sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 2- Capitulo 1

 Olá 

Hoje começa a segunda parte da história.

Espero que gostem. 

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Parte 2-Antes

Melodias Intermitentes

Voxy e Kari/Clara e Gonçalo

I

Voxy era uma rapariga com a seriedade do pai, mas com a descontração e alegria da mãe. Tal como ela, também gostava de se divertir e estar rodeada de gente. Tinha o cabelo curto, branco e olhos leitosos acinzentados, condição rara que a fazia parecer quase uma vampira e uma boneca.

«Parece que a vossa filha tem uma variação rara da doença» explicou o médico pouco depois do seu nascimento. As restrições eram, no entanto, muito mais abertas que as de Carolina. Podia sair quando queria desde que levasse um chapéu e óculos de sol uma vez que os olhos eram sensíveis á luz intensa. Tal como a mãe, sempre que viajava, tomava comprimidos para evitar constrangimentos nos recitais, que começou a dar desde muito cedo. Primeiro, acompanhada pela mãe, depois sozinha.

O palco e a música nunca foram estranhos para ela. Aos 3 anos, já acompanhava a mãe nas tournées mundiais. Ficava nos bastidores com a irmã e Bertha e no final a mãe levava-a para o palco e, com ela ao colo, sentava-a ao piano e tacavam juntas. Ao início, notas difusas, mas com o tempo, foi aprendendo a tocar melodias cada vez mais complexas. Tinham uma ligação profunda, talvez por terem a mesma doença. Quem as visse pensaria que seriam irmãs de tão parecidas. Voxy gostava de guardar para si como um segredo, não queria ser tratada de forma diferente.

Ouvia muitas vezes a história do seu nascimento e a razão de haver tão poucas fotografias suas em bebé em casa. Foi um parto conturbado com muito sofrimento para a mãe. Esteve internada um mês e todos os dias Carolina ia vê-la. Na primeira vez que a viu, um corpo pequeno e frágil, não conseguiu conter as lágrimas. Quando lhe pegou na mão, ainda que enluvada, sentiu os dedos pequenos a entrelaçarem-se no seu, percebeu que tinha de a proteger.

Mais tarde, quando viu que gostava de música, inscreveu-a num dos mais prestigiados conservatórios de música do mundo onde veio a revelar-se, tal como ela fora no passado, uma aluna brilhante. Mas com a sua ajuda ficou ainda melhor. Aos poucos, ia-lhe dando espaço para brilhar. Agora, já era a mãe que ficava nos bastidores a aplaudi-la.

  Os rumores de que em breve se ia ausentar dos palcos ganhavam cada vez mais peso e um dia anunciou a sua retirada definitiva para dar lugar á filha.

Voxy vestia cores garridas, mas para os recitais e concertos gostava de vestir cores mais escuras. Dava-lhe uma sensação de segurança e mistério. Já a irmã, Kari, era mais discreta. Gostava mais de ouvir do que de aparecer. Desde o início que sabia que era adotada. Apesar de ser muito pequena quando saiu do orfanato, as suas memórias eram bem vívidas de quando os conheceu e foi para casa. Talvez por isso, sentia-se excluída e em certas ocasiões como nas apresentações públicas. Mas Voxy fazia questão de lhe lembrar que ela também era da família e não tirava uma fotografia fosse onde fosse se ela não aparecesse.

Em várias ocasiões, lhe perguntava a opinião sobre uma música a seguir a um ensaio.  

Tinham acabado de mudar para Lime depois de uma temporada no estrangeiro. Viviam num apartamento de luxo nos arredores com dois pisos, um terraço e uma piscina que poucas vezes era usada, mas quando era a festa estava garantida. Sobretudo se fosse Voxy a anfitriã.

Acabavam sempre na piscina e depois iam ouvi-la á sala do piano. Às vezes, ainda com os fatos de banho molhados e os cabelos a pingar para as teclas.

Clara e Gonçalo viviam com os pais num bairro calmo de Lime. Era uma vivenda com dois andares e um quintal. Quiseram ter um cão, mas o pai era alérgico ao pelo, por isso desistiram da ideia.

No piso térreo, estava a sala e a cozinha que comunicavam entre si por uma porta e no andar de cima, os quartos e uma casa de banho.

A rapariga tinha o cabelo castanho-escuro e olhos da mesma cor e o rapaz cabelo castanho-claro e olhos da mesma cor.

Apesar dos seus 16 anos, Clara era bastante madura. Tinha excelentes notas e era uma das alunas mais novas a concorrer a uma universidade estrangeira. Sempre gostara de aprender, especialmente sobre o passado. A sua disciplina favorita era História.  O irmão tinha 14 anos e também era um bom aluno. Os seus interesses eram mais virados para as Ciências e Matemática.

Quem os conhecia, dizia que Clara era parecida com a mãe e Gonçalo com o pai. Estefânia gostava de se gabar que tinha dois filhos bonitos e inteligentes. Era dona de um escritório de advogados que herdara do pai e fizera sócia a sua melhor amiga e madrinha de Clara, Carla. Considerava-se uma advogada competente embora às vezes fosse demasiado emocional, algo que também herdara do pai. Apesar de este lhe dizer que as emoções deviam ficar fora da sala de audiências, muitas vezes eram trazidas para dentro, sobretudo quando os casos envolviam famílias.

Carlos era arquiteto e viajava muito. O escritório onde trabalhava ficava na cidade, mas era frequente deslocar-se para se encontrar com clientes e para ver obras. Tentava, ao máximo, estar mais perto da família mas quando não era possível eles compreendiam.   

Heitor gostava de ser um dos primeiros a chegar á empresa onde era Presidente. Herdara-a do pai que falecera pouco depois de ter adotado Kari. A mãe foi viver para o estrangeiro com a fortuna que conseguira da herança e nunca mais deu notícias. Soube, mais tarde, por uns conhecidos, que tinha recomeçado a vida com alguém mais novo. A sua relação com ela nunca fora muito próxima. Só tinha ido ao seu casamento por conveniência e nunca quisera saber das netas ou dos seus problemas. Chegara a ter inveja da mulher que durante bastante tempo foi próxima da mãe, mas depois de Kari chegar, as relações foram cortadas sem que chegasse a perceber o motivo.   

