sexta-feira, 4 de abril de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 5

 Olá 

Deixo o capitulo da semana. Espero que gostem.

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V

Quando chegaram a casa, Voxy subiu com Kari. No cimo das escadas, separam-se e fechou-se no quarto.

Sentia-se novamente no fundo do poço. Nunca devia ter ido à casa da avó. Avançou pelo quarto, já descalça. Flaches do dia do funeral dos pais atravessavam-lhe a mente como lâminas. A crise e o sofrimento que causara a Kari ainda estava muito presente. Recomeçou a chorar e voltou a rasgar as roupas. Parou quando olhou para a lua. Deixou-se cair de joelhos. A luz suave do luar acalmou-a. Levantou-se e vestiu a roupa de dormir. Depois, recolheu os pedaços de tecido espalhados e escondeu-os debaixo da cama onde estavam resquícios da crise anterior. Tinha de manter o controlo. Aquilo não se podia repetir. Por ela. Pela irmã. Não podia.

Sentou-se junto á janela e pegou no seu livro preferido. Acendeu a luz do candeeiro ali perto e começou a ler. Só queria esquecer aquele dia e aquela visita.

Quando chegaram a casa, Gonçalo ainda não estava. Mandara mensagem a dizer que vinha mais tarde. Subiram para o quarto para pousar as compras e depois foram preparar o jantar. Entretanto, Gonçalo chegou.

Voxy desceu para jantar pouco depois de Kari a chamar. Não tinha fome, mas ia fazer um esforço e comer qualquer coisa ou não passava bem a noite. Kari tentou puxar alguma conversa que a distraísse, mas de nada adiantou.

Depois do jantar, Voxy voltou para o quarto. Kari quis ir atrás dela, mas foi impedida por Bertha. Queria perceber o que acontecera em casa da avó, mas não havia mais nada a acrescentar, exceto que tão cedo não voltariam aquele lugar. 

Voxy precisava de espaço e Kari estava sempre a sufocá-la com conversas forçadas e quase sem sentido. Todos percebiam que estava carente e não tinha mais ninguém, mas, às vezes, é melhor deixar.

 

Subiu para o quarto, trocou de roupa e, passado pouco tempo, estava na sala para jantar. Ao serão, Estefânia não foi ao quarto de Clara. Nem sequer antes de dormir. Passou pela porta e sorriu. Estava a começar a libertar-se.

Kari entrou no quarto. Sentia-se culpada pelo que acontecera. Não estava a ajudar como deveria. Sempre a pôr pressão em cima de Voxy e isso não fazia bem às duas. Os seus pensamentos foram interrompidos por m bater na porta. Era Voxy. Olharam-se, constrangidas. Kari quase implorava por desculpas. Voxy abraçou-a. Depois, sentaram-se na cama. Foi Voxy que quebrou o silêncio:

- Não te sintas culpada. A avó é que devia pedir desculpas. –

Kari ripostou num fio de voz:

- Eu sei, mas não posso deixar de pensar que se não tivesse insistido, nada disto teria acontecido. –

Voxy respondeu:

- Sim, mas provavelmente, tinha sido eu a lamentar-me por te ter deixado ir sozinha. Por isso, acho que até foi melhor assim. –

Abraçaram-se novamente.

Estefânia acordou na manhã seguinte, já o sol ia alto. Espreguiçou-se como de costume. Estendeu o braço á procura de Carlos, mas voltou a não o encontrar. Desta vez, não ouviu barulhos na casa de banho. Sentou-se na cama. Aqueles últimos dias, foram tão maravilhosos que pareciam ter sido um sonho. Levantou-se e foi à casa de banho. Quando voltou ao quarto, é que se apercebeu que estava uma folha dobrada na mesa de cabeceira. Tinha o seu nome escrito. Abriu-a. Estava escrita com a letra atrapalhada de Carlos. Sorriu.

«Saí, mas volto cedo. Como não te quis acordar, preparei o pequeno-almoço. O Gonçalo também já saiu. Adorei o fim-de-semana. Devíamos repetir. Tem um bom dia.

