sexta-feira, 28 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 4

 Olá 

Como sempre, fica o capítulo da semana. 

Espero que gostem. 

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IV

Estefânia abriu os olhos devagar. Um fio de luz vindo de uma nesga da janela iluminava parte da cama. Espreguiçou-se. Estendeu o braço á procura de Carlos, mas não o encontrou. Olhou para o lado. Já não estava na cama.

Daí a pouco, ouviu um barulho vindo da casa de banho, depois Carlos entrou no quarto. Ainda tinha o cabelo molhado. Aproximou-se da cama e beijou a mulher que respirou de alívio disfarçadamente.

- O que fazemos hoje? – Perguntou, num tom desafiador.

Estefânia corou ligeiramente. Levantou-se e foi á casa de banho. No caminho, respondeu:

- Não sei, ainda vou pensar. –

Voxy acordou com os primeiros raios de sol. Sentia a cabeça pesada. Não devia ter apanhado frio na varanda. Era quase Outono, devia ter mais cuidado à noite. Suspirou. O dia da visita à avó estava próximo e ela sentia-se ansiosa. Levantou-se e abriu as cortinas, deixando entrar a luz que lhe bateu na cara, encandeando-a.

Nesse momento, bateram à porta. Ainda a habituar-se à claridade, foi abrir. Kari entrou quase de repente, deixando-a atordoada.

- Bom dia. O que te traz aqui tão cedo? – Perguntou.

Kari respondeu tranquilamente, esboçando um leve sorriso:

- Bom dia. Queria avisar-te que a visita à avó foi antecipada para esta tarde. Ela acabou de telefonar. –

Voxy arregalou os olhos. Contava que fosse daí a alguns dias para lhe dar tempo de preparação. Disfarçando a surpresa e um certo desconforto, respondeu:

- Obrigada. Podes dizer à Bertha que desço já. –

Desta vez, o casal resolveu passear pelo centro comercial da cidade. Estefânia aproveitara para fazer umas compras. Uma mulher precisa sempre de coisas. Depois, foram ao cinema. Não se lembravam da última que viram um filme numa sala escura. Talvez ainda andassem na faculdade, no início do namoro. Durante a sessão, que era de uma comédia romântica como Estefânia gosta, iam devorando as pipocas do balde de papel e, de vez em quando, beijavam-se. Saíram do cinema de mãos dadas e aos risinhos.

Depois do almoço, Voxy, Kari e Bertha foram a casa de Odete, a avó das raparigas. Vivia numa mansão nos arredores. Era a casa onde a mãe crescera. Imponente, com três pisos, um enorme jardim e um elegante salão onde a mãe se estreou como pianista nas festas de família das quais ouvira falar vagamente. Momentos em que a família se reunia só para a ouvir.

Não era uma visita formal, mas elas fizeram questão de ir o mais apresentável possível.

O carro parou junto á entrada. A secretária pessoal da avó, Marília, veio recebê-las. Uma mulher baixa, de cabelos claros e olhos da mesma cor. Vestia um fato cinzento que lhe dava um ar sombrio e austero.

Bertha foi para junto dos empregados. Viria ter com elas no final. Seguiram por um corredor que as levou a uma saleta com uma varanda. Odete estava sentada a uma mesa de ferro com uma chávena de chá. Quando elas entraram, veio logo cumprimentá-las e dispensou Marília, que foi buscar mais chávenas. Sorriu e abraçou as netas que retribuíram, embora Voxy estivesse contrariada.

- Sejam bem-vindas, minhas queridas. – Cumprimentou, entusiasmada. – Há muito tempo que queria estar convosco. – Convidou-as para a varanda e para o chá. Sentaram-se. A luz da tarde estava especialmente forte para Voxy, mas ela trouxera um chapéu de abas largas, além de ter tomado os comprimidos de reforço para o caso de algo correr mal.

O ambiente era constrangedor. Kari não conhecia a avó e Voxy apenas tinha memórias vagas. Soube pela mãe que ali tinha sido a sua festa de boas-vindas quando nasceu e lembrava-se vagamente de a ter visto no funeral dos pais, mas estava tão mergulhada na dor que não prestou atenção.

