segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Uma Aventura pelo Oriente

 Olá

Desta vez, decidi trazer algo que publiquei há 3 anos numa publicação digital e que agora resolvi recuperar para contextualizar um pouco alguns textos que tenho publicado aqui mais recentemente e também por causa do AniStudio, o meu  canal do YouTube. Espero que gostem e que vos ajude a perceber melhor as especificidades deste meu mundo e, quem sabe, dar uma espreitadela. Quem leu na outra publicação, pode reler aqui e quem  está pela primeira vez, seja muito bem-vindo. 

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Uma Aventura pelo Oriente

Não me lembro do dia exacto. Só sei que foi algures nos anos 90 quando tinha 6 ou 7 anos. Ainda estava na escola primária. Lembro-me de, no baloiço do recreio, cantar as canções de abertura das séries que via na televisão.

Ao princípio, foi apenas o desenho que me chamou a atenção. Por ser diferente. Apenas por isso.

Depois, vieram as brincadeiras, a vontade de ser como aquelas personagens. Com o tempo, fui apurando o gosto. Aprendi a seleccionar as séries e os filmes e a lista-los por categorias inventadas por mim.   

Mas do que escrevo? Escrevo sobre um mundo diferente. Um mundo cheio de cabelos espetados ou roupas demasiado curtas e apertadas. Um mundo onde existem dragões e titãs, espadachins e fadas, elfos e demónios. Um mundo onde as raparigas têm poderes extraordinários, os rapazes voam e lutam sem descanso. Um mundo onde a tecnologia contrasta com as mais belas paisagens e a mais apetitosa comida.

Um mundo que, apesar de vir do outro lado do nosso, nos diz tanto mas também nos ensina tanto sobre a amizade, o espírito de equipa e a persistência em seguir os nossos sonhos.

Sejam bem-vindos ao meu mundo: o mundo da Cultura Pop Japonesa, mais concretamente o mundo do anime.

Antes de vos escrever sobre o anime, importa saber que a cultura pop japonesa se divide em três categorias interligadas que são a Mangá, o Animé e o Cosplay.

A Mangá, que em japonês quer dizer «desenho fantástico», mas no ocidente designa a banda desenhada japonesa. Caracteriza-se essencialmente por ser impressa em folhas parecidas com as de um jornal, a preto e branco e em pequenos volumes e pelo sentido da leitura ser da direita para a esquerda, por colunas.

De seguida, temos o Animé, palavra que em japonês significa animação. No ocidente, representa toda a animação que vem do Japão ou de outro país asiático como a Coreia ou a China. É um estilo de animação e não um género, uma vez que consiste numa forma diferente de desenho.

Por último, apresento o Cosplay que não é uma palavra japonesa, mas sim uma junção de duas palavras inglesas. «Costume» e «Roleplay». O termo designa a arte de vestir e representar um personagem de uma série, filme, videojogo, livro, anime ou mangá, da forma mais fiel possível, desde roupa, cabelos, maquilhagem, acessórios e até a cor e o tamanho dos olhos! Muitos fatos e acessórios de cosplay são feitos pelos próprios cosplayers, embora haja também um grande grupo que os encomenda pela internet ou manda fazer.

Ao longo do tempo, fui aprendendo mais sobre o anime e as suas características. Com a internet, o acesso ficou mais fácil, mas ainda gosto de esperar que dêem na televisão ou comprar em DVD ou, ainda, ir ao cinema.

Aos poucos, fui descobrindo os diferentes géneros, mas também os temas e públicos-alvo, embora, para mim, fossem todos iguais. Ainda assim, dentro de cada tema existem os géneros terror, drama, comédia, fantasia, ficção científica, romance, musical, policial, thriller, suspense e ‘slice of life’, que correspondem a temas da vida quotidiana geralmente sem elementos fantásticos.

Os temas principais abrangem desporto, tecnologia e magia e os públicos-alvo vão desde crianças pequenas até adolescentes e adultos de ambos os sexos.

Tal como nos outros estilos e géneros de animação e não só, também aqui é muito difícil escolher um favorito. Na maior parte dos casos, a lista é demasiado longa. Por isso, para simplificar e também para ajudar um pouco os que estão a começar seja para continuar ou apenas por curiosidade, deixo algumas sugestões de séries e filmes que vi (e alguns continuo a ver) e que considero importantes para construir um caminho sólido na animação japonesa e também porque gostei deles particularmente.

Séries:

Como um bom livro ou filme, nada melhor que começar por aqueles que marcaram os anos 90 e, por isso, são considerados por muitos como ‘Clássicos’ da animação japonesa. São eles:

- Sailor Moon (1992) - conta a história de Usagi Tsukino, uma garota normal e inocente de 14 anos — pelo menos, é isso que ela pensa — que um dia encontra Luna, uma gata falante que revela a identidade de Usagi como "Sailor Moon", uma guerreira mágica destinada a salvar a terra das forças do mal.

- Dragon Ball (1989) - A história de Dragon Ball ("Bola do Dragão") conta as aventuras de Son Goku, um menino com cauda de macaco que mora na Montanha Paozu.

 - Pokémon (1995) - Ao completar dez anos, Ash Ketchum, um menino que sonha tornar-se Mestre Pokémon, pode finalmente começar a sua jornada em busca do seu sonho

As ‘obrigatórias’ são as duas primeiras pois, como já referi, vão servir de referência para os próximos mas também porque foram as que maior impacto tiveram na minha vida não só em termos de desenho mas também e principalmente em termos de história e de valores transmitidos. Já para não falar que me animaram quando estava mais triste.

Filmes:

Depois, como sugestão de cinema, deixo-vos com alguns filmes que vi mais recentemente e que também causaram impacto pela sua maravilhosa animação e histórias cativantes como de resto é característico no anime. São produzidos pelos Estúdios Ghibli considerados a «Disney do Japão».

 

- A Princesa Mononoke (1997) - Um príncipe, em busca de uma cura para uma misteriosa mancha negra, vê-se envolvido numa guerra entre a floresta e uma colónia mineira. Nesta aventura ele conhece Mononoke.

- A Viagem de Chihiro (2001) - A família Ogino está de mudança para uma nova cidade. O casal, Akio e Yuko, está muito entusiasmado com a viagem. Mas, o mesmo não acontece com a sua filha Chihiro, uma menina de dez anos que está muito chateada por ter que deixar todas as suas lembranças e amigos de infância para trás. Nas mãos, ela carrega um buquê de flores, o último presente que recebeu antes de ir embora.

- O Castelo Andante (2004) - Sophie acha que o seu destino é continuar com a chapelaria da família e não tem ambições. Certo dia quando saiu para visitar a irmã Lettie ela é importunada por alguns oficiais do exército mas é salva por um bonito jovem. Mas isso atrai a atenção da Bruxa do Nada que lhe lança um feitiço que a transforma numa velha. Ela decide sair de casa em busca de um modo de quebrar a maldição, mas não sabe para onde ir.

E com isto me despeço, por agora. Espero que desfrutem das sugestões tanto como eu.

Fecho este artigo com uma frase icónica adaptada da versão portuguesa de um anime icónico que deixo como sugestão e a qual recomendo a verem. Quem é fã reconhece, quem ainda não é, provavelmente já deve ter ouvido:

Não percam o próximo artigo porque eu também não!

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Vemo-nos por aí.

