Olá
Já há algum tempo que não venho aqui. Não tenho tido ideias de escrita, para não variar. Assim que tiver, volto. Entretanto, passaram 11 anos de blogue.
Até um dia.
Bjs
Joana
Olá
Fica o epílogo da história.
Espero que gostem.
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Parte 5
Melodias do Futuro
Epílogo
Voxy e Kari saíram do edifício da editora. Nesse momento, Estefânia ia para o escritório.
Apertou a gabardina enquanto Kari segurava no guarda-chuva e se encaminhavam para o carro onde Odete as esperava. Estava um dia chuvoso. Tinham ido negociar os temas da edição do disco. Desta vez, os prazos não eram apertados. Voxy tinha todo o tempo para compor e gravar os temas que queria para o álbum. No final, enviaria tudo para a editora que só tinha de o distribuir pelo país e pelo mundo.
Chegaram a casa sorridentes. Foram para a sala do piano. Voxy ficara com uma série de ideias depois de ouvir algumas peças da mãe. Fizeram uma pausa para o almoço, mas tiveram de comer dentro de casa por causa da chuva que começara a cair mais intensamente.
...
No fim do dia, Estefânia resolveu passar numa florista perto do escritório e comprar um ramo de rosas vermelhas.
a chuva caía ainda com alguma intensidade. Estefânia estacionou o carro á porta de casa, num telheiro. Saiu com alguma dificuldade por causa do piso escorregadio. Os sapatos de salto alto não ajudavam, mas também por causa do guarda-chuva e das flores. Avançou até á porta, meio atrapalhada e com medo de escorregar. Introduziu a chave, segurando as flores na outra mão e entrou.
Carlos e Gonçalo ainda não tinham chegado. Pousou as flores e tirou os sapatos. O guarda-chuva deixou-o num balde na entrada depois de fechar a porta. Foi para a cozinha arranjar as flores. Escolheu uma jarra elegante que pôs na entrada.
Pouco depois, chegaram os rapazes que não ficaram indiferentes ás mudanças.
- Que lindas flores!- Admirou Carlos quando entrou. Estefânia abraçou-o e beijou-o.
- Para vos agradar.- Disse, depois de o largar.
Carlos sorriu e voltaram a beijar-se. Foram interrompidos por Gonçalo que queria ir jantar.
...
Voxy e Kari estavam felizes. O novo disco era um sucesso e já tinham marcada uma turnê, primeiro pela Europa e depois pelo Mundo.
E assim, a melodia de um futuro brilhante e feliz começou a tocar.
Fim
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E pronto.
Termina assim mais uma história.
Conto com vocês para a próxima.
Mais uma vez, espero que tenham gostado tanto de a ler como eu gostei de a escrever.
Vemo-nos por aí.
Olá
Eis o último capitulo! Para a semana, será o epílogo.
Espero que gostem.
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XI
A fila para comprar bilhetes para o concerto de regresso de Voxy ocupava quase o centro comercial inteiro. As vendas online esgotaram em pouco segundos, por isso a única alternativa era a bilheteira do centro comercial.
Carlos pôs-se na fila para satisfazer o capricho da mulher que parecia uma adolescente que espera pelo concerto de uma banda pop. Depois daquele fim-de-semana, nunca mais tinham feito nada a dois.
A fila foi andando e quando chegou a vez deles, tiveram de comprar para camarote, a plateia já estava esgotada. Melhor ainda! Exclamou Estefânia. Assim, não teremos ninguém à nossa frente e estamos mais à vontade.
...
Durante os dias que se seguiram, Voxy terminou a composição da mãe e, no dia do concerto, estava mais ansiosa que nunca.
Na manhã do espetáculo, Voxy quis ir ao cemitério. Soprava uma brisa fresca, mas não a afetou. Não só por estar de casaco, mas também porque se sentia mais leve, mais segura. O carro parou á porta e só ela saiu. Quis ir sozinha. Era um momento só dela e da mãe. Aproximou-se da campa. Branca com os nomes dos pais gravados. Passou os dedos pela pedra fria e depois pousou a pregadeira da rosa ao pé da pedra. Tirou outra do bolso do casaco, que exibiu orgulhosa. Comprou-a quando saiu com a terapeuta pela cidade. Precisava daquilo para começar de novo. As lágrimas corriam-lhe pela cara.