Carlos»

Mas que coisa tão foleira! Pensou, amachucando a folha. Parece um bilhete deixado à amante. Sentiu-se esquisita ao pensar naquilo. Carlos tivera outras namoradas antes dela, assim como ela, mas foi um com o outro que assumiram algo mais sério.

Vestiu-se e desceu as escadas para tomar o pequeno-almoço. Sozinha, a cozinha parecia fria e sombria. Lembrou-se do último dia que viu Clara. Um calafrio percorreu-lhe o corpo e uma lágrima correu-lhe pela cara. Limpou-a rapidamente. Concentrou-se na comida.

Depois de comer e de arrumar a loiça, voltou às escadas. Subitamente, parou. Flaches daquele dia vieram-lhe à mente. Rapidamente os afastou. Não vale a pena ficar a remoer. Tenho de me distrair. Pensou. Estava há demasiado tempo em casa, chegou a hora de voltar ao trabalho. Assim, afastou-se das escadas e foi para a porta. Calçou-se, vestiu o casaco, pegou na pasta do escritório e saiu de casa.

 

Quando chegou ao escritório, todos ficaram surpreendidos. Entrou no gabinete e fechou a porta. Do lado de fora, as caras de espanto continuaram, até se lembrarem que tinham trabalho para fazer. Carla foi a única que lhe foi bater à porta. Ouviu um entre do outro lado.

Estefânia olhou para a amiga como se a inspecionasse. Não tinha mudado nada. O mesmo cabelo louro, curto com franja a tapar-lhe quase os olhos azuis brilhantes, a mesma boca pequena e o mesmo nariz empinado. Continuava com o seu conjunto de saia e casaco que lhe dava um ar de secretária, apesar de ser advogada. ~

Lembrou-se da primeira vez que a viu. No meio de uma multidão, a ver se o seu nome aparecia na lista de admitidos na faculdade. Houve qualquer coisa quando os seus olhares se cruzaram, ao perceberem que ficaram no mesmo curso, que lhe disse: vamos ser grandes amigas. E assim foi.

O silêncio estava a ficar constrangedor. Ambas se encaravam como dois cowboys no velho oeste, prestes a enfrentar-se num duelo. Estefânia quebrou-o:

- Sei que deves estar surpreendida, como toda a gente, mas estava farta de estar em casa. –

Carla hesitou antes de falar. Estava feliz por voltar a ver a amiga, mas aquela atitude, depois de uma pausa tão longa, parecia-lhe demasiado repentina.

- Pois… não te esperávamos tão cedo, mas se dizes que estás bem, então, tudo bem. –

Estefânia revirou os olhos e respondeu com sarcasmo:

- Não te preocupes, estou bem. –

Carla nunca tinha visto a amiga tão determinada. Nem na altura em que pedira Carlos em namoro. Foi para a porta. Antes de sair, disse:

- Sê bem-vinda de volta, Estefânia. –

Voxy acordou, como sempre, com os primeiros raios de sol. Sentia-se como se tivesse acordado de um longo sono. Levantou-se e abriu as cortinas. A luz do sol ainda lhe causava algum desconforto, mas já estava mais habituada. Voltou a aproximar-se da cama, mas, ao andar para trás, bateu na mesa de cabeceira. A rosa caiu e ela apanhou-a antes de tocar no chão. Ainda estava manchada de lágrimas e sangue. Sem pensar, amachucou-a na mão pelo lado das pétalas, para não se cortar outra vez, e atirou-a ao chão. Foi cair junto á janela. As pétalas iluminaram-se, fazendo com que parecesse uma pequena pérola ao sol. Ficou a olhar durante um bocado. Apesar das mazelas, ainda conseguia conservar a beleza original. Só precisava de uma limpeza e ficaria como nova.

Apanhou-a e pouso-a na mesa de cabeceira. Por mais que tentasse, nunca seria capaz de se separar daquele objeto. Foi o último presente que comprara com a mãe. Ao lembrar-se, sentiu uma ligeira tontura que a fez apoiar-se na base da cama. Pedaços de memórias vagas passaram diante dos seus olhos. Teve outra tontura, mas conseguiu erguer-se.

Determinada, abriu a porta do quarto e seguiu, descalça e em camisa de noite, pelo corredor até ao quaro dos pais, disposta a enfrentar os seus medos, ou parte deles pelo menos.