Olhou em volta, tirando vantagem das abas do chapéu. Nenhuma daquelas coisas lhe trazia qualquer recordação. Os sofás, a um canto, o tapete florido, as estantes com livros e bibelôs. Até a avó, uma mulher de estatura média, cabelo grisalho e olhos claros com roupas simples, mas elegantes. Pegou na chávena de bebericou um pouco. O chá era amargo, mas não lhe soube mal. A sua vida estava mais.

 

Kari sorriu timidamente. Parecia uma boneca a tentar parecer bem. No fundo, alguém que não era. Nunca aprendera a arte da aparência, o que não era mau de todo. O seu desconforto era evidente e queria fazer algo para quebrar aquele silêncio pesado, só não sabia o quê. Perguntou, na tentativa desesperada de fazer conversa:

- Então, porque nos convidou? –

Mais direta não podia ser. Odete surpreendeu-se, mas disfarçou com classe e respondeu com uma voz fina, mas determinada:

-  Bom, dadas as últimas circunstâncias, achei que seria bom passar algum tempo com as minhas netas. Afinal, só nos temos umas às outras. –

Kari pareceu esclarecida, mas Voxy não. Por aquilo que a mãe lhe contara, a avó gostava de manter as aparências em relação ao ambiente familiar. Quanto mais não fosse para pintar um quadro harmonioso, no qual todos tinham de sorrir.

Não olhou para a avó. Concentrou-se na chávena de chá. Sorveu um gole ruidoso para chamar a atenção. Geralmente, não o fazia, mas naquela situação sentiu necessidade de intervir. Quebrou o silêncio e olhou-a diretamente, depois de tirar o chapéu.

- A minha mãe tinha razão quando cortou relações. Para si, o importante é a imagem que passa para o exterior, aquela que vem nas capas das revistas. Sempre sorridente. Por causa dessa imagem, é que nunca me foi visitar ao hospital. Claro que não! Era público! O que iriam os outros pensar se a vissem entrar num sítio onde todas são tratados de forma igual? – Continuou: - E nem a nossa casa se dignou a ir! Nem se preocupou em saber notícias quando estivemos na Suíça ou sequer apareceu para dar apoio! –

 

Odete e Kari estavam estupefatas. Voxy tinha ido longe demais. Kari tentou apaziguar os ânimos, enquanto a irmã se acalmava e punha o chapéu, pois já estava com tonturas por causa do sol.

- Se calhar, é melhor mudarmos de assunto, não? – Disse, hesitante.

Como não obteve resposta, resignou-se.

Odete levantou-se e saiu da sala, convidando-as. Queria redimir-se de alguma forma, apesar de a neta ter razão. Pusera os seus caprichos á frente da família, tal como a mãe de Heitor, mas, ao contrário dela, Odete achava que estava na hora de mudar.

- Venham, quero mostrar-vos uma coisa. – Pediu.

Seguiram-na por um corredor que ia dar a uma sala um pouco maior. Entraram. Para além dos sofás, estava um piano de cauda. Era ali que a mãe costumava ensaiar. Aproximaram-se. Voxy disfarçou o nervosismo. Odete convidou-a a tocar. Esboçou um sorriso forçado e aproximou-se do banco. Preparou-se para tocar, destapando as teclas com gestos automáticos, como se alguém a estivesse a segurar por finos fios como uma marioneta. Assim que pousou as mãos, estas começaram a tremer. Disfarçou, tocando os primeiros acordes, ainda que quase imperceptíveis. Uma angústia e um tremor cada vez mais intensos apoderaram-se dela. As lágrimas começaram a cair-lhe pela cara. Por mais que se quisesse controlar não conseguia. Desesperada, parou. Levantou-se e abandonou a sala. Kari foi atrás dela, deixando Odete muito atrapalhada e em choque. Ouvira dizer que a neta estava mal, mas nunca pensou que fosse tão grave.

Voxy percorreu a casa em passo apressado até chegar ao carro. Pousou o chapéu no banco e não quis saber de mais nada. Bertha estava lá dentro à espera delas e ficou surpreendida quando a viu. Kari entrou logo de seguida.

