Olá
Hoje começa a segunda parte da história.
Espero que gostem.
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Parte
2-Antes
Melodias
Intermitentes
Voxy
e Kari/Clara e Gonçalo
I
Voxy
era uma rapariga com a seriedade do pai, mas com a descontração e alegria da
mãe. Tal como ela, também gostava de se divertir e estar rodeada de gente.
Tinha o cabelo curto, branco e olhos leitosos acinzentados, condição rara que a
fazia parecer quase uma vampira e uma boneca.
«Parece
que a vossa filha tem uma variação rara da doença» explicou o médico pouco
depois do seu nascimento. As restrições eram, no entanto, muito mais abertas
que as de Carolina. Podia sair quando queria desde que levasse um chapéu e
óculos de sol uma vez que os olhos eram sensíveis á luz intensa. Tal como a
mãe, sempre que viajava, tomava comprimidos para evitar constrangimentos nos
recitais, que começou a dar desde muito cedo. Primeiro, acompanhada pela mãe,
depois sozinha.
O
palco e a música nunca foram estranhos para ela. Aos 3 anos, já acompanhava a
mãe nas tournées mundiais. Ficava nos bastidores com a irmã e Bertha e no final
a mãe levava-a para o palco e, com ela ao colo, sentava-a ao piano e tacavam
juntas. Ao início, notas difusas, mas com o tempo, foi aprendendo a tocar
melodias cada vez mais complexas. Tinham uma ligação profunda, talvez por terem
a mesma doença. Quem as visse pensaria que seriam irmãs de tão parecidas. Voxy
gostava de guardar para si como um segredo, não queria ser tratada de forma
diferente.
Ouvia
muitas vezes a história do seu nascimento e a razão de haver tão poucas
fotografias suas em bebé em casa. Foi um parto conturbado com muito sofrimento
para a mãe. Esteve internada um mês e todos os dias Carolina ia vê-la. Na
primeira vez que a viu, um corpo pequeno e frágil, não conseguiu conter as
lágrimas. Quando lhe pegou na mão, ainda que enluvada, sentiu os dedos pequenos
a entrelaçarem-se no seu, percebeu que tinha de a proteger.
Mais
tarde, quando viu que gostava de música, inscreveu-a num dos mais prestigiados
conservatórios de música do mundo onde veio a revelar-se, tal como ela fora no
passado, uma aluna brilhante. Mas com a sua ajuda ficou ainda melhor. Aos
poucos, ia-lhe dando espaço para brilhar. Agora, já era a mãe que ficava nos
bastidores a aplaudi-la.
Os
rumores de que em breve se ia ausentar dos palcos ganhavam cada vez mais peso e
um dia anunciou a sua retirada definitiva para dar lugar á filha.
Voxy
vestia cores garridas, mas para os recitais e concertos gostava de vestir cores
mais escuras. Dava-lhe uma sensação de segurança e mistério. Já a irmã, Kari,
era mais discreta. Gostava mais de ouvir do que de aparecer. Desde o início que
sabia que era adotada. Apesar de ser muito pequena quando saiu do orfanato, as
suas memórias eram bem vívidas de quando os conheceu e foi para casa. Talvez
por isso, sentia-se excluída e em certas ocasiões como nas apresentações
públicas. Mas Voxy fazia questão de lhe lembrar que ela também era da família e
não tirava uma fotografia fosse onde fosse se ela não aparecesse.
Em
várias ocasiões, lhe perguntava a opinião sobre uma música a seguir a um
ensaio.
Tinham
acabado de mudar para Lime depois de uma temporada no estrangeiro. Viviam num
apartamento de luxo nos arredores com dois pisos, um terraço e uma piscina que
poucas vezes era usada, mas quando era a festa estava garantida. Sobretudo se
fosse Voxy a anfitriã.
Acabavam
sempre na piscina e depois iam ouvi-la á sala do piano. Às vezes, ainda com os
fatos de banho molhados e os cabelos a pingar para as teclas.
…
Clara
e Gonçalo viviam com os pais num bairro calmo de Lime. Era uma vivenda com dois
andares e um quintal. Quiseram ter um cão, mas o pai era alérgico ao pelo, por
isso desistiram da ideia.
No
piso térreo, estava a sala e a cozinha que comunicavam entre si por uma porta e
no andar de cima, os quartos e uma casa de banho.
A
rapariga tinha o cabelo castanho-escuro e olhos da mesma cor e o rapaz cabelo
castanho-claro e olhos da mesma cor.