O caminho pareceu-lhe mais comprido do que se lembrava. Antes, conseguia chegar em duas ou três passadas, agora sentia os pés e as pernas mais pesados e lentos.

Finalmente chegou à porta. Pareceu-lhe maior e mais assustadora do que se lembrava. Hesitou antes de agarrar na maçaneta. A mão tremia-lhe quando lhe pegou e rodou. A porta abriu-se com um ligeiro estalido e até chiou um pouco por não ser aberta há muito tempo. Entrou. Estava na quase escuridão, mas sabia onde era a janela e abriu-a. Conhecia cada canto daquele quarto como se fosse o seu. Tantas foram as vezes em que se aventurara por lá às escondidas da mãe.

 A luz inundou a divisão. Média, com uma cama de casal, um armário e um tocador com espelho, o seu sítio preferido na infância. Gostava de imaginar que era um camarim e que ela era uma estrela que se preparava para mais um concerto.

As lágrimas caíram-lhe quando se lembrava dos bons momentos passados ali. Andou alguns passos por entre os móveis desarrumados e deteve-se diante de um caixote. Sentou-se no banco do tocador com ele ao colo. Não era muito grande. Abriu-o. Eram coisas da mãe. Cartas, recortes de jornal e um caderno de capa castanha. Lembrava-se bem dele. Era onde a mãe escrevia as músicas que compunha. Estava um pouco amarelado pelo tempo, mas ainda se conseguia abrir. Foi folheando aquelas páginas cheias de memórias até chegar á última. Nela, estava uma melodia inacabada que nunca tinha visto. Provavelmente composta enquanto dormia entre espetáculos ou na sala do piano, depois de um dia de treino. Adormecia no sofá e a mãe tapava-a com o xaile. Ficava a tocar um pouco mais e depois levava-a para a cama.

O título estava escrito por cima Sonata da Rosa Branca. Era mesmo a cara dela, dar nomes peculiares às coisas e às pessoas. O seu nome viera-lhe num sonho durante uma viagem a Paris.

Do meio das folhas, uma soltou-se. Apanhou-a antes de tocar no chão. Podia ter as mãos trémulas, mas ainda tinha bons reflexos. Estava dobrada como uma carta e tinha o seu nome. Era mais recente que o resto, o papel estava mais claro. Desdobrou-o e reconheceu a letra da mãe como, aliás, estava em todo o caderno.

 

Minha querida filha,

Se estás a ler, isto é, porque eu já não posso estar contigo ou então simplesmente encontraste-a por acaso.

De qualquer maneira, o importante é que tenhas esta carta.

Deixo este caderno ao teu cuidado para que não te esqueças nunca das nossas aventuras.

Se vires na última página, está uma melodia inacabada que era para ter sido tocada no teu dia de anos por nós as duas tal como antes. Para o caso de não acontecer, conto contigo para a acabares e tocares nesse dia em nossa homenagem.

Não desesperes! Lembra-te que através da música, vou estar sempre contigo e com a Kari. Vocês são o meu maior tesouro.

Cuida bem de todos

Beijo da mãe que vos adora,

Carolina Heart

 

Quando acabou de ler, Voxy estava lavada em lágrimas e caída de joelhos ao pé do banco. O caixote espalhara-se por ali. Pousou a carta e apanhou as coisas de volta para o caixote. A missão que a mãe lhe confiara era grande demais para ela levar a cabo sozinha, mas com a ajuda certa, tinha a certeza que conseguia.

 

A meio do dia, o telemóvel de Estefânia tocou. Atendeu. Do outro lado, ouviu a voz de Carlos. «Como te está a correr o dia?» Perguntou. «Espero que não tenhas ficado chateada com o bilhete, mas realmente não te quis acordar.» Fez uma pausa e voltou a perguntar: «Está muito barulho, estás a ver televisão ou está aí alguém contigo? Se for a Carla manda-lhe cumprimentos.» Ela respondeu com um tom de satisfação e desafio. Adorava provocá-lo.

