo longe um do
outro. As famílias aproveitaram-se da
situação para os comprometer como um bom negócio. A rapariga era doente, mas
haviam de arranjar uma solução quanto á descendência. Eles não se importavam já
que o sentiam era genuíno.
Apesar
do compromisso, tiveram sempre liberdade para conhecer outras pessoas e lugares
que frequentavam. Diziam que, já que estavam comprometidos, não havia nada que
os impedisse de terem outras relações pois a sua vida já estava decidida.
As
formações no estrangeiro levaram o casal a separar-se durante bastante tempo, o
que proporcionava grande parte das aventuras amorosas próprias da adolescência.
Principalmente da parte de Carolina. Heitor conservou, ainda, que tenha tido as
suas conquistas, uma certa fidelidade para com o compromisso. Apenas no início da idade adulta se deu o
reencontro.
Foi
novamente numa festa a seguir a um espetáculo e novamente em Paris. Aquela
cidade parecia que tinha poder sobre eles, como se os puxasse pelos fios do
destino, não fosse conhecida como a cidade do amor e dos apaixonados.
Ele
foi ouvi-la num grande teatro. Sentou-se num camarote mui to próximo do palco.
Queria ter a certeza que a via por inteiro e não através de um caminho de
cabeças ou de um fosso de orquestra. Assim que entrou no palco, reconheceu-a logo.
Trazia um vestido de cetim preto e o cabelo apanhado com uma flor cor-de-rosa.
Sempre gostou de dar um toque de cor aos seus visuais. Os mesmos olhos, a
mesmas mãos, a mesma figura esbelta e delicada que se lembrava da infância, mas
agora mais mulher e segura de si. Começou a tocar e toda a sala se calou. A
melodia ecoava como um cântico celestial à medida que as teclas iam sendo
pressionadas. Heitor estava encantado. Já não se lembrava de como a música
podia embalar o público.
Quando
terminou, todos aplaudiram de pé a artista que agradeceu e saiu do palco tão
graciosamente como entrara. Dali, seguiu de limusina até ao local da festa. O
Palácio do Embaixador de Lime em Paris.
Entrou
no salão nobre e serviu-se de uma bebida de um conjunto que um empregado lhe
mostrou. Foi para a varanda tomar o ar fresco da noite. Ainda com a cabeça no
recital, bebeu um gole e deixou-se ficar perdida nos seus pensamentos. Uma mão
no ombro veio trazê-la para a realidade. Primeiro, assustou-se depois olhou
para o lado e lá estava o rapaz da primeira fila a sorrir-lhe. Reconhecera-o,
apesar dos anos e da distância.
-Não
mudaste nada. - Disse-lhe, sorrindo. Ele acrescentou: - E tu continuas bela
como sempre. -
Ela
lançou-lhe um olhar sedutor. O mesmo olhar que o conquistara há muitos anos.
Carolina pousou o copo no parapeito e estendeu-lhe a mão.
-Concedes-me
esta dança? - Heitor surpreendeu-se. Normalmente, era o homem que fazia essa
pergunta. Assentiu e pegou-lhe na mão. Entraram no salão mesmo no início da
valsa.
Ninguém
conseguia tirar os olhos do par que dançava no centro do salão. Os movimentos
graciosos faziam com que parecesse que estavam a dançar sobre as nuvens. O modo
de dançar de Carolina não mudara. Alegre, mas ritmado como se deslizasse.
Heitor apenas acompanhava.
A
valsa terminou e voltaram para a varanda, cada um com um copo na mão enquanto
apreciavam o ar fresco da noite.
-Foi
divertido. - Disse Carolina depois de um gole.
-Concordo.
Temos de repetir. - Respondeu Heitor.
Ela
sorriu. Chegou quase a soltar uma gargalhada.
-Não
estava a falar da dança. - Aproximou-se e segredou-lhe: - Queres ir ao meu hotel?
-
Ele
surpreendeu-se.