Apesar
dos seus 16 anos, Clara era bastante madura. Tinha excelentes notas e era uma
das alunas mais novas a concorrer a uma universidade estrangeira. Sempre
gostara de aprender, especialmente sobre o passado. A sua disciplina favorita
era História. O irmão tinha 14 anos e
também era um bom aluno. Os seus interesses eram mais virados para as Ciências
e Matemática.
Quem
os conhecia, dizia que Clara era parecida com a mãe e Gonçalo com o pai.
Estefânia gostava de se gabar que tinha dois filhos bonitos e inteligentes. Era
dona de um escritório de advogados que herdara do pai e fizera sócia a sua
melhor amiga e madrinha de Clara, Carla. Considerava-se uma advogada competente
embora às vezes fosse demasiado emocional, algo que também herdara do pai. Apesar
de este lhe dizer que as emoções deviam ficar fora da sala de audiências,
muitas vezes eram trazidas para dentro, sobretudo quando os casos envolviam
famílias.
Carlos
era arquiteto e viajava muito. O escritório onde trabalhava ficava na cidade,
mas era frequente deslocar-se para se encontrar com clientes e para ver obras.
Tentava, ao máximo, estar mais perto da família mas quando não era possível
eles compreendiam.
…
Heitor
gostava de ser um dos primeiros a chegar á empresa onde era Presidente.
Herdara-a do pai que falecera pouco depois de ter adotado Kari. A mãe foi viver
para o estrangeiro com a fortuna que conseguira da herança e nunca mais deu notícias.
Soube, mais tarde, por uns conhecidos, que tinha recomeçado a vida com alguém
mais novo. A sua relação com ela nunca fora muito próxima. Só tinha ido ao seu
casamento por conveniência e nunca quisera saber das netas ou dos seus
problemas. Chegara a ter inveja da mulher que durante bastante tempo foi
próxima da mãe, mas depois de Kari chegar, as relações foram cortadas sem que
chegasse a perceber o motivo.
O
edifício da empresa era alto e ficava no centro da cidade. O seu gabinete
ficava no último andar. Pousou a pasta na secretária, sentou-se ao computador e
começou a organizar as tarefas do dia. Não eram as suas funções diretas, mas
gostava de o fazer. A secretária tinha mais com que se preocupar.
Foi
uma das coisas que aprendera com o pai. A não sobrecarregar os outros com
tarefas que ele mesmo podia fazer. Era um homem austero, mas conseguia ser
amável quando queria sobretudo quando a mulher estava tão coberta de
comprimidos para a ansiedade que nem conseguia pegar na filha ao colo e as amas
estavam demasiado cansadas. A sua capa de autoritarismo só era posta quando lhe
convinha. No resto do tempo, era apenas um pai como qualquer outro.
O
som do telemóvel trouxe-o dos seus pensamentos. Atendeu. Era Corolina a
lembrá-lo do recital da filha mais tarde.
Respondeu:
-Não
te preocupes, eu nunca me esqueço de compromissos importantes. Diz-lhe que não
esteja nervosa. Vai correr tudo bem. -
Ela
riu-se do outro lado. Despediram-se antes de desligar. Gostava sempre de
receber chamadas da mulher no início do dia. Sentia-se um homem afortunado. Foi
o único casamento na família por amor. O dos pais era uma fachada por causa dos
negócios e o seu nascimento apenas o processo natural. Mas a família dele era
diferente, havia genuína preocupação entre eles.
Voxy
e Kari frequentavam o mesmo colégio privado, mas como tinha tido aulas no
estrangeiro, não precisavam de ir todos os dias, apenas às disciplinas que
estavam atrasadas como História e Matemática. Nunca foram boas com números e
factos. Sobretudo Voxy que se destacava no artístico e criativo como línguas e
literatura e, claro, na música.
No
resto do tempo, passeavam e praticavam música em casa, sempre sob o olhar
atento de Carolina e Bertha, a governanta e ama das raparigas. Fora contratada
pouco depois da adoção de Kari. Era uma mulher bondosa, quase uma segunda mãe,
apesar de Carolina ser muito presente. Acompanhava-as muitas vezes nas tournées
e tomava conta delas quando os pais não podiam.
…
O
dia estava solarengo, apesar de algumas nuvens espreitarem no horizonte. As
ruas estavam calmas por ser ainda muito cedo. Clara acordou, como sempre, com o
despertador a marcar as 7.30. Já o irmão acordou com os gritos da mãe na
cozinha:
-Gonçalo!
- Acorda, olha que chegas atrasado! - Todas as manhãs era assim.
