sexta-feira, 7 de março de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 1

 Olá 

Esta semana, começa a quarta parte da história. Espero que gostem.

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Parte 4

Melodias de Esperança

Memória/Reconciliação

I

Passaram 4 anos desde o acidente. Estefânia, Carlos e Gonçalo tinham voltado há uma semana de casa de Maria Hortense e parecia que nada tinha mudado. A casa, o bairro, o trabalho, a escola, tudo parecia parado no tempo. Só quando entraram em casa é que se aperceberam da dura realidade. Nada era igual sem Clara.

Apesar de terem Gonçalo, sentiam que falava alguém, que a família não estava completa. O quarto de Clara tinha sido trancado antes da viagem e era uma divisão proibida. Apenas Estefânia se fazia autorizada a entrar de vez em quando.

Desde que voltara, Voxy tornara-se uma rapariga apática, isolada no seu mundo, onde lia e comtemplava a paisagem com uma expressão neutra e desinteressada tal como na Suíça. Afastara a música definitivamente da sua vida. Nem se atrevia a sair do quarto para comer. Só a ideia de passar diante da porta da sala do piano, causavam-lhe um tremor enorme. Tinha muitos pesadelos com o piano e o acidente em que a mãe surgia entre as notas ou o corpo saía de dentro dos destroços do carro. Acordava encharcada em suor e com as mãos a tremer e doridas.

Aquela situação preocupava Kari cada vez mais. Se calhar, tinha sido melhor ficar na Suíça. Pensava muitas vezes. Lá, ao menos, as memórias estavam mais distantes.

Estefânia passava mais tempo em casa desde que voltara. Ainda se sentia com poucas forças para voltar ao trabalho e à rotina. Tornara-se numa grande admiradora de Voxy. Comprara todos os seus discos e seguia tudo o que lhe dizia respeito pelas redes sociais. Até criara as suas contas no Facebook e Instagram só para poder ver o que o seu ídolo fazia.

- Espero que volte aos palcos em breve. Gostava de a ver ao vivo. –

 

Abriu o computador para pesquisar mais sobre a sua nova artista favorita. Gonçalo, que ia a passar, depois de ter estado a estudar com uns amigos, olhou de relance para o site que a mãe estava a ver.

-Outro dia, ouvi umas raparigas a comentar que ela sofre de uma doença rara, herdada da mãe, e desde que a perdeu, nunca mais voltou a tocar. Também dizem que foi para uma clínica no estrangeiro e que dificilmente voltará aos palcos. –

Estefânia admirou-se. Não era hábito do seu filho ouvir os comentários dos outros, muito menos reter tanta informação. Provavelmente, fora uma das que andam com ele agora. São boas raparigas, mas muito superficiais. Só de preocupam com as aparências e o filho nunca fora de se dar com gente assim. Mas desde que voltara, isso parecia não importar. Por mais que ela lhe dissesse alguma coisa, ele não ouvia. A relação deles estava mais distante. Dantes, eram próximos, quase cúmplices. Às vezes, ela parecia mais irmã dele do que a própria. Durante a temporada em casa de Maria Hortense, parecia que estavam a tentar recuperar essa relação, mas agora voltaram a afastar-se.

Aquela circunstância era mais uma prova. Se fosse antigamente, dir-lhe-ia para esperar para ver, que provavelmente ela ainda iria voltar, mas se não acontecesse tinha sempre os discos e havia um monte de outras artistas que podia apreciar. Agora, nem parecia ele.

Continuou a ver o site, como não encontrou nada de relevante, fechou o computador e subiu.

 

Carlos chegou nesse momento. Subiu e foi dar com a mulher no quarto deitada com um ar pensativo. Nem precisou de perguntar o que se passara. Outro comentário de Gonçalo acerca de Voxy. Sem nada que pudesse fazer, desceu para preparar o jantar. Sempre que aquilo acontecia, gostava de ir para a cozinha, ajudava-o a distrair-se. Aprendera a cozinhar com a mãe. Um homem deve saber de tudo um pouco. Dizia-lhe. E ele gostava de cozinhar. De sentir os aromas e texturas dos ingredientes enquanto estes eram misturados na panela. Era terapêutico.

Passado pouco tempo, apareceram os dois com um ar contrariado mas dispostos a uma trégua para ajudarem a pôr a mesa.

- Recebeste um convite para ir a casa da avó. – Disse Kari antes de jantar.

Voxy, como sempre, manteve o seu ar indiferente. Nunca fora muito chegada ao resto da família. Segundo o que a mãe lhe contou, durante os primeiros anos de vida dela, ainda se juntavam para grandes jantares e almoços, mas com os constantes compromissos profissionais, esses encontros eram cada vez mais raros.

