sexta-feira, 11 de abril de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 6

 Olá 

Fica o capitulo desta semana. 

Espero que gostem. 

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VI

O resto do dia de Voxy, depois de se vestir, foi passado a ler os apontamentos da mãe. Ficou tão absorta na leitura que nem se apercebeu que já era noite e hora de jantar. Não lhe apetecia descer, Bertha levou-lhe qualquer coisa para comer ao quarto. 

Depois de comer, Kari subiu para ver como estava. Foi encontrá-la no banco junto à janela a olhar para o jardim com o caderno no colo. o seu olhar parecia perdido bem como os seus pensamentos. Muita coisa lhe passava agora pela cabeça. Memórias que achava perdidas ou trancadas voltavam devagar a ocupar espaço na sua mente e coação. 

Virou a cabeça para o lado e até se assustou quando viu Kari sentada a seu lado. Agarrou-lhe nas mãos quase por instinto. Sentiu-as quentes, pela primeira vez. 

- Então, vieste pedir desculpa por me teres ignorado?- Perguntou Voxy. - Eu sei que não devia ter sido tão bruta mas às vezes não meço as palavras. - 

 Kari sorriu. 

- Não te preocupes, está tudo bem. Já aprendi a lidar com o teu feitio depois do acidente. Eu é que me entusiasmei e nem liguei ao que querias contar.- 

Voxy respondeu:

- Fui ao quarto dos pais e encontrei um caderno com notas da mãe e uma composição começada por ela.- Continuou:

- A acompanhar, estava uma carta dirigida a mim onde me pede para a acabar. Basicamente, é como uma missão. terminar a melodia e apresentá-la no palco no dia do meu aniversário.- 

Com algumas lágrimas nos olhos, concluiu:

- Mas como posso cumpri-la? Se cada vez que me aproximo do piano, as mãos tremem-me?- 

Kari abraçou-a. Voxy chorava compulsivamente. Acabou por lhe sussurrar ao ouvido: « Vai correr tudo bem. Estou aqui para te apoiar.» 

...

O segundo dia de Estefânia no escritório foi mais atarefado do que o costume. Os processos tinham-se acumulado durante a sua ausência. O primeiro dia foi só um teste para se readaptar ao trabalho e à rotina, agora é que se dava conta daquilo que tinha para fazer. Era preciso dar seguimento a todos os processos, felizmente nenhum era para ser enviado para tribunal. Dos recentes, porque os antigos eram todos para arquivar. 

Não pôde almoçar com Carla no restaurante porque o trabalho era muito e não podia esperar. Por isso, comeram qualquer coisa rápida na cafetaria. 

Estefânia sentia-se feliz e leve como há muito tempo não se via. Até Carla estava feliz e admirada pela amiga. 

...

A visita da avó estava agendada para depois do almoço pelo que durante a manhã. Voxy mostrou a Kari o caderno e a carta da mãe.  

- O que achas?- Perguntou. 

Kari respondeu:

- Parece-me um pouco triste, mas ao mesmo tempo, é bonita.- 

Voxy também concordava. Era como se fosse uma despedida da mãe para elas. 

Desceram para almoçar. 

...

Depois do almoço, Estefânia reuniu-se com alguns clientes cujos processos estavam em tribunal para deliberar a estratégia de defesa. A sessão estava marcada para daí a alguns dias mas ainda tinham tempo. O processo era complexo e exigia a máxima atenção por parte das advogadas mas Estefânia sentia-se preparada. Treinara durante muito tempo e aprendera com os melhores por isso só podia correr bem. Para além disso, tinha Carla a seu lado o que lhe dava ainda mais confiança. 

...

Odete chegou depois do almoço como tinham combinado. Bertha indicou-lhe a sala de estar onde estava Kari. Voxy estava no quarto e não queria descer. 

Sentaram-se nas poltronas e Bertha preparou-lhes um chá. Kari olhou para a avó com um ar curioso. Diferente do que tivera quando foi a casa dela. Ainda assim, o ambiente era constrangedor. Quebrou o silêncio:

- Espero que esteja tudo do seu agrado.- 

Odete respondeu:~

- Sim. obrigada.- 

Kari sorriu ligeiramente. Se calhar Voxy tinha razão e não tinha sido boa hora receber a avó. 

...

Quando Estefânia chegou a casa, foi encontrar Gonçalo e Carlos na cozinha. Ficou admirada porque Gonçalo costumava estar no quarto àquela hora. 

-Olá- Cumprimentou. - Não sabia que agora cozinhavas.- 

Carlos ripostou:

- Não sei qual é o espanto se ainda no fim de semana cozinhei!- 

Estefânia sorriu.

- Não estava a falar de ti mas do teu ajudante.- 

Gonçalo corou.