Bjs 

Joana 



segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Dragon Ball Super: Super Herói Uma Espécie de Análise

 Olá 

Desta vez, resolvi partilhar algo diferente. Algo que nunca tinha feito, pelo menos para aqui. Uma análise a um filme. 

Espero que gostem. 

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Dragon Ball Super: Super Herói

Uma Espécie de Análise

No passado Sábado, dia 3, fui ao cinema. Fui ver um filme sobre super heróis, vingança e superação. Mas também uma viagem á infância, um revisitar de bons momentos passados em frente ao pequeno ecrã a acompanhar com entusiasmo as aventuras de um menino muito peculiar que partiu em buscar das bolas «de puro cristal» e que conseguiu, com a sua «força brutal», derrotar vários vilões entre eles um exército inteiro cheio de máquinas e tecnologia de ponta. Esse menino com cauda de macaco, chamado Songoku, e com a tal «força brutal», foi o grande herói que venceu o mal.

A partir daqui, começa a minha espécie de análise, digo que é uma ‘espécie’ porque não sou crítica de cinema nem nada que se pareça, sou apenas uma fã a dar a sua opinião sobre um filme que viu no cinema numa tarde de Sábado com uma amiga.

A História

O filme começa com um projecto de vingança orquestrado pelo renascido Exército da Legião Vermelha que, no filme, é chamado de Fita Vermelha, numa tradução mais literal, uma vez que o original é Red Ribbon, sendo que Ribbon significa laço ou fita, liderado pelo comandante Magenta, filho do General Red. Nesta altura, a Legião Vermelha actua sob o nome de Farmacêutica Vermelha para disfarçar as suas verdadeiras intensões, concretizadas com a ajuda de um aliado de peso. O neto do Dr Gero, o anterior cientista que trabalhava para a Legião Vermelha, o Dr Hedo que, financiado por Magenta, constrói dois andróides ainda mais fortes que os do seu avô, os Gamas 1 e 2.

Convencidos que Goku e companhia são uma ameaça, Magenta ordena a um dos Gamas que ataque os amigos deste, começando por Satã, que agora virou mentou da neta do Guerreiro do Espaço, Pan. Após uma luta feroz, Satã consegue escapar de uma morte certa e segue o seu oponente até á base secreta do Exército. Lá descobre um terrível plano para dominar o mundo. Para além dos Gamas, o Dr Hedo construiu, ainda que contra a sua vontade, um outro andróide, o Cell Max ainda adormecido. Uma vez acabado será uma arma letal.

Então, Satã corre para avisar Goku e Vegeta, mas estes não estão disponíveis para ajudar pois encontram-se a treinar juntamente com Broly, num planeta distante.

De volta á base, Magenta decide que a melhor forma de atrair os seus inimigos é raptando Pan. Satã, disfarçado, decide aproveitar essa oportunidade para fazer regressar Gohan, o pai da menina, às lutas e aos treinos para defender a Terra. Então, o confronto dá-se no meio de chuva intensa e efeitos especiais a que já nos habituámos neste ‘franchisining’. Quando tudo parece resolvido, eis que surge Cell Max que começa a destruir tudo por onde passa e cabe mais uma vez a Gohan salvar o dia tal como o fizera no passado.

 

Conclusão e possível futuro

Apesar de ter uma narrativa simples, o filme torna-se uma experiência visual agradável não só para quem já é fã mas para quem está a começar a apreciar a série. A animação, embora experimental, consegue cativar o espectador especialmente na parte final. Aquando do seu anúncio, fiquei um pouco reticente, tal como muitos fãs, por causa do tipo de animação usada, mas no final não desiludiu.

Outro aspecto que também não me desiludiu foi a dobragem portuguesa. Quando vi o trailer pela primeira vez, confesso que tive algum receio que o produto final fosse ‘infantilizar’ a série, mas acabou por ser o contrário. O facto de terem optado por colocar as habituais ‘pérolas’ no sítio certo e em transições funcionou muito bem, pois a dinâmica da história não foi quebrada, ou seja, não houve um uso exagerado de ‘pérolas’ que pusessem em causa o curso da narrativa. Isto demonstra que não só a dobragem portuguesa está bem e recomenda-se como trouxe uma ‘lufada de ar fresco’  sem perder a sua essência vinda dos anos 90.

Concluo aconselhando a que vão ao cinema de preferência em família, ver a versão que preferirem, embora eu aconselhe a portuguesa, porque não se vão arrepender.

Por fim, com este filme, abrem-se portas para o futuro da série que com certeza trará novos desafios para os ‘nossos’ heróis. Ao dar ênfase a outros personagens que não os principais, demonstra que Dragon Ball  é uma série dinâmica e flexível com espaço para todos e para fazer mais e melhor.

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Não percem os próximos textos, porque eu também não! 

Bjs 

Joana 

 


quarta-feira, 15 de junho de 2022

O Diamante

 Olá

Hoje, resolvi trazer um 'update' de um texto antigo. Espero que gostem. 

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O Diamante

O Diamante era uns dos cafés mais elegantes da cidade de Paris. O orgulho dos seus proprietários, o casal Brouchart. Situado numa das avenidas mais movimentadas da cidade, virado para os Campos Elísios, um recanto agradável e sossegado para se passar um bocado a ler ou simplesmente a apreciar a vista com um café e um cigarro.

Fundado antes da guerra, pelos avós do Sr Brouchart, que viviam no sul de França mas com a crise, resolveram tentar a sorte na capital.

O espaço, de tamanho médio, tinha um balcão corrido de madeira com bancos altos, bem como um sem número de cadeiras espalhadas pela sala como pequenas ilhas num oceano de espelhos e luzes.

Sempre foi frequentado por todo o tipo de gente: artistas, políticos, militares de alta patente e outras pessoas importantes.

Chamava-se Diamante por causa da forma curiosa como os espelhos se dispunham na sala mas também por ter sido um achado no meio da parafernália de prédios naquela avenida. «Este vai ser o nosso diamante» dissera o Sr Bouchart na altura da compra. A mulher achou tanta piada ao nome que ficou até aos dias de hoje. 

A sua especialidade, para além dos cafés aromáticos, chás com sabores orientais e outras bebidas espirituosas, era o bolo de frutos vermelhos da Sra Brouchart. «Uma verdadeira maravilha!» diziam sempre as gentes que lá passavam a provar.

Uma receita antiga, do tempo dos seus avós que foi passando de geração em geração. E, como todas as receitas de família, também tinha um segredo que a Sra Brouchart dizia ser o amor e dedicação que punha no prato, mas todos sabiam que havia algo mais. Talvez as quantidades, tinham de ter uma certa medida para ficarem mesmo ao seu gosto. Ninguém o sabia dizer.

Todas as manhãs, antes da abertura, a Sra Brouchart ia para a cozinha preparar uma fornada para o dia. Era um momento sagrado. Ninguém podia entrar na cozinha, nem sequer o marido ou corria o risco de desconcentrar a cozinheira. «A cozinha é como uma oficina, se não estiver tudo organizado, as coisas não saem como desejado» dizia sempre antes de se retirar. Todo o esforço compensava. O agradável aroma doce que vinha da cozinha depois de cada fornada era irresistível e um chamariz para os clientes que vinham de todo o lado só para o provar.