O edifício da empresa era alto e ficava no centro da cidade. O seu gabinete ficava no último andar. Pousou a pasta na secretária, sentou-se ao computador e começou a organizar as tarefas do dia. Não eram as suas funções diretas, mas gostava de o fazer. A secretária tinha mais com que se preocupar.

Foi uma das coisas que aprendera com o pai. A não sobrecarregar os outros com tarefas que ele mesmo podia fazer. Era um homem austero, mas conseguia ser amável quando queria sobretudo quando a mulher estava tão coberta de comprimidos para a ansiedade que nem conseguia pegar na filha ao colo e as amas estavam demasiado cansadas. A sua capa de autoritarismo só era posta quando lhe convinha. No resto do tempo, era apenas um pai como qualquer outro.

O som do telemóvel trouxe-o dos seus pensamentos. Atendeu. Era Corolina a lembrá-lo do recital da filha mais tarde.

Respondeu:

-Não te preocupes, eu nunca me esqueço de compromissos importantes. Diz-lhe que não esteja nervosa. Vai correr tudo bem. -

Ela riu-se do outro lado. Despediram-se antes de desligar. Gostava sempre de receber chamadas da mulher no início do dia. Sentia-se um homem afortunado. Foi o único casamento na família por amor. O dos pais era uma fachada por causa dos negócios e o seu nascimento apenas o processo natural. Mas a família dele era diferente, havia genuína preocupação entre eles.

 

Voxy e Kari frequentavam o mesmo colégio privado, mas como tinha tido aulas no estrangeiro, não precisavam de ir todos os dias, apenas às disciplinas que estavam atrasadas como História e Matemática. Nunca foram boas com números e factos. Sobretudo Voxy que se destacava no artístico e criativo como línguas e literatura e, claro, na música.  

No resto do tempo, passeavam e praticavam música em casa, sempre sob o olhar atento de Carolina e Bertha, a governanta e ama das raparigas. Fora contratada pouco depois da adoção de Kari. Era uma mulher bondosa, quase uma segunda mãe, apesar de Carolina ser muito presente. Acompanhava-as muitas vezes nas tournées e tomava conta delas quando os pais não podiam.  

O dia estava solarengo, apesar de algumas nuvens espreitarem no horizonte. As ruas estavam calmas por ser ainda muito cedo. Clara acordou, como sempre, com o despertador a marcar as 7.30. Já o irmão acordou com os gritos da mãe na cozinha:

-Gonçalo! - Acorda, olha que chegas atrasado! - Todas as manhãs era assim.

Quem descia sempre primeiro era Clara já penteada e vestida com o uniforme da escola. Camisa verde, uma saia com padrão xadrez, sapatos pretos e meias brancas até ao joelho. O cabelo era solto. Entrou na cozinha, cumprimentou a mãe e sentou-se para tomar o pequeno-almoço. Torradas com doce e uma chávena de leite morno. Gonçalo desceu depois também com o uniforme vestido. Igual ao da irmã, mas com calças. Cumprimentou a mãe e a irmã e sentou-se para comer. Uma taça de cereais.

Naquela manhã, Carlos saíra mais cedo quando o resto da família dormia. Tinha ido a outra cidade ver uma obra de um centro comercial.

Depois de comerem, foram lavar os dentes e prepararam-se para sair. Puseram agasalhos pois apesar do sol, estava frio já que estavam quase no Inverno. Despediram-se da mãe e saíram para apanhar o autocarro da escola. A mãe ainda ficou a arrumara a cozinha e a acabar de se arranjar. Tinha uma reunião com um cliente importante.

Decidira ir buscar os filhos à escola assim passava tempo com eles e evitava as queixas que nunca estavam juntos durante a semana sem ser em casa. Geralmente, o trabalho roubava-lhe muito tempo, mas naquele dia ia ser diferente.

Olhou pela janela da cozinha. Ainda os conseguiu ver, a entrarem para o autocarro e acenou-lhes. Acenaram de volta. Sorriu, mas logo a seguir sentiu um arrepio que se tornou mais forte ao olhar para Clara. Como um pressentimento. Não ligou.  «Deve ser do frio» Pensou. «Este tempo tem andado esquisito, tenho de levar mais um casaco». Acabou de arrumar a cozinha, arranjou-se e saiu.

Naquela manhã, Voxy tinha ido com a mãe e a irmã a uma galeria de arte ver alguns quadros de uma artista principiante. Conseguiram comprar um bom lote. Iam entregar a casa ainda nessa tarde depois do recital. Depois, foram às lojas de roupa na avenida mais cara da cidade. Kari precisava de renovar o guarda-roupa e nada melhor queuma manhã nas lojas. Voxy aproveitou para comprar um vestido para o recital. Como era cor escura, escolheu um pregador com uma rosa branca para dar um toque de cor.

Voltaram para casa cheias de sacos que foram desempacotar aos quartos. Depois, Voxy foi para a sala do piano a fim de ultimar os ensaios para o recital dessa tarde. Detestava os recitais da escola. Eram enfadonhos e não serviam senão como uma desculpa para a verem. Para depois ouvir os pais dos colegas dizer: «Vês? Aquilo é que é uma artista! Devias seguir-lhe o exemplo!» e outras coisas do género. Até o local foi escolhido a dedo. O teatro da cidade. Um dos poucos sítios que leva mais público que apenas pais e alunos. Quando marcavam estes recitais, a escola ia ver em peso e se fosse preciso chamavam-se mais uns conhecidos para encher a sala. «Da próxima vez vendem bilhetes ao público» Pensou quando a professora anunciou o recital. Isso irritava-a profundamente. Não gostava de ser vista como a filha de Carolina Heart, a grande pianista. Queria ser apenas a Voxy.

Rapidamente afastou estes pensamentos quando se sentou ao piano e começou a tocar. Era o seu refúgio. Lá, sentia-se longe de tudo e todos os que a aborreciam. Numa realidade paralela, distante, onde só existiam ela e o piano.

Passado pouco tempo, já tinha a mãe e a irmã sentadas a ouvi-la. Nesse momento, arrastara-as para a sua realidade e por lá ficavam.

A música de Voxy era mais calma que e a de Carolina. A mãe era mais alegre, Voxy mais contida, misteriosa até. Ainda assim, não deixava de gostar de a ouvir, apesar de ter sempre um olhar crítico. Era ela que a treinava e o seu grau de exigência era elevado.   

