sexta-feira, 14 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 2

 Olá 

Fica o capítulo desta semana. 

Espero que gostem. 

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II

Kari entrou no quarto e fechou a porta. Sentia-se frustrada, desanimada, humilhada, uma sombra. Desde o acidente que Voxy não olhava para ela da mesma maneira. Já não a achava a rapariga estranha, mas com piada que viera do orfanato naquela tarde de Primavera. A primeira vez que se viram eram apenas crianças à procura de uma sombra no jardim para brincar ou das primeiras notas ao piano.

Sabia que tinha sido insistente nalguns momentos e que isso a poderia ter magoado, mas não fora com má intensão! Até teria sido melhor se tivessem discutido nessa altura. As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara. Procurou um lenço numa das gavetas da mesa de cabeceira e assuou-se. Só queria a irmã de volta. Aquela rapariga sorridente e amável.

Os seus pensamentos foram interrompidos por um leve bater na porta. Limpou as lágrimas e foi ver quem era. Do outro lado, para sua surpresa, estava Voxy. Kari convidou-a a entrar. Tinha uma expressão de culpa. Abraçou-a. Kari retribuiu um pouco confusa já que a irmã se recusava a ser tocada e a tocar.

-Então, como é que ela estava? – Perguntou Carlos. Estefânia estava sentada na cama já vestida para dormir. Respondeu num fio de voz:

- Alegre como sempre, sabes como é. –

Carlos sorriu. Foi até junto da mulher e abraçou-a. Há muito tempo que não tinham momentos íntimos. O acidente apagara essa intensidade, anulara-lhes o desejo. Só viraram dois corpos vazios, mas naquele momento, voltaram a sentir-se. Embalados pela atmosfera suave, o desejo tomou conta deles. Entre beijos e carícias silenciosas, mas pungentes, o amor refloresceu.

Largaram-se. Entraram no quarto e sentaram-se na cama. Kari ainda tinha os olhos inchados e húmidos do choro. Voxy pegou-lhe nas mãos por instinto, fez um esforço para não as largar, sentir outro toque ainda lhe fazia confusão.

Olhou-a no fundo dos olhos como se quisesse ler-lhe a alma. Até aquele momento, tinha sido sempre Kari a consolá-la. Era raro acontecer o contrário. Principalmente depois do acidente. Esta inversão de papéis era estranha, mas ao mesmo tempo, boa. Kari recomeçou a chorar e Voxy voltou a abraçá-la. Apenas repetia mecanicamente os gestos que irmã fazia. Podia sentir o seu corpo contra o dela. Não que alguma vez tivesse sido mais forte, mas era impressionante como tinha emagrecido! Estava mais ossuda e franzina. Mais parecido com o seu.

Voltaram a olhar-se. Voxy engoliu em seco, sem saber o que fazer a seguir. O guião das emoções que conseguira lembrar-se só ia até ali. Resolveu quebrar o silêncio ainda hesitante:

 

- Não quero que sejas a minha sombra. Quero que sejas minha irmã- Respirou fundo – Por isso, se quiseres conhecer a avó ou outra pessoa qualquer. Podes fazê-lo. Não precisas da minha apreciação nem de me levar para todo o lado. Tu podes tomar as tuas próprias decisões. És uma pessoa e tens a tua liberdade. –

Kari limpou as lágrimas.

- Obrigada. – Disse num fio de voz.  – Mas tens a certeza que ficas bem? –

Abraçaram-se antes de se levantarem e Voxy sair. Aquele abraço respondera à sua pergunta.

Depois de uma noite de amor, vem o choque com a realidade. Estefânia não sabia como definir aquele sentimento. Parecia uma adolescente que dormira fora de casa sem a autorização dos pais. Por seu lado, Carlos estava satisfeito, mas também se sentia estranho. Era como se tivessem ficado presos num sonho. Olhou para o lado. O corpo nu meio adormecido da mulher, recostado na almofada tapado com o lençol fino, não lhe deixava dúvidas. A noite anterior existira e fora intensa.

Estefânia virou-se e olhou-o de uma forma carinhosa. Carlos fez-lhe uma festa na cabeça, sorrindo.

- Bom dia, meu amor. – Disse ela. Aproximou-se e beijou-o ternamente.

- Bom dia. – Respondeu Carlos.

 

Levantou-se ainda em êxtase e foi à casa de banho. O marido ficou a observar da cama encantado. Ainda conseguia ser atraente apesar das mazelas.

- O Gonçalo já saiu. – Disse-lhe da porta. – Vi a cama já feita. Ontem tinha dito qualquer coisa sobre ir ter com uns amigos. Que horas são? –

Ultimamente, o filho não parava em casa. Desde o acidente, parecia que andavam a evitar aquele espaço. As memórias da casa deviam estar a sufocá-lo.

Carlos olhou para o relógio na mesa de cabeceira. Marcava 12 horas em ponto. Ficou admirado. Gritou as horas á mulher que também se surpreendeu. Já não dormiam tanto desde os primeiros tempos de trabalho, quando chegavam a casa tarde. Nessa altura, ainda não tinham filhos e tinham mais tempo para eles. Depois, vieram as rotinas e tudo foi adiado. Agora, voltava aos poucos.