- E quando é que surgiu o convite? – Quis saber Bertha. Parecia a única interessada.

- Pouco depois de termos voltado. – Respondeu Kari. Tinha uma expressão hesitante, constrangida mesmo. Não queria forçar uma conversa na qual Voxy claramente não queria participar.

Depois do jantar, Voxy voltou para o quarto. Kari foi atrás dela. Teve de travar a porta com o pé para conseguir entrar. Voxy instalou-se no seu refúgio. Pegou no livro que estava a ler, indiferente à presença da irmã. Voxy continuava com os olhos postos no livro. Kari não saiu do sítio. Conhecia todos os truques para ficar sozinha e fugir a um assunto, mas, desta vez, tinham mesmo de falar.

Já irritada, pousou o livro. Kari aproximou-se mais um pouco e segurou-lhe nas mãos. Estavam frias. Voxy largou-as imediatamente. Desde o acidente, não gostava que lhe tocassem. Os afetos de outrora tinham ficado no passado. Olhou pela janela. O luar fazia com que a sua cara se tornasse pálida e brilhante.

 

- Não me apetece estar com ninguém neste momento. –

Encostou a cabeça ao vidro frio. Uma lágrima rebelde começou a formar-se no canto do olho.

Kari ripostou:

- Mas porquê? É a nossa avó! Se calhar, ia fazer-te bem! –

 

Voxy olhou para a irmã. Aquela conversa do vai fazer-te bem começava a irritá-la. Na Suíça, a terapeuta dissera-lhe algo parecido. Toda a gente tinha uma opinião sobre o que lhe fazia ou não fazia bem. Mas só ela sabia o que era melhor e naquele momento, nada lhe fazia bem. Só queria que deixassem em paz.

 

- A nossa relação nunca foi muito próxima e com o tempo ficou mais distante. Aliás, agora praticamente não existe. – Retorquiu.

Kari não se surpreendeu. Tal como a irmã, nunca tivera uma relação próxima com a família, mas, ao contrário dela, ficou curiosa em relação a esta avó. Havia qualquer coisa que lhe dizia que devia confiar nela.

- Faz como quiseres. Se mudares de ideias, entretanto, avisa. –

Voxy virou a cara. Kari retirou-se. Só depois de ouvir a porta fechar é que retomou a leitura.

Depois de jantar, o trio foi para a sala ver televisão. Passado um bocado, Gonçalo subiu para o quarto. O casal ficou mais um pouco no sofá até a série terminar. Carlos subiu primeiro.

Assim que se viu sozinha, Estefânia foi à mesa do hall de entrada. Abriu uma gaveta e tirou uma chave. Subiu as escadas em passos ligeiros, mas apressados. Atravessou o corredor e parou à frente da porta no final.

Hesitou por alguns instantes. Era a primeira vez que lá ia depois do acidente. Respirou fundo. Introduziu a chave na fechadura e abriu a porta nervosamente. Entrou na pequena divisão, fechando a porta atrás de si. Sentia-se a Alice na casa do coelho branco. Tudo era tão delicado que não queria estragar.

Acendeu a luz do teto, encostou-se á porta e olhou em volta. Para a cama retangular encostada a uma parede, com a uma colcha ás flores, para a secretária em frente com o computador, onde a filha costumava fazer os trabalhos da escola ou pesquisas de algo que gostava, para o armário de roupa ao pé da janela que dava para um pátio nas traseiras, onde ela e o irmão costumavam brincar. Por último, olhou para as fotografias na mesa de cabeceira e na secretária. Todas mostravam uma rapariga sorridente. Numas, aparecia com o uniforme da escola, noutras de fato de banho e noutras de vestido florido ou calças de ganga e camisola de gola alta.

Pegou numa das molduras mais próxima de si. As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara quando se lembrou da altura em que a fotografia foi tirada. Nas férias de Verão em ficaram num resort na zona costeira. Estavas tão feliz! Pensou E tão bonita! Aquelas lembranças faziam-na sentir-se pior. Era difícil apagar a dor. Pousou a moldura, meia baça das lágrimas e, voltou a olhar para o quarto. Por vezes, ainda conseguia ouvir a filha no computador ou deitada na cama a falar com as amigas, a ler ou a ouvir música, quase como se a alma dela ali estivesse.

Sentou-se na beira da cama como fazia quando Clara tinha 5 anos e não conseguia dormir. Passou a mão na colcha como se a acariciasse. De repente, ouviu a voz do marido a chamar. Saiu do quarto rapidamente e trancou a porta, não sem antes apagar a luz. 

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

 

 


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