Olá
Como sempre, fica o capítulo da semana.
Espero que gostem.
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IV
Estefânia abriu os olhos devagar. Um fio de luz vindo
de uma nesga da janela iluminava parte da cama. Espreguiçou-se. Estendeu o
braço á procura de Carlos, mas não o encontrou. Olhou para o lado. Já não
estava na cama.
Daí a pouco, ouviu um barulho vindo da casa de banho,
depois Carlos entrou no quarto. Ainda tinha o cabelo molhado. Aproximou-se da
cama e beijou a mulher que respirou de alívio disfarçadamente.
- O que fazemos hoje? – Perguntou, num tom desafiador.
Estefânia corou ligeiramente. Levantou-se e foi á casa
de banho. No caminho, respondeu:
- Não sei, ainda vou pensar. –
…
Voxy acordou com os primeiros raios de sol. Sentia a
cabeça pesada. Não devia ter apanhado frio na varanda. Era quase Outono, devia
ter mais cuidado à noite. Suspirou. O dia da visita à avó estava próximo e ela
sentia-se ansiosa. Levantou-se e abriu as cortinas, deixando entrar a luz que
lhe bateu na cara, encandeando-a.
Nesse momento, bateram à porta. Ainda a habituar-se à
claridade, foi abrir. Kari entrou quase de repente, deixando-a atordoada.
- Bom dia. O que te traz aqui tão cedo? – Perguntou.
Kari respondeu tranquilamente, esboçando um leve
sorriso:
- Bom dia. Queria avisar-te que a visita à avó foi
antecipada para esta tarde. Ela acabou de telefonar. –
Voxy arregalou os olhos. Contava que fosse daí a
alguns dias para lhe dar tempo de preparação. Disfarçando a surpresa e um certo
desconforto, respondeu:
- Obrigada. Podes dizer à Bertha que desço já. –
…
Desta vez, o casal resolveu passear pelo centro
comercial da cidade. Estefânia aproveitara para fazer umas compras. Uma mulher
precisa sempre de coisas. Depois, foram ao cinema. Não se lembravam da última
que viram um filme numa sala escura. Talvez ainda andassem na faculdade, no
início do namoro. Durante a sessão, que era de uma comédia romântica como
Estefânia gosta, iam devorando as pipocas do balde de papel e, de vez em
quando, beijavam-se. Saíram do cinema de mãos dadas e aos risinhos.
…
Depois do almoço, Voxy, Kari e Bertha foram a casa de
Odete, a avó das raparigas. Vivia numa mansão nos arredores. Era a casa onde a
mãe crescera. Imponente, com três pisos, um enorme jardim e um elegante salão
onde a mãe se estreou como pianista nas festas de família das quais ouvira
falar vagamente. Momentos em que a família se reunia só para a ouvir.
Não era uma visita formal, mas elas fizeram questão de
ir o mais apresentável possível.
O carro parou junto á
entrada. A secretária pessoal da avó, Marília, veio recebê-las. Uma mulher
baixa, de cabelos claros e olhos da mesma cor. Vestia um fato cinzento que lhe
dava um ar sombrio e austero.
Bertha foi para junto dos
empregados. Viria ter com elas no final. Seguiram por um corredor que as levou
a uma saleta com uma varanda. Odete estava sentada a uma mesa de ferro com uma
chávena de chá. Quando elas entraram, veio logo cumprimentá-las e dispensou
Marília, que foi buscar mais chávenas. Sorriu e abraçou as netas que
retribuíram, embora Voxy estivesse contrariada.
- Sejam bem-vindas,
minhas queridas. – Cumprimentou, entusiasmada. – Há muito tempo que queria
estar convosco. – Convidou-as para a varanda e para o chá. Sentaram-se. A luz
da tarde estava especialmente forte para Voxy, mas ela trouxera um chapéu de
abas largas, além de ter tomado os comprimidos de reforço para o caso de algo
correr mal.
O ambiente era
constrangedor. Kari não conhecia a avó e Voxy apenas tinha memórias vagas.
Soube pela mãe que ali tinha sido a sua festa de boas-vindas quando nasceu e
lembrava-se vagamente de a ter visto no funeral dos pais, mas estava tão
mergulhada na dor que não prestou atenção.
Olhou em volta, tirando
vantagem das abas do chapéu. Nenhuma daquelas coisas lhe trazia qualquer
recordação. Os sofás, a um canto, o tapete florido, as estantes com livros e
bibelôs. Até a avó, uma mulher de estatura média, cabelo grisalho e olhos
claros com roupas simples, mas elegantes. Pegou na chávena de bebericou um
pouco. O chá era amargo, mas não lhe soube mal. A sua vida estava mais.