Odete apareceu, entretanto, desculpando-se, porque não sabia do estado de Voxy, mas nenhuma a quis ouvir. O carro arrancou pouco depois.

 

O casal foi para o carro que estava estacionado no parque do centro comercial. A fila começava a formar-se logo após a saída.

- Não podemos ir por outro lado? – Perguntou Estefânia.

- Não posso fazer nada, isto está muito cheio. – Respondeu Carlos.

Daí a pouco, conseguiram avançar, mas foram dar a uma rua igualmente cheia, onde, entre eles, estava o carro de Voxy, que, por pouco não se cruzou com o deles.

Os carros da frente começaram a andar nesse momento e cada uma seguiu o seu caminho.

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 


 

 

 


sexta-feira, 21 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 3

 Olá 

Fica o capitulo da semana. 

Espero que gostem.

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III

Percorreu o pequeno corredor que separava a zona das escadas do resto da casa. Nunca se sentira tão determinada. Caminhava em passos apressados, mas firmes para não perder o foco.

Atravessou o chão de tábuas lisas e depois a tijoleira fria. Entrou na sala de estar e foi ao encontro de Kari. Aproximou-se, timidamente. Sentou-se perto dela e disse, de repente, fazendo-a assustar-se:

- Está bem, ganhaste. Vou acompanhar-te a casa da avó, mas que fique claro que só o faço por tua causa. –

Kari sorriu. Perguntou:

- Tens a certeza? Tu própria disseste que não querias reatar a relação com o resto da família. –

Voxy olhou de relance para o ecrã da televisão e depois para Kari.

- Sim, tenho. Por ti, acho que vale a pena. –

Kari continuava admirada. Gostava da atitude decidida da irmã.

- O jantar estava muito bom! – Elogiou Estefânia.

Carlos sorriu. Estava satisfeito com a sua conquista. No fim da refeição, também se dispôs a arrumar a cozinha. Estefânia e Gonçalo estavam estupefactos. Retiraram-se para a sala.

Antes de ir dormir, Estefânia foi ao quarto de Clara, mas, ao contrário das outras vezes, hesitou bastante antes de abrir a porta. Como se alguém na sua mente lhe dissesse para não o fazer. Ainda assim, rodou a chave e este abriu com um clique.

Acendeu a luz do teto e foi ao armário. Abriu-o. As roupas, os sapatos e os acessórios estavam todos arrumados tal como a filha os deixara. Tirou uma camisola de gola alta bordeaux que usara na última festa de Natal. Foi há 5 anos, mas parecia que tinha sido há mais tempo. Ainda podia sentir o odor da filha. Abraçou-a como se a abraçasse. De repente, bateram á porta. Arrumou a camisola e fechou o armário. Seguiu o marido até ao quarto.

Á noite, Voxy subiu para o quarto. Quando Bertha chamou para jantar, apenas Kari apareceu. A irmã estava cansada e comia mais tarde. Depois de jantar, subiu para ver como estava. Foi encontrá-la vestida para dormir, sentada no banco ao pé da janela a olhar para o jardim. Tinha a rosa na mão.

- Lembras-te? – Perguntou Voxy de repente. – A mãe costumava ir para o jardim quando se sentia em baixo. Dizia que o luar e a água da piscina a acalmavam. –

KAri não tinha aquela memória presente, mas supôs que fosse verdade.

 - Sim, claro! – Respondeu quase forçadamente. – Voltava sempre mais serena e a sua música saía melhor. –

Voxy levantou-se. Abriu a janela. O ar fresco da noite entrou pelo quarto. Saiu para a varanda. Sentiu o chão frio de azulejo nos pés descalços. Pôs as mãos no parapeito de ferro forjado. Suspirou. A memória era falsa. A mãe nunca fez aquilo, depois de ela nascer. Só se lembrava da uma história que ela contava de quando estava grávida, mas nunca achou que fosse verdade.