Foi assim até rebentar a guerra. O casal teve de se refugiar nos EUA depois da invasão alemã. Estiveram em casa de uns familiares do Sr Brouchart que tinham um rancho.

Quando o conflito finalmente acabou e regressaram a casa apesar da insistência para ficarem. Já toda a gente se tinha rendido às receitas da Sra Bouchart e não queriam que se fosse embora. Mas tinha de ser.

A França ainda era o seu país. Despediram-se em lágrimas no porto de New Jersey. Chegaram a Paris passado um mês no mar. Já estavam enjoados de tanta água e foi uma alegria quando pisaram terra firme.

Apanharam um táxi até ao café. No caminho, viram uma cidade que tentava reeguer-se. Ainda com cicatrizes mas a reerguer-se. Foi um alívio ver que os estragos não eram muitos. Uma montra partida, umas quantas mesas e cadeiras reviradas, mas nada que o seguro não cobrisse. As memórias, essas, continuavam lá. Depois de uns pequenos arranjos, o café Diamante pôde voltar ao seu antigo esplendor e a Sra Brouchart aos seus maravilhosos e secretos bolos.  

Até ao dia em que conheceram Marie, uma menina órfã de guerra.

Naquela altura, era apenas uma criança mas já tinha qualquer coisa de especial. Nunca pensaram em ter filhos porque o trabalho no café os ocupava muito tempo e gostavam de pensar na comida como os seus filhos.

Marie era ruiva, caso raro em França. Olhos verdes de gata esperta. Vestido lilás com flores amarelas, uma estravagância mas que trazia alegria por onde passava. Apareceu á porta do café como um cão abandonado. Tinha perdido a família na guerra e mal falava com o trauma. A Sra Bouchart convidou-a a entrar e a provar uma fatia de bolo.

A pequena entrou timidamente. Sentou-se ao balcão. Olhou em volta. Espelhos, quadros e prateleiras com bebidas que ainda não podia experimentar, mas que achou graça ás cores e aos feitios das garrafas. Pequenas, grandes, estreitas e largas.

Quando veio o bolo, ficou a olhar para ele como se não quisesse acreditar que aquilo que vira da montra do lado de fora estava mesmo à sua frente. Provou e deliciou-se. A Sra Bouchart sorriu como sempre fazia, mas talvez desta vez com mais ternura, com a ternura de uma mãe. Adoptaram-na quase n mesmo dia.

Agora, era Marie Bouchart. Como estava feliz! Ia á escola durante o dia e aprendia a arte da confeitaria á tarde que por vezes se transformava em noite tal era o entusiasmo! Queria aprender sobre tudo! Os ingredientes, a massa, a confecção final. Virou uma ajudante da mãe em pouco tempo. A mãe passou-lhe o segredo de todos os bolos, até do de frutas, a grande especialidade do café.

Não tardou muito para que a filha começasse a fazer os seus próprios bolos a partir das receitas da mãe e a fazer sucesso entre os clientes. Em breve, o café deixou de ter espaço para as suas criações e para os seus clientes, por isso, quando fez 20 anos, os pais ofereceram-lhe o seu próprio café que ela carinhosamente chamou de Bouchart em homenagem á família que a acolhera e ao Diamante que a vira nascer como pasteleira.

A três quarteirões do dos pais, passou a ser o mais movimentado da cidade. Uma segunda geração do Diamante que se haveria de estender por muitas mais.    

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Bjs

Joana 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Excluídos - A Cápsula do Tempo

 Olá

Hoje, resolvi voltar áquela secção dos «Excluídos» e trazer-vos mais um. Desta vez, um conto. 

Espero que gostem. 

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A Cápsula do Tempo

Era mais um dia nas férias de Verão. Estava uma linda manhã de sol. Isabel acordou com os raios de luz a espreitarem por entre as cortinas da janela do quarto. Abriu os olhos devagar, ainda pouco habituada à luz intensa. Sentou-se na cama e espreguiçou-se.

Levantou-se e abriu a janela. A luz inundou o quarto de cor. Depois, foi para a casa de banho arranjar-se. Vestiu o seu vestido preferido, branco com flores cor-de-rosa e penteou o cabelo castanho. Por fim, calçou as sandálias.

Passado pouco tempo, ouviu a voz da mãe a chamá-la da cozinha que ficava no andar de baixo:

- Isabel, o pequeno-almoço está pronto! Anda comer!-

 Desceu as escadas alegremente para a cozinha onde se sentou ao pé da mãe para tomar o pequeno-almoço que mais gostava. Leite e cereais.

- Bom dia, Isabel.- Cumprimentou a mulher de olhos castanhos, como os seus, cabelo preto, vestida com uns calções azuis e uma t-shirt vermelha, sorrindo.

-Bom dia, mãe! – Respondeu a menina enquanto começava a comer.

Depois de acabarem de comer e de arrumarem a cozinha, a mãe disse:

- Preciso que me ajudes a arrumar umas coisas no sótão, por favor. Há muita coisa que se está a acumular e que já não precisamos.-

Isabel respondeu:

- Está bem, mãe.-

Seguiu-a até ao andar de cima da casa. Mesmo ao pé do quarto da mãe, havia outro lanço de escadas de madeira. Eram mais estreitas e davam para uma porta no tecto. Isabel já tinha reparado naquela porta mas nunca se atrevera a subi-la. O sótão parecia ser muito assustador. A mãe tranquilizou-a:

- Não precisas de ter medo, querida. Eu estou aqui contigo.-

Isabel corou de atrapalhação. Subiu as escadas atrás da mãe, que abriu a porta quando chegaram lá a cima. A mãe entrou primeiro para verificar que era seguro e para a deixar mais tranquila, e depois foi a vez da filha. O sótão não era muito grande, mas como estava cheio de coisas parecia ainda mais pequeno. Tinha o tecto inclinado e uma janela redonda por onde entrava alguma luz.

 Depois de entrarem, a mãe começou a dar as instruções:

- Muito bem, podes começar por ver o que há naquela pilha de caixas ali ao fundo ao pé da janela e eu vejo estas aqui mais ao pé da porta. Tudo o que achares que é para deitar fora, pões num monte que depois juntamos com as minhas e levamos lá para baixo.- 

Isabel assentiu e foi para o sítio que a mãe lhe indicou. Começou a mexer no meio das caixas cheias de pó que levantavam uma pequena neblina fazendo-a espirrar um pouco. Com cuidado para não partir nada. Distraiu-se a olhar pela janela quando viu um papagaio de papel ao longe e uma delas caiu no chão com um ruido seco, que levantou algum pó e a assustou. Baixou-se para a apanhar depois de desviar o pó com as mãos, mas estava entreaberta e algo caiu lá de dentro. Pousou a caixa ao pé das outras e foi apanhar o que caíra. Era uma folha de papel dobrada como os mapas dos tesouros piratas. Sempre gostara dessas coisas. Curiosa, resolveu abrir para ver o que era. Ficou surpresa com o que encontrara. Era uma espécie de mapa que representava o parque onde costumava brincar com menos árvores, mas com a grande ao centro perto da escola. De uns locais para os outros, tinha uma linha tracejada vermelha que ia dar a um local assinalado com um X.

Voltou a dobrar o mapa, aproximou-se da mãe que já quase arrumara as caixas, e perguntou:

- Mãe, que mapa é este? Posso ficar com ele?-

A mãe olhou para a folha e sorriu.

