segunda-feira, 14 de abril de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 7

 Olá

Aqui fica o capitulo desta semana.

Espero que gostem. 

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VII

Nessa noite, Bertha mandou preparar o quarto para Odete. As suas coisas seriam entregues mais tarde. Ficou no quarto ao lado do dos pais, por opção, apesar de Voxy insistir para que ficasse no dos pais. Odete não quis que a memória deles fosse desrespeitada. 

Depois de instalada, Odete desceu para jantar com as netas. A refeição decorreu normalmente, ainda assim não deixava de ser diferente, já que as raparigas estavam habituadas a ter só Bertha como companheira. 

A seguir, Kari retirou-se e deixou Voxy propositadamente sozinha com a avó. Aquele momento era importante, apesar de haver ainda alguns constrangimentos por parte de Voxy. Saíram da sala de jantar e foram para a sala de estar. No caminho, passaram rapidamente pela sala do piano, o que deixou Voxy desconfortável. Odete notou, mas não disse nada, não a queria constranger ainda mais, já bastava o que se passara na sua casa.

Sentaram-se perto uma da outra. Voxy olhou-a com um ar vazio, mas quase suplicante com se houvesse outra Voxy que quisesse sair, mas não conseguisse. Quebrou o silêncio:

- Está uma noite agradável.- 

A avó respondeu:

- Sim. De facto. Embora esteja um pouco de frio.- 

Voxy esboçou um sorriso. Estava a forçar uma conversa e isso deixava-a desconfortável. Queria sair dali, mas não tinha uma desculpa credível. Odete voltou a falar:

- Já deves saber da conversa que tive com a Kari, por isso não me vou repetir.- Acrescentou: - Não precisas de conviver comigo se não quiseres. Esta casa é grande o suficiente para mantermos a distância sempre que possível. Aliás, se quiseres sair podes fazê-lo.- 

Voxy estava incrédula. Não fora no calor do momento como a avó estava a insinuar. Queria genuinamente a sua companhia e esclarecer os mal-entendidos. Nesse momento, sentiu que devia uma explicação sobre o que se passara na casa dela. Sabia que avó não lhe ia cobrar, mas mesmo assim decidiu contar. 

- Acho que devemos esclarecer algumas coisas para que a nossa convivência seja a melhor possível.- 

Odete concordou. Voxy prosseguiu:

- Depois do acidente, desenvolvi uma espécie de fobia ao piano e à música em geral. Como se eles fossem algo maligno. Mas parece que sou puxada por eles. - Acrescentou: - Quero com isto dizer que foi por isso que saí daquela maneira na visita e peço desculpa. Apesar dos esforços dos últimos anos, não tem sido fácil, mas tenho a certeza de que, com a ajuda de todos, vou conseguir ultrapassar esta situação.- 

Odete assentiu. 

- É muito natural que te sintas assim. Afinal, foi um acidente muito grave, mas penso que não foi só isso que te afetou. A perda dos teus pais, especialmente da tua mãe, e a tua doença foram determinantes.- 

As lágrimas começaram a cair pela face de Voxy sem que tivesse tempo de se justificar. As mãos tremiam-lhe ligeiramente. Odete levantou-se e abraçou-a. Voxy retribuiu. Os olhos húmidos mancharam a camisa da avó quando encostou a cabeça no seu peito. 

...

Estefânia acordou na manhã seguinte como se tivesse saído de uma anestesia. Os últimos dias pareceram-lhe tão surreais que era difícil acreditar que realmente tinham existido. Aos poucos, estava a voltar ao que era. Uma mulher forte e determinada que enfrenta qualquer adversidade para proteger a sua família. Sempre fora assim. Herdara essa perseverança do pai. Por vezes, ainda sentia a sua presença a dar-lhe força juntamente com Clara. 

Despertou dos seus pensamentos e preparou-se para mais um dia. 

...

Voxy acordou a sentir-se leve. Talvez o retomar da relação com a avó lhe tenha feito bem. Levantou-se e abriu as cortinas para deixar entrar a luz. Abriu as portadas e saiu para a varanda, mesmo sabendo que lhe podia fazer mal, não se importou. Já não o fazia há muito tempo. O chão estava quente, sentiu-se confortável. Ainda podia sentir os braços da avó a apertá-la contra o peito. Sorriu. Inspirou o ar fresco da manhã antes de voltar para o quarto e arranjar-se para mais um dia. 

Desceu as escadas e caminhou na direção da sala de refeições onde esperava encontrar a avó e Kari. Em vez disso, foi encontrá-las no jardim. Foi ao quarto buscar um chapéu e voltou para as cumprimentar. Aproximou-se timidamente. Elas sorriram quando a viram. 