Quando terminou, ambas bateram palmas. Carolina olhou para o relógio de parede da sala e arregalou os olhos:

-Já estamos atrasadas, temos e ir! -

Sem se aperceberem, as compras e os passeios tinham-se prolongado toda a manhã. Arranjaram-se e apressaram-se a sair de casa. Quando chegaram ao teatro, a professora de Voxy esperava-as nos bastidores com um ar de reprimenda que soube disfarçar. A sua estrela maior, a atração principal não se podia atrasar ou o espetáculo não se realizava. «Não deixava de ser uma boa hipótese» Pensou Voxy indo diretamente para o camarim dar os últimos retoques na roupa e maquilhagem.

Heitor já estava no camarote por cima do palco. Acenou quando viu a mulher e a filha chegar. Assim que se sentaram, o recital começou. Um a um, os alunos foram demonstrando os seus dotes artísticos e musicais até que chegou o momento mais aguardado. A sala, que até então tinha alguns murmúrios de fundo, emudeceu. Voxy surgiu no palco com um belo vestido azul-escuro, de saia curta, sapatos de verniz pretos e a pregadeira da rosa branca ao peito. Todos aplaudiram. Sentou-se em frente ao grande piano de cauda e começou a tocar. A música ressoava pela sala embalando os espectadores. A emoção que sentiam era sempre a mesma, mas era isso que os cativava.

 

Quando terminou, todos voltaram a aplaudir de pé a magnifica atuação de Voxy que agradeceu com uma vénia. A família foi depois felicitá-la aos bastidores. A professora não parava de a elogiar:

-Foste fantástica, ainda melhor que das outras vezes.- 

 Voxy sorriu.

-Tive boas professoras. -

Nesse momento, a família aproximou-se e ela foi abraçá-los. Carolina deu-lhe os parabéns e um beijo na cara. «Estou orgulhosa de ti».

O dia na escola e no escritório foi como os outros. Aulas e alguns clientes maçadores que insistiam na sua inocência mesmo quando todas as provas indicavam o contrário. A reunião com o cliente importante fora produtiva. Conseguiram que o caso não fosse a tribunal.

Na escola, também houve tempo para conversas com os amigos no recreio e jogos de futebol.

Clara e Gonçalo quase não se viam durante o dia, andavam em turmas e anos diferentes. Clara era 2 anos mais velha. De vez em quando, encontravam-se nos intervalos ou às refeições, mas cada um com o seu grupo. Apesar de todos saberem que eram irmãos, nunca se misturavam. Uma vez por outra encontravam-se fora da escola para irem ao café mas muito raramente.

No escritório, Estefânia comia com Carla. Todos os casos complicados passavam por elas e na maioria das vezes eram ganhos. Faziam um bom trabalho de equipa porque se complementavam. Foi assim que a convencera a aceitar a sociedade da firma. Apesar de no início não ter sido fácil por causa da pouca experiência em gestão, com o tempo foram-se adaptando.

Quando a campainha tocou, os dois irmãos saíram da escola e foram ao encontro da mãe que os esperava no carro à porta, que os surpreendeu, mas também alegrou. Despediram-se dos colegas e entraram. A mãe arrancou logo a seguir. Àquela hora, o trânsito era pouco, mas já se faziam notar as filas do início da hora de ponta.

….

Á saída do teatro, o carro esperava por eles. Entraram pela porta aberta. Arrancaram pouco depois. O trânsito era intenso, mas o motorista conhecia um atalho. Acelerou um pouco até entrar numa estrada alternativa sem reparar que outro carro tomara o mesmo caminho, passando muito perto, e com o susto, descontrolou-se um pouco mas retomou logo o caminho. Mais adiante, voltaram a encontrar muito trânsito. Heitor pediu ao motorista para procurar outro atalho, já era tarde e todos precisavam de descansar. O motorista obedeceu e foram ter a uma estrada pouco movimentada, mas onde a visibilidade era má por causa do sol. De repente, ouviram um barulho e depois a silhueta de um camião na direção deles. Vieram dar a uma estrada em contramão. O motorista tentou virar, mas não foi a tempo. Um flache de luz atravessou-se no seu caminho. Foi a última coisa que Voxy viu antes de ficar inconsciente.  

 

-O trânsito está caótico, hoje! - Queixou-se Estefânia. Cada vez mais carros começavam a chegar ao local onde se encontravam, obrigando-os a abrandar.

-Vamos por outro caminho senão nunca mais chegamos a casa. - Decidiu Estefânia, saindo da fila onde estavam e avançando por outro lado. De repente, apareceu outro carro a alta velocidade. Clara, que ia sentada no banco do pendura, resolveu ligar o rádio, sempre se distraiam enquanto não chegavam a casa. Quando levantou a cabeça, olhou pelo espelho retrovisor e viu outro carro a aproximar-se. Tentou avisar a mãe, mas já não foi a tempo.

 ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

Bjs 

Joana

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 1- Capitulo 3

 Olá 

Trago-vos o capitulo da semana que encerra a primeira parte da história. 

Espero que gostem! 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

III

O primeiro ano de casamento pode ser complicado. A rotina e o amor nem sempre se conjugam. Apesar de se conhecerem há bastante tempo, Carolina e Heitor demoraram algum tempo a adaptar-se à vida de casados. As constantes viagens fizeram com que se vissem menos do que queriam, mas quando estavam juntos era sempre como se fosse a primeira vez.

A única pressão que sentiam era para terem filhos. «Um filho alegra uma casa e traz estabilidade ao casamento» dizia-lhe a mãe, Odete. E Carolina pacientemente respondia-lhe que o seu casamento não era como o dela que teve de nascer para conseguir mantê-lo ainda que fosse tudo fachada. Os pais Odete e Roberto nunca tiveram sentimentos verdadeiros um pelo outro. Apenas se toleravam. O casamento deles era um negócio de benefícios para ambos em termos de poder e dinheiro, nada mais. Ela fora uma forma de segurar esse poder. Agora, a mãe queria a mesma coisa para a filha. Com certeza pensava que Heitor, tal como o marido, também tinha as suas escapadelas, mas Carolina assegurava que não. Nem no tempo de adolescentes Heitor sequer pensava em estar com outras mulheres que fossem ela. Teve as suas aventuras, mas não passaram disso. Devaneios da juventude que já passaram.  