- Tinha apenas 3 anos, mas já era um génio da música. Todos me diziam que devia ter herdado o talento da mãe, apesar de nunca acreditar muito nisso. –

Prosseguiu:

- Durante bastante tempo, comparavam-me constantemente com ela. Depois de cada espetáculo, havia sempre quem comentasse: «Devias tocar mais como a tua mãe» ou «Tocas bem, mas falta-te a alegria que ela transmite» -

Voltou para junto de Kari depois de fechar a janela.

- Depois do acidente, todas aquelas vozes se calaram. Já não havia ninguém para comparar. A pressão estava toda do meu lado. – As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara – Quando regressámos a casa, só queria desparecer. – Limpou as lágrimas e prosseguiu:

- E agora, este convite inesperado de alguém que nos virou as costas quando mais precisávamos, fez-me voltar a sentir essa pressão. –

Recomeçou a chorar.

Kari também tinha lágrimas nos olhos. Abraçaram-se. Vai correr tudo bem. Murmurou-lhe. 

 

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.


sexta-feira, 14 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 2

 Olá 

Fica o capítulo desta semana. 

Espero que gostem. 

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II

Kari entrou no quarto e fechou a porta. Sentia-se frustrada, desanimada, humilhada, uma sombra. Desde o acidente que Voxy não olhava para ela da mesma maneira. Já não a achava a rapariga estranha, mas com piada que viera do orfanato naquela tarde de Primavera. A primeira vez que se viram eram apenas crianças à procura de uma sombra no jardim para brincar ou das primeiras notas ao piano.

Sabia que tinha sido insistente nalguns momentos e que isso a poderia ter magoado, mas não fora com má intensão! Até teria sido melhor se tivessem discutido nessa altura. As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara. Procurou um lenço numa das gavetas da mesa de cabeceira e assuou-se. Só queria a irmã de volta. Aquela rapariga sorridente e amável.

Os seus pensamentos foram interrompidos por um leve bater na porta. Limpou as lágrimas e foi ver quem era. Do outro lado, para sua surpresa, estava Voxy. Kari convidou-a a entrar. Tinha uma expressão de culpa. Abraçou-a. Kari retribuiu um pouco confusa já que a irmã se recusava a ser tocada e a tocar.

-Então, como é que ela estava? – Perguntou Carlos. Estefânia estava sentada na cama já vestida para dormir. Respondeu num fio de voz:

- Alegre como sempre, sabes como é. –

Carlos sorriu. Foi até junto da mulher e abraçou-a. Há muito tempo que não tinham momentos íntimos. O acidente apagara essa intensidade, anulara-lhes o desejo. Só viraram dois corpos vazios, mas naquele momento, voltaram a sentir-se. Embalados pela atmosfera suave, o desejo tomou conta deles. Entre beijos e carícias silenciosas, mas pungentes, o amor refloresceu.

Largaram-se. Entraram no quarto e sentaram-se na cama. Kari ainda tinha os olhos inchados e húmidos do choro. Voxy pegou-lhe nas mãos por instinto, fez um esforço para não as largar, sentir outro toque ainda lhe fazia confusão.

Olhou-a no fundo dos olhos como se quisesse ler-lhe a alma. Até aquele momento, tinha sido sempre Kari a consolá-la. Era raro acontecer o contrário. Principalmente depois do acidente. Esta inversão de papéis era estranha, mas ao mesmo tempo, boa. Kari recomeçou a chorar e Voxy voltou a abraçá-la. Apenas repetia mecanicamente os gestos que irmã fazia. Podia sentir o seu corpo contra o dela. Não que alguma vez tivesse sido mais forte, mas era impressionante como tinha emagrecido! Estava mais ossuda e franzina. Mais parecido com o seu.

Voltaram a olhar-se. Voxy engoliu em seco, sem saber o que fazer a seguir. O guião das emoções que conseguira lembrar-se só ia até ali. Resolveu quebrar o silêncio ainda hesitante:

 

- Não quero que sejas a minha sombra. Quero que sejas minha irmã- Respirou fundo – Por isso, se quiseres conhecer a avó ou outra pessoa qualquer. Podes fazê-lo. Não precisas da minha apreciação nem de me levar para todo o lado. Tu podes tomar as tuas próprias decisões. És uma pessoa e tens a tua liberdade. –

Kari limpou as lágrimas.

