sexta-feira, 28 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 4

 Olá 

Como sempre, fica o capítulo da semana. 

Espero que gostem. 

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IV

Estefânia abriu os olhos devagar. Um fio de luz vindo de uma nesga da janela iluminava parte da cama. Espreguiçou-se. Estendeu o braço á procura de Carlos, mas não o encontrou. Olhou para o lado. Já não estava na cama.

Daí a pouco, ouviu um barulho vindo da casa de banho, depois Carlos entrou no quarto. Ainda tinha o cabelo molhado. Aproximou-se da cama e beijou a mulher que respirou de alívio disfarçadamente.

- O que fazemos hoje? – Perguntou, num tom desafiador.

Estefânia corou ligeiramente. Levantou-se e foi á casa de banho. No caminho, respondeu:

- Não sei, ainda vou pensar. –

Voxy acordou com os primeiros raios de sol. Sentia a cabeça pesada. Não devia ter apanhado frio na varanda. Era quase Outono, devia ter mais cuidado à noite. Suspirou. O dia da visita à avó estava próximo e ela sentia-se ansiosa. Levantou-se e abriu as cortinas, deixando entrar a luz que lhe bateu na cara, encandeando-a.

Nesse momento, bateram à porta. Ainda a habituar-se à claridade, foi abrir. Kari entrou quase de repente, deixando-a atordoada.

- Bom dia. O que te traz aqui tão cedo? – Perguntou.

Kari respondeu tranquilamente, esboçando um leve sorriso:

- Bom dia. Queria avisar-te que a visita à avó foi antecipada para esta tarde. Ela acabou de telefonar. –

Voxy arregalou os olhos. Contava que fosse daí a alguns dias para lhe dar tempo de preparação. Disfarçando a surpresa e um certo desconforto, respondeu:

- Obrigada. Podes dizer à Bertha que desço já. –

Desta vez, o casal resolveu passear pelo centro comercial da cidade. Estefânia aproveitara para fazer umas compras. Uma mulher precisa sempre de coisas. Depois, foram ao cinema. Não se lembravam da última que viram um filme numa sala escura. Talvez ainda andassem na faculdade, no início do namoro. Durante a sessão, que era de uma comédia romântica como Estefânia gosta, iam devorando as pipocas do balde de papel e, de vez em quando, beijavam-se. Saíram do cinema de mãos dadas e aos risinhos.

Depois do almoço, Voxy, Kari e Bertha foram a casa de Odete, a avó das raparigas. Vivia numa mansão nos arredores. Era a casa onde a mãe crescera. Imponente, com três pisos, um enorme jardim e um elegante salão onde a mãe se estreou como pianista nas festas de família das quais ouvira falar vagamente. Momentos em que a família se reunia só para a ouvir.

Não era uma visita formal, mas elas fizeram questão de ir o mais apresentável possível.

O carro parou junto á entrada. A secretária pessoal da avó, Marília, veio recebê-las. Uma mulher baixa, de cabelos claros e olhos da mesma cor. Vestia um fato cinzento que lhe dava um ar sombrio e austero.

Bertha foi para junto dos empregados. Viria ter com elas no final. Seguiram por um corredor que as levou a uma saleta com uma varanda. Odete estava sentada a uma mesa de ferro com uma chávena de chá. Quando elas entraram, veio logo cumprimentá-las e dispensou Marília, que foi buscar mais chávenas. Sorriu e abraçou as netas que retribuíram, embora Voxy estivesse contrariada.

- Sejam bem-vindas, minhas queridas. – Cumprimentou, entusiasmada. – Há muito tempo que queria estar convosco. – Convidou-as para a varanda e para o chá. Sentaram-se. A luz da tarde estava especialmente forte para Voxy, mas ela trouxera um chapéu de abas largas, além de ter tomado os comprimidos de reforço para o caso de algo correr mal.

O ambiente era constrangedor. Kari não conhecia a avó e Voxy apenas tinha memórias vagas. Soube pela mãe que ali tinha sido a sua festa de boas-vindas quando nasceu e lembrava-se vagamente de a ter visto no funeral dos pais, mas estava tão mergulhada na dor que não prestou atenção.

Olhou em volta, tirando vantagem das abas do chapéu. Nenhuma daquelas coisas lhe trazia qualquer recordação. Os sofás, a um canto, o tapete florido, as estantes com livros e bibelôs. Até a avó, uma mulher de estatura média, cabelo grisalho e olhos claros com roupas simples, mas elegantes. Pegou na chávena de bebericou um pouco. O chá era amargo, mas não lhe soube mal. A sua vida estava mais.