- Obrigada, mãe. Por tudo o que me ensinaste. Obrigada por esta música que hoje vou apresentar ao mundo e obrigada, sobretudo, por nunca teres desistido de mim. Por teres sempre acreditado quando mais ninguém o fez. Por me teres dado força para seguir em frente.-
Limpou as lágrimas e sorriu. Um sorriso genuíno pela primeira vez. Tão cheio de luz que até o sol espreitou por entre as nuvens.
Voltou para o carro onde a família a esperava. Ainda tinha um último ensaio para fazer. O vestido para passar e só depois ia para o auditório.
...
Nessa noite, Gonçalo saiu para ir ter com uns amigos ao centro comercial. Tinham combinado jantar e depois iam ao cinema.
Estefânia e Carlos ainda estavam a escolher a roupa e quando ela finalmente se decidiu, o marido já estava á espera para sair. Tinha um vestido simples de alças azul-escuro, com uma flor á frente. Sandálias de salto alto, uma mala pequena e algumas joias. Já Carlos vestia um fato cinzento e sapatos pretos.
Foram de carro para o auditório. Como ainda era cedo, jantaram num restaurante ali perto. Quando chegaram, a fila para entrar ainda era pequena á porta do auditório pelo que não tiveram grandes atropelos.
Sentaram-se confortavelmente no camarote que ficava logo acima do palco. A sala começou a encher pouco depois, já se ouviam o murmúrios habituais antes de começar o espetáculo. Passado pouco tempo, as luzes da plateia baixaram e as do palco acenderam.
Voxy surgiu acompanhada por uma salva de palmas, sendo as mais entusiasmadas as de Estefânia. Tinha um elegante vestido azul-claro tal como na primeira vez que tocara em público. Na frente, a nova rosa branca brilhava no seu peito. Odete e Kari estavam sentadas no camarote logo abaixo do de Estefânia e Carlos.
Dirigiu-se ao microfone instalado em frente ao piano. Ajustou-o e começou o discurso:
- Boa Noite.- Os aplausos soaram na sala novamente.- Antes de começar, gostaria de agradecer a vossa presença. Sei que foi um pouco repentino, mas os artistas, ás vezes, têm destas coisas.- Pequenas gargalhadas soaram. Continuou:
- A peça que vou apresentar tem um significado muito especial para mim.- As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara á medida que falava: - Desculpem, estou emocionada.- Respirou fundo e continuou:
- Fez esta semana 5 anos que partiu uma das mais talentosas e admiráveis pianistas do nosso tempo. A nossa querida Carolina Heart.- Aplausos soaram novamente. - Eu admirava-a muito, não só como artista, mas como mulher e sobretudo como mãe.- A plateia voltou a aplaudir. - Por isso, esta peça é uma homenagem a ela, mas também a todos os que me acompanharam.-
Voltaram a soar os aplausos. Voxy agradeceu. Sentou-se ao piano, limpou as lágrimas e começou a tocar. As mãos ainda lhe tremiam, mas soube disfarçar de maneira que só a avó e Kari notaram.
Estefânia sentia-se embalada por aquela melodia tão suave. O discurso de Voxy comovera-a, a admiração que tinha pela mãe era a mesma que ela tinha pela filha. De repente, pareceu-lhe ouvir a voz de Clara na sua mente. A voz ia ficando cada vez mais nítida. Dizia-lhe que estava bem e que tinha gostado muito de ser sua filha, apesar do pouco tempo que tiveram. Sentiu as lágrimas a correm-lhe pela cara.
Quando o concerto acabou, toda a plateia aplaudiu de pé. Incluindo Estefânia, ainda de lágrimas nos olhos. As luzes foram-se acendendo. Voxy veio a palco para uma vénia final. Olhou para Estefânia e sorriu. Esta sentiu-se a corar.
...
Quando chegou a casa, Estefânia foi ao quarto de Clara. Pegou na fotografia em cima da mesa de cabeceira, beijou-a e apertou-a contra o peito. Obrigada por tudo. Murmurou.
