Olá
Fica o capitulo da semana.
Espero que gostem.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
III
Percorreu o pequeno corredor que separava a zona das
escadas do resto da casa. Nunca se sentira tão determinada. Caminhava em passos
apressados, mas firmes para não perder o foco.
Atravessou o chão de tábuas lisas e depois a tijoleira
fria. Entrou na sala de estar e foi ao encontro de Kari. Aproximou-se,
timidamente. Sentou-se perto dela e disse, de repente, fazendo-a assustar-se:
- Está bem, ganhaste. Vou acompanhar-te a casa da avó,
mas que fique claro que só o faço por tua causa. –
Kari sorriu. Perguntou:
- Tens a certeza? Tu própria disseste que não querias
reatar a relação com o resto da família. –
Voxy olhou de relance para o ecrã da televisão e
depois para Kari.
- Sim, tenho. Por ti, acho que vale a pena. –
Kari continuava admirada. Gostava da atitude decidida
da irmã.
…
- O jantar estava muito bom! – Elogiou Estefânia.
Carlos sorriu. Estava satisfeito com a sua conquista.
No fim da refeição, também se dispôs a arrumar a cozinha. Estefânia e Gonçalo
estavam estupefactos. Retiraram-se para a sala.
Antes de ir dormir, Estefânia foi ao quarto de Clara,
mas, ao contrário das outras vezes, hesitou bastante antes de abrir a porta.
Como se alguém na sua mente lhe dissesse para não o fazer. Ainda assim, rodou a
chave e este abriu com um clique.
Acendeu a luz do teto e foi ao armário. Abriu-o. As
roupas, os sapatos e os acessórios estavam todos arrumados tal como a filha os
deixara. Tirou uma camisola de gola alta bordeaux que usara na última festa de
Natal. Foi há 5 anos, mas parecia que tinha sido há mais tempo. Ainda podia
sentir o odor da filha. Abraçou-a como se a abraçasse. De repente, bateram á
porta. Arrumou a camisola e fechou o armário. Seguiu o marido até ao quarto.
…
Á noite, Voxy subiu para o quarto. Quando Bertha
chamou para jantar, apenas Kari apareceu. A irmã estava cansada e comia mais
tarde. Depois de jantar, subiu para ver como estava. Foi encontrá-la vestida
para dormir, sentada no banco ao pé da janela a olhar para o jardim. Tinha a
rosa na mão.
- Lembras-te? – Perguntou Voxy de repente. – A mãe
costumava ir para o jardim quando se sentia em baixo. Dizia que o luar e a água
da piscina a acalmavam. –
KAri não tinha aquela memória presente, mas supôs que
fosse verdade.
- Sim, claro! –
Respondeu quase forçadamente. – Voltava sempre mais serena e a sua música saía
melhor. –
Voxy levantou-se. Abriu a janela. O ar fresco da noite
entrou pelo quarto. Saiu para a varanda. Sentiu o chão frio de azulejo nos pés
descalços. Pôs as mãos no parapeito de ferro forjado. Suspirou. A memória era
falsa. A mãe nunca fez aquilo, depois de ela nascer. Só se lembrava da uma
história que ela contava de quando estava grávida, mas nunca achou que fosse
verdade.
- Tinha apenas 3 anos, mas já era um génio da música.
Todos me diziam que devia ter herdado o talento da mãe, apesar de nunca
acreditar muito nisso. –
Prosseguiu:
- Durante bastante tempo, comparavam-me constantemente
com ela. Depois de cada espetáculo, havia sempre quem comentasse: «Devias
tocar mais como a tua mãe» ou «Tocas bem, mas falta-te a alegria que ela
transmite» -
Voltou para junto de Kari depois de fechar a janela.
- Depois do acidente, todas aquelas vozes se calaram.
Já não havia ninguém para comparar. A pressão estava toda do meu lado. – As
lágrimas começaram a correr-lhe pela cara – Quando regressámos a casa, só
queria desparecer. – Limpou as lágrimas e prosseguiu:
- E agora, este convite inesperado de alguém que nos
virou as costas quando mais precisávamos, fez-me voltar a sentir essa pressão.
–
Recomeçou a chorar.
Kari também tinha lágrimas nos olhos. Abraçaram-se. Vai
correr tudo bem. Murmurou-lhe.
E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Sem comentários:
Enviar um comentário