terça-feira, 29 de abril de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 9

 Olá

Fica o capitulo desta semana. 

Espero que gostem. 

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IX

As consultas começavam cedo. Felícia vinha sempre depois do pequeno almoço para não atrapalhar as rotinas. Voxy sentia-se cada vez mais segura. Era alguém que conseguia compreendê-la melhor que a irmã ou a avó, ainda que fosse paga para isso. 

Num desses dias, Felícia sugeriu:

- E se começássemos os passeios? Parece-me que já está na altura de sair um pouco.- 

Voxy respondeu:

- Está bem.- 

Pôs o chapéu e um pouco de protetor antes de saírem. Felícia estava a par da condição da paciente. Sabia que as saídas tinham de ser controladas e não podiam durar mais que o necessário ou Voxy ficaria com tonturas e isso podia atrapalhar o tratamento. Foram para o jardim da casa para começar. Sentia-se mais leve. Antes do acidente, costumava sair bastante com a mãe e Kari, mas, ultimamente, nunca lhe apetecia ou apetecia-lhe pouco. Fora algumas vezes á varanda do quarto, mas não era a mesma coisa. Gostava de olhar para as plantas e flores, sentir a brisa por inteiro a acariciar-lhe a face.  Desde a temporada na Suíça, que não fazia algo assim. Agora, aquela simples ida ao jardim parecia fazer-lhe bem. 

...

A recuperação de Maria Hortense estava a ir melhor que o esperado. Embora os médicos estivessem optimistas, Estefânia não deixava de se preocupar. 

Os dias de Estefânia eram divididos entre o trabalho e os cuidados com a mãe. Andava mais cansada, mas feliz. Não se lembrava da última vez que tivera a família junta. Talvez num Natal longínquo. 

Depois disso, só na temporada que passaram em casa da mãe. Mas nessa altura a distância tornou-se maior. Agora, os laços pareciam estar a voltar e isso deixava-a mais tranquila. 

...

Depois da ida ao jardim, Voxy parecia ter ganho um novo fôlego. Estava mais satisfeita e tinha uma expressão mais tranquila e confiante. Voxy deteve-se junto à porta da sala do piano como se esperasse que Felícia dissesse alguma coisa. Como não disse nada, apesar de perceber a mensagem, seguiram para o quarto. 

O resto do dia foi passado a falar sobre trivialidades. Voxy sentia-se mais segura, mas não o suficiente para voltar à música. Felícia sabia que essa etapa ainda estava longe e não quis apressar. Tinha de a deixar ir ao seu ritmo. 

...

 Passados alguns meses de ter estado em casa da filha, Maria Hortense regressou à sua casa, prometendo vir visitá-los mais vezes e que Abel estaria sempre por perto, caso acontecesse alguma coisa e Estefânia seria a primeira a saber. 

...

A terapia com Felícia estava a dar resultado. Aos poucos, Voxy foi ganhando mais vitalidade. Os passeios pela cidade faziam-lhe bem. Gostava de ver as lojas e as pessoas. Algumas até a reconheceram, apesar da roupa escura que nunca fizera questão de tirar. Sentia-se confortável com ela. Durante um desses passeios, até foi às compras como já não acontecia há muito tempo. 

Apenas o medo do piano continuava. Embora houvesse vezes em que lhe dava vontade de entrar na sala sempre que passava à porta. 

Um dia, Felícia perguntou:

- Voxy, gostava de entrar na sala do piano? Só para ver, não precisa de tocar em nada.- 

Hesitou por um momento, a ideia de voltar a um sítio com tantas memórias ainda lhe era difícil, mas acabou por concordar. Foi á porta e Felícia abriu-a. Acendeu a luz e olhou em volta. Aquele lugar trazia-lhe recordações, demasiadas. Umas tristes outras alegres. Era ali que costumava ensaiar com a mãe, mas também foi ali que começaram os receios. 

Na noite antes do funeral dos pais, entrou ali para tocar uma última vez para a mãe. Sentou-se em frente ao piano e, por momentos, este pareceu-lhe maior que o habitual. Gigante até, como se, de repente, fosse criança novamente e ainda não chegasse com os pés ao chão e as mãos às teclas. 

Pousou-as no teclado, estas tocaram automaticamente como se fossem mecânicas. Mal conseguiu ouvir uma nota. Quando, por fim, aquela melodia distorcida terminou, as mãos tremiam-lhe ao ponto de não as conseguir mexer. A partir daquele momento, jurou que nunca mais tocaria piano. No dia seguinte, conservou-as no bolsos do casaco grosso de Inverno que levava naquele dia triste e chuvoso. O dia em que se despediu das duas pessoas que mais amava no mundo. Depois disso, fechou-se na escuridão. 

Agora, sentada no sofá, conseguia ter um ponto de vista diferente. Mais distante. Devia ser assim que Kari se sentia. Passados alguns minutos, saíram. 

 Durante os dias que se seguiram, as visitas à sala do piano eram cada vez mais frequentes. Aos poucos, foi ganhando confiança e já conseguia entrar sem receios, embora ainda não se aproximasse do instrumento. Era como se houvesse uma barreira invisível que ainda tinha de transpor. 

Kari e Odete estavam impressionadas com o progresso. Só faltava voltar a tocar. Isso vai ter de ser ela a querer. Respondia Felícia sempre que Kari lhe perguntava se algum dia a irmã voltaria a tocar. A pressão em cima de Voxy era constante. Não estavam em dificuldades, bem pelo contrário. As empresas herdadas do pai continuavam a dar lucro, apesar de serem geridas por um grupo de advogados e contabilistas contratados logo após o acidente para que elas se concentrassem na recuperação física e emocional do choque e não se preocupassem com os negócios. Era mais social. Toda a gente ansiava por um regresso de Voxy aos palcos, uma jovem artista como ela não podia desparecer. 

...

Entretanto, Estefânia voltava aos tribunais. Era a primeira vez desde o acidente e não podia estar mais nervosa e entusiasmada. O seu cliente estava tão nervoso como ela. Entraram e a sessão começou. No fim, a causa foi ganha e ela estava muito feliz. Finalmente voltara a ser a advogada que todos admiravam e respeitavam. 

...