...
Voxy, Kari e Odete chegara a casa com a sensação de dever cumprido. Voxy sentia-se feliz e mais motivada para continuar a compor e a tocar. Subiram para os quartos. Nessa noite, todas dormiram felizes.
Fim da 4ª Parte
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E pronto. Este foi o último capitulo!
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Olá
Fica o capitulo desta semana.
Espero que gostem. Já são os últimos capítulos!
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X
Ao regressar ao escritório, Carla felicitou-a. Estefânia sentia-se como antes. Não, melhor que nunca! A adrenalina do tribunal ainda mexia consigo. Abraçou a amiga, feliz por ter retomado a sua vida.
Foi para o gabinete encerrar o caso e preparar-se para a defesa do próximo.
...
Odete sorriu.
-Um título bonito, porém, um pouco triste.-
Voxy esboçou um sorriso.
-Reflete o que sinto.-
Abraçaram-se. Largaram-se e Voxy voltou ao piano. Queria afinar todos os detalhes para ter a certeza que nada lhe escapara. Agora que voltara a tocar, não queria outra coisa.
Olá
Fica o capitulo desta semana.
Espero que gostem.
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IX
As consultas começavam cedo. Felícia vinha sempre depois do pequeno almoço para não atrapalhar as rotinas. Voxy sentia-se cada vez mais segura. Era alguém que conseguia compreendê-la melhor que a irmã ou a avó, ainda que fosse paga para isso.
Num desses dias, Felícia sugeriu:
- E se começássemos os passeios? Parece-me que já está na altura de sair um pouco.-
Voxy respondeu:
- Está bem.-
Pôs o chapéu e um pouco de protetor antes de saírem. Felícia estava a par da condição da paciente. Sabia que as saídas tinham de ser controladas e não podiam durar mais que o necessário ou Voxy ficaria com tonturas e isso podia atrapalhar o tratamento. Foram para o jardim da casa para começar. Sentia-se mais leve. Antes do acidente, costumava sair bastante com a mãe e Kari, mas, ultimamente, nunca lhe apetecia ou apetecia-lhe pouco. Fora algumas vezes á varanda do quarto, mas não era a mesma coisa. Gostava de olhar para as plantas e flores, sentir a brisa por inteiro a acariciar-lhe a face. Desde a temporada na Suíça, que não fazia algo assim. Agora, aquela simples ida ao jardim parecia fazer-lhe bem.
...
A recuperação de Maria Hortense estava a ir melhor que o esperado. Embora os médicos estivessem optimistas, Estefânia não deixava de se preocupar.
Os dias de Estefânia eram divididos entre o trabalho e os cuidados com a mãe. Andava mais cansada, mas feliz. Não se lembrava da última vez que tivera a família junta. Talvez num Natal longínquo.
Depois disso, só na temporada que passaram em casa da mãe. Mas nessa altura a distância tornou-se maior. Agora, os laços pareciam estar a voltar e isso deixava-a mais tranquila.
...
Depois da ida ao jardim, Voxy parecia ter ganho um novo fôlego. Estava mais satisfeita e tinha uma expressão mais tranquila e confiante. Voxy deteve-se junto à porta da sala do piano como se esperasse que Felícia dissesse alguma coisa. Como não disse nada, apesar de perceber a mensagem, seguiram para o quarto.
O resto do dia foi passado a falar sobre trivialidades. Voxy sentia-se mais segura, mas não o suficiente para voltar à música. Felícia sabia que essa etapa ainda estava longe e não quis apressar. Tinha de a deixar ir ao seu ritmo.
...
Passados alguns meses de ter estado em casa da filha, Maria Hortense regressou à sua casa, prometendo vir visitá-los mais vezes e que Abel estaria sempre por perto, caso acontecesse alguma coisa e Estefânia seria a primeira a saber.
...
A terapia com Felícia estava a dar resultado. Aos poucos, Voxy foi ganhando mais vitalidade. Os passeios pela cidade faziam-lhe bem. Gostava de ver as lojas e as pessoas. Algumas até a reconheceram, apesar da roupa escura que nunca fizera questão de tirar. Sentia-se confortável com ela. Durante um desses passeios, até foi às compras como já não acontecia há muito tempo.
