terça-feira, 29 de abril de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 9

 Olá

Fica o capitulo desta semana. 

Espero que gostem. 

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IX

As consultas começavam cedo. Felícia vinha sempre depois do pequeno almoço para não atrapalhar as rotinas. Voxy sentia-se cada vez mais segura. Era alguém que conseguia compreendê-la melhor que a irmã ou a avó, ainda que fosse paga para isso. 

Num desses dias, Felícia sugeriu:

- E se começássemos os passeios? Parece-me que já está na altura de sair um pouco.- 

Voxy respondeu:

- Está bem.- 

Pôs o chapéu e um pouco de protetor antes de saírem. Felícia estava a par da condição da paciente. Sabia que as saídas tinham de ser controladas e não podiam durar mais que o necessário ou Voxy ficaria com tonturas e isso podia atrapalhar o tratamento. Foram para o jardim da casa para começar. Sentia-se mais leve. Antes do acidente, costumava sair bastante com a mãe e Kari, mas, ultimamente, nunca lhe apetecia ou apetecia-lhe pouco. Fora algumas vezes á varanda do quarto, mas não era a mesma coisa. Gostava de olhar para as plantas e flores, sentir a brisa por inteiro a acariciar-lhe a face.  Desde a temporada na Suíça, que não fazia algo assim. Agora, aquela simples ida ao jardim parecia fazer-lhe bem. 

...

A recuperação de Maria Hortense estava a ir melhor que o esperado. Embora os médicos estivessem optimistas, Estefânia não deixava de se preocupar. 

Os dias de Estefânia eram divididos entre o trabalho e os cuidados com a mãe. Andava mais cansada, mas feliz. Não se lembrava da última vez que tivera a família junta. Talvez num Natal longínquo. 

Depois disso, só na temporada que passaram em casa da mãe. Mas nessa altura a distância tornou-se maior. Agora, os laços pareciam estar a voltar e isso deixava-a mais tranquila. 

...

Depois da ida ao jardim, Voxy parecia ter ganho um novo fôlego. Estava mais satisfeita e tinha uma expressão mais tranquila e confiante. Voxy deteve-se junto à porta da sala do piano como se esperasse que Felícia dissesse alguma coisa. Como não disse nada, apesar de perceber a mensagem, seguiram para o quarto. 

O resto do dia foi passado a falar sobre trivialidades. Voxy sentia-se mais segura, mas não o suficiente para voltar à música. Felícia sabia que essa etapa ainda estava longe e não quis apressar. Tinha de a deixar ir ao seu ritmo. 

...

 Passados alguns meses de ter estado em casa da filha, Maria Hortense regressou à sua casa, prometendo vir visitá-los mais vezes e que Abel estaria sempre por perto, caso acontecesse alguma coisa e Estefânia seria a primeira a saber. 

...

A terapia com Felícia estava a dar resultado. Aos poucos, Voxy foi ganhando mais vitalidade. Os passeios pela cidade faziam-lhe bem. Gostava de ver as lojas e as pessoas. Algumas até a reconheceram, apesar da roupa escura que nunca fizera questão de tirar. Sentia-se confortável com ela. Durante um desses passeios, até foi às compras como já não acontecia há muito tempo. 

Apenas o medo do piano continuava. Embora houvesse vezes em que lhe dava vontade de entrar na sala sempre que passava à porta. 

Um dia, Felícia perguntou:

- Voxy, gostava de entrar na sala do piano? Só para ver, não precisa de tocar em nada.- 

Hesitou por um momento, a ideia de voltar a um sítio com tantas memórias ainda lhe era difícil, mas acabou por concordar. Foi á porta e Felícia abriu-a. Acendeu a luz e olhou em volta. Aquele lugar trazia-lhe recordações, demasiadas. Umas tristes outras alegres. Era ali que costumava ensaiar com a mãe, mas também foi ali que começaram os receios. 

Na noite antes do funeral dos pais, entrou ali para tocar uma última vez para a mãe. Sentou-se em frente ao piano e, por momentos, este pareceu-lhe maior que o habitual. Gigante até, como se, de repente, fosse criança novamente e ainda não chegasse com os pés ao chão e as mãos às teclas. 