A recuperação de Voxy não tardou a chegar à fase final. Estava sentada em frente ao enorme piano de cauda. Era a primeira vez desde o acidente que se sentava sem receios. Ainda estava um pouco assustada e as mãos tremiam-lhe, mas tinha de levar até ao fim. A partitura estava pousada no apoio e era a do caderno da mãe. Apenas lhe faltava a parte final. 

Felícia estava a seu lado bem como Kari e a avó, sentadas no sofá. Respirou fundo e pousou as mãos nas teclas. Primeiro, hesitou e algumas notas saíram tímidas, mas depois foi ganhando segurança e até sentia uma energia diferente na sala. Kari nunca tinha ouvido nada tão melodioso. Reparou na expressão de Voxy. Era alegre e até se podia notar um certo brilho nos olhos. Odete também estava encantada. Fez-lhe lembrar a filha nos seus melhores anos. 

Felícia também se mostrou satisfeita e surpreendida. Tinha ouvido falar das habilidades de Voxy, mas vê-la ao vivo era sempre diferente. 

A música terminou, mas a melodia ainda ecoava na sala quando Voxy tirou as mãos das teclas. Era como se tivesse chegado à mãe que, de onde quer que estivesse, ouvira e ficara feliz. Virou-se para Kari e perguntou, trazendo todas para a realidade:

- Então, o que achaste? É só uma primeira ideia para finalizar, mas acho que se encaixa.- 

A irmã sempre tivera um talento nato para a música. Lembrava-se bem das poucas aulas de solfejo e da professora dizer que não precisava de mais, porque a sua noção de ritmo era excepcional. Apesar de tudo o que acontecera, esse talento ou dom, não sabia como chamar, continuavam lá. Era como se tivessem estado adormecidos e começavam lentamente a despertar. Respondeu, depois de um súbito devaneio pelos seus pensamentos:

- Acho que está a ficar muito bem.- 

Felícia e Odete concordaram. Voxy sorriu. Odete perguntou, curiosa:

- E como se chama a peça?- 

Voxy respondeu depois de pensar um pouco:

- Sonata da Rosa Branca.- 

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E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana. 

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 8

 Olá 

Mais uma vez, esta semana o capitulo vem mais cedo. 

Espero que gostem.

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VIII


No caminho para o hospital, Estefânia pensava: Porque é que não me contaram mais cedo? É minha mãe, bolas! Se bem que no dia do acidente, também não a chegaram a avisar, mas a situação era completamente diferente. A mãe só os conseguiu ver em casa. 

Quando chegou, saiu do carro e passou pela porta como um disparo. Foi ao balcão da recepção e perguntou pela mãe. Indicaram-lhe a última porta ao fundo do corredor. A porta estava entreaberta. Alguém lá tinha estado antes. Talvez o médico. Bateu ao de leve e, depois de ouvir um entre, empurrou-a suavemente. Maria Hortense estava sentada numa cadeira ao pé da cama. Tinha um roupão de linho por cima da camisa de noite. Olhava pela janela larga do quarto, iluminada pela luz suave do sol. Tinha um ar sereno. 

Estefânia aproximou-se e ela sorriu. 

...

A terapeuta chegou depois do almoço. Odete mandara um avião para a ir buscar à Suíça. Bertha abriu-lhe a porta e indicou-lhe a sala de estar. Odete não precisou de lhe dizer nada pois a Dra já sabia do que se tratava. Aquilo era apenas uma formalidade. Foi de imediato ao quarto de Voxy. 

Como sempre, estava a ler. Sentou-se e esperou que terminasse. Quando pousou o livro, Voxy olhou para a terapeuta. Estava tal e qual como a conhecera na Suíça. Uma mulher elegante, vestida com uma saia até ao joelho, blusa branca e sapatos de salto alto. O cabelo era comprido, castanho, a tinha olhos verdes. 

Voxy quebrou o silêncio:

- Há quanto tempo, Dra.- 

Felícia olhou por cima dos óculos redondos e respondeu:

- Pois é, já lá vai algum tempo desde a Suíça. Mas, ao contrário de lá, parece-me que agora está mais disposta a colaborar.- 

Voxy revirou os olhos:

- Sim, naquela altura ainda não me conseguia exprimir como queria. Tinha sido muito recente e ainda me custava a assimilar. Hoje também me custa, mas penso que já consigo falar sem receios.- 

Felícia falou num tom neutro, próprio de uma psicóloga:

- Dadas as circunstâncias, é muito natural, mas não a culpo por isso. Bem pelo contrário, acho que muito corajoso da sua parte, que queira falar sobre um assunto tão pessoal e delicado.- 

Voxy tinha uma expressão indiferente. Sabia perfeitamente qual era a situação, não precisava que lhe repetissem. 

Felícia, então, explicou como seria a terapia. Primeiro, alguma conversa de circunstância, depois uns passeios pelo jardim e, mais tarde, se ela quisesse, pela cidade. Por fim, começaria a reaproximação ao piano e à música. 

...

- Então, o que aconteceu? Disseram-me que tinhas tido um acidente! - Começou Estefânia.

A mãe olhou para ela e revirou os olhos. 

- Lá estão as pessoas com os seus exageros! Por isso é que não queria que soubesses! Não foi nada demais! Estava a consertar umas coisas lá em casa, desequilibrei-me e caí.  O primo Abel, já sabes como ele é, quando me viu no chão, entrou em pânico e chamou uma ambulância.- 

Estefânia sentou-se em frente á mãe. Ripostou:

- Porque é que não me avisaste? Tive de saber pela Carla!- 

Maria Hortense respondeu num tom sereno:

- Não te disse nada para não te preocupar. Só estou cá por precaução. Daqui a pouco tenho alta e já posso voltar para casa.- 

Estefânia ripostou:

- Não vais para casa coisa nenhuma! Ficas em minha casa até te sentires melhor. Não quero que faças a viagem assim. Além disso, aqui estás mais acompanhada.- 

Mari Hortense, ainda tentou contestar, mas Estefânia não lhe deu hipótese. Quando mais precisara, ela esteve lá para cuidar deles, agora estava na hora de retribuir. 

...

A consulta terminou ao fim do dia. Antes de sair, Kari chamou a Dra à parte e perguntou-lhe como achava a irmã. Ela respondeu:

- Apesar do trauma, está a reagir bem. Ela ainda é muito nova, vai superar, mas, mesmo assim, precisa de toda a ajuda possível.- 

Kari sorriu. 