Apenas o medo do piano continuava. Embora houvesse vezes em que lhe dava vontade de entrar na sala sempre que passava à porta.
Um dia, Felícia perguntou:
- Voxy, gostava de entrar na sala do piano? Só para ver, não precisa de tocar em nada.-
Hesitou por um momento, a ideia de voltar a um sítio com tantas memórias ainda lhe era difícil, mas acabou por concordar. Foi á porta e Felícia abriu-a. Acendeu a luz e olhou em volta. Aquele lugar trazia-lhe recordações, demasiadas. Umas tristes outras alegres. Era ali que costumava ensaiar com a mãe, mas também foi ali que começaram os receios.
Na noite antes do funeral dos pais, entrou ali para tocar uma última vez para a mãe. Sentou-se em frente ao piano e, por momentos, este pareceu-lhe maior que o habitual. Gigante até, como se, de repente, fosse criança novamente e ainda não chegasse com os pés ao chão e as mãos às teclas.
Pousou-as no teclado, estas tocaram automaticamente como se fossem mecânicas. Mal conseguiu ouvir uma nota. Quando, por fim, aquela melodia distorcida terminou, as mãos tremiam-lhe ao ponto de não as conseguir mexer. A partir daquele momento, jurou que nunca mais tocaria piano. No dia seguinte, conservou-as no bolsos do casaco grosso de Inverno que levava naquele dia triste e chuvoso. O dia em que se despediu das duas pessoas que mais amava no mundo. Depois disso, fechou-se na escuridão.
Agora, sentada no sofá, conseguia ter um ponto de vista diferente. Mais distante. Devia ser assim que Kari se sentia. Passados alguns minutos, saíram.
Durante os dias que se seguiram, as visitas à sala do piano eram cada vez mais frequentes. Aos poucos, foi ganhando confiança e já conseguia entrar sem receios, embora ainda não se aproximasse do instrumento. Era como se houvesse uma barreira invisível que ainda tinha de transpor.
Kari e Odete estavam impressionadas com o progresso. Só faltava voltar a tocar. Isso vai ter de ser ela a querer. Respondia Felícia sempre que Kari lhe perguntava se algum dia a irmã voltaria a tocar. A pressão em cima de Voxy era constante. Não estavam em dificuldades, bem pelo contrário. As empresas herdadas do pai continuavam a dar lucro, apesar de serem geridas por um grupo de advogados e contabilistas contratados logo após o acidente para que elas se concentrassem na recuperação física e emocional do choque e não se preocupassem com os negócios. Era mais social. Toda a gente ansiava por um regresso de Voxy aos palcos, uma jovem artista como ela não podia desparecer.
...
Entretanto, Estefânia voltava aos tribunais. Era a primeira vez desde o acidente e não podia estar mais nervosa e entusiasmada. O seu cliente estava tão nervoso como ela. Entraram e a sessão começou. No fim, a causa foi ganha e ela estava muito feliz. Finalmente voltara a ser a advogada que todos admiravam e respeitavam.
...
A recuperação de Voxy não tardou a chegar à fase final. Estava sentada em frente ao enorme piano de cauda. Era a primeira vez desde o acidente que se sentava sem receios. Ainda estava um pouco assustada e as mãos tremiam-lhe, mas tinha de levar até ao fim. A partitura estava pousada no apoio e era a do caderno da mãe. Apenas lhe faltava a parte final.
Felícia estava a seu lado bem como Kari e a avó, sentadas no sofá. Respirou fundo e pousou as mãos nas teclas. Primeiro, hesitou e algumas notas saíram tímidas, mas depois foi ganhando segurança e até sentia uma energia diferente na sala. Kari nunca tinha ouvido nada tão melodioso. Reparou na expressão de Voxy. Era alegre e até se podia notar um certo brilho nos olhos. Odete também estava encantada. Fez-lhe lembrar a filha nos seus melhores anos.