A gravidez não acontecia por falta de tentativas. Os abortos espontâneos eram constantes e Carolina sentia-se cada vez mais deprimida, mas Heitor estava sempre ao seu lado e nunca a deixou esmorecer.

«A doença de que padece provoca lesões no útero e isso dificulta a fixação dos óvulos nas paredes» Explicou o médico depois de mais uma ida ao hospital por causa de um sangramento.

-Não existe nada que se possa fazer, Doutor? - Perguntou Carolina desesperada.

Heitor segurou-lhe a mão, confortando-a. Também estava frustrado com a situação.

-Bom, existe uma possibilidade, mas é arriscada. - Começou o médico.

Caroline olhou-o no fundo dos olhos.

-Eu faço o que for preciso, nem que me custe a vida. –

Estava disposta a tudo. Mesmo que tenha ponderado outras hipóteses como a adoção, nada lhe tirava a sensação de ter um ser a crescer dentro de si. Queria essa experiência nem que fosse uma única vez.  

O médico assentiu. Conseguia perceber o forte desejo do casal em ser pais e por isso iam levar até ao fim.

-Muito bem…- Continuou – Vamos recorrer a uma inseminação artificial e depois colocamos um reforço nas paredes do útero de modo a permitir que o óvulo se fixe. Depois, é só esperar. – Acrescentou: - No entanto, não existem garantias que venha a ser eficaz e pode ser extramente pensoso para a Carolina. – Concluiu: - É um tratamento experimental que pode ter consequências desconhecidas. –

 

Carolina olhou para o marido. O olhar dele deu-lhe a força que precisava. Se era a única maneira, então iam avançar.

O primeiro ano de casados de Estefânia e Carlos foi passado a trabalhar e a redecorar a casa nova. Planeavam alargar a família e tinham de ter tudo pronto para quando essa altura chegasse, o que não demorou muito tempo. Foi durante um jantar que Estefânia deu a notícia. Carlos ficou de lágrimas nos olhos. Quando contou aos futuros avós, também ficaram muito contentes.

-Há-de ser um rapaz lindo e saudável. - Disse o futuro avô cheio de orgulho.

-É melhor não criar muitas espectativas ou podem sair-te ao lado. - Aconselhou Estefânia, acariciando o ventre ainda liso mas que iria crescer e tornar-se desconfortável.

Durante a gravidez, Estefânia esteve de licença e iria continuar nos primeiros meses. Carlos esteve a seu lado sempre bem como a mãe e Carla.

A notícia da gravidez de Carolina chegou certo dia depois de várias fertilizações falhadas. Deixaram todas em segredo para não criar demasiadas expectativas.

-Está de 3 semanas e bem fixo. - Anunciou o médico depois de a examinar.

 Heitor abraçou-a a chorar, mas o momento de alegria logo se transformou em preocupação. O bebé tinha desenvolvido, ou parecia estar a desenvolver a mesma doença da mãe o que tornou a gravidez de risco. Carolina foi forçada a parar a sua carreira e ficar de repouso absoluto. Os seus dias eram passados na varanda de casa a olhar para o jardim, numa zona resguardada e para o ventre a crescer. Lágrimas de alergia e esperança caíam-lhe pela cara. Heitor fazia questão de estar presente em todos os momentos importantes. Também parara a carreira para apoiar a mulher, o que muito desagradou aos pais, mas agradou aos sogros, principalmente a Odete.

Quando não estava na varanda, passeava pelo jardim e até molhava os pés na piscina. Passava perto da sala do piano e, de vez em quando, não resistia a tocar alguma coisa enquanto a barriga ainda lhe permitia. Depois, passou a ler a compor através da imaginação, anotando tudo num caderno de capa castanha.

Quando Clara nasceu, toda a família veio dar-lhe as boas-vindas. Estefânia e Carlos estavam felizes. Deram-lhe o nome da avó de Estefânia como homenagem.

-É muito bonito da tua parte. Ela ficaria muito feliz. - Disse a mãe.

Estefânia sorriu acariciando a recém-nascida nos seus braços.

As contrações começaram logo de manhã. Ainda faltava uma semana para o parto, mas Carolina não estava a aguentar. Foi logo encaminhada para a clínica onde tinha agendado tudo.

Depois de várias horas, que foram penosas para ela, os médicos decidiram fazer cesariana. A filha do casal nasceu prematura e foi para uma incubadora. Carolina ainda estava fraca do parto, mas conseguiu vê-la de relance.

O médico veio cá fora dar a notícia e a alegria de uns foi quase desilusão de outros. O pai de Carolina, Roberto, estava convencido que era um rapaz e que havia de ter o seu nome.

Mais tarde, com Carolina no quarto, não deixou de opinar sobre o nome embora ninguém estivesse com disposição para isso.

-Se não é Roberto, pode ser Roberta. - Comentou, mas o casal já tinha decidido que nome lhe ia dar.

-Vai chamar-se Voxy.- Anunciou Carolina para surpresa de todos.- Sonhei com este nome há muito tempo. Antes pareceu-me absurdo, mas agora faz sentido. -  

Roberto teve de se conformar.

Carolina teve alta passado pouco tempo, mas Voxy teve de ficar mais algumas semanas. O seu estado era frágil e inspirava cuidados redobrados. Todos os dias os pais iam visitá-la.

Quando Estefânia regressou a casa, os avós apareceram com muitas prendas para a bebé. Todos queriam pegar-lhe e tirar fotografias.

Carolina e Heitor foram buscar a filha depois de quase um mês de internamento. Foi a primeira vez que a mãe lhe pegou. O seu corpo pequeno e frágil exigia que estivesse sempre alerta.

Foram recebidos em festa. Toda a família estava presente e ficaram muito admirados quando Roberto anunciou com orgulho a neta, apesar de não concordar muito com o nome.

Dois anos após o nascimento de Clara, nasceu Gonçalo o tão desejado rapaz. Infelizmente, Jorge já não pôde ver o neto, pois falecera um ano antes.

 Com a família maior, mudaram para uma vivenda com um quintal onde as crianças podiam brincar.