- Obrigada. Dra.- 

...

Mal chegaram a casa, Estefânia instalou a mãe no quarto de Clara. Apesar de lhe custar, era o único quarto vago. Depois, telefonou ao primo Abel para avisar que trouxera a mãe para e que ia lá passar um tempo. Também telefonou a Carla a dizer que ia passar o resto do dia em casa. 

Ao final da tarde, chegou Carlos e depois Gonçalo. Estefânia foi recebê-los. Ambos estavam surpreendido com ela em estar em casa àquela hora. Contou-lhes que a mãe estava lá e que ia ficar durante um tempo. 

- Eu soube pela Carla hoje de manhã.- Contou a Carlos. 

Gonçalo decidiu que ouvira o suficiente e foi para o quarto. 

- Antes de sair do hospital, estive a falar com o médico. Ele disse-me que ela já lá estava há uma semana e nunca quis chamar ninguém. Até o meu primo, depois de alguma insistência, ligou para o escritório e, como eu não estava, quem atendeu foi a Carla.- 

Carlos perguntou:

- Mas é grave?- 

Estefânia fez um ar sério. Respondeu:

- Não, porque o Abel chegou a tempo. Segundo o que ele me contou, ela estava a mudar uma lâmpada em cima de um escadote, quando se desequilibrou e caiu. Foi uma sorte não ter partido nada nem batido com a cabeça.- 

Carlos voltou a falar:

- Bem, um desequilíbrio de vez em quando toda a gente tem. O que é que o médico te disse exatamente que o Abel não te conseguiu explicar?-

Estefânia respondeu:

- Parece que foi um princípio de AVC, porque quando o Abel chegou, ela estava desorientada, mal falava ou balbuciava coisas sem sentido e uma parte do corpo não mexia.- 

Carlos abraçou a mulher e sussurrou-lhe:

- Não te preocupes, vai correr tudo bem.- 

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem.

Até para a semana. 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 7

 Olá

Aqui fica o capitulo desta semana.

Espero que gostem. 

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VII

Nessa noite, Bertha mandou preparar o quarto para Odete. As suas coisas seriam entregues mais tarde. Ficou no quarto ao lado do dos pais, por opção, apesar de Voxy insistir para que ficasse no dos pais. Odete não quis que a memória deles fosse desrespeitada. 

Depois de instalada, Odete desceu para jantar com as netas. A refeição decorreu normalmente, ainda assim não deixava de ser diferente, já que as raparigas estavam habituadas a ter só Bertha como companheira. 

A seguir, Kari retirou-se e deixou Voxy propositadamente sozinha com a avó. Aquele momento era importante, apesar de haver ainda alguns constrangimentos por parte de Voxy. Saíram da sala de jantar e foram para a sala de estar. No caminho, passaram rapidamente pela sala do piano, o que deixou Voxy desconfortável. Odete notou, mas não disse nada, não a queria constranger ainda mais, já bastava o que se passara na sua casa.

Sentaram-se perto uma da outra. Voxy olhou-a com um ar vazio, mas quase suplicante com se houvesse outra Voxy que quisesse sair, mas não conseguisse. Quebrou o silêncio:

- Está uma noite agradável.- 

A avó respondeu:

- Sim. De facto. Embora esteja um pouco de frio.- 

Voxy esboçou um sorriso. Estava a forçar uma conversa e isso deixava-a desconfortável. Queria sair dali, mas não tinha uma desculpa credível. Odete voltou a falar:

- Já deves saber da conversa que tive com a Kari, por isso não me vou repetir.- Acrescentou: - Não precisas de conviver comigo se não quiseres. Esta casa é grande o suficiente para mantermos a distância sempre que possível. Aliás, se quiseres sair podes fazê-lo.- 

Voxy estava incrédula. Não fora no calor do momento como a avó estava a insinuar. Queria genuinamente a sua companhia e esclarecer os mal-entendidos. Nesse momento, sentiu que devia uma explicação sobre o que se passara na casa dela. Sabia que avó não lhe ia cobrar, mas mesmo assim decidiu contar. 

- Acho que devemos esclarecer algumas coisas para que a nossa convivência seja a melhor possível.- 

Odete concordou. Voxy prosseguiu:

- Depois do acidente, desenvolvi uma espécie de fobia ao piano e à música em geral. Como se eles fossem algo maligno. Mas parece que sou puxada por eles. - Acrescentou: - Quero com isto dizer que foi por isso que saí daquela maneira na visita e peço desculpa. Apesar dos esforços dos últimos anos, não tem sido fácil, mas tenho a certeza de que, com a ajuda de todos, vou conseguir ultrapassar esta situação.- 

Odete assentiu. 

- É muito natural que te sintas assim. Afinal, foi um acidente muito grave, mas penso que não foi só isso que te afetou. A perda dos teus pais, especialmente da tua mãe, e a tua doença foram determinantes.- 

As lágrimas começaram a cair pela face de Voxy sem que tivesse tempo de se justificar. As mãos tremiam-lhe ligeiramente. Odete levantou-se e abraçou-a. Voxy retribuiu. Os olhos húmidos mancharam a camisa da avó quando encostou a cabeça no seu peito. 

...

Estefânia acordou na manhã seguinte como se tivesse saído de uma anestesia. Os últimos dias pareceram-lhe tão surreais que era difícil acreditar que realmente tinham existido. Aos poucos, estava a voltar ao que era. Uma mulher forte e determinada que enfrenta qualquer adversidade para proteger a sua família. Sempre fora assim. Herdara essa perseverança do pai. Por vezes, ainda sentia a sua presença a dar-lhe força juntamente com Clara. 

Despertou dos seus pensamentos e preparou-se para mais um dia. 

...

Voxy acordou a sentir-se leve. Talvez o retomar da relação com a avó lhe tenha feito bem. Levantou-se e abriu as cortinas para deixar entrar a luz. Abriu as portadas e saiu para a varanda, mesmo sabendo que lhe podia fazer mal, não se importou. Já não o fazia há muito tempo. O chão estava quente, sentiu-se confortável. Ainda podia sentir os braços da avó a apertá-la contra o peito. Sorriu. Inspirou o ar fresco da manhã antes de voltar para o quarto e arranjar-se para mais um dia. 