- Obrigada. – Disse num fio de voz.  – Mas tens a certeza que ficas bem? –

Abraçaram-se antes de se levantarem e Voxy sair. Aquele abraço respondera à sua pergunta.

Depois de uma noite de amor, vem o choque com a realidade. Estefânia não sabia como definir aquele sentimento. Parecia uma adolescente que dormira fora de casa sem a autorização dos pais. Por seu lado, Carlos estava satisfeito, mas também se sentia estranho. Era como se tivessem ficado presos num sonho. Olhou para o lado. O corpo nu meio adormecido da mulher, recostado na almofada tapado com o lençol fino, não lhe deixava dúvidas. A noite anterior existira e fora intensa.

Estefânia virou-se e olhou-o de uma forma carinhosa. Carlos fez-lhe uma festa na cabeça, sorrindo.

- Bom dia, meu amor. – Disse ela. Aproximou-se e beijou-o ternamente.

- Bom dia. – Respondeu Carlos.

 

Levantou-se ainda em êxtase e foi à casa de banho. O marido ficou a observar da cama encantado. Ainda conseguia ser atraente apesar das mazelas.

- O Gonçalo já saiu. – Disse-lhe da porta. – Vi a cama já feita. Ontem tinha dito qualquer coisa sobre ir ter com uns amigos. Que horas são? –

Ultimamente, o filho não parava em casa. Desde o acidente, parecia que andavam a evitar aquele espaço. As memórias da casa deviam estar a sufocá-lo.

Carlos olhou para o relógio na mesa de cabeceira. Marcava 12 horas em ponto. Ficou admirado. Gritou as horas á mulher que também se surpreendeu. Já não dormiam tanto desde os primeiros tempos de trabalho, quando chegavam a casa tarde. Nessa altura, ainda não tinham filhos e tinham mais tempo para eles. Depois, vieram as rotinas e tudo foi adiado. Agora, voltava aos poucos.

Quando saiu da casa de banho, já vinha arranjada. Aproximou-se do marido, que, entretanto, se levantara. Beijou-o e perguntou:

-  O que queres fazer hoje? Estamos só os dois e temos um dia inteiro pela frente. –

Carlos respondeu num tom provocador:

- Hum… vou pensar em algo. –

 

Voxy acordou já o sol ia alto. Sentou-se na cama e olhou em volta. O quarto parecia-lhe mais claro que o habitual. Nem as cortinas grossas conseguiam impedir que alguns fios de luz entrassem. Bateram à porta nesse momento, mas não precisou de se levantar porque Kari a abriu e entrou. Trazia um tabuleiro com o pequeno-almoço. Voxy apressou-se a abrir as cortinas.

- A que se deve tudo isto? Se estás a tentar convencer-me a ir contigo a casa da avó, aviso já que não vou mudar de ideias. – Começou.

Kari sorriu.

- Quis fazer uma surpresa, não posso? Variar as rotinas de vez em quando nunca fez mal a ninguém! –

Não pareceu convencida. Sempre que Kari queria alguma coisa, pedia-o através de comida, como daquela vez em que foram com a mãe ao centro comercial comer um gelado especial e depois a uma loja de roupa barata porque ela queria umas calças iguais a uma colega da escola.

Kari pousou o tabuleiro na cama e ambas começaram a tirar comida. Enquanto comiam, Voxy recordava o tempo da sua infância em que a mãe lhes levava a comida à sala de ensaios, mas, no fim, acabavam sempre as três a comer. Às vezes, até o pai se juntava. Sorriu ao lembrar-se. Kari já não a via sorrir há muito tempo. A última vez foi quando deu um concerto, ainda em dueto com a mãe. Foi a primeira vez que foram em digressão depois de ser adotada. Nunca pensou sentir-se tão feliz, mesmo estando na parte de trás do palco, longe das luzes.

Um sítio onde poucos iam, só os mais próximos dos artistas e ela era uma dessas privilegiadas.