- Bom dia.- Disse. 

A avó respondeu: 

- Bom dia, minha querida. Senta-te e come qualquer coisa connosco.- 

Sentou-se e desfrutou do belo dia de sol.

...

Ao chegar ao escritório, Estefânia encontrou Carla no seu gabinete. Algo raro, normalmente só em casos complicados é que recorria às informações guardadas no arquivo, mas agora não parecia ser o caso. Estava com um ar sério e não tinha mexido em nada. Entrou e fechou a porta. Perguntou:

- O que se passa? Porque estás aqui? Se é por causa dos arquivos, já sabes que podes consultar à vontade. És tão dona como eu.- 

Carla agarrou-lhe nas mãos. Sentaram-se. Estefânia estranhou. 

- Aconteceu alguma coisa? Estou a começar a ficar assustada!- 

Carla hesitou um pouco antes de falar:

- Bom...pode não ser de grave, mas...-

Estefânia estava a ficar irritada. Agarrou-lhe nos ombros.

-Diz de uma vez!- 

Carla balbuciou:

- A tua mãe...- 

Estefânia arregalou os olhos. O assunto era mesmo sério. 

-O que tem a minha mãe? Diz!- 

Carla deixou-se de rodeios:

- A tua mãe foi para o hospital, parece que sofreu um acidente. Isto é tudo o que sei.- 

Estefânia ficou em choque. Sem pensar, levantou-se e saiu apressada. 

...

Depois do pequeno almoço, voltaram para casa. Voxy já apanhara sol suficiente. Odete pediu a Kari que a deixasse a sós com Voxy. Foram andando para a sala de estar, a avó tinha algo para lhe dizer. 

Já na sala de estar, sentaram-se em frente uma à outra. Odete tinha uma expressão séria. Estava lá há quase uma semana e a sua expressão tentava ser alegre para não a desanimar. mas Voxy sabia e sentia que havia qualquer coisa que não estava bem. Tinha tido algumas crises passageiras que eram rapidamente resolvidas com comprimidos e descanso. A seguir a cada uma delas, apanhava a avó e Kari aos cochichos na sala. Calavam-se sempre que ela entrava. Agora, precisava de saber o que se passava. 

- Durante estes dias, estive a falar com a Kari e chegámos á conclusão que sozinhas não te vamos conseguir ajudar.- Acrescentou:- Por esse motivo, achei melhor chamar a Dra Felícia Jones. Já a conheces, pois estiveste com ela na Suíça.-

Voxy não estava surpreendida. 

- Se sabes tudo isso, então também deves saber como as coisas correram lá! Aceito a ajuda, mas não sei se vai adiantar de muito.- 

Levantou-se e aproximou-se da porta. De repente, vários flaches de memórias passaram-lhe pela mente. Via a mãe sentada ao piano com o caderno de notas aberto, o pai e Kari. Todos a sorrir enquanto tocava uma doce melodia. Depois, a escuridão total. Luzes fortes no vazio, cada vez mais fundo, até que uma voz a fez regressar à realidade. Voxy

Acordou nesse momento. Odete e Kari estavam a seu lado. Suava por todos os lados e respirava aceleradamente e com alguma dificuldade como se tivesse acabado de ter um pesadelo. Olhou confusa para a irmã e para a avó que tinha um ar preocupado. 

- O que aconteceu?- Perguntou com a voz fraca. 

Odete respondeu:

- Levantaste-te bruscamente e foste para a porta. Tiveste uma tontura quando ias a sair e desmaiaste. Fui chamar Kari para me ajudar a trazer-te para o sofá. Ela ainda quis chamar um médico, mas acordaste e não foi preciso.- 

Voxy tentou levantar-se, mas teve outra tontura e desistiu. Olhou para as duas. 

-Levem-me para o quarto.- 

Odete e Kari ajudaram-na a levantar-se. Percorreram o corredor até às escadas. Subiram devagar e, já no quarto, deitaram-na na cama. Deixaram-na descansar e voltaram para a sala. 

Quando Bertha chamou para almoçar, apenas Odete e Kari apareceram. Acabaram de comer e Odete subiu para ver como estava Voxy, Kari quis acompanhá-la mas a avó achou melhor não haver muita gente. Entrou no quarto devagar. Voxy estava sentada perto da janela a olhar para o jardim. A luz do sol fazia com que as faces pálidas brilhassem. 

Odete aproximou-se e sentou-se na borda da cama. Voxy olhou-a e sorriu. 

- Então, como te sentes?- 

Voxy respondeu:

- Já estou melhor. Acho que apanhei sol a mais, foi só isso.- 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.  

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