Desceu as escadas e caminhou na direção da sala de refeições onde esperava encontrar a avó e Kari. Em vez disso, foi encontrá-las no jardim. Foi ao quarto buscar um chapéu e voltou para as cumprimentar. Aproximou-se timidamente. Elas sorriram quando a viram. 

- Bom dia.- Disse. 

A avó respondeu: 

- Bom dia, minha querida. Senta-te e come qualquer coisa connosco.- 

Sentou-se e desfrutou do belo dia de sol.

...

Ao chegar ao escritório, Estefânia encontrou Carla no seu gabinete. Algo raro, normalmente só em casos complicados é que recorria às informações guardadas no arquivo, mas agora não parecia ser o caso. Estava com um ar sério e não tinha mexido em nada. Entrou e fechou a porta. Perguntou:

- O que se passa? Porque estás aqui? Se é por causa dos arquivos, já sabes que podes consultar à vontade. És tão dona como eu.- 

Carla agarrou-lhe nas mãos. Sentaram-se. Estefânia estranhou. 

- Aconteceu alguma coisa? Estou a começar a ficar assustada!- 

Carla hesitou um pouco antes de falar:

- Bom...pode não ser de grave, mas...-

Estefânia estava a ficar irritada. Agarrou-lhe nos ombros.

-Diz de uma vez!- 

Carla balbuciou:

- A tua mãe...- 

Estefânia arregalou os olhos. O assunto era mesmo sério. 

-O que tem a minha mãe? Diz!- 

Carla deixou-se de rodeios:

- A tua mãe foi para o hospital, parece que sofreu um acidente. Isto é tudo o que sei.- 

Estefânia ficou em choque. Sem pensar, levantou-se e saiu apressada. 

...

Depois do pequeno almoço, voltaram para casa. Voxy já apanhara sol suficiente. Odete pediu a Kari que a deixasse a sós com Voxy. Foram andando para a sala de estar, a avó tinha algo para lhe dizer. 

Já na sala de estar, sentaram-se em frente uma à outra. Odete tinha uma expressão séria. Estava lá há quase uma semana e a sua expressão tentava ser alegre para não a desanimar. mas Voxy sabia e sentia que havia qualquer coisa que não estava bem. Tinha tido algumas crises passageiras que eram rapidamente resolvidas com comprimidos e descanso. A seguir a cada uma delas, apanhava a avó e Kari aos cochichos na sala. Calavam-se sempre que ela entrava. Agora, precisava de saber o que se passava. 

- Durante estes dias, estive a falar com a Kari e chegámos á conclusão que sozinhas não te vamos conseguir ajudar.- Acrescentou:- Por esse motivo, achei melhor chamar a Dra Felícia Jones. Já a conheces, pois estiveste com ela na Suíça.-

Voxy não estava surpreendida. 

- Se sabes tudo isso, então também deves saber como as coisas correram lá! Aceito a ajuda, mas não sei se vai adiantar de muito.- 

Levantou-se e aproximou-se da porta. De repente, vários flaches de memórias passaram-lhe pela mente. Via a mãe sentada ao piano com o caderno de notas aberto, o pai e Kari. Todos a sorrir enquanto tocava uma doce melodia. Depois, a escuridão total. Luzes fortes no vazio, cada vez mais fundo, até que uma voz a fez regressar à realidade. Voxy

Acordou nesse momento. Odete e Kari estavam a seu lado. Suava por todos os lados e respirava aceleradamente e com alguma dificuldade como se tivesse acabado de ter um pesadelo. Olhou confusa para a irmã e para a avó que tinha um ar preocupado. 

- O que aconteceu?- Perguntou com a voz fraca. 

Odete respondeu:

- Levantaste-te bruscamente e foste para a porta. Tiveste uma tontura quando ias a sair e desmaiaste. Fui chamar Kari para me ajudar a trazer-te para o sofá. Ela ainda quis chamar um médico, mas acordaste e não foi preciso.- 

Voxy tentou levantar-se, mas teve outra tontura e desistiu. Olhou para as duas. 

-Levem-me para o quarto.- 

Odete e Kari ajudaram-na a levantar-se. Percorreram o corredor até às escadas. Subiram devagar e, já no quarto, deitaram-na na cama. Deixaram-na descansar e voltaram para a sala. 

Quando Bertha chamou para almoçar, apenas Odete e Kari apareceram. Acabaram de comer e Odete subiu para ver como estava Voxy, Kari quis acompanhá-la mas a avó achou melhor não haver muita gente. Entrou no quarto devagar. Voxy estava sentada perto da janela a olhar para o jardim. A luz do sol fazia com que as faces pálidas brilhassem. 

Odete aproximou-se e sentou-se na borda da cama. Voxy olhou-a e sorriu. 

- Então, como te sentes?- 

Voxy respondeu:

- Já estou melhor. Acho que apanhei sol a mais, foi só isso.- 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.  

sexta-feira, 11 de abril de 2025

A Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 6

 Olá 

Fica o capitulo desta semana. 

Espero que gostem. 

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VI

O resto do dia de Voxy, depois de se vestir, foi passado a ler os apontamentos da mãe. Ficou tão absorta na leitura que nem se apercebeu que já era noite e hora de jantar. Não lhe apetecia descer, Bertha levou-lhe qualquer coisa para comer ao quarto. 

Depois de comer, Kari subiu para ver como estava. Foi encontrá-la no banco junto à janela a olhar para o jardim com o caderno no colo. o seu olhar parecia perdido bem como os seus pensamentos. Muita coisa lhe passava agora pela cabeça. Memórias que achava perdidas ou trancadas voltavam devagar a ocupar espaço na sua mente e coação. 

Virou a cabeça para o lado e até se assustou quando viu Kari sentada a seu lado. Agarrou-lhe nas mãos quase por instinto. Sentiu-as quentes, pela primeira vez. 

- Então, vieste pedir desculpa por me teres ignorado?- Perguntou Voxy. - Eu sei que não devia ter sido tão bruta mas às vezes não meço as palavras. - 

 Kari sorriu. 