Kari sorriu timidamente.
Parecia uma boneca a tentar parecer bem. No fundo, alguém que não era. Nunca
aprendera a arte da aparência, o que não era mau de todo. O seu desconforto era
evidente e queria fazer algo para quebrar aquele silêncio pesado, só não sabia
o quê. Perguntou, na tentativa desesperada de fazer conversa:
- Então, porque nos
convidou? –
Mais direta não podia
ser. Odete surpreendeu-se, mas disfarçou com classe e respondeu com uma voz
fina, mas determinada:
- Bom, dadas as últimas circunstâncias, achei
que seria bom passar algum tempo com as minhas netas. Afinal, só nos temos umas
às outras. –
Kari pareceu esclarecida,
mas Voxy não. Por aquilo que a mãe lhe contara, a avó gostava de manter as
aparências em relação ao ambiente familiar. Quanto mais não fosse para pintar
um quadro harmonioso, no qual todos tinham de sorrir.
Não olhou para a avó.
Concentrou-se na chávena de chá. Sorveu um gole ruidoso para chamar a atenção.
Geralmente, não o fazia, mas naquela situação sentiu necessidade de intervir.
Quebrou o silêncio e olhou-a diretamente, depois de tirar o chapéu.
- A minha mãe tinha razão
quando cortou relações. Para si, o importante é a imagem que passa para o
exterior, aquela que vem nas capas das revistas. Sempre sorridente. Por causa
dessa imagem, é que nunca me foi visitar ao hospital. Claro que não! Era público!
O que iriam os outros pensar se a vissem entrar num sítio onde todas são
tratados de forma igual? – Continuou: - E nem a nossa casa se dignou a ir! Nem
se preocupou em saber notícias quando estivemos na Suíça ou sequer apareceu
para dar apoio! –
Odete e Kari estavam
estupefatas. Voxy tinha ido longe demais. Kari tentou apaziguar os ânimos,
enquanto a irmã se acalmava e punha o chapéu, pois já estava com tonturas por
causa do sol.
- Se calhar, é melhor
mudarmos de assunto, não? – Disse, hesitante.
Como não obteve resposta,
resignou-se.
Odete levantou-se e saiu
da sala, convidando-as. Queria redimir-se de alguma forma, apesar de a neta ter
razão. Pusera os seus caprichos á frente da família, tal como a mãe de Heitor,
mas, ao contrário dela, Odete achava que estava na hora de mudar.
- Venham, quero
mostrar-vos uma coisa. – Pediu.
Seguiram-na por um
corredor que ia dar a uma sala um pouco maior. Entraram. Para além dos sofás,
estava um piano de cauda. Era ali que a mãe costumava ensaiar. Aproximaram-se.
Voxy disfarçou o nervosismo. Odete convidou-a a tocar. Esboçou um sorriso
forçado e aproximou-se do banco. Preparou-se para tocar, destapando as teclas
com gestos automáticos, como se alguém a estivesse a segurar por finos fios
como uma marioneta. Assim que pousou as mãos, estas começaram a tremer.
Disfarçou, tocando os primeiros acordes, ainda que quase imperceptíveis. Uma
angústia e um tremor cada vez mais intensos apoderaram-se dela. As lágrimas
começaram a cair-lhe pela cara. Por mais que se quisesse controlar não
conseguia. Desesperada, parou. Levantou-se e abandonou a sala. Kari foi atrás
dela, deixando Odete muito atrapalhada e em choque. Ouvira dizer que a neta
estava mal, mas nunca pensou que fosse tão grave.
Voxy percorreu a casa em
passo apressado até chegar ao carro. Pousou o chapéu no banco e não quis saber
de mais nada. Bertha estava lá dentro à espera delas e ficou surpreendida
quando a viu. Kari entrou logo de seguida.
Odete apareceu,
entretanto, desculpando-se, porque não sabia do estado de Voxy, mas nenhuma a
quis ouvir. O carro arrancou pouco depois.
…
O casal foi para o carro que estava estacionado no
parque do centro comercial. A fila começava a formar-se logo após a saída.
- Não podemos ir por outro lado? – Perguntou
Estefânia.
- Não posso fazer nada, isto está muito cheio. –
Respondeu Carlos.
Daí a pouco, conseguiram avançar, mas foram dar a uma
rua igualmente cheia, onde, entre eles, estava o carro de Voxy, que, por pouco
não se cruzou com o deles.
Os carros da frente começaram a andar nesse momento e
cada uma seguiu o seu caminho.
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