Olá
Fica o capítulo desta semana.
Espero que gostem.
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II
Kari entrou no quarto e fechou a porta. Sentia-se
frustrada, desanimada, humilhada, uma sombra. Desde o acidente que Voxy não
olhava para ela da mesma maneira. Já não a achava a rapariga estranha, mas com
piada que viera do orfanato naquela tarde de Primavera. A primeira vez que se
viram eram apenas crianças à procura de uma sombra no jardim para brincar ou
das primeiras notas ao piano.
Sabia que tinha sido insistente nalguns momentos e que
isso a poderia ter magoado, mas não fora com má intensão! Até teria sido melhor
se tivessem discutido nessa altura. As lágrimas começaram a correr-lhe pela
cara. Procurou um lenço numa das gavetas da mesa de cabeceira e assuou-se. Só
queria a irmã de volta. Aquela rapariga sorridente e amável.
Os seus pensamentos foram interrompidos por um leve
bater na porta. Limpou as lágrimas e foi ver quem era. Do outro lado, para sua
surpresa, estava Voxy. Kari convidou-a a entrar. Tinha uma expressão de culpa.
Abraçou-a. Kari retribuiu um pouco confusa já que a irmã se recusava a ser
tocada e a tocar.
…
-Então, como é que ela estava? – Perguntou Carlos.
Estefânia estava sentada na cama já vestida para dormir. Respondeu num fio de
voz:
- Alegre como sempre, sabes como é. –
Carlos sorriu. Foi até junto da mulher e abraçou-a. Há
muito tempo que não tinham momentos íntimos. O acidente apagara essa
intensidade, anulara-lhes o desejo. Só viraram dois corpos vazios, mas naquele
momento, voltaram a sentir-se. Embalados pela atmosfera suave, o desejo tomou
conta deles. Entre beijos e carícias silenciosas, mas pungentes, o amor
refloresceu.
…
Largaram-se. Entraram no quarto e sentaram-se na cama.
Kari ainda tinha os olhos inchados e húmidos do choro. Voxy pegou-lhe nas mãos
por instinto, fez um esforço para não as largar, sentir outro toque ainda lhe
fazia confusão.
Olhou-a no fundo dos olhos como se quisesse ler-lhe a
alma. Até aquele momento, tinha sido sempre Kari a consolá-la. Era raro
acontecer o contrário. Principalmente depois do acidente. Esta inversão de
papéis era estranha, mas ao mesmo tempo, boa. Kari recomeçou a chorar e Voxy
voltou a abraçá-la. Apenas repetia mecanicamente os gestos que irmã fazia.
Podia sentir o seu corpo contra o dela. Não que alguma vez tivesse sido mais
forte, mas era impressionante como tinha emagrecido! Estava mais ossuda e franzina.
Mais parecido com o seu.
Voltaram a olhar-se. Voxy engoliu em seco, sem saber o
que fazer a seguir. O guião das emoções que conseguira lembrar-se só ia até
ali. Resolveu quebrar o silêncio ainda hesitante:
- Não quero que sejas a minha sombra. Quero que sejas
minha irmã- Respirou fundo – Por isso, se quiseres conhecer a avó ou outra
pessoa qualquer. Podes fazê-lo. Não precisas da minha apreciação nem de me
levar para todo o lado. Tu podes tomar as tuas próprias decisões. És uma pessoa
e tens a tua liberdade. –
Kari limpou as lágrimas.
- Obrigada. – Disse num fio de voz. – Mas tens a certeza que ficas bem? –
Abraçaram-se antes de se levantarem e Voxy sair.
Aquele abraço respondera à sua pergunta.
…
Depois de uma noite de amor, vem o choque com a
realidade. Estefânia não sabia como definir aquele sentimento. Parecia uma
adolescente que dormira fora de casa sem a autorização dos pais. Por seu lado,
Carlos estava satisfeito, mas também se sentia estranho. Era como se tivessem
ficado presos num sonho. Olhou para o lado. O corpo nu meio adormecido da
mulher, recostado na almofada tapado com o lençol fino, não lhe deixava
dúvidas. A noite anterior existira e fora intensa.
Estefânia virou-se e olhou-o de uma forma carinhosa.
Carlos fez-lhe uma festa na cabeça, sorrindo.
- Bom dia, meu amor. – Disse ela. Aproximou-se e
beijou-o ternamente.
- Bom dia. – Respondeu Carlos.
Levantou-se ainda em êxtase e foi à casa de banho. O
marido ficou a observar da cama encantado. Ainda conseguia ser atraente apesar
das mazelas.
- O Gonçalo já saiu. – Disse-lhe da porta. – Vi a cama
já feita. Ontem tinha dito qualquer coisa sobre ir ter com uns amigos. Que
horas são? –
Ultimamente, o filho não parava em casa. Desde o
acidente, parecia que andavam a evitar aquele espaço. As memórias da casa
deviam estar a sufocá-lo.
Carlos olhou para o relógio na mesa de cabeceira.
Marcava 12 horas em ponto. Ficou admirado. Gritou as horas á mulher que também
se surpreendeu. Já não dormiam tanto desde os primeiros tempos de trabalho,
quando chegavam a casa tarde. Nessa altura, ainda não tinham filhos e tinham
mais tempo para eles. Depois, vieram as rotinas e tudo foi adiado. Agora,
voltava aos poucos.