- Esse mapa foi desenhado pelo teu pai quando tinha mais ou menos a tua idade. Era uma brincadeira que costumávamos fazer. Escondíamos coisas no parque e depois íamos procurar como se fossem tesouros.- Acrescentou: -Era muito divertido, podes ficar com ele se quiseres.-

Isabel ficou entusiasmada.

- A sério? Obrigada!- Agradeceu Isabel. Acrescentou: -Mas como é que brinco a isto se não tenho nada escondido no parque?-

A mãe pensou um pouco antes de responder:

- Ora vejamos A maior parte dos objectos já lá não estão, mas acho que existe um que ias gostar de descobrir. Foi lá deixado pelo teu pai e por mim há muito tempo.-

Isabel sorriu. Depois, perguntou:

- Posso mostrar isto aos meus amigos? Acho que eles iam gostar.-

A mãe respondeu:

 - Claro que podes! Quantos mais forem a procurar mais divertido se torna!-

Isabel desceu as escadas entusiasmada depois de agradecer á mãe, mas com cuidado para não cair pois os degraus eram estreitos. Quando estava a chegar á sala, bateram á porta. Pousou o mapa na mesa da entrada e foi abrir.

Do outro lado, estava uma rapariga loura de olhos azuis vestida com um vestido lilás e umas sandálias castanhas. Era Leonor a sua melhor amiga.

- Bom dia, Isabel! – Cumprimentou ela.

-Bom dia.- Respondeu Isabel.

 Leonor acrescentou:

-Estava aqui perto e resolvi passar para te perguntar se queres vir ao parque.- Olhou para dentro de casa e viu as caixas.- O que estás a fazer? Espero não estar a atrapalhar.-

Isabel respondeu:

-Não atrapalhas nada! Claro que quero ao parque! Mas entra, quero mostrar-te uma coisa.-

Leonor agradeceu e entrou, depois de Isabel fechar a porta. Ao ver o mapa, ficou curiosa e perguntou:

- O que é aquilo?-

Isabel pegou nele e levou-o até à amiga que arregalou os olhos quando lhe mostrou.

- Parece ser um mapa com várias pistas para seguir, muito divertido. Onde o encontraste?-

A amiga respondeu:

- Foi no sótão. Estava a ajudar a minha mãe a juntar umas coisas para deitar fora e isto caiu. Era do meu pai quando era pequeno.-

Leonor olhou para o mapa. Perguntou novamente:

-E por onde começamos?-

Isabel explicou-lhe que havia um objecto perdido no parque para ser encontrado e só tinham de seguir os desenhos.

- Podíamos ir chamar os outros!- Sugeriu Leonor. – Assim, é mais divertido!-

Isabel concordou. Depois de avisar a mãe, saíram de casa e foram procurar os amigos para começarem a brincadeira.

O primeiro que encontraram foi, Duarte, um menino de cabelo ruivo e olhos verdes que vestia una calções castanhos e uma t-shirt azul. Tinha umas sandálias castanhas. Estava a sair de casa e foi logo ter com elas quando as viu.

-Olá, o que estão a fazer?- Perguntou curioso.

Leonor respondeu:

- Olá, a Isabel encontrou um mapa do tesouro e pensámos que seria divertido procurarmos o tesouro todos juntos. Queres juntar-te a nós?-    

Ele nem pensou duas vezes.

- Claro que quero! Isso parece divertido!-

E lá foram os três a caminho do parque. No caminho, Isabel explicou como funcionava o mapa a Duarte que ficou ainda mais entusiasmado com o tesouro no parque. 

Quando chegaram ao parque, encontraram Simão a ler um livro. Tinha o cabelo preto, olhos da mesma cor, usava uns calções azuis, uma t-shirt roxa e óculos redondos.

- Olá! – Cumprimentou quando os viu e depois de pousar o livro. Reparou no papel que Isabel trazia e ficou curioso:

– O que é isso que trazes aí, Isabel?-

Ela pousou o mapa em cima de uma mesa de merendas e abriu-o para que todos pudessem ver.

- É um mapa do tesouro! Encontrei-o esta manhã quando estava a ajudar a minha mãe a arrumar o sótão e achei que seria divertido procura-lo juntos!-

Simão sorriu.

-Também acho.-

Isabel olhou para o desenho do parque. Havia um tracejado até um relógio. Como eram três traços, presumiram que fossem três passos até á escola, já que era o único edifício que tinha um relógio. Foram para o pé da escola com o mapa em riste para se orientarem.

-Bom, os primeiros passos já demos. O que se segue?- Perguntou Duarte.

Isabel voltou a olhar para o desenho. Desta vez, a linha dividia-se em quatro e seguia até um conjunto de árvores que já não existiam por causa das obras no parque pelo que continuaram a seguir a linha do mapa. O caminho seguinte, dividido em cinco, levava-os até á árvore velha ao centro. Lá era o local do X onde estava o tesouro.

Aproximaram-se da árvore. A princípio, não viram nada, mas depois Isabel reparou num buraco no tronco.

-Vejam, acho que encontrei qualquer coisa!- Exclamou.

  Os outros foram logo ver o que era. Espreitaram para dentro do buraco e viram que tinha algo lá dentro. Isabel estendeu a mão e tirou um caixa de metal um pouco enferrujada. Tinha um desenho de uma bailarina na tampa.

Levaram a caixa para a mesa do parque. Isabel abriu-a com cuidado. Lá dentro, estavam vários objectos. Fotografias, pedaços de tecido, cadernos e desenhos.

-O que é isto?- Perguntou Leonor um pouco desiludida. Todos estavam admirados. De repente, Simão lembrou-se:

-Acho que sei o que isso é!- Todos olharam para ele que ficou atrapalhado. Acrescentou: -É uma cápsula do tempo.- Explicou.- Uma caixa onde se guardam coisas que gostamos para que outras pessoas possam encontrar e aprender como as pessoas viviam numa determinada época.-

Todos sorriram e concordaram que Isabel devia levar a caixa para casa pois o mapa era dela. Já estava a ficar tarde. O tempo passa mais depressa enquanto se estavam a divertir. Despediram-se e prometeram voltar a ver-se no dia seguinte.

Isabel chegou a casa e foi arrumar o mapa no quarto. Pousou a caixa na mesa da sala para mais tarde. Depois foi para a cozinha jantar com a mãe. Logo a seguir, foram para a sala e Isabel mostrou á mãe a caixa que encontrara no parque. A mãe sorriu ao lembrar-se.

-Estes das fotografias éramos eu e o teu pai quando éramos pequenos.-

Isabel perguntou:

-Achas que pudemos fazer uma cápsula do tempo como esta, mãe?-

A mãe respondeu:

-Claro que podes. Quando voltares á escola, fala nisso á tua professora, ela ajuda-vos.-

Ficaram mais um pouco a ver a caixa até serem horas de dormir.

Já na cama, a mãe aconchegou a filha e deu-lhe um beijo de boas noites. Antes de sair para também ir dormir, disse:

-Sabes, o teu pai deixou-me um grande tesouro e eu não podia estar mais feliz.-

Sorriram as duas.

-Boa noite, Isabel. Dorme bem.- Disse a mãe.

-Boa noite, mãe.-

Adormeceu pouco depois, feliz ao lembrar-se do dia maravilhoso que tivera com os amigos. Esses eram os seus verdadeiros tesouros.