-Que
foi? - Ripostou ela- Não te agrada?-
Ele
hesitou antes de responder:
-Bom…acabámos
de nos reencontrar e já queres levar-me para a cama?-
Voltou
a responder-lhe ao ouvido: «Esta festa está a ficar aborrecida, preciso de algo
mais…entusiasmante» Beijou-o fugazmente. Largaram-se e ele respondeu num misto
de surpresa e atrevimento:
-Ok,
convenceste-me.-
O
hotel onde Carolina estava era o melhor da cidade. Ficava sempre lá quando
vinha a Paris. O luxo e a sofisticação pairavam em todos os recantos. Depois de
saírem da limusine dela, passaram pela recepção como recém-casados e foram de
elevador até à suite mais cara que
ficava no último andar.
Entraram
abraçados e aos beijos. Estavam felizes, apaixonados. Aquele reencontro fizera
despertar sentimentos que estavam adormecidos há muito tempo e que já não se
lembravam. Mandaram vir champanhe e, entre copos e roupa tirada, começou o jogo
de sedução. Primeiro o olhar, depois o convite que terminou noutro beijo fugaz
no sofá comprido da sala. A dança continuou até à cama onde a pouca roupa que
existia foi separada entre carícias e beijos. Deixaram-se cair e o amor tomou
conta do resto.
-Estás
arrependido? - Perguntou Carolina.
Heitor
olhou-a com ternura. Beijaram-se novamente. Ele segredou-lhe: «Nunca me
arrependo das coisas boas da vida»
Riram-se.
Ela encostou a cabeça ao seu peito quente, ainda envolta no sonho. Durante
anos, tivera de reprimir os sentimentos para não sofrer ainda mais com a
separação mas naquele momento era diferente. Estavam novamente juntos e mal
podia acreditar no que acabara de acontecer.
Deixou-se
ficar mais um pouco aninhada até que resolveu levantar-se e ir á casa de banho.
Faltava pouco para amanhecer e não queria que nada daquilo terminasse. Sorriu.
Entrou
na banheira e a água quente acariciou-lhe a pele. Passado pouco tempo, ele
apareceu e o amor continuou. Saíram da casa de banho abraçados e em roupão.
Carolina abriu as portas da varanda para deixar entrar os primeiros raios de
sol e o ar fresco da manhã. Na mesa, já estava alguma fruta, bolos, doces e
bebidas para o casal. Cortesia do hotel. Sentaram-se e Carolina tirou um
cigarro de chocolate de entre os doces. Mordicou-o enquanto Heitor servia o
café. Apoiou o braço no parapeito de ferro forjado e olhou para a panorâmica da
cidade até à Torre Eiffel.
-Sabes,
um dia tive um sonho. - Começou ela. A pele branca parecia brilhar à luz do sol
mas não se afectou pois tomava uns comprimidos que lhe faziam aumentar a
melanina e isso protegia-a. Heitor sabia da sua condição há muito tempo quando,
numa visita a sua casa, ela teve uma crise depois de ficar muito tempo ao sol.
Desde então, sempre tentara protegê-la e ela sentia-se lisonjeada por isso. Mas
desde a separação que ela passou a tomar os comprimidos que o médico lhe
receitara pouco antes de começar as digressões.
-Sonhei
que tínhamos uma filha e que o seu nome era Voxy. Não é de doidos? Quem é que
chama uma filha com este nome? -
Heitor
surpreendeu-se, mas sorriu.
-Realmente,
que sonho mais invulgar! -
Ela
aproximou-se. Olhou-o com doçura e beijaram-se. Acabou por dizer:
-
Tens razão, foi só um sonho. Não devia levar a sério. -
Sorriram.
Durante
a estadia em Paris, Carolina e Heitor passaram quase todo o tempo juntos.
Sempre depois de um ensaio ou de um recital e de um encontro de negócio, ele
aparecia com um ramo de flores no seu camarim e iam passear complementando
sempre com um jantar ou almoço que culminava no hotel de Carolina ou no dele.
Um
dia, depois de um jantar, Heitor levou-a a passear e pararam numa joalharia
onde comprou dois anéis. Foi na ponte dos namorados que as trocaram.
Emocionada, abraçou-o. Combinaram casar depois da próxima tournée dela e quando
ele voltasse da sua viagem de negócios.
-Será
aqui novamente. - Disse beijando-o apaixonadamente.
…
Passados
alguns meses, reencontraram-se em Paris e, tal como combinaram, casaram. A
festa foi inesquecível, cheia de convidados num magnífico salão de um luxuoso
hotel. Todos estavam felizes com aquela união e desejaram o melhor para os
noivos.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
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