Felícia também se mostrou satisfeita e surpreendida. Tinha ouvido falar das habilidades de Voxy, mas vê-la ao vivo era sempre diferente.
A música terminou, mas a melodia ainda ecoava na sala quando Voxy tirou as mãos das teclas. Era como se tivesse chegado à mãe que, de onde quer que estivesse, ouvira e ficara feliz. Virou-se para Kari e perguntou, trazendo todas para a realidade:
- Então, o que achaste? É só uma primeira ideia para finalizar, mas acho que se encaixa.-
A irmã sempre tivera um talento nato para a música. Lembrava-se bem das poucas aulas de solfejo e da professora dizer que não precisava de mais, porque a sua noção de ritmo era excepcional. Apesar de tudo o que acontecera, esse talento ou dom, não sabia como chamar, continuavam lá. Era como se tivessem estado adormecidos e começavam lentamente a despertar. Respondeu, depois de um súbito devaneio pelos seus pensamentos:
- Acho que está a ficar muito bem.-
Felícia e Odete concordaram. Voxy sorriu. Odete perguntou, curiosa:
- E como se chama a peça?-
Voxy respondeu depois de pensar um pouco:
- Sonata da Rosa Branca.-
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Olá
Mais uma vez, esta semana o capitulo vem mais cedo.
Espero que gostem.
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VIII
No caminho para o hospital, Estefânia pensava: Porque é que não me contaram mais cedo? É minha mãe, bolas! Se bem que no dia do acidente, também não a chegaram a avisar, mas a situação era completamente diferente. A mãe só os conseguiu ver em casa.
Quando chegou, saiu do carro e passou pela porta como um disparo. Foi ao balcão da recepção e perguntou pela mãe. Indicaram-lhe a última porta ao fundo do corredor. A porta estava entreaberta. Alguém lá tinha estado antes. Talvez o médico. Bateu ao de leve e, depois de ouvir um entre, empurrou-a suavemente. Maria Hortense estava sentada numa cadeira ao pé da cama. Tinha um roupão de linho por cima da camisa de noite. Olhava pela janela larga do quarto, iluminada pela luz suave do sol. Tinha um ar sereno.
Estefânia aproximou-se e ela sorriu.
...
A terapeuta chegou depois do almoço. Odete mandara um avião para a ir buscar à Suíça. Bertha abriu-lhe a porta e indicou-lhe a sala de estar. Odete não precisou de lhe dizer nada pois a Dra já sabia do que se tratava. Aquilo era apenas uma formalidade. Foi de imediato ao quarto de Voxy.
Como sempre, estava a ler. Sentou-se e esperou que terminasse. Quando pousou o livro, Voxy olhou para a terapeuta. Estava tal e qual como a conhecera na Suíça. Uma mulher elegante, vestida com uma saia até ao joelho, blusa branca e sapatos de salto alto. O cabelo era comprido, castanho, a tinha olhos verdes.
Voxy quebrou o silêncio:
- Há quanto tempo, Dra.-
Felícia olhou por cima dos óculos redondos e respondeu:
- Pois é, já lá vai algum tempo desde a Suíça. Mas, ao contrário de lá, parece-me que agora está mais disposta a colaborar.-
Voxy revirou os olhos:
- Sim, naquela altura ainda não me conseguia exprimir como queria. Tinha sido muito recente e ainda me custava a assimilar. Hoje também me custa, mas penso que já consigo falar sem receios.-
Felícia falou num tom neutro, próprio de uma psicóloga:
- Dadas as circunstâncias, é muito natural, mas não a culpo por isso. Bem pelo contrário, acho que muito corajoso da sua parte, que queira falar sobre um assunto tão pessoal e delicado.-
Voxy tinha uma expressão indiferente. Sabia perfeitamente qual era a situação, não precisava que lhe repetissem.
Felícia, então, explicou como seria a terapia. Primeiro, alguma conversa de circunstância, depois uns passeios pelo jardim e, mais tarde, se ela quisesse, pela cidade. Por fim, começaria a reaproximação ao piano e à música.
...
- Então, o que aconteceu? Disseram-me que tinhas tido um acidente! - Começou Estefânia.
A mãe olhou para ela e revirou os olhos.