 

Depois do pequeno-almoço, Voxy foi à casa de banho arranjar-se. Enquanto passava a cara por água, pedaços de memória vieram-lhe à cabeça. A água escorria pela pele pálida, terminando em pequenas gotas que pingavam para o lavatório de modo sincronizado. Passou uma toalha depois de fechar a torneira.

Voltou ao quarto. Kari já tinha saído. Terminou de se arranjar. Olhou para a rosa em cima da mesa de cabeceira. Ainda tinha vestígios de manchas amareladas daquele dia. Pegou nela delicadamente. O fecho ainda estava partido. As pétalas estavam desalinhadas e amachucadas. Um flache de memória passou-lhe pela mente de repente. Sentiu uma ligeira tontura. Voltou a pousar a rosa a ajeitou o vestido preto de seda. Desde o acidente, que só vestia preto. Deva-lhe segurança e algum conforto. Refletia o seu coração. Abriu a porta e seguiu descalça pelo corredor.

 

O casal apaixonado aproveitara para passear na baía da cidade. Estava um dia solarengo e quente. Há muito tempo que não passavam um dia assim. Talvez nem se lembrassem da última vez que usara manga curta. Durante 4 anos, escondera os braços e as pernas, com medo de as mostrar, receava que estivessem muito feias, mas Carlos não achava, dissera-lho durante a noite entre beijos e carícias. Estás cada vez mais bonita. Isso era o que todos os maridos diziam para serem agradáveis.

Estavam sentados numa esplanada perto da baía. A brisa do rio vinha acariciar-lhes o rosto, o que disfarçava o calor. Tinham acabado de almoçar e apreciavam a paisagem acompanhados por uma bebida leve e fresca. Aquela pequena fuga da realidade fazia-lhes bem. Precisavam de um tempo só os dois, para refletir e pôr as ideias em ordem, tendo em conta os últimos acontecimentos.

Regressados do passeio, Estefânia e Carlos entraram em casa como dois adolescentes que tiveram o primeiro encontro. Gonçalo estava no quarto a terminar um trabalho para entregar no início da semana. Quando ouviu a porta e os risos que a acompanharam, sorriu. Já era altura de esquecer os problemas e começar a pensar mais na relação.

Concentrou-se no que estava a fazer e, quando terminou, foi ao encontro dos pais.

Foi encontrá-los no sofá abraçados e a rir. Sentou-se na poltrona e ligou a televisão.

- Finjam que não estou aqui. Podem continuar. – Disse entre pequenas risadas.

Os pais olharam- se e coraram. Acharam melhor guardar as intimidades para quando estivessem sozinhos. Estefânia levantou-se para preparar o jantar, mas foi impedida por Carlos.

- Hoje o jantar fica por minha conta. Podes sentar-te e desfrutar da companhia do teu filho. –

Estefânia ficou admirada. Era a primeira vez em muito tempo que o marido se oferecia para fazer o jantar sem ser por causa de uma discussão. Deixou-se ficar no sofá.

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

 

 

 


sexta-feira, 7 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 1

 Olá 

Esta semana, começa a quarta parte da história. Espero que gostem.

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Parte 4

Melodias de Esperança

Memória/Reconciliação

I

Passaram 4 anos desde o acidente. Estefânia, Carlos e Gonçalo tinham voltado há uma semana de casa de Maria Hortense e parecia que nada tinha mudado. A casa, o bairro, o trabalho, a escola, tudo parecia parado no tempo. Só quando entraram em casa é que se aperceberam da dura realidade. Nada era igual sem Clara.

Apesar de terem Gonçalo, sentiam que falava alguém, que a família não estava completa. O quarto de Clara tinha sido trancado antes da viagem e era uma divisão proibida. Apenas Estefânia se fazia autorizada a entrar de vez em quando.

Desde que voltara, Voxy tornara-se uma rapariga apática, isolada no seu mundo, onde lia e comtemplava a paisagem com uma expressão neutra e desinteressada tal como na Suíça. Afastara a música definitivamente da sua vida. Nem se atrevia a sair do quarto para comer. Só a ideia de passar diante da porta da sala do piano, causavam-lhe um tremor enorme. Tinha muitos pesadelos com o piano e o acidente em que a mãe surgia entre as notas ou o corpo saía de dentro dos destroços do carro. Acordava encharcada em suor e com as mãos a tremer e doridas.