Kari apareceu na vida de Voxy um ano após o seu nascimento. Era órfã e o casal resolveu adoptá-la depois de visitarem um lar de crianças. Andava sempre atrás deles e rapidamente se afeiçoaram á menina de olhos castanhos e cabelo escuro.

Logo a seguir ao parto, Carolina foi operada e retiram-lhe o sistema reprodutor que já estava muito danificado pelo esforço de ter acolhido Voxy. Ficou uns meses de repouso antes de começar a amamentar e cuidar da filha. Afeiçoou-se muito a ela e protegia-a de tudo, era o seu tesouro mais precioso.

 

A chegada de Kari veio animá-la ainda mais e dar a Voxy uma irmã com quem brincar. Podia não ter vindo de si, mas era como se tivesse. As duas eram inseparáveis. Adoravam brincar no jardim e tocar piano. Era Kari quem lembrava a irmã de usar as proteções para o sol cada vez que saíam de casa o que descansava os pais.

Clara e Gonçalo também tinham uma relação próxima, o que era normal entre irmãos. Adoravam meter-se em todo o tipo de aventuras para desespero dos pais. Mas todos estavam felizes.

 

Fim da Primeira Parte

 

 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Bjs 

Joana 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 1- Capitulo 2

 Olá 

Aqui fica o capitulo da semana da minha história.

Espero que gostem.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

II

Estefânia e Carlos

Estefânia era uma mulher de estatura média. Tinha o cabelo preto e olhos castanhos. Alegre, extrovertida, mas também prática e racional. Qualidades que herdara do pai.

Era recém-licenciada em Direito quando foi trabalhar para a firma de advogados do pai. Desde pequena que tinha contacto com os tribunais. Com apenas 6 anos, foi á sua primeira sessão de julgamento. Gostava de ficar na sala de audiências onde fingia que presidia a um grande julgamento. A mãe ainda a incentivou a seguir-lhe os passos no ensino, mas o Direito e a emoção dos tribunais falaram mais alto.

Namorava um rapaz, também recém-licenciado, mas em Arquitectura, chamado Carlos. «Lingrinhas, mas ajuizado» Dissera o pai quando ela o apresentou.

 O pai de Estefânia, Jorge, era um homem amável e vivaz. Advogado de profissão e casado há mais de 30 anos com Maria Hortense, tinha o cabelo castanho, da mesma cor e um bigode farto. Pela aparência, ninguém diria que era um dos melhores advogados do país, mas um operário fabril.

Já a mãe, professora primária, era uma mulher alegre sempre com um sorriso. Usava o cabelo apanhado num carrapito, muito típico daquela geração. Viviam numa casa nos arredores da cidade, de dois andares e um pequeno quintal.

Jorge tinha uma pequena firma de advogados da qual se orgulhava muito, mas dizia sempre que o seu maior orgulho era a família. E não era para menos. A filha tinha terminado o curso de Direito com mérito, assegurando um estágio com apenas 20 anos.

Logo no primeiro dia, fez questão de marcar a sua posição. «Não quero que me tratem de forma diferente só porque sou filha do chefe.» afirmou.  Foi-lhe mostrado o local de trabalho. Um cubículo com um telefone e meia dúzia de papéis em cima de uma mesa com pernas de metal. Deram-lhe uma cadeira almofadada com rodas nas pontas das pernas para se sentar. Era desconfortável, mas habituou-se depressa.

-Este é o gabinete dos estagiários. - Disse o pai. – As tuas tarefas são simples: levas cafés, tiras fotocópias, mas não mexes nos processos. - Acrescentou: - Isso fica para mais tarde quando ganhares experiência, até poderás ter um gabinete maior.-

Estefânia sorriu entusiasmada.

Carlos começara a trabalhar num atelier de arquitetura. Um professor gostara dos seus projetos e conseguira um estágio para ele.

Os pais eram ambos operários numa fábrica de conservas e foi com muita dificuldade que lhe conseguiram pagar os estudos, que ele soube recompensar formando-se com distinção numa área que era a sua paixão. Sempre gostara de desenhar, especialmente á vista, e sobretudo prédios e casas.  Ainda conseguiu arranjar uma rapariga decente, como lhe dissera a mãe.

 

Os primeiros meses foram de adaptação, mas com o passar do tempo, a rotina foi-se tornando um hábito. Ainda assim, conseguiam conciliar o namoro. Sobretudo ao fim de semana.

Naquela altura, a maior parte dos jovens gostava de sair á noite. Por isso quando saiu do trabalho juntamente com Carla, a melhor amiga, ligou para Carlos a convidá-lo. Ainda havia poucos telemóveis, eram um bem raro, mas Estefânia conseguiu convencer o a pai a dar-lhe um. Com a desculpa de se manter contactável quando estava fora. Também conseguiu um para Carlos e Carla com esta desculpa. Por vezes conseguia ser bem persuasiva.

-Vá lá! - Insistiu. - Amanhã, é fim-de-semana, temos de aproveitar! -

Acabou por aceitar, embora contrariado. Mais uma vez a sua persuasão era surpreendente. Desde que se conheceram. Devia ter sido isso que o atraíra nela. A sua atitude forte e resiliente de virar uma situação a seu favor.

O bar estava quase vazio quanto chegaram. Ficava perto do sítio onde as raparigas trabalhavam por isso não foi difícil de localizar. Percorreram aquelas ruas demasiadas vezes pois vinham ali desde os tempos da faculdade quando queriam relaxar depois de mais uma noitada a estudar para os exames.

Fora lá o primeiro encontro de Estefânia e Carlos. Conheceram-se na festa de recepção ao caloiro. Não foram praxados porque a faculdade onde estavam era contra essas práticas, mas faziam uma pequena festa de confraternização. Estefânia é que foi falar com ele. O miúdo no canto da sala que não conhecia ninguém. Já na altura, ela parecia envolver toda a gente. Em parte, graças a Carla que levara a tudo o que era festa. Eram amigas desde o liceu e foram as duas para a mesma faculdade e curso. Naquela altura, não ligou muito. Era mais uma que se vinha meter com ele por ser magrinho e usar óculos. Mas depois, dava por si a pensar nela. No seu sorriso cativante e na maneira como dançava. Tinha de arranjar coragem e convidá-la para sair. Mas era tímido e inseguro, quem tomou a iniciativa foi ela. Exatamente o que estava a acontecer agora.