Quem
descia sempre primeiro era Clara já penteada e vestida com o uniforme da
escola. Camisa verde, uma saia com padrão xadrez, sapatos pretos e meias
brancas até ao joelho. O cabelo era solto. Entrou na cozinha, cumprimentou a
mãe e sentou-se para tomar o pequeno-almoço. Torradas com doce e uma chávena de
leite morno. Gonçalo desceu depois também com o uniforme vestido. Igual ao da irmã,
mas com calças. Cumprimentou a mãe e a irmã e sentou-se para comer. Uma taça de
cereais.
Naquela
manhã, Carlos saíra mais cedo quando o resto da família dormia. Tinha ido a
outra cidade ver uma obra de um centro comercial.
Depois
de comerem, foram lavar os dentes e prepararam-se para sair. Puseram agasalhos
pois apesar do sol, estava frio já que estavam quase no Inverno. Despediram-se
da mãe e saíram para apanhar o autocarro da escola. A mãe ainda ficou a
arrumara a cozinha e a acabar de se arranjar. Tinha uma reunião com um cliente
importante.
Decidira
ir buscar os filhos à escola assim passava tempo com eles e evitava as queixas
que nunca estavam juntos durante a semana sem ser em casa. Geralmente, o
trabalho roubava-lhe muito tempo, mas naquele dia ia ser diferente.
Olhou
pela janela da cozinha. Ainda os conseguiu ver, a entrarem para o autocarro e
acenou-lhes. Acenaram de volta. Sorriu, mas logo a seguir sentiu um arrepio que
se tornou mais forte ao olhar para Clara. Como um pressentimento. Não ligou. «Deve ser do frio» Pensou. «Este tempo tem
andado esquisito, tenho de levar mais um casaco». Acabou de arrumar a cozinha,
arranjou-se e saiu.
…
Naquela
manhã, Voxy tinha ido com a mãe e a irmã a uma galeria de arte ver alguns
quadros de uma artista principiante. Conseguiram comprar um bom lote. Iam
entregar a casa ainda nessa tarde depois do recital. Depois, foram às lojas de
roupa na avenida mais cara da cidade. Kari precisava de renovar o guarda-roupa
e nada melhor queuma manhã nas lojas. Voxy aproveitou para comprar um vestido
para o recital. Como era cor escura, escolheu um pregador com uma rosa branca
para dar um toque de cor.
Voltaram
para casa cheias de sacos que foram desempacotar aos quartos. Depois, Voxy foi
para a sala do piano a fim de ultimar os ensaios para o recital dessa tarde.
Detestava os recitais da escola. Eram enfadonhos e não serviam senão como uma
desculpa para a verem. Para depois ouvir os pais dos colegas dizer: «Vês?
Aquilo é que é uma artista! Devias seguir-lhe o exemplo!» e outras coisas do
género. Até o local foi escolhido a dedo. O teatro da cidade. Um dos poucos
sítios que leva mais público que apenas pais e alunos. Quando marcavam estes
recitais, a escola ia ver em peso e se fosse preciso chamavam-se mais uns
conhecidos para encher a sala. «Da próxima vez vendem bilhetes ao público»
Pensou quando a professora anunciou o recital. Isso irritava-a profundamente.
Não gostava de ser vista como a filha de Carolina Heart, a grande pianista.
Queria ser apenas a Voxy.
Rapidamente
afastou estes pensamentos quando se sentou ao piano e começou a tocar. Era o
seu refúgio. Lá, sentia-se longe de tudo e todos os que a aborreciam. Numa
realidade paralela, distante, onde só existiam ela e o piano.
Passado
pouco tempo, já tinha a mãe e a irmã sentadas a ouvi-la. Nesse momento,
arrastara-as para a sua realidade e por lá ficavam.
A
música de Voxy era mais calma que e a de Carolina. A mãe era mais alegre, Voxy
mais contida, misteriosa até. Ainda assim, não deixava de gostar de a ouvir,
apesar de ter sempre um olhar crítico. Era ela que a treinava e o seu grau de
exigência era elevado.
Quando
terminou, ambas bateram palmas. Carolina olhou para o relógio de parede da sala
e arregalou os olhos:
-Já
estamos atrasadas, temos e ir! -
Sem
se aperceberem, as compras e os passeios tinham-se prolongado toda a manhã. Arranjaram-se
e apressaram-se a sair de casa. Quando chegaram ao teatro, a professora de Voxy
esperava-as nos bastidores com um ar de reprimenda que soube disfarçar. A sua
estrela maior, a atração principal não se podia atrasar ou o espetáculo não se
realizava. «Não deixava de ser uma boa hipótese» Pensou Voxy indo diretamente
para o camarim dar os últimos retoques na roupa e maquilhagem.