- Não te preocupes, está tudo bem. Já aprendi a lidar com o teu feitio depois do acidente. Eu é que me entusiasmei e nem liguei ao que querias contar.- 

Voxy respondeu:

- Fui ao quarto dos pais e encontrei um caderno com notas da mãe e uma composição começada por ela.- Continuou:

- A acompanhar, estava uma carta dirigida a mim onde me pede para a acabar. Basicamente, é como uma missão. terminar a melodia e apresentá-la no palco no dia do meu aniversário.- 

Com algumas lágrimas nos olhos, concluiu:

- Mas como posso cumpri-la? Se cada vez que me aproximo do piano, as mãos tremem-me?- 

Kari abraçou-a. Voxy chorava compulsivamente. Acabou por lhe sussurrar ao ouvido: « Vai correr tudo bem. Estou aqui para te apoiar.» 

...

O segundo dia de Estefânia no escritório foi mais atarefado do que o costume. Os processos tinham-se acumulado durante a sua ausência. O primeiro dia foi só um teste para se readaptar ao trabalho e à rotina, agora é que se dava conta daquilo que tinha para fazer. Era preciso dar seguimento a todos os processos, felizmente nenhum era para ser enviado para tribunal. Dos recentes, porque os antigos eram todos para arquivar. 

Não pôde almoçar com Carla no restaurante porque o trabalho era muito e não podia esperar. Por isso, comeram qualquer coisa rápida na cafetaria. 

Estefânia sentia-se feliz e leve como há muito tempo não se via. Até Carla estava feliz e admirada pela amiga. 

...

A visita da avó estava agendada para depois do almoço pelo que durante a manhã. Voxy mostrou a Kari o caderno e a carta da mãe.  

- O que achas?- Perguntou. 

Kari respondeu:

- Parece-me um pouco triste, mas ao mesmo tempo, é bonita.- 

Voxy também concordava. Era como se fosse uma despedida da mãe para elas. 

Desceram para almoçar. 

...

Depois do almoço, Estefânia reuniu-se com alguns clientes cujos processos estavam em tribunal para deliberar a estratégia de defesa. A sessão estava marcada para daí a alguns dias mas ainda tinham tempo. O processo era complexo e exigia a máxima atenção por parte das advogadas mas Estefânia sentia-se preparada. Treinara durante muito tempo e aprendera com os melhores por isso só podia correr bem. Para além disso, tinha Carla a seu lado o que lhe dava ainda mais confiança. 

...

Odete chegou depois do almoço como tinham combinado. Bertha indicou-lhe a sala de estar onde estava Kari. Voxy estava no quarto e não queria descer. 

Sentaram-se nas poltronas e Bertha preparou-lhes um chá. Kari olhou para a avó com um ar curioso. Diferente do que tivera quando foi a casa dela. Ainda assim, o ambiente era constrangedor. Quebrou o silêncio:

- Espero que esteja tudo do seu agrado.- 

Odete respondeu:~

- Sim. obrigada.- 

Kari sorriu ligeiramente. Se calhar Voxy tinha razão e não tinha sido boa hora receber a avó. 

...

Quando Estefânia chegou a casa, foi encontrar Gonçalo e Carlos na cozinha. Ficou admirada porque Gonçalo costumava estar no quarto àquela hora. 

-Olá- Cumprimentou. - Não sabia que agora cozinhavas.- 

Carlos ripostou:

- Não sei qual é o espanto se ainda no fim de semana cozinhei!- 

Estefânia sorriu.

- Não estava a falar de ti mas do teu ajudante.- 

Gonçalo corou.

- Só estou aqui porque o pai insistiu.- Disse em sua defesa.

Estefânia sorriu enquanto pousava as suas coisas e ajudava a pôr a mesa. 

Depois do jantar, a família voltou a reunir-se na sala de estar. Passado um bocado, Gonçalo retirou-se. Estefânia olhou timidamente para Carlos que não desviou os olhos do ecrã da televisão. O silêncio, apenas interrompido pelo som do aparelho, era sufocante. Desde que voltara a trabalhar que mal se falavam. A ultima vez que algo assim acontecera foi depois do acidente e durante a estadia em casa de Maria Hortense. Pensava que estavam a voltar depois do fim de semana mas parecia que não. 

A série terminou e Carlos foi para o quarto. Estefânia ainda ficou mais um pouco. Esperou que ele viesse chama-la mas isso não aconteceu. Conformada, levantou-se apagou a luz e subiu para a casa de banho. Depois de se arranjar, entrou no quarto. Carlos dormia tão profundamente que nem se apercebeu quando ela se deitou. Adormeceu pouco depois.

...

Kari voltou a falar:

- Bem...- Começou hesitante.  

Odete sorriu. 

- Não precisas de forçar uma conversa se não quiseres.- 

Olhou para o jardim. 

- Porque não mudamos de sítio? Este parece-me fechado demais e acho que precisamos de um pouco de sol. Além disso, preciso de te contar uma coisa e penso que seja o sítio mais indicado.- 

Kari sorriu timidamente. 

Saíram da sala para o jardim. Já era quase pôr do sol. Sentaram-se num banco. Odete inspirou o ar fresco. Voltou a sorrir desta vez com mais intensidade. Kari retribuiu, sentia-se alegre e despreocupada por um momento. Fê-la lembrar os tempos de criança em que costumava brincar com Voxy naquele jardim. Olhou timidamente para a avó. Esta sorriu-lhe. Ela corou. Depois, Odete voltou a quebrar o silêncio:

- Sabes, sempre gostei deste jardim.- Começou.- Quando a tua mãe comprou esta casa, eu ajudei a decorar mas a maior parte foi ela que acrescentou.- Continuou:- A tua mãe sempre teve gostos muito peculiares e não era só na decoração.- Levantou-se, foi ao pé da piscina. 

-Quando soube que estava grávida foi a maior alegria mas também preocupação por causa da doença.- Voltou a sentar-se e prosseguiu:

- Depois, a tua irmã nasceu e disseram-lhe que nunca mais podia ter filhos. Foi um grande choque para todos mas especialmente para o teu avô. - 

Entretanto, Voxy, farta de estar no quarto e com alguma curiosidade, sobre como estava a correr a visita, entreabriu a porta e apanhou parte da conversa. Fico à escuta.

