Olá
Fica o capitulo desta semana.
Espero que gostem.
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VI
O resto do dia de Voxy, depois de se vestir, foi passado a ler os apontamentos da mãe. Ficou tão absorta na leitura que nem se apercebeu que já era noite e hora de jantar. Não lhe apetecia descer, Bertha levou-lhe qualquer coisa para comer ao quarto.
Depois de comer, Kari subiu para ver como estava. Foi encontrá-la no banco junto à janela a olhar para o jardim com o caderno no colo. o seu olhar parecia perdido bem como os seus pensamentos. Muita coisa lhe passava agora pela cabeça. Memórias que achava perdidas ou trancadas voltavam devagar a ocupar espaço na sua mente e coação.
Virou a cabeça para o lado e até se assustou quando viu Kari sentada a seu lado. Agarrou-lhe nas mãos quase por instinto. Sentiu-as quentes, pela primeira vez.
- Então, vieste pedir desculpa por me teres ignorado?- Perguntou Voxy. - Eu sei que não devia ter sido tão bruta mas às vezes não meço as palavras. -
Kari sorriu.
- Não te preocupes, está tudo bem. Já aprendi a lidar com o teu feitio depois do acidente. Eu é que me entusiasmei e nem liguei ao que querias contar.-
Voxy respondeu:
- Fui ao quarto dos pais e encontrei um caderno com notas da mãe e uma composição começada por ela.- Continuou:
- A acompanhar, estava uma carta dirigida a mim onde me pede para a acabar. Basicamente, é como uma missão. terminar a melodia e apresentá-la no palco no dia do meu aniversário.-
Com algumas lágrimas nos olhos, concluiu:
- Mas como posso cumpri-la? Se cada vez que me aproximo do piano, as mãos tremem-me?-
Kari abraçou-a. Voxy chorava compulsivamente. Acabou por lhe sussurrar ao ouvido: « Vai correr tudo bem. Estou aqui para te apoiar.»
...
O segundo dia de Estefânia no escritório foi mais atarefado do que o costume. Os processos tinham-se acumulado durante a sua ausência. O primeiro dia foi só um teste para se readaptar ao trabalho e à rotina, agora é que se dava conta daquilo que tinha para fazer. Era preciso dar seguimento a todos os processos, felizmente nenhum era para ser enviado para tribunal. Dos recentes, porque os antigos eram todos para arquivar.
Não pôde almoçar com Carla no restaurante porque o trabalho era muito e não podia esperar. Por isso, comeram qualquer coisa rápida na cafetaria.
Estefânia sentia-se feliz e leve como há muito tempo não se via. Até Carla estava feliz e admirada pela amiga.
...
A visita da avó estava agendada para depois do almoço pelo que durante a manhã. Voxy mostrou a Kari o caderno e a carta da mãe.
- O que achas?- Perguntou.
Kari respondeu:
- Parece-me um pouco triste, mas ao mesmo tempo, é bonita.-
Voxy também concordava. Era como se fosse uma despedida da mãe para elas.
Desceram para almoçar.
...
Depois do almoço, Estefânia reuniu-se com alguns clientes cujos processos estavam em tribunal para deliberar a estratégia de defesa. A sessão estava marcada para daí a alguns dias mas ainda tinham tempo. O processo era complexo e exigia a máxima atenção por parte das advogadas mas Estefânia sentia-se preparada. Treinara durante muito tempo e aprendera com os melhores por isso só podia correr bem. Para além disso, tinha Carla a seu lado o que lhe dava ainda mais confiança.
...
Odete chegou depois do almoço como tinham combinado. Bertha indicou-lhe a sala de estar onde estava Kari. Voxy estava no quarto e não queria descer.
Sentaram-se nas poltronas e Bertha preparou-lhes um chá. Kari olhou para a avó com um ar curioso. Diferente do que tivera quando foi a casa dela. Ainda assim, o ambiente era constrangedor. Quebrou o silêncio:
- Espero que esteja tudo do seu agrado.-
Odete respondeu:~
- Sim. obrigada.-
Kari sorriu ligeiramente. Se calhar Voxy tinha razão e não tinha sido boa hora receber a avó.
...
Quando Estefânia chegou a casa, foi encontrar Gonçalo e Carlos na cozinha. Ficou admirada porque Gonçalo costumava estar no quarto àquela hora.
-Olá- Cumprimentou. - Não sabia que agora cozinhavas.-
Carlos ripostou:
- Não sei qual é o espanto se ainda no fim de semana cozinhei!-
Estefânia sorriu.
- Não estava a falar de ti mas do teu ajudante.-
Gonçalo corou.
- Só estou aqui porque o pai insistiu.- Disse em sua defesa.