- Lá estão as pessoas com os seus exageros! Por isso é que não queria que soubesses! Não foi nada demais! Estava a consertar umas coisas lá em casa, desequilibrei-me e caí. O primo Abel, já sabes como ele é, quando me viu no chão, entrou em pânico e chamou uma ambulância.-
Estefânia sentou-se em frente á mãe. Ripostou:
- Porque é que não me avisaste? Tive de saber pela Carla!-
Maria Hortense respondeu num tom sereno:
- Não te disse nada para não te preocupar. Só estou cá por precaução. Daqui a pouco tenho alta e já posso voltar para casa.-
Estefânia ripostou:
- Não vais para casa coisa nenhuma! Ficas em minha casa até te sentires melhor. Não quero que faças a viagem assim. Além disso, aqui estás mais acompanhada.-
Mari Hortense, ainda tentou contestar, mas Estefânia não lhe deu hipótese. Quando mais precisara, ela esteve lá para cuidar deles, agora estava na hora de retribuir.
...
A consulta terminou ao fim do dia. Antes de sair, Kari chamou a Dra à parte e perguntou-lhe como achava a irmã. Ela respondeu:
- Apesar do trauma, está a reagir bem. Ela ainda é muito nova, vai superar, mas, mesmo assim, precisa de toda a ajuda possível.-
Kari sorriu.
- Obrigada. Dra.-
...
Mal chegaram a casa, Estefânia instalou a mãe no quarto de Clara. Apesar de lhe custar, era o único quarto vago. Depois, telefonou ao primo Abel para avisar que trouxera a mãe para e que ia lá passar um tempo. Também telefonou a Carla a dizer que ia passar o resto do dia em casa.
Ao final da tarde, chegou Carlos e depois Gonçalo. Estefânia foi recebê-los. Ambos estavam surpreendido com ela em estar em casa àquela hora. Contou-lhes que a mãe estava lá e que ia ficar durante um tempo.
- Eu soube pela Carla hoje de manhã.- Contou a Carlos.
Gonçalo decidiu que ouvira o suficiente e foi para o quarto.
- Antes de sair do hospital, estive a falar com o médico. Ele disse-me que ela já lá estava há uma semana e nunca quis chamar ninguém. Até o meu primo, depois de alguma insistência, ligou para o escritório e, como eu não estava, quem atendeu foi a Carla.-
Carlos perguntou:
- Mas é grave?-
Estefânia fez um ar sério. Respondeu:
- Não, porque o Abel chegou a tempo. Segundo o que ele me contou, ela estava a mudar uma lâmpada em cima de um escadote, quando se desequilibrou e caiu. Foi uma sorte não ter partido nada nem batido com a cabeça.-
Carlos voltou a falar:
- Bem, um desequilíbrio de vez em quando toda a gente tem. O que é que o médico te disse exatamente que o Abel não te conseguiu explicar?-
Estefânia respondeu:
- Parece que foi um princípio de AVC, porque quando o Abel chegou, ela estava desorientada, mal falava ou balbuciava coisas sem sentido e uma parte do corpo não mexia.-
Carlos abraçou a mulher e sussurrou-lhe:
- Não te preocupes, vai correr tudo bem.-
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Olá
Aqui fica o capitulo desta semana.
Espero que gostem.
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VII
Nessa noite, Bertha mandou preparar o quarto para Odete. As suas coisas seriam entregues mais tarde. Ficou no quarto ao lado do dos pais, por opção, apesar de Voxy insistir para que ficasse no dos pais. Odete não quis que a memória deles fosse desrespeitada.
Depois de instalada, Odete desceu para jantar com as netas. A refeição decorreu normalmente, ainda assim não deixava de ser diferente, já que as raparigas estavam habituadas a ter só Bertha como companheira.
A seguir, Kari retirou-se e deixou Voxy propositadamente sozinha com a avó. Aquele momento era importante, apesar de haver ainda alguns constrangimentos por parte de Voxy. Saíram da sala de jantar e foram para a sala de estar. No caminho, passaram rapidamente pela sala do piano, o que deixou Voxy desconfortável. Odete notou, mas não disse nada, não a queria constranger ainda mais, já bastava o que se passara na sua casa.