 

Sentaram-se ao balcão e pediram uma bebida para cada um. O local era acolhedor, com o seu balcão corrido de madeira, meio gasto com marcas de copos e bebidas e até cinzas de cigarro. Bancos altos e quadros com recortes de jornal de prémios e fotografias de famosos que lá tinham estado e deixaram a sua marca. Estefânia reconheceu uma das fotografias, a de Carolina Heart a famosa pianista que por lá passara com um então namorado para beber uma cerveja.

Mais à frente, por entre mesas e cadeiras, havia uma mesa de snooker com alguns homens á volta acompanhados por copos e garrafas de cerveja e um pouco de tabaco.

Gostavam de vir ali porque o ambiente era calmo e nunca fechava muito tarde. Naquela altura, bebiam sempre o mesmo. Um copo de gin com gelo ou uma margarita acompanhada com alguns aperitivos salgados. Tudo para passar um bom bocado.

  Saíram do bar já a noite ia longa. Estava calma e eles não tinham bebido muito. Foram andando à rua onde Carla morava. Despediram-se e ela subiu até casa.

O casal voltou para trás pois o apartamento onde moravam ficava do outro lado. Quando chegaram, foram aos beijos para o quarto. Livraram-se da roupa á medida que se aproximavam da cama, onde o amor e o desejo tomaram conta dos seus corpos e mentes.  Estefânia encostou a cabeça ao peito quente de Carlos, que lhe beijou o alto da cabeça. De repente, Estefânia disse:

-Sabes, tenho andado a pensar. – Olhou para ele que lhe sorriu. Beijaram-se e ela continuou depois: - E se nos casássemos? -  Ficou surpreendido. Não esperava uma proposta tão repentina. Namoravam há quase 2 anos e estavam a viver juntos para não terem muitas despesas. Nunca tinha pensado nessa possibilidade, mas agora que as vidas de ambos estavam estabilizadas, porque não? Sorriu e disse: «Está bem». Estefânia soltou um risinho e beijaram-se novamente.

Casaram pouco depois de serem promovidos nos respectivos trabalhos e de terem uma casa maior. Tiveram uma cerimónia discreta, só com amigos e familiares próximos, mas divertida e feliz. Estefânia escolheu um vestido simples, mas que deixou Carlos extasiado.

 ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Mais uma vez, espero que gostem. 

Bom fim-de-semana. 

Bjs 

Joana

 


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 1- Melodias do Passado

 Olá 

Trago-vos o primeiro capitulo da primeira parte da história. 

Espero que gostem. 

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Carolina e Heitor

I

Carolina Heart era uma mulher alegre, simples. Gostava de rir e de se divertir. Andava quase sempre rodeada de gente. Sempre foi assim desde pequena. Sem querer, acabava por ser o centro das atenções. Talvez por ser filha única ou pelo lado sombrio que acarretava.  

Sofria de uma doença rara que lhe afetava a pele, mas que também outros órgãos. Fora diagnosticada pouco tempo depois de nascer. A pele demasiado pálida fez os médicos desconfiar. Síndrome Albino chamaram-lhe na altura. Uma espécie de albinismo, mas mais agressivo.

Para além das habituais recomendações de apanhar pouco sol, também a alimentação tinha de ser controlada. Nada de coisas com muita gordura ou processados. A principal consequência de apanhar demasiado sol era a vermelhidão na pele e depois as faltas de ar. Sempre que tinha uma crise, era levada para o quarto e de lá não saía até que estivesse estabilizada.

Por isso criava uma espécie de bolha á sua volta e bastantes restrições, que mesmo já estando habituada, não deixava de contrariar. Por causa dessas contrariedades, muitas foram as vezes em que uma estadia no quarto não era suficiente e teve mesmo de ir ao hospital. Sempre que regressava, as restrições aumentavam, por isso passou a estar mais tempo em casa.

 Durante esse tempo, desenvolveu várias aptidões artísticas, sendo a música a que se destacou. Começou a aprender piano aos 3 anos e aos 5 já atuava nas festas de família. Com 8 anos, começou a tocar nos grandes palcos um pouco por todo o mundo levada por um agente e pela mãe.

 

Foi numa dessas viagens que conheceu Heitor, aquele que viria a tornar-se no grande amor da sua vida. Um rapaz franzino, mas com um sorriso cativante.

 

Heitor Smith era um homem com um ar austero, sisudo até. Nunca estava contente ou confortável em sítio nenhum. Isto até o conhecerem e ele ficar mais á vontade. Passada essa barreira, veriam que se tratava de alguém amável e afetuoso e até um pouco tímido.

Como todos os membros de uma família abastada e por ser o filho varão, teve uma infância passada a ser preparado para herdar e dirigir as empresas da família. Estudou nos mais prestigiados colégios e universidades do mundo, sempre rodeado de gente importante e influente. Apesar de gostar dos estudos e das conferências sobre Economia e Gestão, por vezes sentia que aquilo era entediante. Quantas vezes se perdera em devaneios sobre como subir a uma árvore para ter a melhor vista sobre o campo dourado de cereais da quinta dos avós ao fim da tarde ou qual seria a melhor colina para lançar o papagaio de papel. Afinal, ainda era uma criança quando começou a frequentar os mesmos lugares dos adultos. Por mais que se esforçasse, ainda havia coisas que não entendia.

Por isso, de vez em quando, dava uma escapadela e dedicava-se a outra das suas paixões: as artes. A família não se opunha, pois, viam uma oportunidade para conviver com pessoas da sua idade e, quem sabe, encontrar alguém que assegurasse a descendência.

Foi num desses salões que, com 8 anos, conheceu Carolina.

Tinha ido a uma das suas apresentações e ficou fascinado. Já tinha ouvido falar de uma pianista da sua idade, mas pensava que era exagero até a ouvir. Tocava de uma forma tão alegre que levava todos com ela. A partir daí, quis conhecê-la melhor.  