Fim

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E pronto. Mais uma vez, espero que gostem. 

Vemo-nos por aí.

Bjs 

Joana 

 

 


segunda-feira, 11 de abril de 2022

Asas de Cristal- Epílogo

 Olá 

Como prometido, aqui fica o epílogo da história.

Espero que gostem.

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Epílogo

Alguns meses depois

Querida Margaret,

Desculpa por não te ter escrito mais cedo. Estes últimos meses foram muito agitados.

A mudança e os preparativos da cerimónia têm-me dado muito que fazer. Como estás? E a família? Ainda não conseguiram acreditar naquilo que lhes aconteceu ou já assimilaram? Espero que esteja tudo bem.

Por aqui estamos fantásticas! A casa é espectacular! Uma penthouse virada para o mar com muito espaço para a Zilly e a Becky correrem. Depois de toda a burocracia (e alguma ajuda extra, se é que me entendes) lá conseguimos trazê-las para casa. Não dão muito trabalho só com a comida é que fazem mais confusão.

Mas não foi para te falar só na mudança que te envio esta carta. É para te convidar para a nossa cerimónia de união daqui a alguns dias. Queríamos muito que fosse a madrinha. Aceitas? Por favor, diz que sim! Ia adorar rever-te. O resto da família também pode vir.

A Ivy está a chamar-me. Parece que as hienas fizeram o que não deviam. Tenho de ir.

Fico a aguardar a tua resposta.

Bjs

Harley

Ps: Os cupcakes que mandaste outro dia estavam óptimos. Dás-me o contacto da pastelaria? Gostava de encomendar para a festa. Ou então podes trazê-los pessoalmente.

Fim

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E pronto.

Mais uma vez, espero que tenham gostado.

Até á próxima.

Bjs

Joana   


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Asas de Cristal- XII- Adeus, Joker

 Olá 

E eis que chega o último capitulo desta história! 

Para a semana, trago o epílogo.

Espero que gostem. 

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XII

Adeus, Joker

Peguei nas malas e comecei a caminhar. Cada passo que dava ficava marcado. O barulho ia ficando cada vez mais alto. Quando cheguei á entrada do armazém, ele ainda lá estava. Não saíra de propósito. Ficara a ouvir a conversa. Estava furioso. Passei por ele com as malas na mão como se passasse por um objecto. Ergui o detonador e sorri depois de sussurrar: «Adeus, Joker». Apertei o botão e uma enorme explosão varreu o armazém.

No carro, Ivy tentava ligar-me mas sem sucesso. Ouvira a explosão e estava preocupada. «Será que o plano funcionou?» Pensava. De repente, ao longe vislumbrou a silhueta de um carro a afastar-se. «Uma já está a salvo. E tu, quando é que apareces?» Pensou. Uniu as mãos e baixou a cabeça como se rezasse. Nunca pensou que o faria. Sempre acreditara na ciência.

Nesse momento, ouviu um barulho vindo do armazém. Levantou a cabeça. Do meio dos escombros, vislumbrou uma silhueta que se aproximava do carro. Vinha meio cambaleante e com algo nas mãos. Pousei as malas dentro do carro e sorri. Ivy deslizou até ao banco do pendura com lágrimas nos olhos e beijo-me com sôfregão. Largou-me para que pudesse entrar no carro. Sentei-me e arrancámos.

-E ele?-Perguntou com alguma ironia.

-Deve estar morto ou, se escapou, deve estar muito ferido, mas não me interessa.- Respondi, sorrindo.

Olhou para as malas e perguntou:

-O que vamos fazer com aquilo?-

Respondi:

-Vamos ter uma vida desafogada durante muito tempo. Compramos uma boa casa e até podemos ter animais de estimação já que não podemos criar mais nada, que me dizes?-

Ela concordou. Acrescentei:

-Podiam ser diferentes dos outros.- Acrescentou:-Já que temos dinheiro, podemos dar-nos ao luxo de ser extravagantes.- Sorri.- E se fossem hienas?-

Ivy ficou surpresa mas sorriu.

-Se são hienas que queres, então vais tê-las.-

Sorrimos.

Ao longo do caminho, pensei em tudo o que passara e tudo o que ainda faltava. Olhei para Ivy e ela para mim. Percorremos mais uns quilómetros até chegarmos a uma área de serviço á beira da estrada. Parámos para reabastecer e comer qualquer coisa. Toda aquela acção deixara-me com fome. Depois, retomámos a viagem.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

Bjs 

Joana 


sexta-feira, 1 de abril de 2022

Asas de Cristal- XI- Reencontros

 Olá

Aqui fica o capítulo da semana. 

Espero que gostem.

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XI

Reencontros

Quando regressou ao armazém, Jerome já tinha saído. Só Arthur ainda continuava no mesmo sítio. Sem lhe ligar muito, Às tirou um telemóvel do bolso. Era descartável e só tinha um número. Sorriu desafiadora para Arthur enquanto digitava uma mensagem. Fizera questão de o fazer á frente dele, queria certificar-se que ele a via, só para o provocar. Caminhou até ele com o telemóvel na mão. Aproximou-se o suficiente para lhe sussurrar que em breve a sua querida estaria ali.

Acabara de lhe confirmar as suspeitas. Aquela rapariga tinha mesmo alguma ligação com ele e com a Harley. Em breve tudo estaria esclarecido.

Nesse momento, o telemóvel tocou. Peguei-lhe e tinha uma mensagem de um número desconhecido. Abri-a e eram coordenadas. Mostrei a Ivy. Tínhamos encostado o carro perto de um posto de abastecimento para desentorpecer as pernas.

-O que achas que é?- Perguntou, embora já fizesse uma ideia da resposta.

-Parece ser um armazém.- Respondi, olhando com mais atenção.

Abastecemo-nos de sandes e bebidas que iam servir por pelo menos mais uma semana. O dinheiro acumulado ao longo dos anos através dos nossos actos ilícitos valera a pena. Afinal, o velho ditado de que o crime não compassava não fazia sentido.

Pus as coordenadas no GPS e arrancámos logo de seguida.

Às estava impaciente. Queria que chegassem naquele momento. Arthur estava mesmo á entrada do armazém para que o visse assim que entrasse. Não queria que tivesse pena nem que ficasse chocada, apenas que visse o que tinha feito e que, talvez, a reconhecesse. Só queria a sua amiga de volta, mas parecia-lhe muito improvável. Sabia que aquele já não era o seu ponto fraco. Se o tivesse feito há alguns anos talvez fosse diferente. Naquela altura, eram ambas obcecadas por ele. Agora, era apenas ela.

Estava ansiosa e expectante ao mesmo tempo. Queria muito voltar a ver a Sam. Tinha tanta coisa para lhe perguntar! Era um misto de felicidade e insegurança. Ivy deu-me a mão e sorriu. Estaria sempre ali para tudo.

Parámos á porta do armazém. Ivy olhou-me como se perguntasse se queria que fosse com ela. Olhei-a de volta. Desta vez, tinha de ir sozinha. Ela estava ali se precisasse. Saí do carro com o meu bastão e uma pistola. O meu olhar era determinado mas nervoso ao mesmo tempo. Avancei com prudência, não sabia o que iria acontecer. As minhas mãos tremiam. Lembrei-me de quando entrei em casa da Margaret. A sensação era parecida. O desconhecido, o não saber com o que pode contar.