Sentaram-se perto uma da outra. Voxy olhou-a com um ar vazio, mas quase suplicante com se houvesse outra Voxy que quisesse sair, mas não conseguisse. Quebrou o silêncio:
- Está uma noite agradável.-
A avó respondeu:
- Sim. De facto. Embora esteja um pouco de frio.-
Voxy esboçou um sorriso. Estava a forçar uma conversa e isso deixava-a desconfortável. Queria sair dali, mas não tinha uma desculpa credível. Odete voltou a falar:
- Já deves saber da conversa que tive com a Kari, por isso não me vou repetir.- Acrescentou: - Não precisas de conviver comigo se não quiseres. Esta casa é grande o suficiente para mantermos a distância sempre que possível. Aliás, se quiseres sair podes fazê-lo.-
Voxy estava incrédula. Não fora no calor do momento como a avó estava a insinuar. Queria genuinamente a sua companhia e esclarecer os mal-entendidos. Nesse momento, sentiu que devia uma explicação sobre o que se passara na casa dela. Sabia que avó não lhe ia cobrar, mas mesmo assim decidiu contar.
- Acho que devemos esclarecer algumas coisas para que a nossa convivência seja a melhor possível.-
Odete concordou. Voxy prosseguiu:
- Depois do acidente, desenvolvi uma espécie de fobia ao piano e à música em geral. Como se eles fossem algo maligno. Mas parece que sou puxada por eles. - Acrescentou: - Quero com isto dizer que foi por isso que saí daquela maneira na visita e peço desculpa. Apesar dos esforços dos últimos anos, não tem sido fácil, mas tenho a certeza de que, com a ajuda de todos, vou conseguir ultrapassar esta situação.-
Odete assentiu.
- É muito natural que te sintas assim. Afinal, foi um acidente muito grave, mas penso que não foi só isso que te afetou. A perda dos teus pais, especialmente da tua mãe, e a tua doença foram determinantes.-
As lágrimas começaram a cair pela face de Voxy sem que tivesse tempo de se justificar. As mãos tremiam-lhe ligeiramente. Odete levantou-se e abraçou-a. Voxy retribuiu. Os olhos húmidos mancharam a camisa da avó quando encostou a cabeça no seu peito.
...
Estefânia acordou na manhã seguinte como se tivesse saído de uma anestesia. Os últimos dias pareceram-lhe tão surreais que era difícil acreditar que realmente tinham existido. Aos poucos, estava a voltar ao que era. Uma mulher forte e determinada que enfrenta qualquer adversidade para proteger a sua família. Sempre fora assim. Herdara essa perseverança do pai. Por vezes, ainda sentia a sua presença a dar-lhe força juntamente com Clara.
Despertou dos seus pensamentos e preparou-se para mais um dia.
...
Voxy acordou a sentir-se leve. Talvez o retomar da relação com a avó lhe tenha feito bem. Levantou-se e abriu as cortinas para deixar entrar a luz. Abriu as portadas e saiu para a varanda, mesmo sabendo que lhe podia fazer mal, não se importou. Já não o fazia há muito tempo. O chão estava quente, sentiu-se confortável. Ainda podia sentir os braços da avó a apertá-la contra o peito. Sorriu. Inspirou o ar fresco da manhã antes de voltar para o quarto e arranjar-se para mais um dia.
Desceu as escadas e caminhou na direção da sala de refeições onde esperava encontrar a avó e Kari. Em vez disso, foi encontrá-las no jardim. Foi ao quarto buscar um chapéu e voltou para as cumprimentar. Aproximou-se timidamente. Elas sorriram quando a viram.
- Bom dia.- Disse.
A avó respondeu:
- Bom dia, minha querida. Senta-te e come qualquer coisa connosco.-
Sentou-se e desfrutou do belo dia de sol.
...