Voltaram a ver-se numa festa passado puco tempo em Paris. Rapidamente, nasceu entre eles, uma amizade profunda apesar de, ao início, ela o estranhar. Por causa da sua aparência séria. Mas com a sua música, conseguiu pô-lo a sorrir.  Com o passar do tempo, essa amizade transformou-se em algo mais. Já não conseguiam estar muito tempo longe um do outro.  As famílias aproveitaram-se da situação para os comprometer como um bom negócio. A rapariga era doente, mas haviam de arranjar uma solução quanto á descendência. Eles não se importavam já que o sentiam era genuíno.  

Apesar do compromisso, tiveram sempre liberdade para conhecer outras pessoas e lugares que frequentavam. Diziam que, já que estavam comprometidos, não havia nada que os impedisse de terem outras relações pois a sua vida já estava decidida.

As formações no estrangeiro levaram o casal a separar-se durante bastante tempo, o que proporcionava grande parte das aventuras amorosas próprias da adolescência. Principalmente da parte de Carolina. Heitor conservou, ainda, que tenha tido as suas conquistas, uma certa fidelidade para com o compromisso.  Apenas no início da idade adulta se deu o reencontro.

Foi novamente numa festa a seguir a um espetáculo e novamente em Paris. Aquela cidade parecia que tinha poder sobre eles, como se os puxasse pelos fios do destino, não fosse conhecida como a cidade do amor e dos apaixonados.

Ele foi ouvi-la num grande teatro. Sentou-se num camarote mui to próximo do palco. Queria ter a certeza que a via por inteiro e não através de um caminho de cabeças ou de um fosso de orquestra.  Assim que entrou no palco, reconheceu-a logo. Trazia um vestido de cetim preto e o cabelo apanhado com uma flor cor-de-rosa. Sempre gostou de dar um toque de cor aos seus visuais. Os mesmos olhos, a mesmas mãos, a mesma figura esbelta e delicada que se lembrava da infância, mas agora mais mulher e segura de si. Começou a tocar e toda a sala se calou. A melodia ecoava como um cântico celestial à medida que as teclas iam sendo pressionadas. Heitor estava encantado. Já não se lembrava de como a música podia embalar o público.

Quando terminou, todos aplaudiram de pé a artista que agradeceu e saiu do palco tão graciosamente como entrara. Dali, seguiu de limusina até ao local da festa. O Palácio do Embaixador de Lime em Paris.

Entrou no salão nobre e serviu-se de uma bebida de um conjunto que um empregado lhe mostrou. Foi para a varanda tomar o ar fresco da noite. Ainda com a cabeça no recital, bebeu um gole e deixou-se ficar perdida nos seus pensamentos. Uma mão no ombro veio trazê-la para a realidade. Primeiro, assustou-se depois olhou para o lado e lá estava o rapaz da primeira fila a sorrir-lhe. Reconhecera-o, apesar dos anos e da distância.

-Não mudaste nada. - Disse-lhe, sorrindo. Ele acrescentou: - E tu continuas bela como sempre. -

Ela lançou-lhe um olhar sedutor. O mesmo olhar que o conquistara há muitos anos. Carolina pousou o copo no parapeito e estendeu-lhe a mão.

-Concedes-me esta dança? - Heitor surpreendeu-se. Normalmente, era o homem que fazia essa pergunta. Assentiu e pegou-lhe na mão. Entraram no salão mesmo no início da valsa.

Ninguém conseguia tirar os olhos do par que dançava no centro do salão. Os movimentos graciosos faziam com que parecesse que estavam a dançar sobre as nuvens. O modo de dançar de Carolina não mudara. Alegre, mas ritmado como se deslizasse. Heitor apenas acompanhava.

A valsa terminou e voltaram para a varanda, cada um com um copo na mão enquanto apreciavam o ar fresco da noite.

-Foi divertido. - Disse Carolina depois de um gole.

-Concordo. Temos de repetir. - Respondeu Heitor.

Ela sorriu. Chegou quase a soltar uma gargalhada.

-Não estava a falar da dança. - Aproximou-se e segredou-lhe: - Queres ir ao meu hotel? -

Ele surpreendeu-se.

-Que foi? - Ripostou ela- Não te agrada?-

Ele hesitou antes de responder:

-Bom…acabámos de nos reencontrar e já queres levar-me para a cama?-

Voltou a responder-lhe ao ouvido: «Esta festa está a ficar aborrecida, preciso de algo mais…entusiasmante» Beijou-o fugazmente. Largaram-se e ele respondeu num misto de surpresa e atrevimento:

-Ok, convenceste-me.-

O hotel onde Carolina estava era o melhor da cidade. Ficava sempre lá quando vinha a Paris. O luxo e a sofisticação pairavam em todos os recantos. Depois de saírem da limusine dela, passaram pela recepção como recém-casados e foram de elevador até à suite mais cara que ficava no último andar.

Entraram abraçados e aos beijos. Estavam felizes, apaixonados. Aquele reencontro fizera despertar sentimentos que estavam adormecidos há muito tempo e que já não se lembravam. Mandaram vir champanhe e, entre copos e roupa tirada, começou o jogo de sedução. Primeiro o olhar, depois o convite que terminou noutro beijo fugaz no sofá comprido da sala. A dança continuou até à cama onde a pouca roupa que existia foi separada entre carícias e beijos. Deixaram-se cair e o amor tomou conta do resto.

-Estás arrependido? - Perguntou Carolina.

Heitor olhou-a com ternura. Beijaram-se novamente. Ele segredou-lhe: «Nunca me arrependo das coisas boas da vida»

Riram-se. Ela encostou a cabeça ao seu peito quente, ainda envolta no sonho. Durante anos, tivera de reprimir os sentimentos para não sofrer ainda mais com a separação mas naquele momento era diferente. Estavam novamente juntos e mal podia acreditar no que acabara de acontecer.

Deixou-se ficar mais um pouco aninhada até que resolveu levantar-se e ir á casa de banho. Faltava pouco para amanhecer e não queria que nada daquilo terminasse. Sorriu.

Entrou na banheira e a água quente acariciou-lhe a pele. Passado pouco tempo, ele apareceu e o amor continuou. Saíram da casa de banho abraçados e em roupão. Carolina abriu as portas da varanda para deixar entrar os primeiros raios de sol e o ar fresco da manhã. Na mesa, já estava alguma fruta, bolos, doces e bebidas para o casal. Cortesia do hotel. Sentaram-se e Carolina tirou um cigarro de chocolate de entre os doces. Mordicou-o enquanto Heitor servia o café. Apoiou o braço no parapeito de ferro forjado e olhou para a panorâmica da cidade até à Torre Eiffel.