 

Kari sorriu timidamente. Parecia uma boneca a tentar parecer bem. No fundo, alguém que não era. Nunca aprendera a arte da aparência, o que não era mau de todo. O seu desconforto era evidente e queria fazer algo para quebrar aquele silêncio pesado, só não sabia o quê. Perguntou, na tentativa desesperada de fazer conversa:

- Então, porque nos convidou? –

Mais direta não podia ser. Odete surpreendeu-se, mas disfarçou com classe e respondeu com uma voz fina, mas determinada:

-  Bom, dadas as últimas circunstâncias, achei que seria bom passar algum tempo com as minhas netas. Afinal, só nos temos umas às outras. –

Kari pareceu esclarecida, mas Voxy não. Por aquilo que a mãe lhe contara, a avó gostava de manter as aparências em relação ao ambiente familiar. Quanto mais não fosse para pintar um quadro harmonioso, no qual todos tinham de sorrir.

Não olhou para a avó. Concentrou-se na chávena de chá. Sorveu um gole ruidoso para chamar a atenção. Geralmente, não o fazia, mas naquela situação sentiu necessidade de intervir. Quebrou o silêncio e olhou-a diretamente, depois de tirar o chapéu.

- A minha mãe tinha razão quando cortou relações. Para si, o importante é a imagem que passa para o exterior, aquela que vem nas capas das revistas. Sempre sorridente. Por causa dessa imagem, é que nunca me foi visitar ao hospital. Claro que não! Era público! O que iriam os outros pensar se a vissem entrar num sítio onde todas são tratados de forma igual? – Continuou: - E nem a nossa casa se dignou a ir! Nem se preocupou em saber notícias quando estivemos na Suíça ou sequer apareceu para dar apoio! –

 

Odete e Kari estavam estupefatas. Voxy tinha ido longe demais. Kari tentou apaziguar os ânimos, enquanto a irmã se acalmava e punha o chapéu, pois já estava com tonturas por causa do sol.

- Se calhar, é melhor mudarmos de assunto, não? – Disse, hesitante.

Como não obteve resposta, resignou-se.

Odete levantou-se e saiu da sala, convidando-as. Queria redimir-se de alguma forma, apesar de a neta ter razão. Pusera os seus caprichos á frente da família, tal como a mãe de Heitor, mas, ao contrário dela, Odete achava que estava na hora de mudar.

- Venham, quero mostrar-vos uma coisa. – Pediu.

Seguiram-na por um corredor que ia dar a uma sala um pouco maior. Entraram. Para além dos sofás, estava um piano de cauda. Era ali que a mãe costumava ensaiar. Aproximaram-se. Voxy disfarçou o nervosismo. Odete convidou-a a tocar. Esboçou um sorriso forçado e aproximou-se do banco. Preparou-se para tocar, destapando as teclas com gestos automáticos, como se alguém a estivesse a segurar por finos fios como uma marioneta. Assim que pousou as mãos, estas começaram a tremer. Disfarçou, tocando os primeiros acordes, ainda que quase imperceptíveis. Uma angústia e um tremor cada vez mais intensos apoderaram-se dela. As lágrimas começaram a cair-lhe pela cara. Por mais que se quisesse controlar não conseguia. Desesperada, parou. Levantou-se e abandonou a sala. Kari foi atrás dela, deixando Odete muito atrapalhada e em choque. Ouvira dizer que a neta estava mal, mas nunca pensou que fosse tão grave.

Voxy percorreu a casa em passo apressado até chegar ao carro. Pousou o chapéu no banco e não quis saber de mais nada. Bertha estava lá dentro à espera delas e ficou surpreendida quando a viu. Kari entrou logo de seguida.

Odete apareceu, entretanto, desculpando-se, porque não sabia do estado de Voxy, mas nenhuma a quis ouvir. O carro arrancou pouco depois.

 

O casal foi para o carro que estava estacionado no parque do centro comercial. A fila começava a formar-se logo após a saída.

- Não podemos ir por outro lado? – Perguntou Estefânia.

- Não posso fazer nada, isto está muito cheio. – Respondeu Carlos.

Daí a pouco, conseguiram avançar, mas foram dar a uma rua igualmente cheia, onde, entre eles, estava o carro de Voxy, que, por pouco não se cruzou com o deles.

Os carros da frente começaram a andar nesse momento e cada uma seguiu o seu caminho.

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 


 

 

 


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