Abri a porta do armazém. O que vi deixou-me perplexa e divertida ao mesmo tempo. O Joker estava sentado e amarrado numa cadeira. As amarras já estavam laças de tanto se tentar libertar. Não sei porque ainda não o tinha feito. Devia estar á espera de uma explicação, pelo ar de surpresa com que ficou quando me viu. Fiz um grande esforço para não me rir. Tinha as suas roupas de Joker e restos de maquilhagem. Uma figurinha patética como todas as que fizera.

Ignorei-o e avancei pelo armazém. Levei a mão á arma que escondera por baixo dos calções. Tirei-a por precaução. Olhei em volta. Apesar de ter pouca luz, conseguia distinguir silhuetas de equipamentos informáticos. Não deviam ser dela. Havia mais alguém. Um cúmplice, talvez. Continuei. Os meus passos eram cautelosos mas determinados. Não queria ter surpresas, mas sabia que se as tivesse, Ivy estaria ali num segundo.

«Harley» uma voz familiar trouxe-me para a realidade. Chamei no meio da semiobscuridade:

-Sam? És tu? Aparece!-

Apontei a pistola á toa pelo espaço como a polícia sempre que invadia um esconderijo. De repente, estava a sussurrar como eles faziam. Ao longo de todos aqueles anos, parecia um filme que vira várias vezes, até as falas sabia de cor. «Vamos conversar, tem de haver outra maneira.» Todos os clichés habituais mas que continuavam a fazer sentido. Pus o dedo ao pé do gatilho, não tinha intensão de disparar apenas assustar. Nunca tinha disparado na vida. Ele nunca fizera questão de me ensinar e eu nunca tivera curiosidade em aprender. Sempre me dera bem com outro tipo de armas. O tiro não er para mim. Mas, naquele momento, parecia a única saída. Ouvi um ruido vindo de muito perto do sítio onde estava. Deduzi que devia estar escondida por ali, por isso avancei. Se fosse com cuidado e fizesse o mínimo de barulho, podia apanha-la desprevenida.

-Aparece!- Gritei de arma em riste. -Eu sei que estás aí!-

Do meio da escuridão, surgiu um vulto. Aproximou-se hesitante. Arregalei os olhos quando se iluminou por uma fisga de luz que entrava por entre as tábuas do tecto. Estava exactamente como naquela altura. O corpo era de mulher, a cicatriz que marcava a cara denunciava a mudança, mas a expressão ainda era a mesma daquela menina. Ao vê-la, a pistola caiu com um barulho seco. Depois, caí de joelhos a chorar. Todos aqueles meses desabaram em cima de mim. Ela aproximou-se e abraçou-me. Senti-a a chorar também. Por um momento, voltámos a ser aquelas jovens universitárias cheias de sonhos. Parecia que o tempo não tinha passado e estávamos de novo no quarto da residência a fazer planos.

Sussurrei-lhe ao ouvido, passado um bocado, voltando á realidade: «Desculpa por tudo, a sério. Não queria que isto tivesse acontecido.» Ela libertou-se do abraço e de olhos húmidos, confortou-me: «Não tens de te desculpar, se há uma culpada aqui sou eu.» Mas ambas sabíamos que o único culpado era o homem amarrado na entrada do armazém.

Cabisbaixa, contou-me tudo pelo que passara. Depois de deixar a universidade, passou a ser a mascote do Joker. Era sempre a isca em todos os seus crimes. Nunca eram apanhados pela polícia ou pelo Batman por causa dela. Até ao dia em que alguém os denunciou e o Batman apareceu. Desviei o olhar, sentindo-me culpada. Ela pôs-me a mão no ombro. Já percebera há muito tempo que fora eu a denuncia-los mas não guardava rancor. Afinal, só queria ajudar.

Era um assalto a um banco e houve uma perseguição. O carro onde seguiam despistou-se. O Joker conseguiu sair mas ela ficou presa e foi deixada para trás. Deu-se uma grande explosão por causa do contacto da gasolina com o ar e a parte eléctrica. Foi dada como morta e o caso foi encerrado. Mas não estava. Quando acordou. Estava naquele armazém com um homem chamado Jerome. Trouxera-a para ali e cuidara dela. Mas tarde, descobrira que ele fazia parte de uma organização secreta chamada Asas de Cristal que tinha alguns negócios com o Joker. Armas e droga essencialmente. Aquele era um dos muitos armazéns onde guardavam a mercadoria. Foi nessa altura que decidiu vingar-se. Investigou e descobriu que ele tinha sido mandado para uma cadeia especial de doentes mentais. Ouvira falar de mim e ficou curioso, por isso mandou que a directora da prisão me contratasse para um estágio.

A partir daí, fui eu a contar o que se passara. Entrei para um estágio e saí como uma louca. Primeiro, o fascínio, a curiosidade, depois a paixão forte e avassaladora e por fim o vício. Ambos precisávamos um do outro. Era como uma droga. Sentia-me plena quando íamos para a cama e frustrada quando nos separávamos. Entrava em quase abstinência. Tudo servia para aliviar aquele ímpeto. Sempre que estávamos juntos só nos suportávamos sob o efeito de alguma coisa. Álcool, drogas ou outra coisa qualquer. Eram raros os momentos em que estávamos sóbrios. Nessas alturas, só havia espaço para a humilhação e violência. A paixão transformara-se em loucura e o resultado foram as inúmeras prisões. Em todas elas, eu planeava a minha vingança. Mas de todas as vezes caía novamente na sua conversa.

Perdi-me novamente nos meus pensamentos e ela compreendeu-me. Não era fácil recordar tudo aquilo. Trouxe-me á realidade quando me perguntou se já tinha ultrapassado. Contei-lhe que encontrara alguém que me fizera acreditar novamente no amor. Não precisei de lhe fazer a pergunta, percebera logo que Jerome era alguém importante.

De repente, ouviu-se um barulho. Levantamo-nos. Sam olhou-me aflita. Sosseguei-a.

-Quando estava a entrar, espalhei bombas por todo o armazém. Devem ser detonadas daqui a pouco tempo. Só te peço que saias antes disso.-

Sam recomeçou a chorar.

-E tu?- Perguntou entre soluços.

Respondi novamente com algumas lágrimas nos olhos:

-Não te preocupes. Vai correr tudo bem.-

Sam precipitou-se para a saída, mas antes disse:

-Pega nas malas que estão aí. É todo o dinheiro que o Joker ganhou com as Asas de Cristal. Deve dar para cobrir alguns estragos.-

Olhei para o lado e lá estavam. Quatro malas de metal. Sorri. Depois, Sam começou a correr sem olhar para trás. Foi ao encontro de Jerome que a esperava num carro ali perto. Arrancaram logo de seguida.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana    

 


sexta-feira, 25 de março de 2022

Asas de Cristal- X- Ás/Sam

 Olá

Aqui fica o capitulo da semana.

Espero que gostem. 

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X

Às/Sam

Ivy abraçou-me. Depois, beijou-me como nunca tinha beijado. Olhou-me com os olhos cheios de lágrimas, como se pedisse desculpas por não ter apoiado mais. Ela não tinha culpa e sabia-o mas mesmo assim, o seu olhar pedia desculpas. Abracei-a. Vestimo-nos e fomos para a varanda apanhar ar e fumar. Naquele momento, nada me dava mais prazer, apesar de ter prometido a mim mesma que não voltaria às drogas. Começava a anoitecer, o ar tornara-se mais fresco e o charro mais aprazível. O silêncio sabia bem, pontualmente interrompido pelo expelir do fumo pela boca.