Pousou-as no teclado, estas tocaram automaticamente como se fossem mecânicas. Mal conseguiu ouvir uma nota. Quando, por fim, aquela melodia distorcida terminou, as mãos tremiam-lhe ao ponto de não as conseguir mexer. A partir daquele momento, jurou que nunca mais tocaria piano. No dia seguinte, conservou-as no bolsos do casaco grosso de Inverno que levava naquele dia triste e chuvoso. O dia em que se despediu das duas pessoas que mais amava no mundo. Depois disso, fechou-se na escuridão. 

Agora, sentada no sofá, conseguia ter um ponto de vista diferente. Mais distante. Devia ser assim que Kari se sentia. Passados alguns minutos, saíram. 

 Durante os dias que se seguiram, as visitas à sala do piano eram cada vez mais frequentes. Aos poucos, foi ganhando confiança e já conseguia entrar sem receios, embora ainda não se aproximasse do instrumento. Era como se houvesse uma barreira invisível que ainda tinha de transpor. 

Kari e Odete estavam impressionadas com o progresso. Só faltava voltar a tocar. Isso vai ter de ser ela a querer. Respondia Felícia sempre que Kari lhe perguntava se algum dia a irmã voltaria a tocar. A pressão em cima de Voxy era constante. Não estavam em dificuldades, bem pelo contrário. As empresas herdadas do pai continuavam a dar lucro, apesar de serem geridas por um grupo de advogados e contabilistas contratados logo após o acidente para que elas se concentrassem na recuperação física e emocional do choque e não se preocupassem com os negócios. Era mais social. Toda a gente ansiava por um regresso de Voxy aos palcos, uma jovem artista como ela não podia desparecer. 

...

Entretanto, Estefânia voltava aos tribunais. Era a primeira vez desde o acidente e não podia estar mais nervosa e entusiasmada. O seu cliente estava tão nervoso como ela. Entraram e a sessão começou. No fim, a causa foi ganha e ela estava muito feliz. Finalmente voltara a ser a advogada que todos admiravam e respeitavam. 

...

A recuperação de Voxy não tardou a chegar à fase final. Estava sentada em frente ao enorme piano de cauda. Era a primeira vez desde o acidente que se sentava sem receios. Ainda estava um pouco assustada e as mãos tremiam-lhe, mas tinha de levar até ao fim. A partitura estava pousada no apoio e era a do caderno da mãe. Apenas lhe faltava a parte final. 

Felícia estava a seu lado bem como Kari e a avó, sentadas no sofá. Respirou fundo e pousou as mãos nas teclas. Primeiro, hesitou e algumas notas saíram tímidas, mas depois foi ganhando segurança e até sentia uma energia diferente na sala. Kari nunca tinha ouvido nada tão melodioso. Reparou na expressão de Voxy. Era alegre e até se podia notar um certo brilho nos olhos. Odete também estava encantada. Fez-lhe lembrar a filha nos seus melhores anos. 

Felícia também se mostrou satisfeita e surpreendida. Tinha ouvido falar das habilidades de Voxy, mas vê-la ao vivo era sempre diferente. 

A música terminou, mas a melodia ainda ecoava na sala quando Voxy tirou as mãos das teclas. Era como se tivesse chegado à mãe que, de onde quer que estivesse, ouvira e ficara feliz. Virou-se para Kari e perguntou, trazendo todas para a realidade:

- Então, o que achaste? É só uma primeira ideia para finalizar, mas acho que se encaixa.- 

A irmã sempre tivera um talento nato para a música. Lembrava-se bem das poucas aulas de solfejo e da professora dizer que não precisava de mais, porque a sua noção de ritmo era excepcional. Apesar de tudo o que acontecera, esse talento ou dom, não sabia como chamar, continuavam lá. Era como se tivessem estado adormecidos e começavam lentamente a despertar. Respondeu, depois de um súbito devaneio pelos seus pensamentos:

- Acho que está a ficar muito bem.- 

Felícia e Odete concordaram. Voxy sorriu. Odete perguntou, curiosa:

- E como se chama a peça?- 

Voxy respondeu depois de pensar um pouco:

- Sonata da Rosa Branca.- 

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana. 

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