Quando saiu da casa de banho, já vinha arranjada. Aproximou-se do marido, que, entretanto, se levantara. Beijou-o e perguntou:

-  O que queres fazer hoje? Estamos só os dois e temos um dia inteiro pela frente. –

Carlos respondeu num tom provocador:

- Hum… vou pensar em algo. –

 

Voxy acordou já o sol ia alto. Sentou-se na cama e olhou em volta. O quarto parecia-lhe mais claro que o habitual. Nem as cortinas grossas conseguiam impedir que alguns fios de luz entrassem. Bateram à porta nesse momento, mas não precisou de se levantar porque Kari a abriu e entrou. Trazia um tabuleiro com o pequeno-almoço. Voxy apressou-se a abrir as cortinas.

- A que se deve tudo isto? Se estás a tentar convencer-me a ir contigo a casa da avó, aviso já que não vou mudar de ideias. – Começou.

Kari sorriu.

- Quis fazer uma surpresa, não posso? Variar as rotinas de vez em quando nunca fez mal a ninguém! –

Não pareceu convencida. Sempre que Kari queria alguma coisa, pedia-o através de comida, como daquela vez em que foram com a mãe ao centro comercial comer um gelado especial e depois a uma loja de roupa barata porque ela queria umas calças iguais a uma colega da escola.

Kari pousou o tabuleiro na cama e ambas começaram a tirar comida. Enquanto comiam, Voxy recordava o tempo da sua infância em que a mãe lhes levava a comida à sala de ensaios, mas, no fim, acabavam sempre as três a comer. Às vezes, até o pai se juntava. Sorriu ao lembrar-se. Kari já não a via sorrir há muito tempo. A última vez foi quando deu um concerto, ainda em dueto com a mãe. Foi a primeira vez que foram em digressão depois de ser adotada. Nunca pensou sentir-se tão feliz, mesmo estando na parte de trás do palco, longe das luzes.

Um sítio onde poucos iam, só os mais próximos dos artistas e ela era uma dessas privilegiadas.

 

Depois do pequeno-almoço, Voxy foi à casa de banho arranjar-se. Enquanto passava a cara por água, pedaços de memória vieram-lhe à cabeça. A água escorria pela pele pálida, terminando em pequenas gotas que pingavam para o lavatório de modo sincronizado. Passou uma toalha depois de fechar a torneira.

Voltou ao quarto. Kari já tinha saído. Terminou de se arranjar. Olhou para a rosa em cima da mesa de cabeceira. Ainda tinha vestígios de manchas amareladas daquele dia. Pegou nela delicadamente. O fecho ainda estava partido. As pétalas estavam desalinhadas e amachucadas. Um flache de memória passou-lhe pela mente de repente. Sentiu uma ligeira tontura. Voltou a pousar a rosa a ajeitou o vestido preto de seda. Desde o acidente, que só vestia preto. Deva-lhe segurança e algum conforto. Refletia o seu coração. Abriu a porta e seguiu descalça pelo corredor.

 

O casal apaixonado aproveitara para passear na baía da cidade. Estava um dia solarengo e quente. Há muito tempo que não passavam um dia assim. Talvez nem se lembrassem da última vez que usara manga curta. Durante 4 anos, escondera os braços e as pernas, com medo de as mostrar, receava que estivessem muito feias, mas Carlos não achava, dissera-lho durante a noite entre beijos e carícias. Estás cada vez mais bonita. Isso era o que todos os maridos diziam para serem agradáveis.

Estavam sentados numa esplanada perto da baía. A brisa do rio vinha acariciar-lhes o rosto, o que disfarçava o calor. Tinham acabado de almoçar e apreciavam a paisagem acompanhados por uma bebida leve e fresca. Aquela pequena fuga da realidade fazia-lhes bem. Precisavam de um tempo só os dois, para refletir e pôr as ideias em ordem, tendo em conta os últimos acontecimentos.

Regressados do passeio, Estefânia e Carlos entraram em casa como dois adolescentes que tiveram o primeiro encontro. Gonçalo estava no quarto a terminar um trabalho para entregar no início da semana. Quando ouviu a porta e os risos que a acompanharam, sorriu. Já era altura de esquecer os problemas e começar a pensar mais na relação.

Concentrou-se no que estava a fazer e, quando terminou, foi ao encontro dos pais.

Foi encontrá-los no sofá abraçados e a rir. Sentou-se na poltrona e ligou a televisão.

- Finjam que não estou aqui. Podem continuar. – Disse entre pequenas risadas.

Os pais olharam- se e coraram. Acharam melhor guardar as intimidades para quando estivessem sozinhos. Estefânia levantou-se para preparar o jantar, mas foi impedida por Carlos.

- Hoje o jantar fica por minha conta. Podes sentar-te e desfrutar da companhia do teu filho. –

Estefânia ficou admirada. Era a primeira vez em muito tempo que o marido se oferecia para fazer o jantar sem ser por causa de uma discussão. Deixou-se ficar no sofá.

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

 

 

 


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