-Só há uma coisa que não percebo.- Disse, de repente, Ivy.-O que é que essa história tem a ver com aquela noite?-

Fiquei surpreendida com a pergunta. Habitualmente, Ivy costumava ser mais perspicaz e decifrar a mensagens nas entrelinhas. Acabei o charro, fui ao quarto e trouxe o portátil para a varanda. Pousei-o no colo dela e abriu-o no email que Margaret me enviara. Ela lê-o e arregalou os olhos. Estava esclarecida. Mesmo assim perguntou:

-Como é que a Margaret sabe de tudo? Contaste-lhe?-

Respondi depois de me sentar:

-Ela já era directora da prisão na altura e viu os registos, mas a parte pessoal, sim, eu contei-lhe quando entrei no estágio.-

Ivy sorriu.

Sam saiu do armazém em passo apressado. Reviu o plano mentalmente até aquele momento. A encenação da festa, a droga para dormir, o rapto e, agora, a revelação- Sorriu satisfeita. Tudo lhe estava a correr de feição, só a gravidez é que saiu do plano original, mas até acabou por ser útil, Harleen ficara ainda mais perturbada. Andou alguns passos em direcção a um carro preto descapotável. Entrou nele e pousou as mãos no volante. Quase deu á chave, mas algo a fez recuar. Largou o volante e saiu do carro. Encostou-se á porta. Não queria chorar, mas não foi fácil. Caiu num pranto sem fim.

-Então, estás arrependida?- Perguntou uma voz masculina muito perto dela. Olhou para cima. Um homem de cabelo castanho vestido de preto estava parado á sua frente. Tinha alguns cortes nas mãos, pelo que ela deduziu que estivera numa missão. Levantou-se e respondeu secamente:

-Não me chateies, Jerome.- 

Afastou-se do carro e voltou a andar na direcção do armazém. Jerome continuou ao pé do carro a remexer lá dentro á procura de qualquer coisa. Encontrou e resolveu ir ao encontro de Sam. Foram juntos para o armazém.

Sorri. A sua perspicácia estava apurada. Respondi:

-Provavelmente, deve ter visto nalgum lado. Pode ter vasculhado os ficheiros da prisão, sei lá, ou então, foi pela Internet. Consegue-se tudo hoje em dia.-

Pareceu esclarecida. Nesse momento, começou a soprar uma brisa um pouco mais fria e tivemos de voltar para o quarto. Á noite, o deserto podia ser muito frio. Vestimos um casaco para jantar. Depois, demos um pequeno passeio para apanhar ar e digerir melhor a comida e a informação. Em pouco tempo, tínhamos descoberto quem era a raptora e o motivo. Só faltava saber onde ele estava. Não que me interessasse particularmente, mas já que estávamos envolvidas íamos até ao fim.

De vez em quando, ainda sentia que o devia salvar para tentar reatar a nossa relação, mas depois pensava: «Que relação? Nunca houve nenhuma!» Nessa altura, Ivy relembrava-me que a única relação que existia era a nossa e isso tranquilizava-me. Abraçava-me a ela, na cama, feliz. Adormecíamos sempre assim. Acordávamos ainda melhor com a certeza que o nosso amor estava mais forte e que, graças a isso, podíamos enfrentar qualquer coisa.

Jerome tinha o passo mais apressado, Sam mal o conseguia acompanhar. Chegou primeiro á porta do armazém. Teve de esperar por ela pois não tinha a chave. Sam apareceu pouco depois e abriu o cadeado. Entraram no armazém. Jerome mal viu o prisioneiro. Era como se fosse invisível. Avançou para outro lado menos iluminado. Sam foi ao encontro de Arthur. Aproximou-se. Tinha um ar assustado, como se de repente se tivesse transformado noutra pessoa. Os olhos ainda estavam húmidos das lagrimas que quase derramara lá fora. Segredou ao ouvido de Arthur num fio de voz: «Estás com sorte, não consegui ir ter com elas. Mas elas virão até ti.» Arthur estava cada vez mais confuso. Que espécie de ligação teria ela com a Harley e com ele? Não tinha a boca tapada mas as palavras não lhe saíam. Era como se esperasse o momento certo para o fazer. Ela afastou-se. Provavelmente foi ver o que o homem que entrara com ela estaria a fazer.

O vento batia-me na cara á medida que o carro avançava. Nunca me sentira tão leve. Nem quando saíra do orfanato. Estava uma noite fria, quase Inverno. Lembro-me que nessa altura não sabia o que esperar. Ia para a Faculdade, é certo, mas o futuro ainda era desconhecido. Parecia que tinha saído de um mundo paralelo e estava a voltar á realidade. Apertei o casaco, segurei a mala e avancei. Sam estava ao meu lado. Deu-me a mão para não me sentir sozinha. Avançamos as duas até a vida nos separar.

Ivy olhou-me com uma expressão feliz. Sorri-lhe. Acelerou e continuámos o nosso caminho.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana 

 


segunda-feira, 14 de março de 2022

Asas de Cristal- IX- Revelação

 Olá 

Aqui o capitulo desta semana. 

Excecionalmente á Segunda. 

Espero que gostem. 

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IX

Revelação

-Harleen…- Uma voz ecoava ao longe. -Harley…- Parecia mais perto, cada vez mais perto. Aos poucos, comecei a voltar a mim. Abri os olhos devagar. Ivy estava ao meu lado com um ar preocupado, aflito mesmo. Nunca a tinha visto assim. Das poucas pessoas que se preocupavam verdadeiramente comigo, ela e Margaret deviam as únicas. Olhei em volta. Ainda estava no quarto do motel. Tenti levantar-me mas senti a cabeça pesada e Ivy impediu-me.

-Estás bem?-Perguntou. -Precisas de alguma coisa? Eu posso ligar á Margaret ou podemos ir ao hospital!- A sua expressão era mesmo de aflição genuína. Fiquei comovida com aquela atitude. Tranquilizei-a:

-Está tudo bem, foi só um mal-estar, nada de mais. Devem ser as sequelas do aborto e este calor também não ajuda.- Tentei aligeirar a situação, mas ela continuava preocupada. Dei-lhe a mão. Estava a tremer. Olhei-a com ternura, como se dissesse: «Está mesmo tudo bem, já passou.» Ela pareceu acalmar-se. Perguntou hesitante:

-Podes explicar-me o que aconteceu? Se não te lembras não faz mal. De repente, vejo-te perto do computador e depois desmaias, tens de perceber que não é muito normal.-

Não lhe consegui responder. Estava confusa e precisava de um tempo para me recuperar. Ela afastou-se, compreensiva. Deixei-me ficar deitada um pouco mais. Ainda sentia a cabeça pesada e precisava de descansar.