Estefânia sorriu enquanto pousava as suas coisas e ajudava a pôr a mesa.
Depois do jantar, a família voltou a reunir-se na sala de estar. Passado um bocado, Gonçalo retirou-se. Estefânia olhou timidamente para Carlos que não desviou os olhos do ecrã da televisão. O silêncio, apenas interrompido pelo som do aparelho, era sufocante. Desde que voltara a trabalhar que mal se falavam. A ultima vez que algo assim acontecera foi depois do acidente e durante a estadia em casa de Maria Hortense. Pensava que estavam a voltar depois do fim de semana mas parecia que não.
A série terminou e Carlos foi para o quarto. Estefânia ainda ficou mais um pouco. Esperou que ele viesse chama-la mas isso não aconteceu. Conformada, levantou-se apagou a luz e subiu para a casa de banho. Depois de se arranjar, entrou no quarto. Carlos dormia tão profundamente que nem se apercebeu quando ela se deitou. Adormeceu pouco depois.
...
Kari voltou a falar:
- Bem...- Começou hesitante.
Odete sorriu.
- Não precisas de forçar uma conversa se não quiseres.-
Olhou para o jardim.
- Porque não mudamos de sítio? Este parece-me fechado demais e acho que precisamos de um pouco de sol. Além disso, preciso de te contar uma coisa e penso que seja o sítio mais indicado.-
Kari sorriu timidamente.
Saíram da sala para o jardim. Já era quase pôr do sol. Sentaram-se num banco. Odete inspirou o ar fresco. Voltou a sorrir desta vez com mais intensidade. Kari retribuiu, sentia-se alegre e despreocupada por um momento. Fê-la lembrar os tempos de criança em que costumava brincar com Voxy naquele jardim. Olhou timidamente para a avó. Esta sorriu-lhe. Ela corou. Depois, Odete voltou a quebrar o silêncio:
- Sabes, sempre gostei deste jardim.- Começou.- Quando a tua mãe comprou esta casa, eu ajudei a decorar mas a maior parte foi ela que acrescentou.- Continuou:- A tua mãe sempre teve gostos muito peculiares e não era só na decoração.- Levantou-se, foi ao pé da piscina.
-Quando soube que estava grávida foi a maior alegria mas também preocupação por causa da doença.- Voltou a sentar-se e prosseguiu:
- Depois, a tua irmã nasceu e disseram-lhe que nunca mais podia ter filhos. Foi um grande choque para todos mas especialmente para o teu avô. -
Entretanto, Voxy, farta de estar no quarto e com alguma curiosidade, sobre como estava a correr a visita, entreabriu a porta e apanhou parte da conversa. Fico à escuta.
Lá em baixo, depois de voltarem para dentro, Odete e Kari continuaram a conversa:
- O teu avô ficou muito triste por não poder ter mais netos de sangue. Para ele, os filhos tinham de ser biológicos para serem legítimos, por isso quando a tua mãe lhe disse que ia adoptar, ele ficou em choque, Discutiram imenso nesse dia. Cortou relações com a tua mãe e impediu que eu estivesse presente quando tu chegaste.-
Kari tinha lágrimas nos olhos. Lá em cima, Voxy também começara a chorar.
Odete acrescentou:
- Depois da morte do teu avô, eu quis aproximar-me de vocês mas os teus pais quiseram ir para Nova Iorque. ainda vos tentei contactar, mas nunca consegui. Diziam que estavam ocupados e que tentasse mais tarde ou noutro dia.-
Também tinha lágrimas nos olhos.
-Por fim, quando voltaram, eu soube do recital da tua irmã e estive lá a aplaudir, embora ninguém tenha reparado. Depois, deu-se o acidente e ainda fui ao hospital mas como nunca me identifiquei como familiar, não me deixaram ver-vos. Eu queria estar lá para vos apoiar mas ainda me sentia impedida por aquela condição do teu avô! Enquanto estiveram na Suíça, eu recomendei a terapeuta para vos tentar ajudar mas não deu muito resultado. Recebia os relatórios todos os dias a contar a situação grave em que Voxy se encontrava. Mas uma coisa é o que está escrito no papel outra coisa é ver com os nossos olhos. E aquilo que vi na minha casa foi alguém que precisava de apoio e compreensão mas também carinho e afeto.-
A emoção não a deixou continuar. Levantou-se e foi para a porta.
Quando estava a ir embora, Voxy apareceu no cimo das escadas. Desceu meio atrapalhada, tropeçando nos últimos degraus e caiu. Levantou-se em lágrimas e abraçou a avó com toda a força. Deixou todas a formalidades de lado naquele momento. Era só uma neta a implorar para uma avó ficar pois precisava dela.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
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