- Só estou aqui porque o pai insistiu.- Disse em sua defesa.

Estefânia sorriu enquanto pousava as suas coisas e ajudava a pôr a mesa. 

Depois do jantar, a família voltou a reunir-se na sala de estar. Passado um bocado, Gonçalo retirou-se. Estefânia olhou timidamente para Carlos que não desviou os olhos do ecrã da televisão. O silêncio, apenas interrompido pelo som do aparelho, era sufocante. Desde que voltara a trabalhar que mal se falavam. A ultima vez que algo assim acontecera foi depois do acidente e durante a estadia em casa de Maria Hortense. Pensava que estavam a voltar depois do fim de semana mas parecia que não. 

A série terminou e Carlos foi para o quarto. Estefânia ainda ficou mais um pouco. Esperou que ele viesse chama-la mas isso não aconteceu. Conformada, levantou-se apagou a luz e subiu para a casa de banho. Depois de se arranjar, entrou no quarto. Carlos dormia tão profundamente que nem se apercebeu quando ela se deitou. Adormeceu pouco depois.

...

Kari voltou a falar:

- Bem...- Começou hesitante.  

Odete sorriu. 

- Não precisas de forçar uma conversa se não quiseres.- 

Olhou para o jardim. 

- Porque não mudamos de sítio? Este parece-me fechado demais e acho que precisamos de um pouco de sol. Além disso, preciso de te contar uma coisa e penso que seja o sítio mais indicado.- 

Kari sorriu timidamente. 

Saíram da sala para o jardim. Já era quase pôr do sol. Sentaram-se num banco. Odete inspirou o ar fresco. Voltou a sorrir desta vez com mais intensidade. Kari retribuiu, sentia-se alegre e despreocupada por um momento. Fê-la lembrar os tempos de criança em que costumava brincar com Voxy naquele jardim. Olhou timidamente para a avó. Esta sorriu-lhe. Ela corou. Depois, Odete voltou a quebrar o silêncio:

- Sabes, sempre gostei deste jardim.- Começou.- Quando a tua mãe comprou esta casa, eu ajudei a decorar mas a maior parte foi ela que acrescentou.- Continuou:- A tua mãe sempre teve gostos muito peculiares e não era só na decoração.- Levantou-se, foi ao pé da piscina. 

-Quando soube que estava grávida foi a maior alegria mas também preocupação por causa da doença.- Voltou a sentar-se e prosseguiu:

- Depois, a tua irmã nasceu e disseram-lhe que nunca mais podia ter filhos. Foi um grande choque para todos mas especialmente para o teu avô. - 

Entretanto, Voxy, farta de estar no quarto e com alguma curiosidade, sobre como estava a correr a visita, entreabriu a porta e apanhou parte da conversa. Fico à escuta.

Lá em baixo, depois de voltarem para dentro, Odete e Kari continuaram a conversa:

- O teu avô ficou muito triste por não poder ter mais netos de sangue. Para ele, os filhos tinham de ser biológicos para serem legítimos, por isso quando a tua mãe lhe disse que ia adoptar, ele ficou em choque, Discutiram imenso nesse dia. Cortou relações com a tua mãe e impediu que eu estivesse presente quando tu chegaste.- 

Kari tinha lágrimas nos olhos. Lá em cima, Voxy também começara a chorar.

Odete acrescentou:

- Depois da morte do teu avô, eu quis aproximar-me de vocês mas os teus pais quiseram ir para Nova Iorque. ainda vos tentei contactar, mas nunca consegui. Diziam que estavam ocupados e que tentasse mais tarde ou noutro dia.- 

Também tinha lágrimas nos olhos.

-Por fim, quando voltaram, eu soube do recital da tua irmã e estive lá a aplaudir, embora ninguém tenha reparado. Depois, deu-se o acidente e ainda fui ao hospital mas como nunca me identifiquei como familiar, não me deixaram ver-vos. Eu queria estar lá para vos apoiar mas ainda me sentia impedida por aquela condição do teu avô! Enquanto estiveram na Suíça, eu recomendei a terapeuta para vos tentar ajudar mas não deu muito resultado. Recebia os relatórios todos os dias a contar a situação grave em que Voxy se encontrava. Mas uma coisa é o que está escrito no papel outra coisa é ver com os nossos olhos. E aquilo que vi na minha casa foi alguém que precisava de apoio e compreensão mas também carinho e afeto.- 

A emoção não a deixou continuar. Levantou-se e foi para a porta. 

Quando estava a ir embora, Voxy apareceu no cimo das escadas. Desceu meio atrapalhada, tropeçando nos últimos degraus e caiu. Levantou-se em lágrimas e abraçou a avó com toda a força. Deixou todas a formalidades de lado naquele momento. Era só uma neta a implorar para uma avó ficar pois precisava dela. 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

 


 

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