Heitor
já estava no camarote por cima do palco. Acenou quando viu a mulher e a filha
chegar. Assim que se sentaram, o recital começou. Um a um, os alunos foram
demonstrando os seus dotes artísticos e musicais até que chegou o momento mais
aguardado. A sala, que até então tinha alguns murmúrios de fundo, emudeceu.
Voxy surgiu no palco com um belo vestido azul-escuro, de saia curta, sapatos de
verniz pretos e a pregadeira da rosa branca ao peito. Todos aplaudiram.
Sentou-se em frente ao grande piano de cauda e começou a tocar. A música
ressoava pela sala embalando os espectadores. A emoção que sentiam era sempre a
mesma, mas era isso que os cativava.
Quando
terminou, todos voltaram a aplaudir de pé a magnifica atuação de Voxy que
agradeceu com uma vénia. A família foi depois felicitá-la aos bastidores. A
professora não parava de a elogiar:
-Foste
fantástica, ainda melhor que das outras vezes.-
Voxy sorriu.
-Tive
boas professoras. -
Nesse
momento, a família aproximou-se e ela foi abraçá-los. Carolina deu-lhe os
parabéns e um beijo na cara. «Estou orgulhosa de ti».
…
O
dia na escola e no escritório foi como os outros. Aulas e alguns clientes maçadores
que insistiam na sua inocência mesmo quando todas as provas indicavam o
contrário. A reunião com o cliente importante fora produtiva. Conseguiram que o
caso não fosse a tribunal.
Na
escola, também houve tempo para conversas com os amigos no recreio e jogos de
futebol.
Clara
e Gonçalo quase não se viam durante o dia, andavam em turmas e anos diferentes.
Clara era 2 anos mais velha. De vez em quando, encontravam-se nos intervalos ou
às refeições, mas cada um com o seu grupo. Apesar de todos saberem que eram
irmãos, nunca se misturavam. Uma vez por outra encontravam-se fora da escola
para irem ao café mas muito raramente.
No
escritório, Estefânia comia com Carla. Todos os casos complicados passavam por
elas e na maioria das vezes eram ganhos. Faziam um bom trabalho de equipa
porque se complementavam. Foi assim que a convencera a aceitar a sociedade da
firma. Apesar de no início não ter sido fácil por causa da pouca experiência em
gestão, com o tempo foram-se adaptando.
Quando
a campainha tocou, os dois irmãos saíram da escola e foram ao encontro da mãe
que os esperava no carro à porta, que os surpreendeu, mas também alegrou. Despediram-se
dos colegas e entraram. A mãe arrancou logo a seguir. Àquela hora, o trânsito
era pouco, mas já se faziam notar as filas do início da hora de ponta.
….
Á
saída do teatro, o carro esperava por eles. Entraram pela porta aberta.
Arrancaram pouco depois. O trânsito era intenso, mas o motorista conhecia um
atalho. Acelerou um pouco até entrar numa estrada alternativa sem reparar que
outro carro tomara o mesmo caminho, passando muito perto, e com o susto,
descontrolou-se um pouco mas retomou logo o caminho. Mais adiante, voltaram a
encontrar muito trânsito. Heitor pediu ao motorista para procurar outro atalho,
já era tarde e todos precisavam de descansar. O motorista obedeceu e foram ter
a uma estrada pouco movimentada, mas onde a visibilidade era má por causa do
sol. De repente, ouviram um barulho e depois a silhueta de um camião na direção
deles. Vieram dar a uma estrada em contramão. O motorista tentou virar, mas não
foi a tempo. Um flache de luz atravessou-se no seu caminho. Foi a última coisa
que Voxy viu antes de ficar inconsciente.
…
-O
trânsito está caótico, hoje! - Queixou-se Estefânia. Cada vez mais carros
começavam a chegar ao local onde se encontravam, obrigando-os a abrandar.
-Vamos
por outro caminho senão nunca mais chegamos a casa. - Decidiu Estefânia, saindo
da fila onde estavam e avançando por outro lado. De repente, apareceu outro
carro a alta velocidade. Clara, que ia sentada no banco do pendura, resolveu
ligar o rádio, sempre se distraiam enquanto não chegavam a casa. Quando levantou
a cabeça, olhou pelo espelho retrovisor e viu outro carro a aproximar-se.
Tentou avisar a mãe, mas já não foi a tempo.
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E pronto.
Mais uma vez, espero que gostem.
Até para a semana.
Bjs
Joana