Fechei os olhos e tentei dormir. Flaches de memória apareciam na minha mente. Alguns daquela noite, outros anteriores e não me deixavam dormir. Abri os olhos e levantei-me, farta de tudo aquilo. Fui á casa de banho passar o rosto por água. Ao sair, procurei Ivy com os olhos. Encontrei-a na varanda do quarto a fumar erva com um olhar distante. Quando ficava assim, era porque estava preocupada. Aproximei-me timidamente. Sentei-me na sua frente numa das cadeiras de latão. Era desconfortável mas dava para estar durante pouco tempo. O ar quente da tarde conseguia ser pior. Ela olhou-me com um ar indiferente enquanto repelia golfadas de fumo pela boca e pelo nariz. O cheiro da erva queimada impregnava o ar. Senti-me desconfortável. Normalmente, costumava gostar daquele cheiro e também pedia uma passa, mas por causa de tudo o que acontecera, deixara de gostar dessas coisas. Era como se recomeçasse. O silêncio que se instalara era constrangedor, quase ofensivo. Tinha de dizer alguma coisa ou iria enlouquecer. Respirei fundo e quebrei-o:

-Não te precisas de ficar preocupada, eu estou bem. Mas obrigada por tudo a sério!-

Sorri, ainda que meio forçado. Ela apagou o cigarro naquele instante e abraçou-me com os olhos ligeiramente húmidos, numa mistura de ressaca por causa da droga e de comoção. Também me vieram as lágrimas aos olhos. Depois, agarrou-me pelos braços e disse:

-Nunca mais me faças uma destas, ouviste! Se te acontecesse alguma coisa, nem sei o que faria!-

Num impulso, beijei-a. Depois, voltámos a abraçarmo-nos. Entre risos e lágrimas, fomos para o quarto. Fizemos amor até nos faltar o fôlego.

Não lhe podia perguntar. Ia parecer idiota e completamente descabido. Além disso, não estava era da sua natureza. Tinha de esperar que ela contasse alguma coisa ou, pelo menos, desse uma pista. Toda aquela conversa começava a irritá-lo. E para tornar tudo mais estranho, sentia que devia explicações á Harley, como se ela fosse a sua namorada ou alguém com quem ele se importasse. Nunca se importou verdadeiramente, ela era apenas uma ferramenta, um troféu, que gostava de exibir aos outros criminosos e, ás vezes, até ao Batman. «Que idiota! Como se aquela doida merecesse a tua consideração!» Pensou. No entanto, aquilo perseguia-o, tinha de deixar aqueles pensamentos ou iria tornar-se nalgo que não queria: uma pessoa amargurada e sentimental. Ela afastou-se, parecia que ia sair do armazém. Sem olhar para trás, apenas disse com sarcasmo:

-Vou tratar de uns assuntos. Não saias daí.-

-Agora, já me podes responder ou ainda estás hesitante?- Perguntou Ivy, olhando-me com ternura. Encostei a cabeça ao seu peito, tão quento como o meu. Os nossos corpos ainda estavam unidos como um só. Sorri-lhe antes de responder. Ainda estava hesitante, mas já me sentia preparada. Apesar disso, queria escolher bem as palavras, não eram lembranças fáceis. Faziam parte de uma altura da minha vida que preferia esquecer. Uma altura em que pensava que sabia tudo sobre o Joker ou sobre mim, mas estava enganada. Respirei fundo, sentei-me na cama. Ela acompanhou-me:

-Tudo o que te vou contar só pode ficar entre nós, ninguém pode saber, percebeste? Se contas a mais alguém nunca mais te falo, é sério!- Ivy olhou-me no fundo dos meus olhos. Aquela promessa seria cumprida. Continuei:

-Quando fui para o orfanato, conheci uma rapariga chamada Samantha Watson. Tal como eu, ela também era alvo de insultos e humilhações por parte dos outros miúdos e até das freiras.- Respirei um pouco e retomei: -Nessa altura, defendíamo-nos uma á outra e éramos grandes amigas. Foi o que me salvou.- Acrescentei: -Isso e os estudos. Éramos as melhores alunas da escola do orfanato e por isso conseguimos ir para uma boa faculdade estudar aquilo que sempre quisemos: Psicologia. Queríamos entender a mente daqueles que nos maltrataram e, assim, talvez perceber melhor o mundo.- Fiz uma pausa. Tentava conter as lágrimas. Ivy segurou-me nas mãos para me dar força. Senti-me melhor e prossegui:

-Tudo corria bem até ela se ter começado a dar com gente perigosa. Um grupo chamado Asas de Cristal do qual o Joker fazia parte. Na altura, eram um grupo pequeno que praticava pequenos roubos de jóias, dinheiro e às vezes carros. Sempre tentei demovê-la a deixa-los. Aquilo não era vida para ela! Estávamos a acabar a formação, íamos escolher um estágio, tínhamos um futuro risonho á nossa frente!- Voltei a respirar fundo. Retomei o discurso:

-Mas ela estava cada vez mais obcecada com aquilo, sobretudo com o Joker. Já fazia planos de casar e ter filhos com ele! E como os iria ensinar a ser como o pai! A sua loucura levou-a a faltar às aulas e a afastar-se de mim. As poucas vezes que a via tinha um olhar vazio, sem vida, estava quase sempre sob o efeito de drogas ou álcool, mas o pior não era isso! Estava cada vez mais parecida com ele!- Fiz uma pausa. As lágrimas de culpa e de raiva corriam-me pela cara. Ivy abraçou-me, como se dissesse: «Não precisas de contar mais nada» mas eu olhei-a determinada e prossegui, tinha de lhe contar tudo:

-Uma noite, estava a voltar para o dormitório, quando recebi uma chamada dela a dizer que ia participar num assalto a um armazém de armas e que, provavelmente nunca mais nos iriamos ver. Nessa altura, abandonara o seu nome e assumira a identidade de Às. Desliguei o telefone e fui a correr para o dormitório, estava assustada pelas duas. Peguei no telemóvel e liguei para o Batman. Na altura, não sabia que era o Bruce Wayne. Tinha sido apanhada numa confusão e salva por ele em tempos, e ele dera-me um cartão com o contacto caso fosse precisar. Acabei por perdê-lo com o tempo mas ainda tenho o número no meu telemóvel esquecido. Liguei-lhe e dei-lhe as informações sobre o assalto no armazém, sem mencionar o nome da minha amiga.- Fiz outra pausa. Continuei:

-Mais tarde, soube que tinha sido apanhada pelo Batman e ido para o hospital-prisão. O que ela passou lá foi horrível. A Margaret contou-me que os sintomas dela eram parecidos com os do Joker mas mais descontrolados. No inicio, não aceitava os tratamentos, andava sempre instável e não compareceu á maior parte das audiências em tribunal. Queria saber quem a tinha denunciado. Não contara a ninguém acerca do assalto, excepto a mim.- Respirei fundo e prossegui:

-Quando saiu da prisão, foi á minha procura mas eu já tinha saído da faculdade e estava a ingressar num estágio, exactamente na mesma prisão onde ela estivera. Soube pelas notícias que tinha havido um acidente durante uma perseguição policial a um grupo de assaltantes ao Banco De Gothan. Ela estava lá bem como o Joker. O carro onde seguiam despistou-se e foi contra um camião que transportava gasolina. Houve uma grande explosão. Ele conseguiu fugir mas ela foi dada como morta.- Voltei a respirar fundo e finalizei o discurso:

-O Joker foi preso e lavado para o hospital-prisão onde eu estava a fazer o estágio e o resto já sabes.-

Olhei para ela com lágrimas nos olhos. Ivy estava chocada com o que ouvira. Agora, tudo lhe fazia sentido. Era uma história de vingança.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana.

Bjs

Joana