-Sabes, um dia tive um sonho. - Começou ela. A pele branca parecia brilhar à luz do sol mas não se afectou pois tomava uns comprimidos que lhe faziam aumentar a melanina e isso protegia-a. Heitor sabia da sua condição há muito tempo quando, numa visita a sua casa, ela teve uma crise depois de ficar muito tempo ao sol. Desde então, sempre tentara protegê-la e ela sentia-se lisonjeada por isso. Mas desde a separação que ela passou a tomar os comprimidos que o médico lhe receitara pouco antes de começar as digressões.

-Sonhei que tínhamos uma filha e que o seu nome era Voxy. Não é de doidos? Quem é que chama uma filha com este nome? -

Heitor surpreendeu-se, mas sorriu.

-Realmente, que sonho mais invulgar! -

Ela aproximou-se. Olhou-o com doçura e beijaram-se. Acabou por dizer:

- Tens razão, foi só um sonho. Não devia levar a sério. -

Sorriram.

Durante a estadia em Paris, Carolina e Heitor passaram quase todo o tempo juntos. Sempre depois de um ensaio ou de um recital e de um encontro de negócio, ele aparecia com um ramo de flores no seu camarim e iam passear complementando sempre com um jantar ou almoço que culminava no hotel de Carolina ou no dele.

Um dia, depois de um jantar, Heitor levou-a a passear e pararam numa joalharia onde comprou dois anéis. Foi na ponte dos namorados que as trocaram. Emocionada, abraçou-o. Combinaram casar depois da próxima tournée dela e quando ele voltasse da sua viagem de negócios.

-Será aqui novamente. - Disse beijando-o apaixonadamente.

Passados alguns meses, reencontraram-se em Paris e, tal como combinaram, casaram. A festa foi inesquecível, cheia de convidados num magnífico salão de um luxuoso hotel. Todos estavam felizes com aquela união e desejaram o melhor para os noivos.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana. 

 

 


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Prólogo

 Olá 

Bom Ano a todos! Já lá vai algum tempo desde da última vez que escrevi! 

Para celebrar os 10 anos de blog, vou publicar, todas as semanas, uma história original. 

Espero que gostem. 

Aviso: esta história pode conter linguagem um pouco 'pesada' ou abordar assuntos 'sensíveis' pelo que recomendo a leitura apenas a pessoas que tenham mais de 16 anos. 

Fica o prólogo. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A Sonata da Rosa Branca

Prólogo

«As melodias que unem também podem separar., mas quando unem é para sempre.» Leu Voxy num dos muitos livros de autoajuda que lhe deram aquando da morte dos pais, como se isso conseguisse amenizar a dor. Já ouviu dizer que muita gente recorria a esta literatura quando passa por uma grande perda ou doença. No caso dela, era ambas.

Acabara de perder os pais, duas das pessoas mais importantes da sua vida e lidava com uma doença da qual se sabia muito pouco.

Quanto ao livro, estava relacionado com música e perda. «Pensei que podia ajudar» disse-lhe alguém de cuja cara não se conseguia lembrar. Talvez pelo embate violento ou consequência da doença, o que é certo é que ultimamente não conseguia identificar a fisionomia de ninguém, salvo a irmã mais nova Kari e a ama Bertha, cuja presença era frequente enquanto estava internada. Só se lembrava que estivera no hospital por causa da irmã. Contara-lhe com toda a calma e paciência que a caracterizavam o motivo de estar ali. As imagens da noite do acidente eram vagas e confusas, mas com as explicações de Kari conseguia que ficassem um pouco mais nítidas.

Pouco depois do acidente e da alta hospitalar, dedicara-se à leitura. Sobretudo de romances, mas também teve de ler alguns dos outros nem que fosse para dizer que estavam a funcionar quando na verdade só a deixavam mais confusa e frustrada.

O lugar que adotara para a leitura era um canto do seu quarto. Virado para a janela num banco. O único contacto com o mundo já que odiava a tecnologia, apesar de a irmã lhe ter criado uma página na Internet onde publicava todas as notícias relacionadas com os seus espetáculos. Nunca ligava, mas ficava feliz quando as salas enchiam e a irmã lhe dizia que tinha sido graças á divulgação nas redes socais.

 

Bateram à porta no instante em que estava prestes a entrar no clímax da história. Isso irritava-a. Era sempre interrompida na melhor parte! Nos ensaios de piano, era a mesma coisa! Quando chegava à parte que lhe interessava, era a pausa para comer ou para ir dormir. Bem sabia que o descanso e as refeições eram importantes, mas queria poder praticar um pouco mais até que achasse que era altura de parar.

Pousou o livro e foi ver quem era.

Uma mulher de uniforme cinzento apareceu à porta. Vinha dizer que o jantar estava pronto e que podia descer. Lá estavam as pausas a estragar tudo! Com um revirar de olhos, seguiu a mulher para o andar de baixo.

 

 

Era Verão. Uma família resolvera aproveitar o bom tempo para passear e fazer um piquenique no campo. Uma rapariga corria descalça pela relva. Os cabelos esvoaçavam à medida que avançava. Quase parecia flutuar entre as ervas frescas que lhe acariciavam os pés.

Corria em direção ao resto da família. Um casal e um rapaz sentados à sombra de uma árvore com uma toalha e loiça de piquenique. Quando ela chegou, começaram logo a devorar os pacotes de batatas fritas e as sandes trazidas de casa.

O homem levantou-se e foi buscar a máquina fotográfica à mochila. Todos se posicionaram e sorriram. O flache disparou e a fotografia ficou gravada no pequeno ecrã da máquina digital.

De repente, toda a cena de desvaneceu. A escuridão tomou conta de tudo. Gritos, flaches de luz de carros e uma linha vital a alisar apareceram. «Clara!» gritou uma voz «Clara, não!» tentou alcançá-la, mas já estava longe.

 

Estefânia acordou em pânico. Estava a suar em bica. Carlos também se sobressaltou e acalmou-a. Tinha sido mais um pesadelo. Um de entre muitos.