Lá em baixo, depois de voltarem para dentro, Odete e Kari continuaram a conversa:

- O teu avô ficou muito triste por não poder ter mais netos de sangue. Para ele, os filhos tinham de ser biológicos para serem legítimos, por isso quando a tua mãe lhe disse que ia adoptar, ele ficou em choque, Discutiram imenso nesse dia. Cortou relações com a tua mãe e impediu que eu estivesse presente quando tu chegaste.- 

Kari tinha lágrimas nos olhos. Lá em cima, Voxy também começara a chorar.

Odete acrescentou:

- Depois da morte do teu avô, eu quis aproximar-me de vocês mas os teus pais quiseram ir para Nova Iorque. ainda vos tentei contactar, mas nunca consegui. Diziam que estavam ocupados e que tentasse mais tarde ou noutro dia.- 

Também tinha lágrimas nos olhos.

-Por fim, quando voltaram, eu soube do recital da tua irmã e estive lá a aplaudir, embora ninguém tenha reparado. Depois, deu-se o acidente e ainda fui ao hospital mas como nunca me identifiquei como familiar, não me deixaram ver-vos. Eu queria estar lá para vos apoiar mas ainda me sentia impedida por aquela condição do teu avô! Enquanto estiveram na Suíça, eu recomendei a terapeuta para vos tentar ajudar mas não deu muito resultado. Recebia os relatórios todos os dias a contar a situação grave em que Voxy se encontrava. Mas uma coisa é o que está escrito no papel outra coisa é ver com os nossos olhos. E aquilo que vi na minha casa foi alguém que precisava de apoio e compreensão mas também carinho e afeto.- 

A emoção não a deixou continuar. Levantou-se e foi para a porta. 

Quando estava a ir embora, Voxy apareceu no cimo das escadas. Desceu meio atrapalhada, tropeçando nos últimos degraus e caiu. Levantou-se em lágrimas e abraçou a avó com toda a força. Deixou todas a formalidades de lado naquele momento. Era só uma neta a implorar para uma avó ficar pois precisava dela. 

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E pronto. 

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.

 


 

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Sonata da Rosa Branca- Parte 4- Capitulo 5

 Olá 

Deixo o capitulo da semana. Espero que gostem.

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V

Quando chegaram a casa, Voxy subiu com Kari. No cimo das escadas, separam-se e fechou-se no quarto.

Sentia-se novamente no fundo do poço. Nunca devia ter ido à casa da avó. Avançou pelo quarto, já descalça. Flaches do dia do funeral dos pais atravessavam-lhe a mente como lâminas. A crise e o sofrimento que causara a Kari ainda estava muito presente. Recomeçou a chorar e voltou a rasgar as roupas. Parou quando olhou para a lua. Deixou-se cair de joelhos. A luz suave do luar acalmou-a. Levantou-se e vestiu a roupa de dormir. Depois, recolheu os pedaços de tecido espalhados e escondeu-os debaixo da cama onde estavam resquícios da crise anterior. Tinha de manter o controlo. Aquilo não se podia repetir. Por ela. Pela irmã. Não podia.

Sentou-se junto á janela e pegou no seu livro preferido. Acendeu a luz do candeeiro ali perto e começou a ler. Só queria esquecer aquele dia e aquela visita.

Quando chegaram a casa, Gonçalo ainda não estava. Mandara mensagem a dizer que vinha mais tarde. Subiram para o quarto para pousar as compras e depois foram preparar o jantar. Entretanto, Gonçalo chegou.

Voxy desceu para jantar pouco depois de Kari a chamar. Não tinha fome, mas ia fazer um esforço e comer qualquer coisa ou não passava bem a noite. Kari tentou puxar alguma conversa que a distraísse, mas de nada adiantou.

Depois do jantar, Voxy voltou para o quarto. Kari quis ir atrás dela, mas foi impedida por Bertha. Queria perceber o que acontecera em casa da avó, mas não havia mais nada a acrescentar, exceto que tão cedo não voltariam aquele lugar. 

Voxy precisava de espaço e Kari estava sempre a sufocá-la com conversas forçadas e quase sem sentido. Todos percebiam que estava carente e não tinha mais ninguém, mas, às vezes, é melhor deixar.

 

Subiu para o quarto, trocou de roupa e, passado pouco tempo, estava na sala para jantar. Ao serão, Estefânia não foi ao quarto de Clara. Nem sequer antes de dormir. Passou pela porta e sorriu. Estava a começar a libertar-se.

Kari entrou no quarto. Sentia-se culpada pelo que acontecera. Não estava a ajudar como deveria. Sempre a pôr pressão em cima de Voxy e isso não fazia bem às duas. Os seus pensamentos foram interrompidos por m bater na porta. Era Voxy. Olharam-se, constrangidas. Kari quase implorava por desculpas. Voxy abraçou-a. Depois, sentaram-se na cama. Foi Voxy que quebrou o silêncio:

- Não te sintas culpada. A avó é que devia pedir desculpas. –

Kari ripostou num fio de voz:

- Eu sei, mas não posso deixar de pensar que se não tivesse insistido, nada disto teria acontecido. –

Voxy respondeu:

- Sim, mas provavelmente, tinha sido eu a lamentar-me por te ter deixado ir sozinha. Por isso, acho que até foi melhor assim. –

Abraçaram-se novamente.

Estefânia acordou na manhã seguinte, já o sol ia alto. Espreguiçou-se como de costume. Estendeu o braço á procura de Carlos, mas voltou a não o encontrar. Desta vez, não ouviu barulhos na casa de banho. Sentou-se na cama. Aqueles últimos dias, foram tão maravilhosos que pareciam ter sido um sonho. Levantou-se e foi à casa de banho. Quando voltou ao quarto, é que se apercebeu que estava uma folha dobrada na mesa de cabeceira. Tinha o seu nome escrito. Abriu-a. Estava escrita com a letra atrapalhada de Carlos. Sorriu.

«Saí, mas volto cedo. Como não te quis acordar, preparei o pequeno-almoço. O Gonçalo também já saiu. Adorei o fim-de-semana. Devíamos repetir. Tem um bom dia.

Carlos»

Mas que coisa tão foleira! Pensou, amachucando a folha. Parece um bilhete deixado à amante. Sentiu-se esquisita ao pensar naquilo. Carlos tivera outras namoradas antes dela, assim como ela, mas foi um com o outro que assumiram algo mais sério.