- Nem uma coisa nem outra, até porque não estou em casa. Resolvi voltar ao trabalho e estou a almoçar com a Carla. –

Durante uns segundos, não ouviu nada. Deu uma risadinha. Quando o voltou a ouvir, parecia que a voz lhe soava aliviada e preocupada: «Ok, então, espero, mais uma vez que te corra bem o dia. Vemo-nos em casa.»

Depois de pousar o telemóvel em cima da mesa do restaurante, Estefânia soltou uma gargalhada sonora. Há mui tempo que não provocava Carlos e era bom de vez em quando. Carla estava espantada com a audácia da amiga, mas não deixou de ter piada.

O resto do dia decorreu sem grandes sobressaltos. Não voltou a receber mais telefonemas do marido e ela também não se atreveu a ligar-lhe.

 

Estava sentada ao computador a escrever um relatório de um processo para entregar em tribunal quando Carla bateu à porta.

Sentou-se na cadeira em frente à secretária de Estefânia.

- Então? – Perguntou hesitante – Não voltou a ligar? –

Estefânia respondeu num tom sarcástico, sem tirar os olhos do ecrã.

- Não. Porquê, devia? –

Carla ripostou:

- Como não? Só hoje é que regressaste ao trabalho! E não lhe disseste nada! –

Estefânia levantou os olhos e disse:

- Nunca fiz questão de o anunciar! Foi uma decisão do momento! E ele não manda em mim! –

Não perguntou mais nada. Saiu e deixou a amiga trabalhar.

Saiu do quarto com o caderno nos braços. Percorreu o corredor até às escadas. À medida que caminhava, um brilho ia-se formando nos olhos. Não sentia aquele entusiasmo desde as digressões e o recital na escola.

Desceu as escadas e foi ao encontro de Kari que estava na sala de estar. Aproximou-se timidamente. Sentou-se perto dela e disse com voz firme, que a assustou ligeiramente:

- Tenho algo para te contar. –

Kari olhou-a e Voxy acrescentou:

 - Encontrei um caderno da mãe. –

Kari perguntou secamente:

 - E o que tem de especial? –

 

Voxy ia responder, mas Kari interrompeu-a:

- Lembrei-me agora. A avó telefonou. Quer vir cá desculpar-se. –

 

Voxy ficou surpreendida. Esboçou um sorriso forçado para disfarçar o desconforto.

- Muito bem. Podes recebê-la. Já sabes o que penso. –

 

Kari olhou para ela atrapalhada.

- Desculpa por ter interrompido, de certeza que querias dizer-me algo importante, mas agora quero concentrar-me na visita da avó. Fica para outra altura se não te importares. –

 

Voxy disse apenas:

- Está bem, não te preocupes. –

 

Levantou-se e voltou para o quarto com o caderno.

 

Quando Estefânia chegou a casa, encontrou Carlos sentado na poltrona com um ar de poucos amigos. Aproximou-se timidamente e ele disse:

 

- Precisamos de falar. –

 

Carlos tinha um ar sério. Estefânia nunca o tinha visto assim. Parecia que a qualquer momento lhe ia dizer alguma coisa grave. Sentou-se no sofá ao lado, quase por instinto. Tentou um dos seus sorrisos que conseguiam aliviar qualquer ambiente desconfortável, mas a expressão dele não se alterou. Quebrou o silêncio:

 

- Estefânia, queres dizer-me porque tomaste a decisão de voltar ao trabalho sem falar comigo? –

Ela respondeu:

- Como te disse, foi uma decisão do momento! Estava farta de estar em casa. – Acrescentou: - E tu? Que ideia foi aquela do bilhete e do telefonema? Nunca telefonas! Se calhar, foi a consciência que te pesou! –

 

Carlos ficou atrapalhado com a pergunta, mas respondeu mantendo a calma:

- Também foi algo do momento. Como tinha ido embora à pressa, resolvi telefonar para saber se estava tudo bem e, pelos vistos, estava. –

 

Gonçalo chegou quando Estefânia ia ripostar. Ficou admirado de os ver ali.

- Pensava que tinham saído ou que estavam no quarto. Ultimamente, andam tão próximos. – Comentou.

 

Estefânia ia responder, mas Carlos impediu-a. Gonçalo foi para o quarto e ela foi para a cozinha preparar o jantar. Carlos ficou na sala.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.


 

 

 

 


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