Aquela situação preocupava Kari cada vez mais. Se calhar, tinha sido melhor ficar na Suíça. Pensava muitas vezes. Lá, ao menos, as memórias estavam mais distantes.

Estefânia passava mais tempo em casa desde que voltara. Ainda se sentia com poucas forças para voltar ao trabalho e à rotina. Tornara-se numa grande admiradora de Voxy. Comprara todos os seus discos e seguia tudo o que lhe dizia respeito pelas redes sociais. Até criara as suas contas no Facebook e Instagram só para poder ver o que o seu ídolo fazia.

- Espero que volte aos palcos em breve. Gostava de a ver ao vivo. –

 

Abriu o computador para pesquisar mais sobre a sua nova artista favorita. Gonçalo, que ia a passar, depois de ter estado a estudar com uns amigos, olhou de relance para o site que a mãe estava a ver.

-Outro dia, ouvi umas raparigas a comentar que ela sofre de uma doença rara, herdada da mãe, e desde que a perdeu, nunca mais voltou a tocar. Também dizem que foi para uma clínica no estrangeiro e que dificilmente voltará aos palcos. –

Estefânia admirou-se. Não era hábito do seu filho ouvir os comentários dos outros, muito menos reter tanta informação. Provavelmente, fora uma das que andam com ele agora. São boas raparigas, mas muito superficiais. Só de preocupam com as aparências e o filho nunca fora de se dar com gente assim. Mas desde que voltara, isso parecia não importar. Por mais que ela lhe dissesse alguma coisa, ele não ouvia. A relação deles estava mais distante. Dantes, eram próximos, quase cúmplices. Às vezes, ela parecia mais irmã dele do que a própria. Durante a temporada em casa de Maria Hortense, parecia que estavam a tentar recuperar essa relação, mas agora voltaram a afastar-se.

Aquela circunstância era mais uma prova. Se fosse antigamente, dir-lhe-ia para esperar para ver, que provavelmente ela ainda iria voltar, mas se não acontecesse tinha sempre os discos e havia um monte de outras artistas que podia apreciar. Agora, nem parecia ele.

Continuou a ver o site, como não encontrou nada de relevante, fechou o computador e subiu.

 

Carlos chegou nesse momento. Subiu e foi dar com a mulher no quarto deitada com um ar pensativo. Nem precisou de perguntar o que se passara. Outro comentário de Gonçalo acerca de Voxy. Sem nada que pudesse fazer, desceu para preparar o jantar. Sempre que aquilo acontecia, gostava de ir para a cozinha, ajudava-o a distrair-se. Aprendera a cozinhar com a mãe. Um homem deve saber de tudo um pouco. Dizia-lhe. E ele gostava de cozinhar. De sentir os aromas e texturas dos ingredientes enquanto estes eram misturados na panela. Era terapêutico.

Passado pouco tempo, apareceram os dois com um ar contrariado mas dispostos a uma trégua para ajudarem a pôr a mesa.

- Recebeste um convite para ir a casa da avó. – Disse Kari antes de jantar.

Voxy, como sempre, manteve o seu ar indiferente. Nunca fora muito chegada ao resto da família. Segundo o que a mãe lhe contou, durante os primeiros anos de vida dela, ainda se juntavam para grandes jantares e almoços, mas com os constantes compromissos profissionais, esses encontros eram cada vez mais raros.

- E quando é que surgiu o convite? – Quis saber Bertha. Parecia a única interessada.

- Pouco depois de termos voltado. – Respondeu Kari. Tinha uma expressão hesitante, constrangida mesmo. Não queria forçar uma conversa na qual Voxy claramente não queria participar.