Quando saiu da casa de banho, já vinha arranjada.
Aproximou-se do marido, que, entretanto, se levantara. Beijou-o e perguntou:
- O que queres
fazer hoje? Estamos só os dois e temos um dia inteiro pela frente. –
Carlos respondeu num tom provocador:
- Hum… vou pensar em algo. –
…
Voxy acordou já o sol ia alto. Sentou-se na cama e
olhou em volta. O quarto parecia-lhe mais claro que o habitual. Nem as cortinas
grossas conseguiam impedir que alguns fios de luz entrassem. Bateram à porta
nesse momento, mas não precisou de se levantar porque Kari a abriu e entrou.
Trazia um tabuleiro com o pequeno-almoço. Voxy apressou-se a abrir as cortinas.
- A que se deve tudo isto? Se estás a tentar
convencer-me a ir contigo a casa da avó, aviso já que não vou mudar de ideias.
– Começou.
Kari sorriu.
- Quis fazer uma surpresa, não posso? Variar as
rotinas de vez em quando nunca fez mal a ninguém! –
Não pareceu convencida. Sempre que Kari queria alguma
coisa, pedia-o através de comida, como daquela vez em que foram com a mãe ao
centro comercial comer um gelado especial e depois a uma loja de roupa barata
porque ela queria umas calças iguais a uma colega da escola.
Kari pousou o tabuleiro na cama e ambas começaram a
tirar comida. Enquanto comiam, Voxy recordava o tempo da sua infância em que a
mãe lhes levava a comida à sala de ensaios, mas, no fim, acabavam sempre as
três a comer. Às vezes, até o pai se juntava. Sorriu ao lembrar-se. Kari já não
a via sorrir há muito tempo. A última vez foi quando deu um concerto, ainda em
dueto com a mãe. Foi a primeira vez que foram em digressão depois de ser
adotada. Nunca pensou sentir-se tão feliz, mesmo estando na parte de trás do
palco, longe das luzes.
Um sítio onde poucos iam, só os mais próximos dos
artistas e ela era uma dessas privilegiadas.
Depois do pequeno-almoço, Voxy foi à casa de banho
arranjar-se. Enquanto passava a cara por água, pedaços de memória vieram-lhe à
cabeça. A água escorria pela pele pálida, terminando em pequenas gotas que
pingavam para o lavatório de modo sincronizado. Passou uma toalha depois de
fechar a torneira.
Voltou ao quarto. Kari já tinha saído. Terminou de se
arranjar. Olhou para a rosa em cima da mesa de cabeceira. Ainda tinha vestígios
de manchas amareladas daquele dia. Pegou nela delicadamente. O fecho ainda
estava partido. As pétalas estavam desalinhadas e amachucadas. Um flache de
memória passou-lhe pela mente de repente. Sentiu uma ligeira tontura. Voltou a
pousar a rosa a ajeitou o vestido preto de seda. Desde o acidente, que só
vestia preto. Deva-lhe segurança e algum conforto. Refletia o seu coração.
Abriu a porta e seguiu descalça pelo corredor.
…
O casal apaixonado aproveitara para passear na baía da
cidade. Estava um dia solarengo e quente. Há muito tempo que não passavam um
dia assim. Talvez nem se lembrassem da última vez que usara manga curta.
Durante 4 anos, escondera os braços e as pernas, com medo de as mostrar,
receava que estivessem muito feias, mas Carlos não achava, dissera-lho durante
a noite entre beijos e carícias. Estás cada vez mais bonita. Isso era o
que todos os maridos diziam para serem agradáveis.
Estavam sentados numa esplanada perto da baía. A brisa
do rio vinha acariciar-lhes o rosto, o que disfarçava o calor. Tinham acabado
de almoçar e apreciavam a paisagem acompanhados por uma bebida leve e fresca.
Aquela pequena fuga da realidade fazia-lhes bem. Precisavam de um tempo só os
dois, para refletir e pôr as ideias em ordem, tendo em conta os últimos
acontecimentos.
Regressados do passeio, Estefânia e Carlos entraram em
casa como dois adolescentes que tiveram o primeiro encontro. Gonçalo estava no
quarto a terminar um trabalho para entregar no início da semana. Quando ouviu a
porta e os risos que a acompanharam, sorriu. Já era altura de esquecer os
problemas e começar a pensar mais na relação.
Concentrou-se no que estava a fazer e, quando
terminou, foi ao encontro dos pais.
Foi encontrá-los no sofá abraçados e a rir. Sentou-se
na poltrona e ligou a televisão.
- Finjam que não estou aqui. Podem continuar. – Disse
entre pequenas risadas.
Os pais olharam- se e coraram. Acharam melhor guardar
as intimidades para quando estivessem sozinhos. Estefânia levantou-se para
preparar o jantar, mas foi impedida por Carlos.
- Hoje o jantar fica por minha conta. Podes sentar-te
e desfrutar da companhia do teu filho. –
Estefânia ficou admirada. Era a primeira vez em muito
tempo que o marido se oferecia para fazer o jantar sem ser por causa de uma
discussão. Deixou-se ficar no sofá.
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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
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