Ao chegar ao escritório, Estefânia encontrou Carla no seu gabinete. Algo raro, normalmente só em casos complicados é que recorria às informações guardadas no arquivo, mas agora não parecia ser o caso. Estava com um ar sério e não tinha mexido em nada. Entrou e fechou a porta. Perguntou:
- O que se passa? Porque estás aqui? Se é por causa dos arquivos, já sabes que podes consultar à vontade. És tão dona como eu.-
Carla agarrou-lhe nas mãos. Sentaram-se. Estefânia estranhou.
- Aconteceu alguma coisa? Estou a começar a ficar assustada!-
Carla hesitou um pouco antes de falar:
- Bom...pode não ser de grave, mas...-
Estefânia estava a ficar irritada. Agarrou-lhe nos ombros.
-Diz de uma vez!-
Carla balbuciou:
- A tua mãe...-
Estefânia arregalou os olhos. O assunto era mesmo sério.
-O que tem a minha mãe? Diz!-
Carla deixou-se de rodeios:
- A tua mãe foi para o hospital, parece que sofreu um acidente. Isto é tudo o que sei.-
Estefânia ficou em choque. Sem pensar, levantou-se e saiu apressada.
...
Depois do pequeno almoço, voltaram para casa. Voxy já apanhara sol suficiente. Odete pediu a Kari que a deixasse a sós com Voxy. Foram andando para a sala de estar, a avó tinha algo para lhe dizer.
Já na sala de estar, sentaram-se em frente uma à outra. Odete tinha uma expressão séria. Estava lá há quase uma semana e a sua expressão tentava ser alegre para não a desanimar. mas Voxy sabia e sentia que havia qualquer coisa que não estava bem. Tinha tido algumas crises passageiras que eram rapidamente resolvidas com comprimidos e descanso. A seguir a cada uma delas, apanhava a avó e Kari aos cochichos na sala. Calavam-se sempre que ela entrava. Agora, precisava de saber o que se passava.
- Durante estes dias, estive a falar com a Kari e chegámos á conclusão que sozinhas não te vamos conseguir ajudar.- Acrescentou:- Por esse motivo, achei melhor chamar a Dra Felícia Jones. Já a conheces, pois estiveste com ela na Suíça.-
Voxy não estava surpreendida.
- Se sabes tudo isso, então também deves saber como as coisas correram lá! Aceito a ajuda, mas não sei se vai adiantar de muito.-
Levantou-se e aproximou-se da porta. De repente, vários flaches de memórias passaram-lhe pela mente. Via a mãe sentada ao piano com o caderno de notas aberto, o pai e Kari. Todos a sorrir enquanto tocava uma doce melodia. Depois, a escuridão total. Luzes fortes no vazio, cada vez mais fundo, até que uma voz a fez regressar à realidade. Voxy.
Acordou nesse momento. Odete e Kari estavam a seu lado. Suava por todos os lados e respirava aceleradamente e com alguma dificuldade como se tivesse acabado de ter um pesadelo. Olhou confusa para a irmã e para a avó que tinha um ar preocupado.
- O que aconteceu?- Perguntou com a voz fraca.
Odete respondeu:
- Levantaste-te bruscamente e foste para a porta. Tiveste uma tontura quando ias a sair e desmaiaste. Fui chamar Kari para me ajudar a trazer-te para o sofá. Ela ainda quis chamar um médico, mas acordaste e não foi preciso.-
Voxy tentou levantar-se, mas teve outra tontura e desistiu. Olhou para as duas.
-Levem-me para o quarto.-
Odete e Kari ajudaram-na a levantar-se. Percorreram o corredor até às escadas. Subiram devagar e, já no quarto, deitaram-na na cama. Deixaram-na descansar e voltaram para a sala.
Quando Bertha chamou para almoçar, apenas Odete e Kari apareceram. Acabaram de comer e Odete subiu para ver como estava Voxy, Kari quis acompanhá-la mas a avó achou melhor não haver muita gente. Entrou no quarto devagar. Voxy estava sentada perto da janela a olhar para o jardim. A luz do sol fazia com que as faces pálidas brilhassem.
Odete aproximou-se e sentou-se na borda da cama. Voxy olhou-a e sorriu.
- Então, como te sentes?-
Voxy respondeu:
- Já estou melhor. Acho que apanhei sol a mais, foi só isso.-
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Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.