Depois do jantar, Voxy voltou para o quarto. Kari foi atrás dela. Teve de travar a porta com o pé para conseguir entrar. Voxy instalou-se no seu refúgio. Pegou no livro que estava a ler, indiferente à presença da irmã. Voxy continuava com os olhos postos no livro. Kari não saiu do sítio. Conhecia todos os truques para ficar sozinha e fugir a um assunto, mas, desta vez, tinham mesmo de falar.

Já irritada, pousou o livro. Kari aproximou-se mais um pouco e segurou-lhe nas mãos. Estavam frias. Voxy largou-as imediatamente. Desde o acidente, não gostava que lhe tocassem. Os afetos de outrora tinham ficado no passado. Olhou pela janela. O luar fazia com que a sua cara se tornasse pálida e brilhante.

 

- Não me apetece estar com ninguém neste momento. –

Encostou a cabeça ao vidro frio. Uma lágrima rebelde começou a formar-se no canto do olho.

Kari ripostou:

- Mas porquê? É a nossa avó! Se calhar, ia fazer-te bem! –

 

Voxy olhou para a irmã. Aquela conversa do vai fazer-te bem começava a irritá-la. Na Suíça, a terapeuta dissera-lhe algo parecido. Toda a gente tinha uma opinião sobre o que lhe fazia ou não fazia bem. Mas só ela sabia o que era melhor e naquele momento, nada lhe fazia bem. Só queria que deixassem em paz.

 

- A nossa relação nunca foi muito próxima e com o tempo ficou mais distante. Aliás, agora praticamente não existe. – Retorquiu.

Kari não se surpreendeu. Tal como a irmã, nunca tivera uma relação próxima com a família, mas, ao contrário dela, ficou curiosa em relação a esta avó. Havia qualquer coisa que lhe dizia que devia confiar nela.

- Faz como quiseres. Se mudares de ideias, entretanto, avisa. –

Voxy virou a cara. Kari retirou-se. Só depois de ouvir a porta fechar é que retomou a leitura.

Depois de jantar, o trio foi para a sala ver televisão. Passado um bocado, Gonçalo subiu para o quarto. O casal ficou mais um pouco no sofá até a série terminar. Carlos subiu primeiro.

Assim que se viu sozinha, Estefânia foi à mesa do hall de entrada. Abriu uma gaveta e tirou uma chave. Subiu as escadas em passos ligeiros, mas apressados. Atravessou o corredor e parou à frente da porta no final.

Hesitou por alguns instantes. Era a primeira vez que lá ia depois do acidente. Respirou fundo. Introduziu a chave na fechadura e abriu a porta nervosamente. Entrou na pequena divisão, fechando a porta atrás de si. Sentia-se a Alice na casa do coelho branco. Tudo era tão delicado que não queria estragar.

Acendeu a luz do teto, encostou-se á porta e olhou em volta. Para a cama retangular encostada a uma parede, com a uma colcha ás flores, para a secretária em frente com o computador, onde a filha costumava fazer os trabalhos da escola ou pesquisas de algo que gostava, para o armário de roupa ao pé da janela que dava para um pátio nas traseiras, onde ela e o irmão costumavam brincar. Por último, olhou para as fotografias na mesa de cabeceira e na secretária. Todas mostravam uma rapariga sorridente. Numas, aparecia com o uniforme da escola, noutras de fato de banho e noutras de vestido florido ou calças de ganga e camisola de gola alta.

Pegou numa das molduras mais próxima de si. As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara quando se lembrou da altura em que a fotografia foi tirada. Nas férias de Verão em ficaram num resort na zona costeira. Estavas tão feliz! Pensou E tão bonita! Aquelas lembranças faziam-na sentir-se pior. Era difícil apagar a dor. Pousou a moldura, meia baça das lágrimas e, voltou a olhar para o quarto. Por vezes, ainda conseguia ouvir a filha no computador ou deitada na cama a falar com as amigas, a ler ou a ouvir música, quase como se a alma dela ali estivesse.

Sentou-se na beira da cama como fazia quando Clara tinha 5 anos e não conseguia dormir. Passou a mão na colcha como se a acariciasse. De repente, ouviu a voz do marido a chamar. Saiu do quarto rapidamente e trancou a porta, não sem antes apagar a luz. 

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.