Vestiu-se e desceu as escadas para tomar o pequeno-almoço. Sozinha, a cozinha parecia fria e sombria. Lembrou-se do último dia que viu Clara. Um calafrio percorreu-lhe o corpo e uma lágrima correu-lhe pela cara. Limpou-a rapidamente. Concentrou-se na comida.

Depois de comer e de arrumar a loiça, voltou às escadas. Subitamente, parou. Flaches daquele dia vieram-lhe à mente. Rapidamente os afastou. Não vale a pena ficar a remoer. Tenho de me distrair. Pensou. Estava há demasiado tempo em casa, chegou a hora de voltar ao trabalho. Assim, afastou-se das escadas e foi para a porta. Calçou-se, vestiu o casaco, pegou na pasta do escritório e saiu de casa.

 

Quando chegou ao escritório, todos ficaram surpreendidos. Entrou no gabinete e fechou a porta. Do lado de fora, as caras de espanto continuaram, até se lembrarem que tinham trabalho para fazer. Carla foi a única que lhe foi bater à porta. Ouviu um entre do outro lado.

Estefânia olhou para a amiga como se a inspecionasse. Não tinha mudado nada. O mesmo cabelo louro, curto com franja a tapar-lhe quase os olhos azuis brilhantes, a mesma boca pequena e o mesmo nariz empinado. Continuava com o seu conjunto de saia e casaco que lhe dava um ar de secretária, apesar de ser advogada. ~

Lembrou-se da primeira vez que a viu. No meio de uma multidão, a ver se o seu nome aparecia na lista de admitidos na faculdade. Houve qualquer coisa quando os seus olhares se cruzaram, ao perceberem que ficaram no mesmo curso, que lhe disse: vamos ser grandes amigas. E assim foi.

O silêncio estava a ficar constrangedor. Ambas se encaravam como dois cowboys no velho oeste, prestes a enfrentar-se num duelo. Estefânia quebrou-o:

- Sei que deves estar surpreendida, como toda a gente, mas estava farta de estar em casa. –

Carla hesitou antes de falar. Estava feliz por voltar a ver a amiga, mas aquela atitude, depois de uma pausa tão longa, parecia-lhe demasiado repentina.

- Pois… não te esperávamos tão cedo, mas se dizes que estás bem, então, tudo bem. –

Estefânia revirou os olhos e respondeu com sarcasmo:

- Não te preocupes, estou bem. –

Carla nunca tinha visto a amiga tão determinada. Nem na altura em que pedira Carlos em namoro. Foi para a porta. Antes de sair, disse:

- Sê bem-vinda de volta, Estefânia. –

Voxy acordou, como sempre, com os primeiros raios de sol. Sentia-se como se tivesse acordado de um longo sono. Levantou-se e abriu as cortinas. A luz do sol ainda lhe causava algum desconforto, mas já estava mais habituada. Voltou a aproximar-se da cama, mas, ao andar para trás, bateu na mesa de cabeceira. A rosa caiu e ela apanhou-a antes de tocar no chão. Ainda estava manchada de lágrimas e sangue. Sem pensar, amachucou-a na mão pelo lado das pétalas, para não se cortar outra vez, e atirou-a ao chão. Foi cair junto á janela. As pétalas iluminaram-se, fazendo com que parecesse uma pequena pérola ao sol. Ficou a olhar durante um bocado. Apesar das mazelas, ainda conseguia conservar a beleza original. Só precisava de uma limpeza e ficaria como nova.

Apanhou-a e pouso-a na mesa de cabeceira. Por mais que tentasse, nunca seria capaz de se separar daquele objeto. Foi o último presente que comprara com a mãe. Ao lembrar-se, sentiu uma ligeira tontura que a fez apoiar-se na base da cama. Pedaços de memórias vagas passaram diante dos seus olhos. Teve outra tontura, mas conseguiu erguer-se.

Determinada, abriu a porta do quarto e seguiu, descalça e em camisa de noite, pelo corredor até ao quaro dos pais, disposta a enfrentar os seus medos, ou parte deles pelo menos.

O caminho pareceu-lhe mais comprido do que se lembrava. Antes, conseguia chegar em duas ou três passadas, agora sentia os pés e as pernas mais pesados e lentos.

Finalmente chegou à porta. Pareceu-lhe maior e mais assustadora do que se lembrava. Hesitou antes de agarrar na maçaneta. A mão tremia-lhe quando lhe pegou e rodou. A porta abriu-se com um ligeiro estalido e até chiou um pouco por não ser aberta há muito tempo. Entrou. Estava na quase escuridão, mas sabia onde era a janela e abriu-a. Conhecia cada canto daquele quarto como se fosse o seu. Tantas foram as vezes em que se aventurara por lá às escondidas da mãe.

 A luz inundou a divisão. Média, com uma cama de casal, um armário e um tocador com espelho, o seu sítio preferido na infância. Gostava de imaginar que era um camarim e que ela era uma estrela que se preparava para mais um concerto.

As lágrimas caíram-lhe quando se lembrava dos bons momentos passados ali. Andou alguns passos por entre os móveis desarrumados e deteve-se diante de um caixote. Sentou-se no banco do tocador com ele ao colo. Não era muito grande. Abriu-o. Eram coisas da mãe. Cartas, recortes de jornal e um caderno de capa castanha. Lembrava-se bem dele. Era onde a mãe escrevia as músicas que compunha. Estava um pouco amarelado pelo tempo, mas ainda se conseguia abrir. Foi folheando aquelas páginas cheias de memórias até chegar á última. Nela, estava uma melodia inacabada que nunca tinha visto. Provavelmente composta enquanto dormia entre espetáculos ou na sala do piano, depois de um dia de treino. Adormecia no sofá e a mãe tapava-a com o xaile. Ficava a tocar um pouco mais e depois levava-a para a cama.

O título estava escrito por cima Sonata da Rosa Branca. Era mesmo a cara dela, dar nomes peculiares às coisas e às pessoas. O seu nome viera-lhe num sonho durante uma viagem a Paris.

Do meio das folhas, uma soltou-se. Apanhou-a antes de tocar no chão. Podia ter as mãos trémulas, mas ainda tinha bons reflexos. Estava dobrada como uma carta e tinha o seu nome. Era mais recente que o resto, o papel estava mais claro. Desdobrou-o e reconheceu a letra da mãe como, aliás, estava em todo o caderno.

 

Minha querida filha,

Se estás a ler, isto é, porque eu já não posso estar contigo ou então simplesmente encontraste-a por acaso.

De qualquer maneira, o importante é que tenhas esta carta.

Deixo este caderno ao teu cuidado para que não te esqueças nunca das nossas aventuras.

Se vires na última página, está uma melodia inacabada que era para ter sido tocada no teu dia de anos por nós as duas tal como antes. Para o caso de não acontecer, conto contigo para a acabares e tocares nesse dia em nossa homenagem.

Não desesperes! Lembra-te que através da música, vou estar sempre contigo e com a Kari. Vocês são o meu maior tesouro.

Cuida bem de todos

Beijo da mãe que vos adora,

Carolina Heart

 

Quando acabou de ler, Voxy estava lavada em lágrimas e caída de joelhos ao pé do banco. O caixote espalhara-se por ali. Pousou a carta e apanhou as coisas de volta para o caixote. A missão que a mãe lhe confiara era grande demais para ela levar a cabo sozinha, mas com a ajuda certa, tinha a certeza que conseguia.

 

A meio do dia, o telemóvel de Estefânia tocou. Atendeu. Do outro lado, ouviu a voz de Carlos. «Como te está a correr o dia?» Perguntou. «Espero que não tenhas ficado chateada com o bilhete, mas realmente não te quis acordar.» Fez uma pausa e voltou a perguntar: «Está muito barulho, estás a ver televisão ou está aí alguém contigo? Se for a Carla manda-lhe cumprimentos.» Ela respondeu com um tom de satisfação e desafio. Adorava provocá-lo.

- Nem uma coisa nem outra, até porque não estou em casa. Resolvi voltar ao trabalho e estou a almoçar com a Carla. –

Durante uns segundos, não ouviu nada. Deu uma risadinha. Quando o voltou a ouvir, parecia que a voz lhe soava aliviada e preocupada: «Ok, então, espero, mais uma vez que te corra bem o dia. Vemo-nos em casa.»

Depois de pousar o telemóvel em cima da mesa do restaurante, Estefânia soltou uma gargalhada sonora. Há mui tempo que não provocava Carlos e era bom de vez em quando. Carla estava espantada com a audácia da amiga, mas não deixou de ter piada.

O resto do dia decorreu sem grandes sobressaltos. Não voltou a receber mais telefonemas do marido e ela também não se atreveu a ligar-lhe.

 

Estava sentada ao computador a escrever um relatório de um processo para entregar em tribunal quando Carla bateu à porta.

Sentou-se na cadeira em frente à secretária de Estefânia.

- Então? – Perguntou hesitante – Não voltou a ligar? –

Estefânia respondeu num tom sarcástico, sem tirar os olhos do ecrã.

- Não. Porquê, devia? –

Carla ripostou:

- Como não? Só hoje é que regressaste ao trabalho! E não lhe disseste nada! –

Estefânia levantou os olhos e disse:

- Nunca fiz questão de o anunciar! Foi uma decisão do momento! E ele não manda em mim! –

Não perguntou mais nada. Saiu e deixou a amiga trabalhar.

Saiu do quarto com o caderno nos braços. Percorreu o corredor até às escadas. À medida que caminhava, um brilho ia-se formando nos olhos. Não sentia aquele entusiasmo desde as digressões e o recital na escola.

Desceu as escadas e foi ao encontro de Kari que estava na sala de estar. Aproximou-se timidamente. Sentou-se perto dela e disse com voz firme, que a assustou ligeiramente:

- Tenho algo para te contar. –

Kari olhou-a e Voxy acrescentou:

 - Encontrei um caderno da mãe. –

Kari perguntou secamente:

 - E o que tem de especial? –

 

Voxy ia responder, mas Kari interrompeu-a:

- Lembrei-me agora. A avó telefonou. Quer vir cá desculpar-se. –

 

Voxy ficou surpreendida. Esboçou um sorriso forçado para disfarçar o desconforto.

- Muito bem. Podes recebê-la. Já sabes o que penso. –

 

Kari olhou para ela atrapalhada.

- Desculpa por ter interrompido, de certeza que querias dizer-me algo importante, mas agora quero concentrar-me na visita da avó. Fica para outra altura se não te importares. –

 

Voxy disse apenas:

- Está bem, não te preocupes. –

 

Levantou-se e voltou para o quarto com o caderno.

 

Quando Estefânia chegou a casa, encontrou Carlos sentado na poltrona com um ar de poucos amigos. Aproximou-se timidamente e ele disse:

 

- Precisamos de falar. –

 

Carlos tinha um ar sério. Estefânia nunca o tinha visto assim. Parecia que a qualquer momento lhe ia dizer alguma coisa grave. Sentou-se no sofá ao lado, quase por instinto. Tentou um dos seus sorrisos que conseguiam aliviar qualquer ambiente desconfortável, mas a expressão dele não se alterou. Quebrou o silêncio:

 

- Estefânia, queres dizer-me porque tomaste a decisão de voltar ao trabalho sem falar comigo? –

Ela respondeu:

- Como te disse, foi uma decisão do momento! Estava farta de estar em casa. – Acrescentou: - E tu? Que ideia foi aquela do bilhete e do telefonema? Nunca telefonas! Se calhar, foi a consciência que te pesou! –

 

Carlos ficou atrapalhado com a pergunta, mas respondeu mantendo a calma:

- Também foi algo do momento. Como tinha ido embora à pressa, resolvi telefonar para saber se estava tudo bem e, pelos vistos, estava. –

 

Gonçalo chegou quando Estefânia ia ripostar. Ficou admirado de os ver ali.

- Pensava que tinham saído ou que estavam no quarto. Ultimamente, andam tão próximos. – Comentou.

 

Estefânia ia responder, mas Carlos impediu-a. Gonçalo foi para o quarto e ela foi para a cozinha preparar o jantar. Carlos ficou na sala.

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E pronto.

Mais uma vez, espero que gostem. 

Até para a semana.